Onde Félix se sente obrigado a regressar a um certo desenho e onde se poderá notar que a mensagem contida nesse desenho em particular, ou nos desenhos em geral... se é que existe uma mensagem... difere um pouco... consoante o ponto de vista...
Caderno de Félix
O jogo entre as duas palavras, desenho e desígnio, quase me irrita de tão cómodo que é, mas não encontro melhor forma de designar esse movimento em que aquilo que conduzo começa a levar-me consigo a partir do momento em que o faço desenhando... mesmo que sejam apenas simples cópias... É isso, no fundo, que torna a velha palavra inspiração, tão próxima de aspiração, ao mesmo tempo tão persistente e tão embaraçosa. Ela dá demasiado depressa um rosto àquilo que não compreendemos: uma Musa, um génio, o inconsciente, uma voz vinda de outro lugar... Como se dar um nome ao que nos escapa bastasse para o explicar, quando não é de modo algum necessário imaginar um outro lugar. Aquilo que me escapa pode encontrar-se exatamente no meu gesto... que, ao realizar-se, se torna mais vasto do que aquilo que eu tinha previsto.
Há qualquer coisa de banal nesta ideia, e é por isso que ela é difícil de encarar. Faço alguma coisa, e aquilo que faço ensina-me o que estou a fazer... depois essa descoberta modifica o gesto seguinte. E esse gesto fará aparecer ainda outra coisa, de modo que a criação já não se assemelha à execução mais ou menos fiel de um projeto previamente constituído. Torna-se uma espécie de avanço durante o qual aquele que age não deixa de receber do seu próprio ato informações que a intenção inicial não podia conter... Esta insuficiência, ou esta confusão, provém simplesmente do facto de que... logicamente... aquilo que ainda não existe não pode ser integralmente conhecido antes de ter começado a existir.
É isso que, por exemplo, muda muitas coisas quando regresso ao chapéu. Gostaria de saber se foi voluntariamente desenhado demasiado grande... embora a pergunta agora me pareça quase ingénua... Pode ter sido desenhado exatamente assim sem que o seu autor tenha pensado que era preciso cobrir quase todo o rosto para significar isto ou aquilo. No entanto, uma vez ali, demasiado grande, descendo demasiado baixo, suprimindo o olhar ou tornando o rosto quase impossível de compreender, começa a agir sobre tudo o que o rodeia. Provoca outras decisões que talvez nunca tivessem sido tomadas sem ele. Contribui para fazer do rosto já não uma simples falta, mas uma ausência particular, e essa ausência, por sua vez, chama outra coisa, transforma a personagem, modifica a maneira como poderá doravante aparecer. Já não se corrige necessariamente a desproporção, porque ela deixou de ser uma desproporção no sentido em que primeiro a entendíamos. Torna-se pouco a pouco uma marca distintiva.
Então, onde situar a origem? No primeiro traço? No acidente, se houve acidente? No momento em que alguém reparou naquilo que esse acidente tornava possível? Naquele em que se decide não o corrigir? Ou ainda mais tarde, quando outros desenhos, outros textos, outros olhares vêm dar a esse primeiro gesto um alcance que ele talvez não tivesse quando foi realizado?
Creio que só agora começo a compreender aquilo a que Blanchot chama a «incerteza da origem». Até aqui pensava que uma origem se tornava incerta porque nos afastávamos dela... Quando faltam documentos... Quando as recordações se confundem... O tempo destrói as provas, é certo... o que ainda equivale a supor que existe realmente, algures, um começo perfeitamente certo e que nós simplesmente já não conseguimos alcançá-lo.
Mas pode tratar-se de algo muito mais embaraçoso. A saber, que a própria origem nunca tenha possuído essa unidade que lhe atribuímos depois. Pode não ter havido momento algum em que tudo já estivesse reunido na cabeça de alguém antes de passar docilmente para a sua mão. Mas antes uma mão, uma lembrança, uma forma entrevê, talvez uma falta de jeito ou outro desenho visto na véspera, uma história esquecida, uma necessidade física do gesto, depois alguma coisa que surge no meio de tudo isso e que, mal aparece, começa a redistribuir tanto aquilo que a precede como aquilo que virá depois. De tanto procurar uma fonte, encontro menos uma fonte do que uma corrente... E esta imagem da corrente regressa decididamente demasiadas vezes sob a minha pena para que eu possa continuar a fingir que não dou por ela.

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