« Escrever é entregar-se ao fascínio daquilo que se esquiva. A escrita começa quando o escritor se apercebe de que é mais falado do que fala.
Uma voz o chama que não é a sua, uma voz sem origem, um pensamento estranho que lhe chega sem o visar.»
Maurice Blanchot, O Espaço Literário
Onde cada frase aguarda a sua encarnação e onde Don Carotte, a meio da sua história, sozinho e não tendo ainda, segundo ele próprio, realizado coisa alguma, como que tomado de vertigem, tanto pelos efeitos das folhas da árvore que acaba de deixar como por essa solidão, engendra aquilo que não compreende.
Flutuando, literalmente sentado sobre um sol caído da tenda desconjuntada de um circo que viaja de ilha em ilha pelo Arquipélago, pena na mão, testa franzida e olhos fechados, deixa vir até si o mais ínfimo destino...
Caderno de Don Carotte
— Há qualquer coisa que me vem, qualquer coisa surda, emaranhada... que se agita e me faz tremer ligeiramente. Torce-me as entranhas e anuncia-se como um pensamento. Mas escapa-me, de um golpe, como a enguia sob a rocha. Está ali, sinto-o... não aqui... (bate levemente no crânio)... mas mais abaixo, ou mais longe... ou dentro... Um dentro profundo que me arrasta...
Levanta-se e, interminavelmente, anda às voltas sobre si próprio...
— Será isto... uma ideia que sinto brotar sob o meu barrete? Uma espécie de saber inteiramente nu, sem o seu vocabulário... ou um murmúrio antigo que nunca chegou a ser formulado? Traço, escrevo, risco, rabisco, apago e, no entanto... sinto-o, olha para mim... atravessa-me de uma ponta à outra... e ainda tremo...
Sinto-a como se eu próprio estivesse a ser pensado... de fora... por um pensamento que não é o meu.
(Detém-se, de olhos muito abertos.)
Não, não devo ficar sozinho... preciso de algum comparsa, à falta de companheira nesta campanha. Alguém que me assista e saiba o que digo antes mesmo de eu o dizer. Um ser... pensante. Sim... mas... não demasiado... e que eu próprio fabricaria, não é verdade! Uma criatura de inteligência... feita em casa... que eu pudesse manter na ponta da pena ou do bastão quando se tornasse demasiado aguçado. É isso... Vou chamar-lhe... Como vou chamar-lhe?... Sang Chaud. Eis Sang Chaud... porque o pensamento verdadeiro... queima! E porque eu tenho frio... tremo e o sangue sobe-me à cabeça assim que alguém me fala de ontologia.
Exausto, deixa-se cair... senta-se novamente e escreve no vazio da página em branco.
— Pois seja Sang Chaud! diz ele, olhando para o vazio ao longe. E já que aí estás, Sang Chaud, fala-me! Explica-me aquilo que me vem e que ainda não consigo apreender. És do meu espírito, portanto bem me deves isso. Mas tem cuidado... se me ultrapassares... como convém ao criador, arrancar-te-ei a palavra... Sou o teu autor, não sou?
Silêncio. Depois, uma voz calma mas firme ergue-se não se sabe de onde. É Sang Chaud que entra em cena.
Sang Chaud
— Poderíeis, Messire Singulier...
Don Carotte
— Don Carotte... esse é o meu nome, e peço-vos que não mo arranqueis!
Sang Chaud
— Messire Don Carotte au noble Fan, agradeço-vos... por distração ou por febre... terdes-me inventado...
Don Carotte, no mínimo perplexo... não sabendo distinguir l’art du bon port, nada encontra para retorquir... Sang Chaud prossegue...
— Certamente, Don Carotte... Talvez eu tenha sido criado para melhor vos compreender... o que ainda está por demonstrar... Mas... ousaria dizê-lo... sim... compreendei que... apesar disso, neste presente, neste começo, queria eu dizer... eu não vos pertenço... ou já não vos pertenço...
Don Carotte
— O mais pequeno passo nessa direção arrisca-se a valer demais... Vilão!
Por sorte, ou por interesses partilhados, Don Carotte diz para consigo que seria melhor acalmar-se...
— Saberei, Sang Chaud, para melhor começar... mostrar-me magnânimo... mas apenas desta vez... Ficai sabendo!
O nome Sang Chaud foi deliberadamente mantido em francês. Literalmente, poderia ser traduzido por «Sangue Quente», mas essa tradução faria perder a rede de sentidos contida no francês: o sangue, o calor, o ardor, o temperamento, a agitação e o próprio impulso corporal do pensamento. Mais importante ainda, quando pronunciado em francês, Sang Chaud faz ouvir muito de perto «Sancho», associação que se torna tanto mais significativa quanto o nome Don Carotte, por sua vez, evoca obliquamente Dom Quixote. O nome é, portanto, «intraduzível» não porque seja impossível encontrar equivalentes para cada uma das suas palavras, mas porque traduzi-las romperia a rede de ressonâncias semânticas, fonéticas e literárias através da qual o nome adquire o seu sentido.

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