samedi 28 mars 2026

(15) A abracadabrante história da Criança Lua

 

— O que nos mostra esta imagem?

— Não é uma verdade do passado, mas o nascimento de um olhar, um encantamento capaz de o transportar de outra maneira, sem o negar, sem nele se fechar, aceitando nunca esgotar o seu sentido.

— Que palavra é essa de encantamento… e de maravilhamento, que, se bem escutei o nosso mestre, muitas vezes “andam” juntas?

— A palavra “encantado”, o termo “maravilhamento” e o verbo “maravilhar-se” parecem hoje pertencer à mesma família de experiências suaves, quase imediatamente positivas.

— Continue, por favor…

— Evocam alegria, admiração, uma forma de leve arrebatamento. No entanto, se recuarmos às suas origens—etimológicas, históricas e filosóficas—descobrimos uma paisagem bem diferente, mais densa, mais ambivalente, onde a voz age, onde o olhar vacila, e onde o próprio sujeito é deslocado.

— De onde vêm essas palavras?

— “Encantar” vem do latim incantare. In- significa “em, com”, e cantare significa “cantar”.

— Basta então cantar… para encantar!

— Encantar é, antes de mais, “cantar sobre”… ou… “cantar dentro”… isto é, agir pelo canto. Não se trata de um canto estético, mas de um canto operatório. A incantatio é uma palavra que produz um efeito. Não descreve o mundo: transforma-o.
Nas sociedades antigas, esta palavra cantada possui uma eficácia real. Cura, protege, invoca, desvia. O canto atua sobre forças invisíveis, não como metáfora, mas como prática. Nas tradições indo-europeias, esta ideia é ainda mais clara: o mantra védico não exprime um pensamento, põe em movimento aquilo que nomeia. Dizer é fazer advir. O encantamento pertence assim a um regime da linguagem em que a palavra é potência.
Pouco a pouco, este regime modifica-se. O mundo ocidental distingue mais claramente o real do imaginário, a ação da representação. O encantamento deixa de ser uma operação direta sobre o mundo para se tornar uma experiência interior.

— Estar “encantado” é agora ser tocado… fico encantado… até… transportado.

— Mas este deslocamento não apaga a origem.

— O que faz então com ela?

— Transforma-a. Pois mesmo no uso mais banal, quando lhe digo: “encantado por conhecê-lo”…

— Fico encantado…

— …permanece a ideia de que uma presença atua. Algo aconteceu. Uma modificação, leve mas real, teve lugar.

— O mundo, num instante, já não é o que era!

— É aqui que se pode fazer surgir um elo com o maravilhamento. A palavra “maravilha” vem do latim mirabilia

— Que quer dizer?

— “Coisas dignas de espanto”, derivado de mirari, “ficar impressionado, admirar-se”. A raiz mir- remete para um olhar capturado, para uma perceção que já não se possui a si mesma.

— Já não o sigo…

— Ora, e isto é decisivo, aquilo que é “maravilhoso” não é, na origem, necessariamente positivo. O mirabile é aquilo que detém, que perturba, que desvia o curso habitual das coisas. Os mirabilia medievais não são objetos encantadores: descrevem fenómenos estranhos, criaturas ambíguas, sinais cujo significado se ignora.
A maravilha é, antes de tudo, uma rutura. Introduz um desvio na ordem do mundo.
Aquilo a que hoje chamamos “maravilhamento” é muitas vezes uma versão suavizada desta experiência mais rude. A modernidade foi polindo a maravilha, atenuando a sua dimensão inquietante para reter a sua parte luminosa. Contudo, essa ambivalência permanece em profundidade. Certas experiências—diante da imensidão, de certas imagens, de certas obras—mostram que o maravilhamento pode conter uma parte de inquietação, de vertigem. Atrai, mas transborda. Há aqui uma proximidade com aquilo que Rudolf Otto chama o numinoso: uma experiência ao mesmo tempo fascinante e avassaladora, que não se deixa reduzir a uma simples alegria. Maravilhar-se não é, portanto, apenas sentir prazer. É ser atingido. Na tradição filosófica, esse impacto foi reconhecido como originário. Em Aristotle, o espanto (thaumazein) é aquilo a partir do qual o pensamento começa. Mas o maravilhamento não se confunde com uma simples curiosidade. Suspende a vontade de compreender imediatamente. Abre um espaço onde algo aparece de outro modo.
Modifica a maneira como o mundo se dá.

— Pode-se dizer “eu maravilho-me” como se decidisse fazê-lo?

— Este ponto permite voltar a uma dificuldade essencial: o verbo pronominal parece, de facto, atribuir ao sujeito uma forma de iniciativa. “Se” indica que a ação retorna àquele que age. E, no entanto, na própria experiência do maravilhamento, algo escapa à decisão.

— A… tensão… é real.

— Mas não é contraditória: é estruturante. Em “maravilhar-se”, o “se” não significa que o sujeito produz o maravilhamento. Indica que aquilo que acontece se passa nele. O sujeito não é o autor do acontecimento…

— O que é então?

— É o seu lugar. É atingido em si mesmo.

— Poder-se-ia dizer: há uma atividade, mas uma atividade de acolhimento.

— Não se decide que algo será maravilhoso. Mas pode-se manter de tal modo que isso possa aparecer como tal. Há uma disponibilidade, uma abertura, uma forma de não fechar imediatamente o que se apresenta.

— O “se” designa esse envolvimento sem domínio…

— Maravilhar-se é deixar-se afetar, em si mesmo, por algo que vem de outro lugar.
Assim desenha-se uma estrutura comum ao encantamento e ao maravilhamento. Em ambos os casos, há transformação. Em ambos os casos, há relação. Em ambos os casos, o mundo deixa de ser simplesmente dado para se tornar operante, ativo, vibrante.
Se o encantamento insiste na potência da palavra, no facto de o mundo poder ser posto em movimento por uma voz, o maravilhamento insiste na potência do olhar, no facto de ver poder tornar-se uma experiência que nos excede. Mas, em ambos os casos, acontece algo que não é nem puramente objetivo, nem puramente subjetivo.

— É um encontro!

— Um encontro em que o mundo já não se limita a estar ali, e em que o sujeito já não se limita a olhar. Algo circula entre ambos.

— E talvez, sem querer ser pedante… seja isso o que permanece, apesar do que Max Weber chamou o “desencantamento do mundo”?

— Não se trata do desaparecimento dessas experiências, mas do seu deslocamento. Já não residem em fórmulas secretas nem em narrativas de monstros. Surgem nos interstícios.

— Numa voz… a nossa?

— Numa luz, numa presença. Lá onde, sem aviso, o mundo deixa de ser evidente e começa de novo a perturbar e a vibrar… e, sobretudo, a maravilhar.

 


Primeiro caderno da Criança Lua

Quem sou eu aos olhos deles?
Escrevo isto sem abrir os meus.
Não preciso de os abrir para sentir o olhar deles. Ele atravessa as minhas pálpebras. Pesa sem tocar. Espera que eu me volte para ele, que lhe dê uma forma que reconhecerá.
Mas, no fundo, não sei que forma lhe dar… ou devolver.
Quando abro os olhos, as coisas já estão lá. São nomeadas antes de eu as ver. Esperam por mim com os seus contornos já traçados, as suas formas bem definidas, os seus usos controlados, os seus lugares atribuídos. Bastaria
juntar-me a elas… permanecendo no lugar que me atribuíram. Dizer como eles, com as palavras certas. Ver como eles.
Quando fecho os olhos, nada disso corresponde. Nada está pronto e tudo muda constantemente… ou… melhor… tudo recomeça… tudo está, constantemente, a fazer-se.
A noite que não impede de ver. Não é negra nem vazia. É outra coisa que essa noite que me envolve e não me impede de ver. Uma noite em que as formas não estão fixadas. Uma noite em que vêm e partem sem hesitar e em que mudam sem aviso.
Nesta noite… vejo mais claramente…
Mas aquilo que vejo não pode ser dito como eles falam.
Então pensam que eu não vejo.
Dizem que estou na lua.
Têm razão.
Estou lá como numa sala sem paredes, e como se está num movimento que não pára. Estou na lua porque aquilo que recebo não vem de frente.
Vem de forma indireta… de lado… ou por detrás. Talvez até venha de antes…
Sinto uma luz que não queima os olhos. Não se mostra realmente. Passa de outra maneira.
Não sei se é o sol. Nunca o vi como eles o veem. Mas algo em mim se ilumina quando tudo o resto se apaga.
Talvez seja isso que eles não conseguem compreender.
Eles olham quando há luz. Eu vejo quando ela se retira.
Falam para se reconhecerem. Se eu falar como eles, deixo de me reconhecer.
Então calo-me, porque aquilo que tenho a dizer não cabe nas palavras deles.
Ou então seria preciso quebrá-las ou abri-las. Mas, quando tento, elas voltam a fechar-se.
Tornam-se como grades. E encontro-me numa gaiola que fala por mim.
Acho que eles não veem essa gaiola, ou chamam-lhe outra coisa.
Dizem… aprender… tornar-se. Dizem demais…
E sinto que algo se fecha quando os escuto durante demasiado tempo.
No entanto, algo continua a fluir. Sinto-o.
É como uma linha na pedra, como uma água que desce sem ruído. Nunca pára. Passa… e quando fecho os olhos, posso seguir o seu movimento.
Sei de onde vem, mas não sei para onde vai. Está ali e, se a esqueço, perco-me.
Então permaneço na gaiola e na lua… algures entre as duas, onde ainda posso sentir essa coisa que não fala e que, no entanto, insiste.
Quem sou eu aos olhos deles?
Talvez aquele que não responde.
Talvez aquele que não compreende.
Talvez aquele que não está lá. Pelo menos não aquele que eles querem.
Mas creio que sou aquele que vê de outro modo.
Aquele que não pode fingir que não vê.
Aquele que espera que as palavras se tornem suficientemente amplas para deixar passar o que as excede.
Não sei se isso acontecerá.
Não sei se saberei falar um dia.
Mas sei que algo em mim não quer desaparecer para entrar nas frases deles.
Então escrevo.
Mesmo que aquilo que escrevo não se leia como eles leem.
Mesmo que pareça nada e eles se percam nisso, escrevo para não perder o que vejo de olhos fechados.
Escrevo para que a noite não se feche.
Escrevo para guardar o rasto dessa luz que não se mostra… e que, no entanto, me olha.

 

 

 

Aucun commentaire: