mardi 8 septembre 2026

(204) A abracadabrante história da Criança Lua

 

« Imaginava, aliás, que o seu próprio rosto, o seu nome, a sua personalidade não lhes eram desconhecidos e que, ao avistarem-no, eram muitas vezes obrigados a conter uma furtiva vontade de o cumprimentar. As pessoas da sociedade, só porque conhecem pessoas de talento original, porque as recebem para jantar, não as compreendem melhor por isso. Mas, quando se viveu um pouco em sociedade, a estupidez dos seus habitantes faz-nos desejar demasiado viver noutro lugar, faz-nos supor demasiada inteligência nos meios obscuros onde só se conhece “sem conhecer”. »

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, À Sombra das Raparigas em Flor, NRF, edição de 1919, tomo 5

 

 Onde Félix, procurando seguir nos cadernos o rasto das personagens, dos desenhos e dos papagaios, descobre pouco a pouco que já não sabe muito bem quem precede quem, nem por onde as imagens passam de um relato para outro. À medida que avança, porém, a investigação deixa de ser apenas intelectual: as páginas tornam-se para ele um território, os relatos tornam-se caminhos, e a própria leitura começa a adquirir a consistência de uma viagem.

Quando, aos nossos olhos, o rio desapareceu... ele mergulha sob uma massa rochosa cuja abertura a vegetação encobre quase inteiramente, e eu continuo a segui-lo, sem me perguntar como entro ali, como os primeiros viajantes podiam seguir nos seus mapas incompletos um curso de água até ao ponto em que o traço cessava de repente e começava o espaço em branco que lhes exigia que avançassem por si próprios. A abóbada desce, a água torna-se negra, as paredes estão cobertas de concreções brilhantes; por vezes, raízes atravessam a pedra por fissuras invisíveis e pendem na obscuridade como se a floresta, lá em cima, procurasse tocar o rio que deixou de ver. Colónias de seres pálidos ocupam as reentrâncias, crustáceos quase transparentes, insectos de membros desmesurados, peixes cujos olhos parecem há muito ter renunciado a qualquer função, e, no entanto, a vida permanece por toda a parte, adaptada a essa escuridão com uma minúcia que quase faria acreditar que a luz não passava de uma possibilidade entre outras.

Depois a água reaparece.

Não esqueceu nada do que era antes de entrar sob a montanha e, no entanto, já não é exactamente a mesma. Sais, fragmentos de rocha, organismos minúsculos são agora arrastados com ela; a sua temperatura mudou; outros regatos talvez se lhe tenham juntado nas profundezas sem que ninguém tenha alguma vez podido assistir ao encontro. Retoma então as suas cavalgadas, precipita-se entre agulhas de basalto, escava canyons cujos estratos expostos parecem folhear milhões de anos a céu aberto, contorna falésias avermelhadas onde árvores retorcidas enterraram as raízes em algumas mãos-cheias de terra e, mais abaixo ainda, quando finalmente alcança as grandes planícies, abranda, alarga-se, torna-se navegável, recebe afluentes, alguns dos quais percorreram mais caminho do que ele, sem que ninguém lhes pergunte, contudo, com que direito vêm misturar-se às suas águas.

Talvez seja isto que estou a ler.

Ou antes, é isto que me acontece enquanto leio.

Um pensamento surge algures, minúsculo, tão ténue que poderia desaparecer entre duas frases. Pode vir de uma palavra da Criança Lua, de um desenho de Don Carotte, de uma observação de Igniatius, de uma anotação deixada por Lucian, sem que eu tenha sequer a certeza de que ele compreendesse aquilo que escrevia no momento em que o escrevia. Dou por ele, ou talvez seja ele que encontra em mim alguma coisa a que se agarrar, depois chega um segundo, depois um terceiro, e em breve já não consigo prosseguir a leitura como antes, porque cada um traz consigo outra consequência, obriga-me a voltar dez páginas atrás, ilumina subitamente um pormenor que eu classificara entre as insignificâncias, para depois obscurecer aquilo que julgava ter compreendido.

À medida que nos vêm ao espírito, os pensamentos desenvolvem-se por si próprios.

Quase poderia ouvir esta frase pronunciada por um dos papagaios.

E imediatamente o outro perguntaria:

— Não teríamos nada a ver com isso?

Pergunta razoável, evidentemente, e até indispensável, porque a hipótese contrária se tornaria demasiado cómoda. Bastaria dizer que os pensamentos nos atravessam e ficávamos assim desobrigados de tudo, simples recipientes visitados por ideias soberanas que seguiriam o seu caminho sem nós. Mas não é isso que experimento aqui. Precisam de alguma coisa. De uma certa energia, talvez, como diz o outro pássaro. De atenção, certamente, de memória, de desejo, também de obstinação, e por vezes dessa estranha incapacidade de abandonar uma pergunta, embora eu saiba que, muito provavelmente, não me conduzirá a nenhuma conclusão utilizável.

Precisam de um meio.

De um cérebro, se quisermos, com os seus circuitos, por mais imperfeitos que sejam, mas até essa palavra me parece de repente demasiado estreita, porque eles passam também pelos olhos que seguem as linhas, pela mão que vira a página, por esse cansaço na nuca quando permaneço demasiado tempo curvado, pela sensação quase física que por vezes experimento quando aparece uma correspondência entre dois desenhos separados por várias centenas de páginas. Passam por aquilo que sei e por aquilo que esqueci, pelos meus hábitos profissionais, pelos meus erros, pelos meus preconceitos, pelos livros que li trinta anos antes e dos quais uma frase volta à superfície sem que eu consiga imediatamente lembrar-me do seu autor; passam até pelas imagens que tenho diante de mim e que continuo a ver quando fecho os olhos.

Poderia portanto dizer que elas nos utilizam, desde que não transforme essa fórmula numa doutrina.

Um organismo, uma língua, uma história pessoal, uma cultura oferecem-lhes momentaneamente um lugar onde prosseguir aquilo que começaram noutro lugar. Mas nenhum desses lugares é neutro. O rio que atravessa uma montanha não sai dela com exactamente a mesma água, tal como a montanha não permanece perfeitamente idêntica depois da sua passagem. Os pensamentos encontram em nós as nossas palavras, as nossas recordações, os nossos esquecimentos, as nossas associações, as nossas resistências; podem desenvolver-se aí, reduzir-se, deformar-se, por vezes até tomar uma direcção quase contrária àquela que pareciam ter anteriormente.

Aquele que eles atravessam não é, portanto, nem o seu criador absoluto nem um simples conduto inocente.

Empresta-lhes uma forma momentânea.


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