«A minha alma estava então inteira sobre os meus lábios,
Para saborear o mel que estava sobre os vossos.
Mas, ao retirar-me, ela ficou para trás,
Tanto a prendia o encanto desse doce prazer.
Perdendo-se da minha boca, entrou na vossa,
Ébria desse néctar que encantava a minha razão;
E sem dúvida tomou uma porta pela outra,
Já sem se lembrar de qual era a sua casa.
Desde então, as minhas lágrimas não conseguiram convencer essa infiel
A abandonar uma morada que achou tão doce;
E eu definho, sem repouso e sem ela,
E também sem mim mesmo, quando estou sem vós.»
Para saborear o mel que estava sobre os vossos.
Mas, ao retirar-me, ela ficou para trás,
Tanto a prendia o encanto desse doce prazer.
Perdendo-se da minha boca, entrou na vossa,
Ébria desse néctar que encantava a minha razão;
E sem dúvida tomou uma porta pela outra,
Já sem se lembrar de qual era a sua casa.
Desde então, as minhas lágrimas não conseguiram convencer essa infiel
A abandonar uma morada que achou tão doce;
E eu definho, sem repouso e sem ela,
E também sem mim mesmo, quando estou sem vós.»
Vincent Voiture, «Le Baiser» (1855)
Onde, de tanto se voltar para trás, não se regressa a lugar nenhum…
Foi apenas nesse ponto que ousei retomar a palavra que primeiro escrevera e depois riscara: renascimento.
Caderno de Félix (quarta parte)
Este renascimento que, acima de tudo, não é… um regresso.
Não havia, a meu ver, nada intacto para reencontrar atrás de si, nenhuma infância pura que tivesse ficado à espera, sob a poeira, de que um adulto sentimental viesse libertá-la; e Don Carotte, aliás, avança; não regressa a lugar nenhum. O que faz é muito mais estranho: transporta a sua origem diante de si para que essa origem possa ainda vir a ser; leva aquele que foi não em direção ao lugar de onde vem, mas para um lugar aonde nem um nem outro chegaram ainda.
Talvez seja isso, afinal, que me retém diante desta imagem e me impede de fechar as minhas notas como faria habitualmente depois de ter descrito com suficiente precisão os elementos observáveis: o reconhecimento que faltou ao Menino Lua já não lhe pode ser dado no lugar onde deveria ter sido dado; ninguém recua no tempo para reconhecer uma criança no momento exato em que foi abandonada, e, no entanto, aquilo que não aconteceu não está por isso condenado a nunca mais poder acontecer sob forma alguma, porque certas coisas, quando não foram realizadas, não desaparecem necessariamente: permanecem suspensas.
E talvez seja por isso que Don Carotte fecha os olhos.
Não para saber, nem sequer para se lembrar, mas porque, no momento em que finalmente carrega essa criança cuja existência nunca dependeu do reconhecimento que lhe era recusado, talvez tenha de renunciar por um instante a esse velho hábito humano que consiste em reconhecer começando por identificar, em olhar para alguém e dizer: sei quem és.
A criança, essa, nada tem a responder… ainda não fala.
Está ali, dentro das suas roupas demasiado grandes, carregada pela mesma corda que pode alimentar ou estrangular, suspender ou enforcar, manter unido ou condenar, e essa corda regressa ao ventre do homem que a carrega, como se ela própria se recusasse a escolher, de uma vez por todas, aquilo que significa, como se o seu verdadeiro sentido fosse precisamente ligar esses contrários sem os resolver.
E chego a pensar que o renascimento, se esta palavra deve permanecer, talvez comece aí, nessa impossibilidade de desatar de forma demasiado limpa aquilo que nos ligou, feriu, alimentou e ameaçou, quando aquele que aprendeu a falar consente finalmente em fechar os olhos para ouvir aquele que, muito antes dele, já tinha ouvidos, um corpo, uma fome, talvez um medo, mas ainda nenhuma palavra para pronunciar a sua própria sentença.
O Menino Lua não espera que Don Carotte lhe devolva a vida.
Nunca deixou de viver.
Talvez nem sequer espere ser reconhecido, pois a própria espera já lhe atribuiria uma exigência da qual nada sabemos.
Está simplesmente ali, suspenso nessa estranha anterioridade que o homem transporta agora diante de si… E, enquanto Don Carotte avança, torna-se difícil saber qual dos dois carrega o outro, qual deles ainda deve nascer, ou mesmo se a corda que parece ligá-los não desenha, de maneira muito mais simples e muito mais misteriosa, a continuidade de um único corpo através do tempo.
Assim, no final das minhas notas, poderia conservar a minha primeira frase: «personagem adulto avançando para a esquerda». Se, para um leitor, ela continua exata… ou factual… se ouso dizê-lo a propósito de uma imagem… sei agora que um homem pode avançar durante muito tempo antes de chegar àquele que sempre carregou… e, mesmo aí, ainda hesito em escrever… sei agora que um homem pode avançar durante muito tempo antes de chegar àquele que sempre o carregou…
C%20copie.jpg)
B%20copie.jpg)
Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire