samedi 31 janvier 2026

Consentimento

 

“Escrever é entregar-se à prova da perda. Quem escreve aceita não reter aquilo que, no entanto, foi vivido com a maior intensidade. A obra não conserva a experiência; ela assinala a sua ausência. Não restitui o que foi; indica o seu afastamento. Assim, a escrita não é a salvaguarda de um sentido intacto, mas o acolhimento de uma falta irredutível. O que foi vivido não passa para a linguagem sem nela se perder, e essa perda não é acidental. Ela é a própria condição do que pode ser dito. Querer escrever sem consentir a essa desapropriação seria querer falar sem distância, sem intervalo, sem silêncio. Ora, é nesse intervalo que a obra tem lugar, e é ao manter-se nele que o escritor permanece fiel ao que o excede.”

 
Maurice Blanchot, A Solidão Essencial
 
 
 
Diário de Anatole
 
Eu me calo com frequência. Esse recolhimento não é uma recusa. Ele vem de uma sobrecarga. Falar exige um esforço de simplificação que me custa. Eu observo. Eu escuto. Deixo o mundo atravessar-me sem tentar imediatamente convertê-lo em palavras. Essa postura acentua o mal-entendido. Sou tomado por simplório, ingênuo, quase inapto. O chapéu de burro torna-se uma possibilidade simbólica, silenciosa, mas persistente.
No entanto, algo trabalha sob essa aparência. As frases se formam apesar de tudo, abaixo do limiar da enunciação. Elas procuram um caminho mais lento. A escrita me oferece outro ritmo. Ela autoriza o desvio. Permite-me aproximar-me da linguagem sem exigir uma adequação imediata. Posso ali depositar fragmentos, tentativas, gestos incompletos.
Pouco a pouco, uma compreensão se delineia. Nunca farei passar o todo. Esse excesso não se transporta intacto. É preciso consentir à perda, não como derrota, mas como condição. Escrever torna-se uma arte da tradução imperfeita, uma maneira de permanecer fiel sem pretender exatidão.
Permaneço assim num espaço intermediário. O que vivo excede o que posso dizer. O que digo indica mais do que explica. A escrita não resolve o mal-entendido. Ela lhe dá uma forma habitável. Mantém aberta a distância entre a riqueza interior e o mundo comum, e é nessa distância que agora me sustento.

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