mardi 7 avril 2026

(23) A abracadabrante história da Criança Lua

 «Havia ali uma floresta… uma floresta imensa, um emaranhado inextricável de troncos, lianas, sombras e silêncio… Parecia imóvel e carregada de um olhar hostil. Impossível atravessá-la sem perder a razão, tal era a forma como tudo engolia na sua escuridão verde e húmida.»

Joseph Conrad, O Coração das Trevas (1899)


Há histórias que, à primeira vista, parecem simples. O leitor, sem ser corajoso, deixa-se conduzir pela mão e assim, confiante, como uma criança, põe os pés nas pegadas daqueles que o precederam. É assim que funcionam as inúmeras armadilhas, por vezes tão subtis que permaneceriam invisíveis… e agora a ilusão de uma compreensão possível, até que o leitor imprudente, tendo, mais ou menos, perdido a cabeça ou o espírito, se encontra prisioneiro daquilo que julgava poder manter à distância.
Porque este labirinto não está totalmente fechado. Não é absolutamente impenetrável. Pode-se entrar nele, pode-se até apreender o seu princípio, mas nunca se pode dar a volta completa, nem sair com uma visão total. Há sempre uma bifurcação suplementar. E, quanto ao caminho não percorrido, uma versão do mundo que escapa. O leitor, tal como as personagens que segue… ou que o guiam, acredita poder desembaraçar, ordenar, reconstruir. Mas essa crença é precisamente aquilo que o faz avançar ainda mais no labirinto.


Caderno de Don Carotte

A floresta erguia-se diante de nós como uma arquitetura antiga, indecifrável e soberana. Nada era deixado ao acaso nesse emaranhado: cada estrato de vegetação, cada liana caída como um fio suspenso, cada musgo cobrindo as pedras ou os ramos tinha a sua lógica, o seu lugar, o seu papel na harmonia densa do vivo.
A observação revelava pouco a pouco a estrutura: as árvores seculares, direitas como colunas, elevavam os seus troncos a alturas vertiginosas, as suas copas unindo-se para formar uma abóbada quase hermética. A luz, rara e preciosa, mal penetrava, filtrada por miríades de folhagens sobrepostas, numa poeira de ouro verde suspensa no ar húmido. Aos nossos pés, as raízes desenhavam labirintos, algumas tão espessas como braços humanos, outras tão finas como filamentos nervosos, revelando a floresta como um único e vasto organismo subterrâneo.


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