« Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que elas são difíceis. »
Sêneca
Onde se observa que, simultaneamente, enquanto Lucian viaja em direção ao Arquipélago…
… nele se passam aventuras muito estranhas, que perturbam o entendimento de Lucian… seguramente… mas também o daqueles que, pelo desvio dos seus escritos e dos seus desenhos, com elas se veem acidentalmente confrontados.
Sang Chaud aproxima-se um pouco do tronco, erguendo os olhos para as alturas entrelaçadas da árvore titânica. A sua voz eleva-se, clara e suave, dirigindo-se a Don Carotte, que subira à árvore e ali se empoleirara, como se recitasse aplicadamente uma lição aprendida na juventude, ou um daqueles contos que os antigos murmuravam às crianças pouco antes de adormecerem.
— Os burros arborícolas, meu senhor, são de uma espécie única. Vivem inteiramente nesta árvore, desde o nascimento até ao desaparecimento. Jamais pousam um casco na terra. É para eles uma lei, uma antiga proibição gravada na própria carne. Diz-se que aquele que tocasse o chão perderia imediatamente a sua sombra.
Don Carotte arqueia uma sobrancelha e abre uma boca muda… que o mostra… perdido nas alturas do próprio cérebro… E eis que se recompõe.
— Perder a sombra? Isso não me parece de grande utilidade para um burro…
Sang Chaud prossegue, imperturbável, os olhos erguidos, o dedo apontando para um ramo alto.
— Nascem nas pregas profundas da casca, onde a árvore conserva o seu calor. Minúsculos, quase translúcidos. Mal se conseguem perceber e permanecem assim durante muito tempo, vivendo apenas de odores. Porque os burros arborícolas, vede, tal como nós, respiram antes de comer. Mas eles absorvem os perfumes da árvore, as resinas, as secreções, os esporos flutuantes… e também todos os aromas vindos do exterior… Tudo isso os molda e os alimenta… tanto quanto as folhas novas cuja eclosão aguardam pacientemente.
— Então são bichos de perfumes? ironiza Don Carotte, altivamente, embora um tanto rabugento, de braços cruzados sobre o peito.
— Mais do que isso — responde Sang Chaud. — Alimentam-se daquilo que ouvem… E depois são equilibristas. Assim que atingem idade para andar, abandonam a casca e avançam cautelosamente pelos ramos, testando sob os cascos a flexibilidade da madeira, medindo a inclinação do vento, o peso da luz. Aprendem a árvore como outros aprendem uma língua. Tornam-se seus intérpretes.
— Mas enfim, além disso… ou aquém disso… se devo acreditar no que os meus olhos me dizem… eles são… verdes!
— Perfeitamente verdes, sim, meu senhor. Um tom de musgo fresco, por vezes tendendo para o jade, por vezes para o líquen. Mais ou menos do que nós ou do que um camaleão, dependem da luz… mas, como eles, regulam a temperatura corporal e comunicam entre si. Isso permite-lhes confundir-se com o ecossistema. O pelo do dorso, de maneira quase invisível, é nervurado como uma folha, e o ventre, de uma cor mais suave, é quase aveludado. Acontece, se não se prestar atenção, como sucede com certos insetos, que sejam confundidos com excrescências do tronco.
Don Carotte, assim instruído… mas céptico, ergue os olhos para a copa da árvore e descobre dezenas de pequenas silhuetas verdes deslocando-se silenciosamente, quase invisíveis, numa coreografia lenta… mas viva. Vê uma delas içar-se até uma folha minúscula… que lhe deve ter parecido enorme em comparação com o seu próprio tamanho, cheirá-la com devoção, e depois instalar-se nela com um entusiasmo que roçava a adoração.
— É então — continua Sang Chaud com uma firmeza lenta, como se receasse ser interrompido — que atingem a maturidade. Quando podem finalmente, depois de dias de espera, morder uma folha que mal acabou de sair do rebento. O seu olfato preparou-os para esse sabor desde o nascimento. E quando enfim o descobrem… enlouquecem… apaixonam-se.
— Loucos?
— Não sei se a palavra é adequada… mas comem com frenesim. Cada dentada os enche de um êxtase tal que se esquecem de parar. E, isto vai surpreender-vos… à medida que comem, encolhem. É um fenómeno estranho, mas constante. Quanto mais se alimentam, mais diminuem.
— Como é isso possível?
— Diz-se que o prazer os consome, e o encolhimento parece ser o preço da felicidade.
— E que lhes acontece? pergunta Don Carotte, fascinado apesar de si mesmo.
— Tornam-se tão pequenos que acabam, para os nossos sentidos comuns, por desaparecer entre as nervuras da folha que consomem. Julga-se — pura conjectura, tão pouco se conhece a coisa — que alguns chegam ao coração da árvore e se fundem nela. Outros dizem que se transformam em sementes, ou em espíritos dos ramos. Ninguém sabe ao certo. Mas nunca, nunca descem. É-lhes proibido.
— E quem lhes proíbe?
— A própria árvore, segundo dizem.
Nesse instante, um pequeno burro verde, pouco maior do que um escaravelho, desce preguiçosamente ao longo de uma haste retorcida. Detém-se, relativamente perto de Don Carotte, sobre uma folha, e fareja o ar com expressão absorta. Don Carotte, no mínimo espantado, observa-o longamente, depois abana a cabeça, indignado.
— Então é para esta criatura, ó meu guia, ó Sang Chaud, que me conduziste! Este microbiano animal vegetal! É este o altivo corcel que me está destinado? Um burro que nem sequer pode suportar o peso do meu olhar sem ser esmagado por ele!
Sang Chaud encolhe os ombros, com uma calma insondável… reflete sem pressa e, serenamente resoluto… proclama:
— Não é o tamanho do corcel, meu mestre, que faz a grandeza do cavaleiro.
— O que é então… Grande Sabedor?
— É o caminho que ele aceita percorrer… meu senhor… responde Sang Chaud, esquecendo voluntariamente a maiúscula… mesmo que seja apenas um ramo… e seja qual for o tamanho dele…


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