“A ficção é uma mentira que encobre uma verdade profunda.”
Mario Vargas Llosa
As páginas de um livro delimitam um espaço fechado, retirado do mundo imediato. Esse retiro age como uma concentração. Uma luz interior começa a aparecer, não sobre o próprio papel, mas no ato da leitura. E essa luz ilumina menos os objetos do que as próprias condições da perceção. Ilumina os sentidos antes de iluminar… o sentido.
A Criança Lua cresce sozinha. Mas aquilo que reflete dentro dela mal lhe concede repouso. Na sua ilha, constantemente, à sua maneira, permanece à espreita. A linguagem muito particular… demasiado particular… que adquiriu desde os seus primeiros anos quase nunca a abandona. Muito cedo, grandes linhas começadas no infinito sobre a margem vieram pousar… impor-se… repetidamente. Quem saberia dizer aquilo que elas tentam aprisionar.
— Pode-se lutar contra a abominação; os escritores, muitos escritores, fazem-no muito bem, mas com que resultado?
Lentamente, as poucas palavras que aprendeu — muitas por hábito, algumas vezes por prazer, frequentemente à força — diminuem.
— Hoje, correndo o risco de vos frustrar um pouco, começo a gostar desses vazios nos quais desaparecem partes inteiras de uma memória que já não me diz respeito…

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