mercredi 23 septembre 2026

(219) The abracadabrante story of Child Moon

 

“The words that are about to emerge know of us what we do not know of them.”

René Char, “Sept saisis par l’hiver”, Chants de la Balandrane, Gallimard, 1977


Where Félix, relying on no one but himself and trusting the clues scattered through the notebooks and drawings, courageously follows the invisible traces of those who came before him. Who would believe, he wonders, that certain words, heard even imperfectly amid the din of ideas, can become more fertile than their verified meaning? A mishearing does not reveal some hidden truth… it shifts the word just far enough to open a passage towards what had not yet been thought.

Félix’s Notebook

There are words that I read and others that I hear, and I am beginning to wonder whether those I hear are not sometimes… more fertile than those whose meaning I can verify… because, starting from a resemblance, a mistaken division, a connection that etymology would doubtless refuse to confirm, they carry me towards a region where the word ceases for a moment to be what I knew of it and becomes instead the place of a passage. I know perfectly well, as I write this, that I ought immediately to correct whatever here risks resembling a method, for it is not a matter of claiming that words conceal within their syllables truths that a sufficiently attentive ear might discover, but only of acknowledging that sometimes a mishearing, rather than closing down meaning, shifts it just far enough for something to appear that was not contained in the definition and that nevertheless, once it has appeared, begins to work upon what I thought I understood.

So it was with the word becoming, which did not first arrest me because of what it means, but because of what it began, almost despite me, to make me hear when, pronounced a little more slowly, it came apart just enough to let something else pass through: be-coming, and almost immediately, with that liberty the ear sometimes takes with grammar, coming from, so that the word, which until then had seemed oriented towards what comes afterwards, towards what something is in the process of becoming, turned slightly back upon itself, not enough to abandon its forward movement, but enough for that movement suddenly to acquire a behind, a provenance, a place or rather a state from which it might be coming, and instead of asking only what a thing is becoming, I found myself hearing at the same time the question of what it comes from.

But that question, barely having appeared, did not lead me towards a clearer beginning… on the contrary, it complicated the movement I thought I had grasped, for asking where that which becomes comes from still too easily assumes that somewhere upstream there exists a thing stable enough for one to say: it was there, it was like this, then it came here, and it was only during that coming, or at its end, that it was transformed, whereas what holds me precisely in this coming from heard at the heart of becoming is the possibility that the coming itself may have taken part in forming what comes, that the passage may not have been some neutral interval between a point of departure and a point of arrival, but that during which what enters upon the journey gradually, or suddenly, ceases to be exactly what had begun it, without our ever being able to determine with certainty the moment at which this transformation took place, since it may be nothing other than the journey itself.

Then “coming from where?” is already no longer enough, for one must almost immediately add “coming how?”, and I can see that this second question profoundly changes the first, since it compels us to consider not only provenance but the paths of provenance, that through which something has passed, what it encountered, what held it back, bent its course, stripped something from it or burdened it along the way, and as I try to distinguish what would still belong to that which was coming from what might have been added to it by its coming, the distinction becomes less certain, as though what I first called the thing and what I later called its journey were beginning to merge to such an extent that I no longer quite know whether I should say that a thing is transformed while it passes, or that it is precisely this particular thing because it passed in this particular way.

Here I encounter again, with an insistence that is beginning to trouble me a little because it keeps returning in different forms, the difficulty I have felt for some time in placing the origin anywhere without its immediately beginning to move again, for if what becomes comes from something, I naturally want to work my way back towards that something, recover its previous state, consider it before the passage transformed it, and yet, as soon as I think I am drawing close to it, I am forced to acknowledge that this earlier state must itself have come from elsewhere, that it had already been worked upon by other passages, other encounters, other losses, other resumptions, and that what I had taken for the place of departure may have been nothing more than a place of arrival that had temporarily become, in its turn, a point of departure.

It may be this that holds me in this mishearing of the word, far more than the play itself between becoming and coming from, for it compels me to consider that what we call an origin may not always be that untouched place where something existed before being transformed, but rather a point of passage that we choose, because we must after all begin somewhere, within a larger continuity much of which remains beyond our sight, so that the from I hear so strongly within becoming does not necessarily lead me back to a source, but opens instead onto a succession of upstreams, each of which, as soon as one reaches it, reveals that it too has already been traversed.

Le point délicat est évidemment be-coming. Ce n’est pas une étymologie anglaise au sens strict, pas plus que de-venant ne l’est dans votre texte français : c’est précisément une écoute fautive, productive, que Félix sait fautive et qu’il laisse pourtant travailler.

(219) A abracadabrante história da Criança Lua

 «As palavras que vão surgir sabem de nós aquilo que ignoramos delas.»

René Char, «Sept saisis par l’hiver»,
Chants de la Balandrane, Gallimard, 1977

 

Onde Félix, contando apenas consigo próprio e confiando nos indícios disseminados pelos cadernos e pelos desenhos, avança corajosamente sobre os vestígios invisíveis daqueles que o precederam. Quem poderia acreditar, pergunta-se ele, que certas palavras ouvidas, mesmo de través no tumulto das ideias, possam tornar-se mais fecundas do que o seu sentido verificado? O erro de escuta não revela aí uma verdade escondida… desloca a palavra apenas o suficiente para abrir uma passagem em direção àquilo que ainda não se pensava.

Caderno de Félix

Há palavras que leio e outras que ouço, e começo a perguntar-me se aquelas que ouço não serão por vezes… mais fecundas do que aquelas cujo sentido posso verificar… porque, a partir de uma semelhança, de uma divisão errada, de uma aproximação que a etimologia certamente não confirmaria, me arrastam para uma região onde a palavra deixa por um instante de ser aquilo que eu sabia dela para se tornar o lugar de uma passagem. Sei bem, ao escrever isto, que deveria corrigir imediatamente aquilo que corre o risco de se parecer com um método, pois não se trata de afirmar que as palavras esconderiam nas suas sílabas verdades que um ouvido suficientemente atento poderia descobrir, mas apenas de reconhecer que acontece por vezes que um erro de escuta, em vez de fechar o sentido, o desloca o suficiente para que alguma coisa apareça que não estava contida na definição e que, no entanto, uma vez aparecida, começa a trabalhar aquilo que eu julgava compreender.

Assim aconteceu com a palavra francesa devenant — «tornando-se» — que não me deteve primeiro pelo que significa, mas por aquilo que começou, quase contra a minha vontade, a fazer-me ouvir quando, pronunciada um pouco mais lentamente, se desfez apenas o suficiente para deixar passar outra coisa: de-venant, e quase imediatamente, com essa liberdade que o ouvido por vezes toma em relação à gramática, venant de — «vindo de» —, de tal modo que a palavra, que até então parecia orientada para aquilo que vem depois, para aquilo em que alguma coisa está a tornar-se, se voltou ligeiramente para trás, não ao ponto de abandonar o seu movimento para diante, mas o suficiente para que esse movimento se carregasse subitamente de um atrás, de uma proveniência, de um lugar ou antes de um estado de onde viria, e, em vez de perguntar apenas em que se torna uma coisa, dei por mim a ouvir ao mesmo tempo a pergunta sobre aquilo de onde ela vem.

Mas esta pergunta, mal surgiu, não me conduziu a um começo mais claro… pelo contrário, complicou o movimento que eu julgava ter apreendido, pois perguntar de onde vem aquilo que se torna pressupõe ainda com demasiada facilidade que exista algures, a montante, uma coisa suficientemente estável para que se possa dizer: estava ali, era assim, depois veio até aqui, e foi apenas ao longo dessa vinda, ou no seu termo, que se transformou, enquanto aquilo que precisamente me retém nesse venant de — «vindo de» — ouvido no coração de devenant, é a possibilidade de a própria vinda ter participado na formação daquilo que vem, de a passagem não ter sido esse intervalo neutro entre um ponto de partida e um ponto de chegada, mas aquilo durante o qual o que se lança no percurso deixa pouco a pouco, ou bruscamente, de ser exatamente aquilo que o iniciou, sem que alguma vez se possa determinar com certeza em que instante essa transformação teve lugar, uma vez que ela poderia não ser senão o próprio percurso.

Então o «vindo de onde?» já não basta, pois é preciso quase imediatamente acrescentar-lhe um «vindo como?», e vejo bem que esta segunda pergunta modifica profundamente a primeira, uma vez que obriga a considerar não apenas a proveniência, mas os caminhos da proveniência, aquilo por onde alguma coisa passou, aquilo que encontrou, aquilo que a reteve, desviou, despojou ou carregou ao passar, e, à medida que procuro distinguir o que ainda pertenceria àquilo que vinha daquilo que lhe teria sido acrescentado pela sua vinda, essa distinção torna-se menos segura, como se aquilo a que primeiro chamava a coisa e aquilo a que depois chamava o seu percurso começassem a confundir-se a tal ponto que já não sei muito bem se devo dizer que uma coisa se transforma enquanto passa ou que ela só é precisamente essa coisa porque passou dessa maneira.

Reencontro aqui, com uma insistência que começa a incomodar-me um pouco, de tanto regressar sob formas diferentes, a dificuldade que há algum tempo sinto em colocar a origem em algum lugar sem que ela imediatamente volte a pôr-se em movimento, pois se aquilo que se torna vem de alguma coisa, quero naturalmente remontar até essa coisa, reencontrar o seu estado anterior, considerá-la antes de a passagem a transformar, e, no entanto, assim que julgo aproximar-me dela, sou obrigado a reconhecer que esse estado anterior devia ele próprio vir de outro lugar, que já tinha sido trabalhado por outras passagens, outros encontros, outras perdas, outras retomadas, e que aquilo que eu tomava pelo lugar da partida talvez não fosse senão um lugar de chegada que se tornara provisoriamente, por sua vez, ponto de partida.

Talvez seja isso que me retenha neste mau entendimento da palavra, muito mais do que o próprio jogo entre devenant e venant de, pois ele obriga a considerar que aquilo a que chamamos uma origem talvez nem sempre seja esse lugar intacto onde alguma coisa teria estado antes de ser transformada, mas um ponto de passagem que escolhemos, porque temos de começar em algum lugar, dentro de uma continuidade mais vasta, grande parte da qual permanece fora do nosso olhar, de tal modo que o de que ouço com tanta força em devenant não me conduz necessariamente de volta a uma fonte, mas abre, pelo contrário, para uma sucessão de montantes, cada um dos quais, assim que o alcançamos, revela ter sido ele próprio atravessado.

Ici, garder les formes françaises me paraît nettement préférable à fabriquer en portugais un faux jeu sonore : le lecteur portugais comprend immédiatement que Félix écoute un mot français de travers, et peut suivre exactement le déplacement de devenant vers venant de.

(219) L'abracadabrante histoire de l'Enfant Lune


 « Les mots qui vont surgir savent de nous ce que nous ignorons d’eux.»

René Char, « Sept saisis par l’hiver »
Chants de la Balandrane, Gallimard, 1977.

 

Où Félix, ne comptant que sur sur lui-même et se fiant aux indices disséminés dans le carnets et les dessins, avance courageusement sur les traces invisibles de ceux qui l'ont précédé. Qui pourrait croire, se demande-t'il, que certains mots entendus, même de travers, dans le vacarme des idées, peuvent devenir plus féconds que leur sens vérifié? L’erreur d’écoute n’y révèle pas une vérité cachée… elle déplace assez le mot pour ouvrir un passage vers ce qu’on ne pensait pas encore.


Carnet de Félix 

 Il y a des mots que je lis et d’autres que j’entends, et je commence à me demander si ceux que j’entends ne sont pas quelquefois… plus féconds que ceux dont je peux vérifier le sens… parce qu’ils m’entraînent, à partir d’une ressemblance, d’une découpe fautive, d’un rapprochement que l’étymologie ne confirmerait sans doute pas, vers une région où le mot cesse un instant d’être ce que je savais de lui pour devenir le lieu d’un passage. Je sais bien, en écrivant cela, que je devrais aussitôt corriger ce qui risque de ressembler à une méthode, car il ne s’agit pas de prétendre que les mots cacheraient dans leurs syllabes des vérités qu’une oreille suffisamment attentive pourrait découvrir, mais seulement de reconnaître qu’il arrive parfois qu’une erreur d’écoute, au lieu de fermer le sens, le déplace assez pour que quelque chose apparaisse qui n’était pas contenu dans la définition et qui pourtant, dès lors qu’il est apparu, commence à travailler ce que je croyais comprendre.

Ainsi du mot devenant, qui ne m’a pas d’abord arrêté par ce qu’il signifie, mais par ce qu’il s’est mis, presque malgré moi, à faire entendre, lorsque, prononcé un peu plus lentement, il s’est défait juste assez pour laisser passer autre chose : de-venant, et presque aussitôt, avec cette liberté que l’oreille prend quelquefois sur la grammaire, venant de, si bien que le mot, qui semblait jusque-là orienté vers ce qui vient après, vers ce que quelque chose est en train de devenir, s’est retourné légèrement, non pas au point d’abandonner son mouvement vers l’avant, mais assez pour que ce mouvement se charge tout à coup d’un arrière, d’une provenance, d’un lieu ou plutôt d’un état dont il viendrait, et qu’au lieu de demander seulement ce que devient une chose, je me sois surpris à entendre en même temps la question de ce dont elle vient.

Mais cette question, à peine apparue, ne m’a pas conduit vers un commencement plus clair… elle a au contraire compliqué le mouvement que je croyais avoir saisi, car demander d’où vient ce qui devient suppose encore trop facilement qu’il existe quelque part, en amont, une chose assez stable pour que l’on puisse dire: elle était là, elle était ainsi, puis elle est venue jusqu’ici, et c’est seulement au cours de cette venue, ou à son terme, qu’elle s’est transformée, tandis que ce qui me retient précisément dans ce venant de entendu au cœur de devenant, c’est la possibilité que la venue elle-même ait participé à la formation de ce qui vient, que le passage n’ait pas été cet intervalle neutre entre un point de départ et un point d’arrivée, mais ce au cours de quoi ce qui s’engage dans le trajet cesse peu à peu, ou brusquement, d’être exactement ce qui l’avait commencé, sans qu’on puisse jamais déterminer avec certitude à quel instant cette transformation a eu lieu, puisqu’elle pourrait n’être rien d’autre que le trajet lui-même.

Alors le venant d’où? ne suffit déjà plus, car il faut presque aussitôt lui adjoindre un venant comment?, et je vois bien que cette seconde question change profondément la première, puisqu’elle oblige à considérer non seulement la provenance, mais les voies de la provenance, ce par quoi quelque chose est passé, ce qu’il a rencontré, ce qui l’a retenu, infléchi, dépouillé ou chargé au passage, et qu’à mesure que j’essaie de distinguer ce qui appartiendrait encore à ce qui venait de ce qui lui aurait été ajouté par sa venue, cette distinction devient moins sûre, comme si ce que j’appelais d’abord la chose et ce que j’appelais ensuite son trajet commençaient à se confondre au point que je ne sache plus très bien si je dois dire qu’une chose se transforme pendant qu’elle passe, ou qu’elle n’est précisément cette chose-là que parce qu’elle est passée de cette manière.

Je retrouve ici, avec une insistance qui commence à me gêner un peu tant elle revient sous des formes différentes, la difficulté que j’éprouve depuis quelque temps à placer l’origine quelque part sans qu’elle se remette aussitôt en mouvement, car si ce qui devient vient de quelque chose, je voudrais naturellement remonter vers ce quelque chose, retrouver son état antérieur, le considérer avant que le passage ne le transforme, et pourtant, dès que je crois m’en approcher, je suis obligé de reconnaître que cet état antérieur lui-même devait venir d’ailleurs, qu’il avait déjà été travaillé par d’autres passages, d’autres rencontres, d’autres pertes, d’autres reprises, et que ce que je prenais pour le lieu du départ n’était peut-être qu’un lieu d’arrivée devenu provisoirement départ à son tour.

Il se peut que ce soit cela qui me retienne dans cette mauvaise écoute du mot, bien plus que le jeu lui-même entre devenant et venant de, car elle oblige à considérer que ce que nous appelons une origine n’est peut-être pas toujours ce lieu intact où quelque chose aurait été avant d’être transformé, mais un point de passage que nous choisissons, parce qu’il nous faut bien commencer quelque part, dans une continuité plus vaste dont une grande partie demeure hors de notre regard, de sorte que le de que j’entends si fortement dans devenant ne me ramène pas nécessairement à une source, mais ouvre au contraire vers une succession d’amonts dont chacun, dès qu’on l’atteint, révèle qu’il a lui-même été traversé.


mardi 22 septembre 2026

(218) The abracadabrante story of Child Moon

 

The hand may have done perfectly well what it was doing without the person drawing yet knowing everything that this gesture was making possible…



Where one may see that, with a little practice and far removed from his first pencilled sketches, Félix has come almost perfectly to imitate the style of the drawings Lucian sends him, drawings of which he does not know whether they are Lucian’s or Igniatius’s…



Félix’s Notebook

This thought should perhaps frighten me more than it does, for little by little it is taking away the place from which I believed I could observe this whole story, and yet, mingled with the unease, I feel at the same time something resembling a physical pleasure, an almost shameful lightness, as though the fatigue produced over so many years by the obligation to understand everything before moving forward were at last beginning to give way, not because I had abandoned the desire to understand, but because I am discovering that understanding may come afterwards, or during, or may even be produced by the very movement it was formerly supposed to authorize; I look at the sheet then with a different kind of attention, less concerned with asking what it represents than with sensing what it is in the process of making possible, and my hand, when it returns to the pencil, is already no longer quite the hand of a man preparing to carry out what he has decided.

Perhaps this is what now brings me closer to Lucian and Igniatius in a way I had not foreseen, and what might explain why their resemblances become increasingly perceptible to me at the very moment when their differences ought to reassure me, for if one had merely imitated the other, I could have separated them by recovering the original and the copy, whereas if each of them was altered by what he believed himself merely to be taking up again, if each discovered his own design within gestures he had begun without knowing it, if above all what they left behind was able to continue functioning in their absence and even within mine, then their closeness no longer depends upon their having been identical at the outset, but upon the fact that something similar may have happened within each of them, something that belonged entirely to neither and that, in passing from one to the other, assumed different forms while preserving enough continuity for me to feel its presence today even in my fingers.

I am beginning then to understand that what I called author, without ever having thought very much about the weight I placed upon that word, was perhaps the name I gave to the last refuge of origin, the place to which I imagined I could return whenever the texts and drawings became too mobile, too contradictory, too capable of producing meanings that nothing seemed expressly to have decided, and that Derrida now compels me to consider a far less comfortable possibility, namely that the author himself can never accompany intact what he leaves behind, because to leave a trace already means allowing for his absence, and because this absence, far from arriving after the work as some regrettable separation, was inscribed in the very possibility of its being left at all.

From that moment on, if Child Moon exists somewhere within this passage, it becomes increasingly difficult to say that he belongs to Igniatius, to Lucian, to me, or to whoever might perhaps precede us all, for belonging would imply here precisely the sort of relation that the passage never ceases to undo, and this character whom I had sought as one searches for the child of a lost lineage now seems to me less like someone whose father must be found than like a form whose every appearance makes the next one possible without ever being able fully to determine it, a form that, in order to continue, requires that the one who has just traced it should no longer be able to remain sovereignly present beside it.

And this presence I am speaking of, if I accept it for a moment without trying too quickly to give it a name, leads me towards a question beside which all the others suddenly seem simpler, for if the drawing can produce the design that will later appear to have engendered it, if the character can help give birth to the intention of the person who will later believe himself to have invented him, if, finally, every trace can continue to act only because it is capable of doing without the presence of the one who leaves it, then how far can I still go on asking where Child Moon comes from without having to admit that the question itself may belong to the movement through which he continues to come, and that my own search, far from leading me back towards some fixed point of origin where someone would have been there to begin everything, adds one more absence, my own future absence, to all those that have already allowed this form to pass?

I can therefore no longer write that I am merely searching for his origin, for the sentence itself, once inscribed here, is already beginning to escape the instant in which I formulate it; tomorrow it may be reread by the person I shall have become, it will alter the way I look at a drawing by Igniatius, it may change the movement of my hand when I take up the pencil again, and what I then discover will return to transform even the meaning of the question I believed myself to have asked before it, so that I am beginning to feel, with a clarity I do not yet know whether to welcome, that what I had taken for an investigation into something completed may itself constitute one of the episodes of what it is seeking.

The vertigo, therefore, no longer comes only from the fact that the origin of Child Moon remains impossible to find, nor even from the fact that it might continue to be produced as we search for it, but from the fact that this production seems to require that each of us should be able to be absent from what he has left behind, as though the absence I had at first taken for the catastrophe separating us from the origin were precisely the opening through which an origin ceases to be a beginning enclosed within its past and becomes that strange movement which, from trace to trace, from drawing to design, from Lucian to Igniatius and from Igniatius to me, is still continuing to take place.


(218) A abracadabrante história da Criança Lua


A mão pode ter feito perfeitamente aquilo que fazia sem que aquele que desenhava soubesse ainda tudo o que esse gesto estava a tornar possível…



Onde se pode ver que, com um pouco de exercício, já muito longe dos seus primeiros esboços a lápis, Félix chegou a imitar quase perfeitamente o estilo dos desenhos que Lucian lhe envia e acerca dos quais não sabe se são dele ou de Igniatius…



Caderno de Félix

Este pensamento talvez devesse assustar-me mais do que assusta, pois vai-me retirando pouco a pouco o lugar a partir do qual eu julgava poder observar toda esta história, e, no entanto, sinto ao mesmo tempo, misturado com a inquietação, algo que se assemelha a um prazer físico, uma leveza quase vergonhosa, como se o cansaço produzido ao longo de tantos anos pela obrigação de compreender tudo antes de avançar começasse finalmente a ceder, não porque eu tivesse renunciado a compreender, mas porque descubro que compreender pode vir depois, ou durante, ou até ser produzido pelo próprio movimento que antes deveria autorizar; olho então para a folha com uma atenção diferente, menos ocupado em perguntar-lhe o que representa do que em sentir aquilo que está a tornar possível, e a minha mão, quando regressa ao lápis, já não é inteiramente a mão de um homem que se prepara para executar aquilo que decidiu.

Talvez seja isto que agora me aproxima de Lucian e de Igniatius de uma maneira que eu não previra, e que explicaria por que razão as semelhanças entre ambos se me tornam cada vez mais sensíveis precisamente no momento em que as diferenças deveriam tranquilizar-me, pois, se um tivesse apenas imitado o outro, eu poderia separá-los reencontrando o original e a cópia, ao passo que, se cada um deles foi modificado por aquilo que julgava retomar, se cada um descobriu o seu próprio desígnio nos gestos que começara sem o conhecer, se, sobretudo, aquilo que deixaram atrás de si pôde continuar a funcionar na sua ausência e até na minha, então a proximidade entre ambos já não depende de terem sido idênticos à partida, mas de algo semelhante ter podido acontecer neles, algo que não pertencia inteiramente a nenhum dos dois e que, passando de um para o outro, tomou formas diferentes, conservando contudo continuidade suficiente para que eu possa hoje sentir a sua presença até na ponta dos meus dedos.

Começo então a compreender que aquilo a que chamava autor, sem nunca ter refletido muito sobre o peso que atribuía a essa palavra, era talvez o nome que eu dava ao último refúgio da origem, aquele ao qual pensava poder regressar quando os textos e os desenhos se tornavam demasiado móveis, demasiado contraditórios, demasiado capazes de produzir sentidos que nada parecia ter expressamente decidido, e que Derrida me obriga agora a encarar uma possibilidade muito menos confortável, segundo a qual o próprio autor nunca pode acompanhar intacto aquilo que deixa, porque deixar um vestígio significa já permitir a sua ausência e porque essa ausência, longe de vir depois da obra como uma separação lamentável, estava inscrita na própria possibilidade de ela ser deixada.

A partir daí, se a Criança Lua existe algures nesta passagem, torna-se cada vez mais difícil dizer que pertence a Igniatius, a Lucian, a mim ou àquele que talvez nos tenha precedido a todos, pois pertencer suporia aqui precisamente uma relação que a passagem não cessa de desfazer, e esta personagem que eu procurara como se procura o filho de uma filiação perdida parece-me agora menos semelhante a alguém cujo pai seria necessário reencontrar do que a uma forma em que cada aparição torna possível a seguinte sem jamais a poder determinar por inteiro, uma forma que precisa, para continuar, de que aquele que acaba de a traçar não possa permanecer soberanamente presente junto dela.

E esta presença de que falo, se a aceitar por um instante sem procurar nomeá-la demasiado depressa, conduz-me a uma pergunta diante da qual todas as outras parecem subitamente mais simples, pois, se o desenho pode produzir o desígnio que depois parecerá tê-lo engendrado, se a personagem pode contribuir para fazer nascer a intenção daquele que mais tarde acreditará tê-la inventado, se, enfim, todo o vestígio só pode continuar a agir se puder dispensar a presença daquele que o deixa, então até onde posso continuar a perguntar de onde vem a Criança Lua sem ter de admitir que a própria pergunta talvez pertença ao movimento através do qual ela continua a vir, e que a minha própria procura, longe de me reconduzir a um ponto de origem imóvel onde alguém teria estado presente para tudo começar, acrescenta uma nova ausência, a minha ausência por vir, a todas aquelas que já permitiram a esta forma passar?

Já não posso, portanto, escrever que procuro apenas a sua origem, pois a própria frase, uma vez inscrita aqui, começa já a escapar ao instante em que a formulo, poderá ser relida amanhã por aquele em que me terei tornado, modificará a maneira como olharei para um desenho de Igniatius, talvez altere o movimento da minha mão quando voltar a pegar no lápis, e aquilo que então descobrir regressará para transformar até o sentido da pergunta que eu julgava ter formulado antes dele, de tal maneira que começo a sentir, com uma nitidez acerca da qual ainda não sei se devo alegrar-me, que aquilo que eu tomava por uma investigação sobre algo concluído constitui talvez um dos episódios daquilo que procura.

A vertigem já não vem, portanto, apenas do facto de a origem da Criança Lua permanecer impossível de encontrar, nem sequer do facto de ela poder continuar a produzir-se à medida que a procuramos, mas do facto de essa produção parecer precisar de que cada um de nós possa faltar àquilo que deixou, como se a ausência que eu começara por tomar pela catástrofe que nos separava da origem fosse precisamente a abertura graças à qual uma origem deixa de ser um começo encerrado no seu passado e se torna esse estranho movimento que, de vestígio em vestígio, de desenho em desígnio, de Lucian a Igniatius e de Igniatius até mim, continua ainda a ter lugar.


(218) L'abracadabrante histoire de l'Enfant lune

La main peut avoir parfaitement fait ce qu’elle faisait sans que celui qui dessinait sache encore tout ce que ce geste était en train de rendre possible…


Où l'on peut voir qu'avec une peu d'exercice, loin de ses premières esquisses crayonnées,  Félix est arrivé presque parfaitement à imiter le style des dessins que lui envoie Lucian et dont il ne sait s'ils sont de lui ou d'Igniatius...






Carnet de Félix

Cette pensée devrait peut-être m’effrayer davantage qu’elle ne le fait, car elle m’enlève progressivement le lieu depuis lequel je croyais pouvoir observer toute cette histoire, et pourtant j’éprouve en même temps, mêlé à l’inquiétude, quelque chose qui ressemble à un plaisir physique, une légèreté presque honteuse, comme si la fatigue produite pendant tant d’années par l’obligation de tout comprendre avant d’avancer commençait enfin à céder, non parce que j’aurais renoncé à comprendre, mais parce que je découvre que comprendre peut venir après, ou pendant, ou même être produit par le mouvement qu’il devait auparavant autoriser; je regarde alors la feuille avec une attention différente, moins occupé à lui demander ce qu’elle représente qu’à sentir ce qu’elle est en train de rendre possible, et ma main, lorsqu’elle revient vers le crayon, n’est déjà plus tout à fait celle d’un homme qui s’apprête à exécuter ce qu’il a décidé.

Peut-être est-ce cela qui me rapproche maintenant de Lucian et d’Igniatius d’une manière que je n’avais pas prévue, et qui expliquerait pourquoi leurs ressemblances me deviennent de plus en plus sensibles au moment même où leurs différences devraient me rassurer, car si l’un avait seulement imité l’autre, j’aurais pu les séparer en retrouvant l’original et la copie, tandis que s’ils ont chacun été modifiés par ce qu’ils croyaient reprendre, s’ils ont découvert leur propre dessein dans les gestes qu’ils avaient commencés sans le connaître, si surtout ce qu’ils ont laissé derrière eux a pu continuer de fonctionner en leur absence et jusque dans la mienne, alors leur proximité ne tient plus à ce qu’ils auraient été identiques au départ, mais au fait que quelque chose de semblable a pu se produire en eux, quelque chose qui n’appartenait entièrement à aucun et qui, en passant de l’un à l’autre, a pris des formes différentes tout en conservant assez de continuité pour que je puisse aujourd’hui en sentir la présence jusque dans mes doigts.

Je commence alors à comprendre que ce que j’appelais auteur, sans jamais avoir beaucoup réfléchi au poids que je donnais à ce mot, était peut-être le nom que j’accordais au dernier refuge de l’origine, celui auquel je pensais pouvoir revenir quand les textes et les dessins devenaient trop mobiles, trop contradictoires, trop capables de produire des sens que rien ne semblait avoir expressément décidés, et que Derrida m’oblige maintenant à envisager une possibilité beaucoup moins confortable, celle selon laquelle l’auteur lui-même ne peut jamais accompagner intact ce qu’il laisse, parce que laisser une trace signifie déjà permettre son absence et que cette absence, loin de venir après l’œuvre comme une séparation regrettable, était inscrite dans la possibilité même qu’elle soit laissée.

Dès lors, si l’Enfant Lune existe quelque part dans ce passage, il devient de plus en plus difficile de dire qu’il appartient à Igniatius, à Lucian, à moi ou à celui qui, peut-être, nous précéderait tous, car appartenir supposerait ici une relation que le passage ne cesse précisément de défaire, et ce personnage que j’avais cherché comme on recherche l’enfant d’une filiation perdue me paraît maintenant moins semblable à quelqu’un dont il faudrait retrouver le père qu’à une forme dont chaque apparition rend possible la suivante sans pouvoir la déterminer entièrement, une forme qui a besoin, pour continuer, que celui qui vient de la tracer ne puisse pas demeurer souverainement présent auprès d’elle.

Et cette présence dont je parle, si je l’accepte un instant sans chercher à la nommer trop vite, me conduit à une question devant laquelle toutes les autres paraissent soudain plus simples, car si le dessin peut produire le dessein qui semblera ensuite l’avoir engendré, si le personnage peut contribuer à faire naître l’intention de celui qui croira plus tard l’avoir inventé, si enfin toute trace ne peut continuer à agir qu’en pouvant se passer de la présence de celui qui la laisse, alors jusqu’où puis-je encore demander d’où vient l’Enfant Lune sans devoir admettre que la question elle-même appartient peut-être au mouvement par lequel il continue de venir, et que ma propre recherche, loin de me reconduire vers un point d’origine immobile où quelqu’un aurait été là pour tout commencer, ajoute une nouvelle absence, la mienne à venir, à toutes celles qui ont déjà permis à cette forme de passer?

Je ne peux plus dès lors écrire que je recherche seulement son origine, car la phrase elle-même, une fois inscrite ici, commence déjà à échapper à l’instant où je la formule, elle pourra être relue demain par celui que je serai devenu, elle modifiera la façon dont je regarderai un dessin d’Igniatius, elle changera peut-être le mouvement de ma main lorsque je reprendrai le crayon, et ce que je découvrirai alors reviendra transformer jusqu’au sens de la question que je croyais avoir posée avant lui, si bien que je commence à sentir, avec une netteté dont je ne sais encore s’il faut me réjouir, que ce que je prenais pour une enquête sur quelque chose d’achevé constitue peut-être l’un des épisodes de ce qu’elle cherche.

Le vertige ne vient donc plus seulement de ce que l’origine de l’Enfant Lune demeure introuvable, ni même de ce qu’elle pourrait continuer à se produire à mesure que nous la cherchons, mais de ce que cette production semble avoir besoin que chacun de nous puisse manquer à ce qu’il a laissé, comme si l’absence que j’avais d’abord prise pour la catastrophe qui nous séparait de l’origine était précisément l’ouverture grâce à laquelle une origine cesse d’être un commencement enfermé dans son passé et devient ce mouvement étrange qui, de trace en trace, de dessin en dessein, de Lucian à Igniatius et d’Igniatius jusqu’à moi, continue encore d’avoir lieu.


lundi 21 septembre 2026

(217) The abracadabrante story of Child Moon



Inspiration might not be a content arriving mysteriously from elsewhere. It might be the name we give to the experience through which our own act momentarily becomes larger than our intention.


Félix’s Notebook

I understand better now why Lucian’s and Igniatius’s files had held me for so long without my knowing exactly what it was in them that held me… I had approached their relationship as one approaches two testimonies whose chronology, influence, possible borrowings would have to be established, trying to determine who had received what from the other, who had first seen this or that figure, who had first spoken a certain name, who had begun drawing after reading what the other had written, and despite all its complexity this inquiry retained one immense advantage, that of assuming there existed somewhere a first term, a point of departure from which the transmissions might have been reconstructed, as though every resemblance required an origin and every origin someone who had, first of all, possessed what was then destined to circulate; yet I am beginning to suspect that this very manner of searching for the origin may be precisely what prevented me from seeing what was happening, because I was trying to recover, before the passage, something that perhaps existed only in the passage itself.



It is here that a sentence by Derrida, or rather what I understand of it today, returns with an insistence I had not expected, for when he says that writing must be able to function in the absence of the one who produced it, he is not simply describing the secondary misfortune of a text abandoned by its author after it has been written, as though some original presence had once been wholly there and had subsequently withdrawn; he is showing something far more disturbing, namely that this possibility of absence belongs from the very beginning to writing itself, that a sign is truly a sign only because it can be taken up again, read, displaced, repeated when the person who traced it is no longer there to guarantee its meaning, and that what I had always regarded as a possible loss of origin might well be one of the conditions through which a trace can begin to live at all.

I do not know why I had never before felt how almost physical this idea could become when applied not merely to words printed in a book but to a line left upon a sheet of paper, for drawing too possesses this strange ability to remain once the hand has withdrawn, to be looked at outside the instant in which it was traced, to enter another gaze, then another still, and to produce something that can no longer be reduced to the simple intention of the person who made it, so that the absence of the draughtsman no longer appears as a deficiency that ought to be repaired by asking what he “meant to say,” but rather as the very space within which the drawing acquires the possibility of continuing to act.

And so my old question, “What did Igniatius mean to do?”, begins to strike me as strangely inadequate, not because it would be illegitimate, nor because Igniatius’s intention would be unimportant, but because it still assumes that somewhere the drawing possesses a key capable of leading it back to a first presence that would at last bring its meaning to a halt, whereas, if Derrida is right on this point, that key can never entirely close what it opens, since what has been traced must be capable of detaching itself from the person who traced it, of surviving his intention, of being taken up again in circumstances he had not foreseen and encountering eyes whose very existence he could not have known; and scarcely had I formulated this when I found myself wondering whether the word “survive” was not still too weak, since it might suggest that the drawing merely preserves something of its author after his disappearance, whereas what troubles me is precisely that, through this separation, it should be capable of producing something new.

Lucian draws after Igniatius, or at least believes himself to be drawing after him, Igniatius brings into being characters of whom he is no longer entirely certain he can say that he invented them, and I, arriving later still, armoured in that belatedness which I had made into a guarantee of impartiality, place my hand upon a sheet in my turn and discover that the lines forming there seem to know a path along which I do not remember having led them; from that moment, the succession to which I had clung begins to come apart, not because dates cease to exist, but because dates are no longer sufficient to determine what comes from what, since the one who arrives afterwards can bring forth in what preceded him a coherence that the one who came before did not yet possess, and what comes later can, without materially travelling backwards through time, alter what, for us, that which came earlier will have been.

I even sometimes wonder whether Lucian did not become Lucian, for me at least, as I read what he said about Igniatius, and whether Igniatius himself did not acquire a consistency his own texts had not yet possessed before Lucian began to follow them, imitate them, displace them, as though each had helped, after the fact, to constitute the predecessor from whom he believed himself merely to have inherited, and I can feel how readily such a hypothesis would once have aroused in me an almost immediate distrust, because it seems to threaten the elementary distinction between the one who creates and what is created, between cause and consequence, between what comes first and what comes afterwards, yet I can no longer dismiss it so easily since feeling my own hand allow itself to be instructed by what it had only just done.

Perhaps, too, I had until then placed too much weight on this idea of an author whom one need only recover for everything to fall back into place, for if a trace truly exists only from the moment it can move away from the one who made it, then the author is no longer quite there behind it like a proprietor whose virtual presence would accompany each of its movements; he himself becomes one of the moments in its history, indispensable no doubt, since there was indeed a hand, a body, a situation, a gesture, but no longer capable of remaining beside each occurrence in order to declare what it must be; and it may be this, even more than material absence, that troubles me in Derrida, this idea that at the very moment when I write a sentence or trace a line, I must, for it to be able to exist as a trace, consent without even intending to do so to its being able to function without me.

For does the hand know more than I do? I do not believe it does, and I would be almost as suspicious of that idea as I was of the former sovereignty of conscious intention, since all that would be required would be to replace one master with another and attribute to the body some secret design of which the mind remained unaware; what troubles me is far less mysterious and, perhaps for that very reason, far more difficult to contain, namely that it may not be necessary for anyone to know beforehand for something to begin taking a direction, that the preceding line is sometimes enough to call forth the next, that the eye responds to what the hand has just laid down, that the hand in turn responds to what the eye has just discovered, and that in the midst of this sequence of responses, in which no one needs to possess the overall plan, a form eventually appears with a coherence strong enough for us afterwards to attribute to it the intention which, we believe, must have preceded it.

And it is then that the word design returns, but reversed, almost unrecognisable, for I can no longer calmly place the design behind the drawing like the architect behind the building; I see it taking shape within what is being drawn, emerging as certain possibilities disappear and others grow stronger, then returning towards the beginning as though, having at last acquired form, it could henceforth cast its light retrospectively upon the first gestures, which nevertheless did not yet know it; so that, looking at a finished drawing, I can always tell myself the reassuring story according to which someone must surely have intended this, while the memory of my own hand confronts me with the far less comfortable experience according to which it has happened that I did not truly intend something until after I had begun to do it, and that what I had made, once separated from me, began to mean more than I could ever have intended to make it mean.

From that point on, the question of Child Moon becomes almost impossible to formulate as I was still formulating it only recently, for to ask “who invented him?” already assumes that the invention preceded him, that a mind conceived him before he entered the world of lines, words, gestures and encounters, whereas I am beginning to consider that he may have constituted himself in the course of that very circulation, taking something from a line, something else from a sentence, a posture from a drawing that Igniatius perhaps considered unimportant, a silence from what Lucian could not manage to say, and then, much later, this strange persistence in returning beneath my own hand, not as an object travelling intact from one man to another, but as a form that becomes more fully itself each time it passes and that, in passing, also alters the one through whom it passes.

And if this is so, the absence of the one who might have been able to say “I made him” is no longer merely the obstacle preventing me from tracing Child Moon back to his origin; perhaps it becomes precisely what allows him to continue his journey, for if Igniatius had to remain present beside every line in order to guarantee its meaning, if Lucian had to accompany each of his sentences so as to prevent them from becoming something other than what he had consciously thought, if I myself had to be able to follow indefinitely every line my hand leaves behind in order to explain what I had intended when I traced it, then nothing could truly pass from one to another, everything would remain tethered to its moment of production, whereas what troubles me today is exactly the opposite: this capacity traces possess to leave the one who produces them and, because they leave him, to enter into combinations in which he could never have taken part.


(217) A abracadabrante história da Criança Lua


A inspiração talvez não seja um conteúdo que chega misteriosamente de outro lugar. Talvez seja o nome que damos à experiência pela qual o nosso próprio ato se torna, por um momento, mais vasto do que a nossa intenção.


Caderno de Félix

Compreendo melhor agora por que razão os dossiers de Lucian e de Igniatius me haviam retido durante tanto tempo sem que eu soubesse exatamente o que neles me retinha… Eu abordara a relação entre ambos como se abordam dois testemunhos cuja cronologia, influência e possíveis empréstimos fosse necessário determinar, procurando saber quem recebera o quê do outro, quem vira primeiro determinada figura, quem pronunciara determinado nome, quem começara a desenhar depois de ler o que o outro escrevera, e essa investigação conservava, apesar de toda a sua complexidade, uma vantagem imensa, a de supor que existia algures um primeiro termo, um ponto de partida a partir do qual as transmissões poderiam ter sido reconstituídas, como se toda a semelhança exigisse uma origem e toda a origem alguém que, primeiro, tivesse possuído aquilo que depois haveria de circular; ora, começo a suspeitar de que esta maneira de procurar a origem talvez fosse precisamente aquilo que me impedia de ver o que se passava, porque eu queria reencontrar, antes da passagem, aquilo que talvez só tivesse existência na própria passagem.

É aqui que uma frase de Derrida, ou antes aquilo que dela compreendo hoje, regressa com uma insistência que eu não previra, pois, quando afirma que a escrita deve poder funcionar na ausência daquele que a produziu, ele não descreve simplesmente o infortúnio secundário de um texto abandonado pelo seu autor depois de ter sido escrito, como se uma presença originária tivesse estado ali por inteiro e depois se tivesse retirado, mas mostra algo de muito mais inquietante, a saber, que essa possibilidade da ausência pertence desde o início à própria escrita, que um signo só é verdadeiramente signo porque pode ser retomado, lido, deslocado, repetido quando aquele que o traçou já não está presente para garantir o seu sentido, e que aquilo que eu sempre considerara uma possível perda da origem talvez seja afinal uma das condições graças às quais um vestígio pode simplesmente começar a viver.

Não sei por que razão nunca antes sentira o que esta ideia podia ter de quase físico quando a relacionamos já não apenas com palavras impressas num livro, mas com um traço deixado sobre uma folha, pois também o desenho possui essa estranha aptidão para permanecer quando a mão se retirou, para ser olhado fora do instante em que foi traçado, para entrar num outro olhar, depois noutro ainda, e produzir alguma coisa que já não poderia ser reconduzida à simples intenção daquele que o fez, de tal modo que a ausência do desenhador deixa de aparecer como uma deficiência que seria necessário reparar perguntando o que ele «quis dizer», para se tornar o próprio espaço no qual o desenho adquire a possibilidade de continuar a agir.

Então, a minha antiga pergunta, «o que quis fazer Igniatius?», começa a parecer-me estranhamente insuficiente, não porque seja ilegítima, nem porque a intenção de Igniatius não tenha importância, mas porque continua a supor que o desenho disporia, algures, de uma chave capaz de o reconduzir a uma presença primeira que acabaria por fixar definitivamente o seu sentido, ao passo que, se Derrida tem razão neste ponto, essa chave nunca pode fechar inteiramente aquilo que abre, uma vez que aquilo que foi traçado deve poder separar-se daquele que o traçou, sobreviver à sua intenção, ser retomado em circunstâncias que ele não previra e encontrar olhos cuja própria existência ignorava; mal formulara isto, perguntei a mim mesmo se a palavra «sobreviver» não seria ainda demasiado fraca, pois poderia levar a pensar que o desenho conserva simplesmente alguma coisa do seu autor depois do seu desaparecimento, quando aquilo que me perturba é precisamente que ele possa produzir algo de novo graças a essa separação.

Lucian desenha depois de Igniatius, ou pelo menos acredita desenhar depois dele, Igniatius faz nascer personagens acerca das quais já não tem a certeza de poder dizer que as inventou, e eu, que chego ainda mais tarde, revestido dessa tardividade que transformara numa garantia de imparcialidade, pouso por minha vez a mão sobre uma folha e descubro que os traços que nela se formam parecem conhecer um caminho pelo qual não me lembro de os ter conduzido; a partir daí, a sucessão a que eu me agarrava desregula-se, não porque as datas deixem de existir, mas porque as datas já não bastam para determinar o que provém de quê, uma vez que aquele que chega depois pode fazer aparecer, naquilo que o precede, uma coerência que aquele que o precedia ainda não possuía, e aquilo que vem mais tarde pode, sem remontar materialmente o tempo, modificar aquilo que terá sido para nós o que veio antes.

Chego mesmo, por vezes, a perguntar-me se Lucian não se tornou Lucian, pelo menos para mim, à medida que eu lia aquilo que dizia de Igniatius, e se o próprio Igniatius não adquiriu uma consistência que os seus próprios textos ainda não possuíam antes de Lucian começar a segui-los, a imitá-los, a deslocá-los, como se cada um tivesse contribuído, a posteriori, para constituir aquele que o precedera e de quem acreditava apenas herdar, e sinto até que ponto esta hipótese teria outrora despertado em mim uma desconfiança quase imediata, porque parece ameaçar a distinção elementar entre aquele que cria e aquilo que é criado, entre uma causa e as suas consequências, entre aquilo que vem primeiro e aquilo que vem depois, mas já não consigo afastá-la tão facilmente desde que senti a minha própria mão deixar-se instruir por aquilo que acabara de fazer.

Talvez tivesse também atribuído, até então, demasiado peso à ideia de um autor que bastaria reencontrar para que tudo voltasse ao seu lugar, pois, se um vestígio só existe verdadeiramente a partir do momento em que pode afastar-se daquele que o produziu, então o autor já não está propriamente atrás dele como um proprietário cuja presença virtual acompanharia cada um dos seus deslocamentos, ele próprio passa a ser um dos momentos da sua história, indispensável sem dúvida, uma vez que houve efetivamente uma mão, um corpo, uma situação, um gesto, mas incapaz daí em diante de permanecer junto de cada ocorrência para declarar aquilo que ela deve ser; e talvez seja isso, ainda mais do que a ausência material, que me perturba em Derrida, essa ideia de que, no próprio momento em que escrevo uma frase ou traço uma linha, devo, para que ela possa existir como vestígio, consentir, sem sequer o querer, que ela possa funcionar sem mim.

Pois saberá a mão mais do que eu? Não creio, e desconfiaria quase tanto dessa ideia como da antiga soberania da intenção consciente, visto que bastaria então substituir um senhor por outro e atribuir ao corpo algum desígnio secreto que o espírito teria ignorado; aquilo que me perturba é muito menos misterioso e, por isso talvez, muito mais difícil de conter, a saber, que talvez não seja necessário que alguém saiba previamente para que alguma coisa possa começar a tomar uma direção, que o traço anterior basta por vezes para solicitar o seguinte, que o olhar responde àquilo que a mão acaba de depositar, que a mão responde por sua vez àquilo que o olhar acaba de descobrir, e que, no meio desta sequência de respostas, na qual ninguém precisa de possuir o plano geral, acaba por aparecer uma forma dotada de uma coerência suficientemente forte para que lhe atribuamos, a posteriori, a intenção que, acreditamos nós, deveria tê-la precedido.

E é então que a palavra desígnio regressa, mas invertida, quase irreconhecível, pois já não consigo colocá-la tranquilamente atrás do desenho, como o arquiteto atrás do edifício, vejo-a formar-se no próprio interior daquilo que se traça, surgir à medida que certas possibilidades desaparecem e outras se reforçam, e depois regressar ao começo como se, tendo finalmente adquirido uma forma, pudesse daí em diante iluminar retrospetivamente os primeiros gestos que, no entanto, ainda não a conheciam; de tal maneira que, ao olhar para um desenho terminado, posso sempre contar a história tranquilizadora segundo a qual alguém tinha necessariamente de ter querido aquilo, enquanto a lembrança da minha própria mão me opõe esta experiência bem menos cómoda, segundo a qual aconteceu eu só querer verdadeiramente alguma coisa depois de ter começado a fazê-la, e que aquilo que eu fiz, uma vez separado de mim, começa a querer dizer mais do que aquilo que eu poderia ter querido fazê-lo dizer.

A partir daí, a questão da Criança Lua torna-se quase impossível de formular como eu ainda a formulava recentemente, pois perguntar «quem a inventou?» já pressupõe que a invenção lhe seja anterior, que um espírito a tenha concebido antes de ela entrar no mundo dos traços, das palavras, dos gestos, dos encontros, ao passo que começo a considerar que ela possa ter-se constituído no decurso dessa própria circulação, tomando alguma coisa de uma linha, outra de uma frase, uma postura de um desenho que Igniatius talvez julgasse sem importância, um silêncio daquilo que Lucian não conseguia dizer e, muito mais tarde, essa estranha persistência em regressar sob a minha própria mão, não como um objeto que viajasse intacto de um homem para outro, mas como uma forma que se torna cada vez mais ela própria de cada vez que passa e que, ao passar, modifica igualmente aquele que atravessa.

E, se assim for, a ausência daquele que poderia ter dito «fui eu que a fiz» deixa de ser apenas o obstáculo que me impede de remontar até à origem da Criança Lua, tornando-se talvez precisamente aquilo que lhe permite continuar a sua viagem, pois, se Igniatius tivesse de permanecer presente junto de cada traço para lhe garantir o sentido, se Lucian tivesse de acompanhar cada uma das suas frases a fim de impedir que elas se tornassem outra coisa que não aquilo que conscientemente pensara, se eu próprio tivesse de poder seguir indefinidamente cada linha que a minha mão deixa para trás a fim de explicar aquilo que eu quisera ao traçá-la, então nada poderia verdadeiramente passar de um para o outro, tudo permaneceria preso ao seu instante de produção, ao passo que aquilo que hoje me inquieta é exatamente o contrário, essa faculdade que os vestígios possuem de abandonar aquele que os produz e, precisamente porque o abandonam, de entrar em combinações nas quais ele não poderia participar.


(217) L’abracadabrante histoire de l’Enfant Lune

 


L’inspiration pourrait ne pas être un contenu arrivant mystérieusement d’ailleurs. Elle pourrait être le nom que nous donnons à l’expérience par laquelle notre propre acte devient momentanément plus vaste que notre intention.





Carnet de Félix 

Je comprends mieux maintenant pourquoi les dossiers de Lucian et d’Igniatius m’avaient si longtemps retenu sans que je sache exactement ce qui m’y retenait… J’avais abordé leur relation comme on aborde deux témoignages dont il faudrait déterminer la chronologie, l’influence, les emprunts possibles, en essayant de savoir qui avait reçu quoi de l’autre, qui avait vu le premier telle figure, qui avait prononcé tel nom, qui avait commencé à dessiner après avoir lu ce que l’autre avait écrit, et cette enquête conservait malgré toute sa complexité un avantage immense, celui de supposer qu’il existait quelque part un premier terme, un point de départ à partir duquel les transmissions auraient pu être reconstituées, comme si toute ressemblance exigeait une origine et toute origine quelqu’un qui, le premier, aurait détenu ce qui devait ensuite circuler; or je commence à soupçonner que cette manière de chercher l’origine est peut-être précisément ce qui m’empêchait de voir ce qui se passait, parce que je voulais retrouver avant le passage ce qui n’avait peut-être d’existence que dans le passage même.

 

 

C’est ici qu’une phrase de Derrida, ou plutôt ce que j’en comprends aujourd’hui, revient avec une insistance que je n’avais pas prévue, car lorsqu’il affirme que l’écriture doit pouvoir fonctionner en l’absence de celui qui l’a produite, il ne décrit pas simplement le malheur secondaire d’un texte abandonné par son auteur après avoir été écrit, comme si quelque présence originelle avait été là tout entière puis s’était retirée, il montre quelque chose de beaucoup plus inquiétant, à savoir que cette possibilité de l’absence appartient dès le commencement à l’écriture elle-même, qu’un signe n’est véritablement signe que parce qu’il peut être repris, lu, déplacé, répété lorsque celui qui l’a tracé n’est plus là pour en garantir le sens, et que ce que j’avais toujours considéré comme une perte possible de l’origine pourrait bien être l’une des conditions grâce auxquelles une trace peut seulement commencer à vivre.

Je ne sais pas pourquoi je n’avais jamais senti auparavant ce que cette idée pouvait avoir de presque physique lorsqu’on la rapporte non plus seulement à des mots imprimés dans un livre, mais à un trait laissé sur une feuille, car le dessin possède lui aussi cette étrange aptitude à demeurer lorsque la main s’est retirée, à être regardé hors de l’instant où il fut tracé, à entrer dans un autre regard, puis dans un autre encore, et à produire quelque chose qui ne pouvait plus être ramené à la simple intention de celui qui l’avait fait, de sorte que l’absence du dessinateur n’apparaît plus comme une déficience qu’il faudrait réparer en demandant ce qu’il « avait voulu dire », mais comme l’espace même dans lequel le dessin acquiert la possibilité de continuer à agir.

Alors ma vieille question, « qu’a voulu faire Igniatius? », commence à me paraître étrangement insuffisante, non parce qu’elle serait illégitime, ni parce que l’intention d’Igniatius serait sans importance, mais parce qu’elle suppose encore que le dessin disposerait quelque part d’une clef capable de le reconduire à une présence première qui en arrêterait enfin le sens, tandis que si Derrida a raison sur ce point, cette clef ne peut jamais refermer entièrement ce qu’elle ouvre, puisque ce qui a été tracé doit pouvoir se détacher de celui qui l’a tracé, survivre à son intention, être repris dans des circonstances qu’il n’avait pas prévues et rencontrer des yeux dont il ignorait jusqu’à l’existence; à peine avais-je formulé cela que je me suis demandé si le mot survivre n’était pas encore trop faible, car il donnerait à croire que le dessin conserve simplement quelque chose de son auteur après sa disparition, alors que ce qui me trouble est précisément qu’il puisse produire du nouveau grâce à cette séparation.

Lucian dessine après Igniatius, ou du moins croit dessiner après lui, Igniatius fait naître des personnages dont il n’est déjà plus certain qu’il puisse dire qu’il les a inventés, et moi qui arrive plus tard encore, bardé de cette tardiveté dont j’avais fait une garantie d’impartialité, je pose à mon tour la main sur une feuille et découvre que les traits qui s’y forment semblent connaître un chemin auquel je ne me souviens pas de les avoir conduits; dès lors, la succession à laquelle je m’accrochais se dérègle, non parce que les dates cesseraient d’exister, mais parce que les dates ne suffisent plus à déterminer ce qui vient de quoi, puisque celui qui arrive après peut faire apparaître dans ce qui le précède une cohérence que celui qui précédait ne possédait pas encore, et que ce qui vient plus tard peut, sans remonter matériellement le temps, modifier ce qu’aura été pour nous ce qui est venu plus tôt.

Il m’arrive même de me demander si Lucian n’est pas devenu Lucian, pour moi du moins, à mesure que je lisais ce qu’il disait d’Igniatius, et si Igniatius lui-même n’a pas pris une consistance que ses propres textes ne possédaient pas encore avant que Lucian ne commence à les suivre, à les imiter, à les déplacer, comme si chacun avait contribué après coup à constituer le précédent dont il croyait seulement hériter, et je sens combien cette hypothèse aurait autrefois éveillé en moi une méfiance presque immédiate, parce qu’elle paraît menacer la distinction élémentaire entre celui qui crée et ce qui est créé, entre une cause et ses conséquences, entre ce qui vient d’abord et ce qui vient ensuite, mais je ne puis plus l’écarter aussi facilement depuis que j’ai senti ma propre main se laisser instruire par ce qu’elle venait de faire.

Peut-être même avais-je accordé trop de poids, jusque-là, à cette idée d’un auteur qu’il suffirait de retrouver pour que tout reprenne sa place, car si une trace n’existe vraiment qu’à partir du moment où elle peut s’éloigner de celui qui l’a faite, alors l’auteur n’est plus tout à fait derrière elle comme un propriétaire dont la présence virtuelle accompagnerait chacun de ses déplacements, il est lui-même l’un des moments de son histoire, indispensable sans doute puisqu’il y eut bien une main, un corps, une situation, un geste, mais incapable désormais de demeurer auprès de chaque occurrence pour déclarer ce qu’elle doit être; et c’est peut-être cela, plus encore que l’absence matérielle, qui me trouble chez Derrida, cette idée qu’au moment même où j’écris une phrase ou trace une ligne je dois, pour qu’elle puisse exister comme trace, consentir sans même le vouloir à ce qu’elle puisse fonctionner sans moi.

Car la main sait-elle davantage que moi? Je ne le crois pas, et je me méfierais presque autant de cette idée que de l’ancienne souveraineté de l’intention consciente, puisqu’il suffirait alors de remplacer un maître par un autre et d’attribuer au corps quelque dessein secret que l’esprit aurait ignoré; ce qui me trouble est beaucoup moins mystérieux et, pour cette raison peut-être, beaucoup plus difficile à contenir, à savoir qu’il n’est peut-être pas nécessaire que quelqu’un sache avant que quelque chose puisse commencer à prendre une direction, que le trait précédent suffit parfois à solliciter le suivant, que l’œil répond à ce que la main vient de déposer, que la main répond à son tour à ce que l’œil vient de découvrir, et qu’au milieu de cette suite de réponses, où nul n’a besoin de posséder le plan général, une forme finit par apparaître avec une cohérence assez forte pour que nous lui prêtions après coup l’intention qui aurait dû, croyons-nous, la précéder.

Et c’est alors que le mot dessein revient, mais retourné, presque méconnaissable, car je ne peux plus le placer tranquillement derrière le dessin comme l’architecte derrière l’édifice, je le vois se former à l’intérieur même de ce qui se trace, surgir à mesure que certaines possibilités disparaissent et que d’autres se renforcent, puis revenir vers le commencement comme si, ayant enfin pris forme, il pouvait désormais éclairer rétrospectivement les premiers gestes qui pourtant ne le connaissaient pas encore; de sorte qu’en regardant un dessin achevé je puis toujours raconter l’histoire rassurante selon laquelle il fallait bien que quelqu’un ait voulu cela, tandis que le souvenir de ma propre main m’oppose cette expérience beaucoup moins commode, selon laquelle il est arrivé que je ne veuille véritablement quelque chose qu’après avoir commencé à le faire, et que ce que j’avais fait, une fois séparé de moi, commence à vouloir dire davantage que ce que j’aurais pu vouloir lui faire dire.

À partir de là, la question de l’Enfant Lune devient presque impossible à formuler comme je le faisais encore récemment, car demander « qui l’a inventé? » suppose déjà que l’invention lui soit antérieure, qu’un esprit l’ait conçu avant qu’il entre dans le monde des traits, des mots, des gestes, des rencontres, alors que je commence à envisager qu’il ait pu se constituer au cours de cette circulation elle-même, prenant quelque chose à une ligne, autre chose à une phrase, une posture à un dessin qu’Igniatius croyait peut-être sans importance, un silence à ce que Lucian ne parvenait pas à dire, puis, beaucoup plus tard, cette étrange persistance à revenir sous ma propre main, non comme un objet voyageant intact d’un homme à l’autre, mais comme une forme qui devient davantage elle-même chaque fois qu’elle passe et qui, en passant, modifie également celui qu’elle traverse.

Et s’il en est ainsi, l’absence de celui qui aurait pu dire « je l’ai fait » n’est plus seulement l’obstacle qui m’empêche de remonter jusqu’à l’origine de l’Enfant Lune, elle devient peut-être précisément ce qui lui permet de continuer son voyage, car si Igniatius devait rester présent auprès de chaque trait pour en garantir le sens, si Lucian devait accompagner chacune de ses phrases afin d’empêcher qu’elles deviennent autre chose que ce qu’il avait consciemment pensé, si moi-même je devais pouvoir suivre indéfiniment chaque ligne que ma main laisse derrière elle pour expliquer ce que j’avais voulu en la traçant, alors rien ne pourrait véritablement passer de l’un à l’autre, tout demeurerait rivé à son instant de production, tandis que ce qui m’inquiète aujourd’hui est exactement l’inverse, cette faculté qu’ont les traces de quitter celui qui les produit et, parce qu’elles le quittent, d’entrer dans des combinaisons auxquelles il ne pouvait participer.


dimanche 20 septembre 2026


Could a will belong to something that had none? Perhaps it was enough for it to be inscribed everywhere in its form for one eventually to have no further need of the person who had willed it. The bow wanted to move forward because it had been designed for that… the engines wanted to continue their rotation because their entire arrangement transformed steam into motion; the needle of an instrument seemed to want to preserve its reading, and together they thus composed a faceless intention that no longer clearly belonged to anyone, as though decisions made long ago had withdrawn from those who had made them in order to continue their journey alone within the steel.

Perhaps something comparable existed in the brain, where decisions whose origin often remained inaccessible began to become gestures before an inner voice had claimed them as its own, where attention turned towards a sound before one knew what it was seeking, where the eyes came to rest on a detail without yet being able to explain what had held them there. The one who would later say I looked sometimes arrived after the look, just as the one who would say I decidedperhaps discovered a decision part of whose movement had already begun.

And then something very discreet could occur: not yet the presence of someone, but the possibility that a gaze might gradually detach itself from everything around it that seemed to belong to no one.

As the liner moved forward, something else did indeed seem to be spreading across the decks, a kind of space made larger by the absence of any voice capable of interrupting its continuity. The passageways stretched away beneath a changing light, the doors remained closed, the windows caught the brightness of the sky for an instant before darkening again, and sometimes the wind, finding the opening of a passage, rushed into it, set some metal fitting trembling or lifted the edge of a tarpaulin, then moved away, leaving behind the same silence as before.

Absence itself then began to become perceptible, which is a rather singular thing, since, in order to recognise that a voice is missing, one must already have expected one; in order to find a passageway deserted, something within us must already have silently anticipated that a figure might appear there, and perhaps emptiness is never entirely empty once an expectation gives it the shape of what might fill it. Thus those closed doors, those motionless chairs, those passageways without footsteps did not merely bear witness to absence. They traced around it the contours of possible presences, just as certain regions of the brain continue for a moment to await the signal that no longer comes and, through that very waiting, give an almost tangible form to what is missing.

Perhaps it was also for this reason that things gradually acquired an unusual precision. When no face came to claim attention, attention could fall elsewhere, linger over what the passing of a body would immediately have relegated to the background, and the world then seemed to draw nearer in details: the curve of a rope darkened by rain, the whiteness of a lifebuoy against the rail, the slightly different shadow beneath the fold of a tarpaulin, the foam running for a few seconds level with the gaze before being drawn away astern.

None of these objects was important.

Perhaps it was precisely for that reason that they could become so.

For attention does not always merely go where something has already been given meaning. It can precede meaning, hold on to something without knowing why, give a fragment of the world a disproportionate sharpness, then leave that fragment unexplained for a long time until another one comes, one day, to join it. The brain possesses this immense reserve of possible correspondences in which something seen without importance may remain silent for hours, sometimes for years, before suddenly becoming the piece an unknown figure needed in order to appear; and the gaze, when it rested in this way upon the objects of the liner, seemed less to inventory them than to gather them in.

It was not yet drawing… But perhaps something was already beginning to do what a drawing does before even the first line: to choose, from the inexhaustible continuity of the visible, what, for some reason not yet known, must not quite disappear with the rest.


Very freely inspired… by
Morgan Robertson, The Wreck of the Titan
Futility, or the Wreck of the Titan. 1898



Poderia uma vontade pertencer a uma coisa que não a tinha? Talvez bastasse que estivesse inscrita em toda a sua forma para que acabássemos por já não precisar daquele que a tinha querido. A proa queria avançar porque tinha sido desenhada para isso… as máquinas queriam prosseguir a sua rotação porque todo o seu agenciamento transformava o vapor em movimento; o ponteiro de um instrumento parecia querer conservar o seu valor, e o conjunto compunha assim uma intenção sem rosto que já não pertencia claramente a ninguém, como se as decisões tomadas outrora se tivessem retirado daqueles que as tinham tomado para continuarem sozinhas a sua viagem no interior do aço.

Talvez existisse algo de comparável no cérebro, onde decisões cuja origem permanecia muitas vezes inacessível começavam a tornar-se gestos antes que uma voz interior as tivesse reivindicado, onde a atenção se voltava para um ruído antes que se soubesse o que procurava, onde os olhos se detinham num detalhe sem poder ainda explicar o que os tinha retido. Aquele que, mais tarde, diria eu olhei chegava por vezes depois do olhar, tal como aquele que diria eu decidi talvez descobrisse uma decisão da qual uma parte do movimento já tinha começado.

E então podia produzir-se alguma coisa de muito discreto: ainda não a presença de alguém, mas a possibilidade de um olhar se destacar pouco a pouco de tudo aquilo que, em seu redor, parecia não pertencer a ninguém.

À medida que o paquete avançava, alguma outra coisa parecia, de facto, ganhar os conveses, uma espécie de espaço tornado mais vasto pela ausência de qualquer voz que pudesse interromper a sua continuidade. As passagens alongavam-se sob uma luz cambiante, as portas permaneciam fechadas, os vidros recebiam por um instante o brilho do céu antes de voltarem a escurecer, e por vezes o vento, encontrando a abertura de uma passagem, precipitava-se por ela, fazia tremer uma ferragem ou levantava a borda de uma lona, depois afastava-se deixando atrás de si o mesmo silêncio de antes.

A própria ausência começava então a tornar-se percetível, o que é uma coisa bastante singular, pois, para reconhecer que uma voz falta, é preciso já tê-la esperado; para achar deserta uma passagem, é preciso que alguma coisa em nós tenha silenciosamente previsto que uma silhueta poderia ali aparecer, e talvez o vazio nunca seja inteiramente vazio a partir do momento em que uma espera lhe dá a forma daquilo que poderia preenchê-lo. Assim, aquelas portas fechadas, aquelas cadeiras imóveis, aquelas passagens sem passos não testemunhavam apenas a ausência. Desenhavam em seu redor os contornos de presenças possíveis, como certas regiões do cérebro continuam por instantes à espera do sinal que já não vem e dão, por essa mesma espera, uma forma quase sensível àquilo que falta.

Talvez fosse também por isso que as coisas adquiriam pouco a pouco uma precisão invulgar. Quando nenhum rosto vinha reclamar a atenção, esta podia cair noutro lugar, demorar-se naquilo que a passagem de um corpo teria imediatamente relegado para segundo plano, e o mundo parecia então aproximar-se por detalhes: a curva de uma corda escurecida pela chuva, a brancura de uma boia junto à amurada, a sombra ligeiramente diferente sob a dobra de uma lona, a espuma correndo durante alguns segundos à altura do olhar antes de ser aspirada para trás.

Nenhum desses objetos era importante.

Talvez fosse precisamente por essa razão que podiam tornar-se importantes.

Pois a atenção nem sempre se limita a ir onde alguma coisa já recebeu um sentido. Pode preceder o sentido, reter sem saber porquê, dar a um fragmento do mundo uma nitidez desproporcionada, e depois deixar durante muito tempo esse fragmento sem explicação até que outro venha um dia juntar-se-lhe. O cérebro possui essa imensa reserva de aproximações possíveis onde uma coisa vista sem importância pode permanecer silenciosa durante horas, por vezes durante anos, antes de se tornar subitamente a peça de que uma figura desconhecida precisava para aparecer; e o olhar, quando assim se pousava sobre os objetos do paquete, parecia menos inventariá-los do que recolhê-los.

Ainda não desenhava… Mas talvez alguma coisa começasse já a fazer aquilo que faz um desenho antes mesmo do primeiro traço: escolher, na inesgotável continuidade do visível, aquilo que, por uma razão ainda desconhecida, não devia desaparecer inteiramente com o resto.


Inspirado muito livremente… a partir de
Morgan Robertson, O Naufrágio do Titan
Futility, or the Wreck of the Titan. 1898