lundi 6 avril 2026

(21) A abracadabrante história da Criança Lua


«Assim, o meu propósito não é ensinar aqui o método que cada um deve seguir para bem conduzir a sua razão, mas apenas mostrar de que maneira procurei conduzir a minha… Mas, logo que terminei todo esse curso de estudos, ao fim do qual se costuma ser recebido no número dos doutos, mudei completamente de opinião. Pois encontrava-me embaraçado por tantas dúvidas e erros que me parecia não ter tirado outro proveito, ao procurar instruir-me, senão o de ter descoberto cada vez mais a minha própria ignorância.»
René Descartes, Discurso do Método, Primeira parte
 
 
 
Lucian, com Igniatius, olham e observam os desenhos que este trouxe. Nenhum dos dois compreende o que eles representam… mas ambos sabem, cada um à sua maneira, que estas imagens são espécies de chaves, que poderiam levá-los a compreender por que estão ali… e qual seria essa semelhança misteriosa.
Lucian detém-se nesta abertura.
A coisa aqui não é um objeto. É aquilo que ainda não se deixou tomar na forma de alguém. E, no entanto, assemelha-se a isso. É aí que o perturbação se intensifica. Pois a semelhança chama a reconhecimento. Convida a dizer: «é ele». Mas, no preciso momento em que esse reconhecimento se torna possível, algo se retira. O «ele» reaparece. Já não apenas como o que está «dentro», mas como aquilo que pode tomar a forma de um rosto sem se tornar uma pessoa.
Lucian anota:
«O “ele” pode assemelhar-se sem se identificar.
Pode aparecer sem se tornar alguém.»
Compreende então de outro modo:
«Não é outra coisa também.»
Isto não significa uma coisa no sentido de um objeto. Significa que a alternativa, eu ou alguém outro, não se sustenta.
O «ele» não é alguém outro, mas também não é redutível a uma coisa… tornando impossível essa oposição.
— Quando os olho… diz Igniatius…
— tenho a impressão de que sou… eu…
— mas sem mim.
Lucian não corrige. Anota a fórmula e destaca-a: «eu sem mim».
Compreende que a palavra «coisa» protege isto. Impede a captura. E talvez o que fala nas imagens passe por essa suspensão.
Não alguém que falaria.
Não uma coisa que seria mostrada.
Mas algo, ou alguém, que só pode aparecer com a condição de não ser imediatamente nomeado como tal.
Lucian anota então o que lentamente se forma no seu espírito:
«O dentro não é um lugar. É uma impossibilidade de pôr fora.»
Pois Igniatius disse:
— Quando digo que está dentro… não é que esteja no interior…
— É que… não consigo pô-lo fora.
O «ele» age.
Cada vez que um sentido se fixa, ele desloca-o.
Cada vez que uma ligação se estabiliza, ele desfaz-la.
— É ele que faz com que não se sustente.
Lucian regista esta frase.
O que não se sustenta não é um defeito.
É o efeito deste «ele».
O «ele» não é aquilo que deve ser integrado.
É aquilo que impede qualquer integração completa.
Lucian escreve: «O “ele” não é nem um conteúdo nem uma imagem.
É aquilo que, na imagem, impede que ela se torne um objeto estável.»
Ele detém-se.
Depois acrescenta: «Talvez seja isto que fala.»
Igniatius já não olha para os desenhos. Olha para Lucian.
— Vê-o?
Lucian hesita. Se responder sim, mentiria. Se responder não, falharia algo.
Então diz:
— Vejo que há algo que não posso ver.
Igniatius acena lentamente.
— Sim… é isso.
O «ele» não se torna mais claro. Mas torna-se partilhável. Não como um objeto comum, mas como uma zona comum de impossibilidade. Lucian começa então a compreender de outro modo o que está em jogo. O paciente não traz imagens para interpretar. Traz um lugar onde algo procura ligar-se. E esse lugar não está dado de antemão. Forma-se à medida que as ligações aparecem, se desfazem, se retomam. Algumas sessões não trazem nada. Os desenhos permanecem mudos. As palavras também.
Depois, sem razão aparente, uma ligação faz-se. Uma frase prende-se a um traço. Uma memória junta-se a uma forma. E algo, por instantes, sustenta-se. Depois desfaz-se de novo. O relato deixa de seguir uma linha. Torna-se uma série de retomadas sem continuidade assegurada. Uma rede instável onde o passado permanece presente, mas já não determina inteiramente o que pode advir.
Lucian anota por fim:
«Há imagens.
Não vêm dele.
Não vêm de mim.
E, no entanto, obrigam-nos a deslocar-nos.»
Ele fecha o caderno.
Mas a frase não se fecha. Pois aquilo que se abriu — esse dentro que não é um lugar, esse «ele» sem rosto — não pode ser encerrado. Não cessa. Insiste.
E talvez seja isso, no fundo, que faz com que algo ainda possa acontecer.

Aucun commentaire: