jeudi 7 mai 2026

(55) A abracadabrante história da Criança Lua

 «Este livro percorre o lugar de uma ferida entre as nossas vidas narradas pelas ficções, pelas linguagens, pelos códigos humanos, e o resto da vida terrestre.»

Camille de Toledo, Une histoire du vertige


Todo pensamento vivo acaba inevitavelmente, um dia ou outro, por tropeçar um pouco. Uma prosa perfeitamente lisa dá por vezes a impressão de que nenhum verdadeiro movimento interior teve lugar.
O leitor que aqui chegasse, depois de ter percorrido na desordem alguns fragmentos dispersos desta história, poderia primeiro acreditar que se trata de um conjunto de personagens mais ou menos distintas evoluindo num estranho cenário chamado o Arquipélago. Terá encontrado, segundo os acasos das aparições, a Criança Lua envolvida nas suas roupas demasiado grandes, Pinóquio o Outro desconfortável com a sua semelhança a um modelo anterior, Don Carotte perseguido por raízes… perseguindo visões incertas e tentando em vão resolver o enigma de um Leviatã tão teatral quanto inquietante, Sang Chaud murmurando nas suas costas, Lucian estudando desenhos que Igniatius afirma ter encontrado, Félix redigindo notas de supervisão cada vez mais inquietas, talvez mesmo um Nounours falando em voz baixa num canto do quarto ou um misterioso gato, que ninguém ainda viu, atravessando silenciosamente uma cena cuja importância lhe teria escapado.
Tudo isso poderia parecer-lhe descontínuo. Fragmentado. Talvez até arbitrário.
No entanto, à medida que avançasse, uma outra impressão poderia começar lentamente a surgir: essas figuras não estão dispostas em torno do tabuleiro como espectadores olhando uma partida já começada. Elas estão dentro da partida. Melhor ainda: descobrem progressivamente que elas próprias são peças em deslocamento no interior de um jogo cujas regras nenhuma delas possui inteiramente.


É precisamente isso que acontece quando Lucian, acreditando ainda analisar os desenhos como um psiquiatra examina as produções de um paciente, decide um dia deslocar-se de visu às ilhas representadas nessas imagens. Esse deslocamento pode parecer insignificante ao leitor desatento. Uma simples viagem. No entanto, algo muda nesse instante. Lucian deixa imperceptivelmente de ocupar uma posição exterior. Entra no próprio tabuleiro que julgava observar.
A partir daí, os desenhos mudam de natureza. Já não são apenas representações. As ilhas que contêm assemelham-se mais a casas possíveis do mundo, lugares capazes de absorver aquele que os contempla durante demasiado tempo.
O leitor compreenderá então talvez por que esta história parece por vezes construir-se sozinha a partir de elementos quase insignificantes. Uma palavra mal lida. Uma expressão antiga. Um lapso. Uma lembrança de infância. Um animal atravessando uma conversa. Nada está inteiramente preparado de antemão. Certas peças aparecem porque um deslocamento anterior as torna subitamente possíveis.
Assim o gato. Primeiro simples palavra perdida entre outros “chats” modernos trocados através dos ecrãs. Depois o animal regressa lentamente à sua profundidade antiga: criatura nictálope, vendo na obscuridade, habitando os limiares, as escadas, as passagens silenciosas entre os quartos de uma casa. Então a expressão «dar a língua ao gato» começa também ela a transformar-se. Por que ao gato e não ao cão? Por que entregar a sua palavra perdida a esse animal capaz de circular nas zonas onde o olhar humano distingue mal as formas?
O leitor atento acabará talvez por suspeitar que as próprias personagens obedecem a metamorfoses comparáveis. Pinóquio o Outro contém algo da Criança Lua. Don Carotte desliza por vezes para Anatole enquanto Sang Chaud parece ocupar o seu lugar. Nounours deixa progressivamente de ser um simples objeto transicional. O próprio Félix descobre que supervisionar equivale também a ser observado por aquilo que tenta compreender.
Então o Arquipélago deixa de aparecer como um cenário fixo. Cada ilha torna-se uma casa movente. Cada fragmento lido retroage sobre os anteriores. Uma frase esquecida vários capítulos antes regressa subitamente como uma jogada feita muito cedo numa partida cuja importância ninguém ainda tinha compreendido.
E o próprio leitor, se persistir tempo suficiente neste folhetim descontínuo, começará talvez a experimentar uma inquietação mais profunda: a sensação de que já não lê apenas a história, mas que ele também avança no interior do próprio tabuleiro.

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