“Às vezes lhe parecia que já não era ele mesmo, que se observava agir como um estranho, com uma atenção misturada de pavor. Compreendia perfeitamente o que fazia; podia até explicá-lo, mas essa compreensão não tinha qualquer domínio sobre o que se produzia dentro dele. Tudo se passava como se outra vontade — calma, obstinada, razoável à sua maneira — se substituísse à sua sem consultá-lo. Não era nem uma alucinação nem uma fantasia, mas algo muito mais penoso, porque mais exato. Reconhecia cada movimento, cada pensamento, e, no entanto, já não encontrava neles aquele sentimento de origem que dá ao homem a certeza de ser o autor de seus atos. Sentia que pouco a pouco lhe retiravam o direito de dizer ‘eu’, não por violência, mas por uma lógica tão regular que parecia irrefutável. Essa divisão não se apresentava como um conflito aberto; insinuava-se nos gestos mais simples, nas palavras mais ordinárias, e era essa ausência de drama que a tornava insuportável. Às vezes tinha a impressão de que tudo nele já se conhecia, se julgava, se comentava, enquanto ele ficava para trás, reduzido a constatar. Esse pensamento o mergulhava numa inquietação profunda, pois não lhe deixava sequer a consolação do erro.”
Fiódor Dostoiévski, O Duplo
Caderno de Igniatius
Quando sou Don Carotte, só o conheço na sua relação com Sang Chaud. Não o percebo como aquilo que ele é em mim, mas como um companheiro, quase uma testemunha. Anatole, por sua vez, aparece-me apenas como aquele em que Don Carotte se tornou, nunca como aquilo que se desloca em mim sob esse novo nome. É como se essas partes se conhecessem entre si, falassem, se analisassem, sem jamais me dar acesso ao seu ponto de origem.
Esse descompasso me assusta mais do que quero admitir. Descubro uma discordância entre o que compreendo e o que acontece. Posso nomear. Posso explicar. Mas, ao mesmo tempo, algo age sem me consultar. Não são vozes estrangeiras, nem personagens autônomos no sentido dramático do termo. É mais perturbador. Sou eu, sem ser eu tal como me conheço.
Sinto-me preso num jogo de papéis cujas regras perdi. Reconheço as máscaras, sei de onde vêm, mas já não consigo retirá-las voluntariamente. Elas não me invadem. Movem-se em mim segundo uma lógica que me escapa, e é justamente essa ausência de violência manifesta que me desarma.
Escrevo-lhe porque temo confundir lucidez com resignação. Eu poderia acomodar-me a essa situação, dar-lhe uma forma aceitável, integrá-la ao meu discurso de autor. Mas algo em mim resiste a essa elegância. Sinto que, se continuar assim sem falar disso, corro o risco de me refugiar numa justificativa que mascararia meu verdadeiro desamparo.
Não lhe peço que me diga quem sou em tudo isso. Peço-lhe apenas que me ajude a compreender como viver com esse descompasso entre o que sei e o que faço, entre o que nomeio e o que age. Tenho a sensação de que esses personagens me conhecem melhor do que eu mesmo, e esse pensamento, como pode imaginar, não me deixa em paz.
Receba esta carta como o sinal de uma inquietação que já não consigo manter à distância, e como a prova de que já não sei muito bem onde começa aquele que escreve.
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