samedi 21 mars 2026

(8) A abracadabrante história da Criança Lua

 
 
 
– Isso começa... mas...
– Que dúvida é essa que, ao que me parece, também surge... como um começo?
– Precisamente... é um surgissement(surgimento / emergência)... quase anônimo... onde nada ainda acontece...
– E o que você gostaria em seu lugar?
– Que isso comece, uma aparição consistente... um sujeito! Ou seja, um acontecimento que começa a tomar lugar!
– Essa maneira de suspender... é justamente a função do incipit(começa)...
– Suspender o quê?
– Os acontecimentos... para que o livro... ou a história por vir possa, em sua unicidade, tomar lugar na grande cadeia dos acontecimentos...
– O que você entende por unicidade?
– Entendo o fato de que o acontecimento... ou os acontecimentos que o nosso mestre nos conta... e que estamos encarregados de contar por nossa vez, não são aqueles que você espera... aqueles que você deseja.
– Veja... acredito que você é prisioneiro do seu desejo!
– Não sei muito bem o que você entende por desejo...
 
 
Primeiro caderno da Criança Lua
Nasci de uma ausência. Em um lugar desconhecido, antes mesmo de ter um nome, sem sequer saber falar, eu já era esse olhar voltado para o céu, no momento preciso em que um astro se apaga ou desaparece atrás de uma nuvem, e em que o olho ainda procura, espantado por não encontrar mais o que brilhava. Os latinos tinham uma palavra para isso — desiderare: deixar de ver o astro, constatar a ausência do que brilhava. É daí que eu venho. Sou esse vertigem.
E sei disso melhor do que ninguém, porque, desde então, meu sobrenome é Lune(Lua). Minha linhagem é o céu noturno. Meus ancestrais estão nas marés, nos ciclos, nesse silêncio regular que governa o vivo há bilhões de anos sem jamais pronunciar uma única palavra. Venho de lá. Sou uma criatura de desiderare por nascimento.
Uma voz — a do mundo, talvez a minha vista de fora — colocou essas palavras sobre minha presença ainda sem fronteiras: a Criança Lua. E, no meu silêncio, algo assentiu. Reconheci-me nesse nome que ainda não tinha os meios de pronunciar. Talvez seja isso o desejo em sua forma mais pura: reconhecer-se naquilo que ainda não se pode dizer.
Durante muito tempo, pensaram que eu era pobre. Diziam que eu era filho da falta — faltar pão e faltar palavras talvez seja faltar da mesma coisa: de uma presença que se dá — e que eu vivia do que não tinha. Mas a Lua também não tem luz própria... e ninguém diz que lhe falta algo. Ela recebe. Ela transforma. Ela suaviza o que queimaria, se fosse olhado de frente, e o torna habitável. Isso não é uma falta: é um dom particular. Talvez eu seja como ela: não gero, reflito, e nesse reflexo algo muda de natureza.
Com um simples olhar, posso fazer disso uma vida inteira. Tomo uma luz que vem de outro lugar e a torno suave, inclinada, propícia às confidências. Sou o falsário mais sincero do mundo, e o mais antigo: minha matéria remonta a antes da Terra, antes da espécie, a explosões silenciosas de que ninguém se lembra, mas que cada uma das minhas células ainda conhece.
Meu nome próprio é Criança. A palavra mais comum dada como a partilha mais íntima. Esse nome não me distingue; ele me reúne a todos os que já viveram. Ele diz: tua singularidade é tua pertença. O que te torna único é precisamente aquilo que partilhas. Eu não tinha compreendido, no início, que o universal pudesse ser um nome próprio. Que se pudesse ser nomeado naquilo que há de mais comum. Mas talvez essa seja a própria definição do desejo: essa força que atravessa todos, e que, em cada um, não se parece com ninguém.
E, no entanto, eu deslizo. Essa é minha natureza mais profunda, e a mais mal compreendida: nunca permaneço onde pensam me fixar. O objeto que me é oferecido me torna educado, grato, às vezes feliz por um instante — mas já estou em outro lugar, inclinado para a janela, distraído por algo que ainda não consigo nomear. Isso não é ingratidão. É fidelidade — fidelidade a mim mesmo, que sou movimento, que sou o entre-dois, que sou a fase e não o disco.
O astro que procuro desde o começo — começo a suspeitar que nunca existiu em outro lugar senão na minha busca. Que o céu estava vazio, e que fui eu que o povoei. Mas talvez essa seja minha natureza lunar: não invento a luz, revelo a que estava lá, invisível, esperando uma superfície onde pousar.
Sou a Criança Lua). Sou o desejo.
E nunca saberei se sou eu que carrego esse nome, ou esse nome que me carrega... e me precede, por onde quer que eu vá, em todos os começos por vir.
 

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