“Escrever
é entregar-se à prova da perda. Quem escreve aceita não reter aquilo
que, no entanto, foi vivido com a maior intensidade. A obra não conserva
a experiência; ela assinala a sua ausência. Não restitui o que foi;
indica o seu afastamento. Assim, a escrita não é a salvaguarda de um
sentido intacto, mas o acolhimento de uma falta irredutível. O que foi
vivido não passa para a linguagem sem nela se perder, e essa perda não é
acidental. Ela é a própria condição do que pode ser dito. Querer
escrever sem consentir a essa desapropriação seria querer falar sem
distância, sem intervalo, sem silêncio. Ora, é nesse intervalo que a
obra tem lugar, e é ao manter-se nele que o escritor permanece fiel ao
que o excede.”
Maurice Blanchot, A Solidão Essencial
Diário de Anatole
Eu
me calo com frequência. Esse recolhimento não é uma recusa. Ele vem de
uma sobrecarga. Falar exige um esforço de simplificação que me custa. Eu
observo. Eu escuto. Deixo o mundo atravessar-me sem tentar
imediatamente convertê-lo em palavras. Essa postura acentua o
mal-entendido. Sou tomado por simplório, ingênuo, quase inapto. O chapéu
de burro torna-se uma possibilidade simbólica, silenciosa, mas
persistente.
No entanto, algo
trabalha sob essa aparência. As frases se formam apesar de tudo, abaixo
do limiar da enunciação. Elas procuram um caminho mais lento. A escrita
me oferece outro ritmo. Ela autoriza o desvio. Permite-me aproximar-me
da linguagem sem exigir uma adequação imediata. Posso ali depositar
fragmentos, tentativas, gestos incompletos.
Pouco
a pouco, uma compreensão se delineia. Nunca farei passar o todo. Esse
excesso não se transporta intacto. É preciso consentir à perda, não como
derrota, mas como condição. Escrever torna-se uma arte da tradução
imperfeita, uma maneira de permanecer fiel sem pretender exatidão.
Permaneço
assim num espaço intermediário. O que vivo excede o que posso dizer. O
que digo indica mais do que explica. A escrita não resolve o
mal-entendido. Ela lhe dá uma forma habitável. Mantém aberta a distância
entre a riqueza interior e o mundo comum, e é nessa distância que agora
me sustento.
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