mardi 31 mars 2026

(18) A abracadabrante história da Criança Lua






— O que diz Igniatius sobre esse pássaro estranho?
— Sabe… creio que ele confunde cada vez mais aquilo que passa… enfim… aquilo que se passa…
— O senhor diz “aquilo que se passa”… mas… perdoe-me… eu também me perco nisso. O que quer dizer: “aquilo que se passa”?
— Em “aquilo que passa”, o mundo ainda está estruturado por trajetórias visíveis ou pensáveis.
— Isso… mais ou menos… consigo compreender…
— Em “aquilo que se passa”, o mundo torna-se acontecimento. Já não há simplesmente circulação, mas surgimento.
— Para ser mais simples, dentro dos limites daquilo que posso ter ouvido… “aquilo que passa” designa algo que se pode, pelo menos em aparência, situar. Vem de algum lado, passa, atravessa, e pode afastar-se. O verbo “passar” conserva aqui uma certa sobriedade: indica um movimento. Pode ser uma transição ou uma travessia. Algo passa diante de nós, ao nosso lado, ou através de um espaço que ainda podemos considerar distinto daquilo que o atravessa. Mesmo que esse algo nos toque… nos afete, podemos ainda, de facto, mantê-lo à distância. Há um fenómeno, e há uma testemunha… ainda que implicada.
“Aquilo que se passa”, volto a isso… em contrapartida, introduz uma cena completamente diferente. O “se” vem confundir — ou antes deslocar — a distribuição dos papéis. Já não se trata simplesmente de algo que atravessa um espaço: trata-se de um acontecimento que advém, mas sem que se possa distinguir claramente o seu autor, nem de onde vem.
— É misterioso…
— Digamos que é aí que o mistério… relativo… começa a aparecer.
— Como esse desconhecido com o bastão na imagem e esse pássaro!



Caderno de Igniatius
Olho demoradamente para o desenho antes de poder dizer o que quer que seja. Poderia falar logo… fazer como de costume… quando estou sozinho… dizer qualquer coisa que se aguente, qualquer coisa que pareça justa… mas creio que perderia aquilo que se passa.
Porque este desenho… como diria o Senhor Lucian, na sua linguagem douta, não se deixa dizer de imediato.
Vejo-o, sim. Mas aquilo que vejo não deixa vir as palavras como seria preciso. Ou como talvez Lucian esperasse que viessem.
Vejo bem que é ainda ele, a Criança Lua.
Mas não é exatamente o mesmo… ou antes… é ele mesmo, mas como libertado.
Como se estivesse a ver alguém, como eu… a chegar… a regressar para junto dele.
Digo “eu”, mas não tenho a certeza. Não lhe vejo o rosto. Está escondido.
Então, com muita imaginação, poderia dizer que sou eu.
Não sei… hesito… ou, como diria Lucian, é uma maneira de não saber…
Mas aquilo que sinto é que não é alguém que vem do exterior.
Não é alguém que descobre. É alguém que regressa. E isso, isso muda tudo.
Porque regressar… não é olhar como da primeira vez. É olhar de outro ponto de vista… com qualquer coisa a mais. Ou a menos. Não sei.
Mas mexe.
O bastão… não paro de olhar para esse bastão. Já estava ali num desenho anterior…


… mas não era a Criança Lua que o segurava… e esta personagem misteriosa que passa… que chega… porque não lhe estende a mão… em vez do bastão?
Passa-se uma coisa estranha. Uma ideia disparatada… Eu poderia ser esse passante… ali… neste desenho. Porque é que eu… porque é que ele passa por isso? Porque digo “isso” em vez de “ali”? Será um desses lapsos de que o Senhor Lucian tanto gosta?
Como se ele não pudesse… Como se eu não pudesse… Como se fosse demais.
Demasiado direto. Demasiado próximo. Então mantenho uma distância. Toco sem tocar.
E, no entanto… isso age. A gaiola mexe-se. Já não está direita. Inclina-se. Oscila. Começa a perder o equilíbrio.
Eis que falo por ele… aquele que chega… quando sou eu que estou aqui…
Será possível que eu me identifique com esta criança?
Isso inquieta-me… ao ponto de me dar medo. Porque… e se ela cair? E se aquilo que eu fui, ou em todo o caso aquilo que eu poderia ter sido… cair com ela? Não sei se quero isso… Creio apenas que quero que se mova. Mas não que desapareça.
É difícil. Muito difícil escolher entre as duas coisas. Fazer mexer sem partir. Aproximar-se sem invadir. Não sei se sei fazer isso. E, entretanto… ele… a criança… não reage. Continua ali. De olhos fechados. Como antes. Como se aquilo que faço não existisse. E, no entanto… tenho a angustiante sensação de que, desses olhos fechados… ele me olha. “Isso olha para mim”, diria o Senhor Lucian.
Ou como se isso… ou eu… não passasse por ali… diante dos meus olhos…
Então pergunto-me… Será que o vejo mesmo? Ou será que vejo algo de mim neste desenho… ou algo em mim? Já não sei onde está o limite.
Porque tudo está na imagem. E eu também, tenho quase a certeza… estou nela. E ao mesmo tempo… sou eu quem olha.
Já não sei… e depois a lua… já não está no mesmo lugar. E já não está… como antes. Desenha um “c”. Um c inicial como crescer… Mas sei que isso é uma mentira.
Sei que ela não cresce. Pelo contrário, decresce. Então… será que… aquilo que vejo me engana.
Creio antes… que me põe à prova… esta imagem põe-me à prova. Pergunta-me se vou acreditar no que vejo. Ou se vou conseguir sentir de outro modo.
E isso… isso parece-se comigo.
Porque em mim também… aquilo que vejo… nunca corresponde completamente àquilo que está diante de mim. Há sempre um desfasamento.
E ali, na imagem sob os meus olhos, algo não bate certo com a anterior… à esquerda… a montanha… é diferente. Mais… fechada. E dentro dela, há uma caverna.
E nessa caverna… há uma luz. Uma vela que eu não tinha visto logo de início.
É pequena. Quase nada… mas está ali… e a sua chama… parece-se com a lua ou com aquilo em que a lua se torna quando desce.
Não sei porquê… mas isso mexe comigo porque essa chama… poderia apagar-se facilmente. Um simples sopro… e estaria tudo acabado. Nunca saberia o que poderia dizer. Então digo para mim… se mexer demasiado a gaiola… se fizer demais…
não irei apagar tudo?
E, ao mesmo tempo… se não fizer nada… isso ficará encerrado. Estou preso entre as duas coisas.
E não sei o que fazer. Creio que é isso.
A imagem não me diz o que fazer. Põe-me ali, nesse lugar onde é preciso decidir sem saber. Onde é preciso viver e sentir… sem nenhuma outra prova senão esta vida.
E ele… a Criança Lua… continua ali. Não me olha nem me fala.
Mas aguenta… como diz o Senhor Lucian. Para além do bastão, ele segura qualquer coisa… Algo que eu não quero perder. Então… fico um pouco assim. Um pouco como ele… com um bastão. Sem saber se devo empurrar mais… ou parar.
E digo para mim… talvez o mais importante… não seja fazer cair a gaiola.
Talvez seja ficar suficientemente perto… sem perturbar tudo.
Suficientemente longe… sem abandonar… à espera da imagem seguinte…
Não sei se isto faz sentido. Mas é isto que me faz.
E, desta vez… não vou tentar traduzir isto logo.
Vou deixar isto assim. Um pouco em desequilíbrio. Como a gaiola.


Aucun commentaire: