«Havia ali uma floresta... uma floresta imensa, um emaranhado inextricável de troncos, lianas, sombras e silêncio... Parecia imóvel e cheia de um olhar hostil. Era impossível atravessá-la sem perder a razão, tal era a maneira como tudo engolia na sua escuridão verde e húmida.»
Segundo Joseph Conrad, No Coração das Trevas (1899), tradução adaptada.
Onde Don Carotte sente intimamente aquilo que, do exterior, mal é visível e aquilo que, pela sua imensidão, lhe dá a impressão de estar a ser escutado...
Excerto do Diário de Don Carotte
Vieram depois os insetos. Primeiro discretos... muito discretos. Julgávamos perceber as suas asas, as suas mandíbulas, a sua insistência. Um zumbido contínuo, que eu imaginava ser o desses insetos invisíveis, insinuava-se até aos meus pensamentos. A presença desse zumbido era mais do que física: infiltrava-se, fazia comichão ao espírito. E permanecia sempre aquela impressão de que, por detrás da cortina verde, alguma coisa escutava.
Já não sabia há quanto tempo caminhávamos. A luz do dia deixara praticamente de variar sob aquela copa tão densa que parecia filtrar o próprio tempo. O meu corpo pesava-me. Parecia-me ser puxado para o chão por uma força maior do que a gravidade. E as árvores, essas grandes guardiãs silenciosas, começaram a transformar-se. Os seus ramos, longos e finos, arranhavam a nossa passagem como dedos ressequidos. Alguns caíam sem ruído ao nosso lado; outros roçavam-nos o rosto como penas ásperas.
Por vezes parávamos e voltávamo-nos de repente. Um ruído demasiado próximo, um estalido a mais. Mas não havia nada.
Nunca havia nada.
Apenas árvores.
Árvores de mais.
Demasiada verticalidade, demasiadas formas semelhantes na relativa imobilidade da sombra.
Tínhamos a impressão de já não conseguir distinguir o alto do baixo...
Depois, substituindo o zumbido, vieram as alucinações sonoras. Vozes deformadas, distantes, talvez as minhas... talvez as da floresta. Palavras que não existiam e que, no entanto, eu ouvia com absoluta nitidez. Julgava reconhecer passos, por vezes mesmo atrás de mim. A minha respiração regressava-me como um eco, mas alterada, como se tivesse passado por outra boca.
Cada tronco se tornava uma ameaça.
Cada folhagem murmurante escondia uma intenção.
Sonhava acordado.
O meu espírito navegava numa outra lógica, numa floresta mental ainda mais sombria do que aquela que me rodeava.
Já não era um observador.
Estava preso.
E, num último clarão de lucidez, compreendi que não era a floresta que era labiríntica.
Era eu que me tornara informe dentro dela.
E depois, sem que eu pudesse dizer como, nem em que momento, o terreno mudara sob os nossos pés, já não estávamos na floresta.
Estávamos no centro de uma clareira.
Subitamente.
Não que a tivéssemos visto surgir ou sentido abrir-se. Não houvera transição, nem ruptura nítida, nem um progressivo rarear da folhagem: encontrávamo-nos simplesmente ali, como se o próprio espaço tivesse deslizado à nossa volta sem que o tivéssemos percebido.
E a clareira alargava-se diante dos nossos olhos.
Estávamos no centro de uma clareira.
Subitamente.
Não que a tivéssemos visto surgir ou sentido abrir-se. Não houvera transição, nem ruptura nítida, nem um progressivo rarear da folhagem: encontrávamo-nos simplesmente ali, como se o próprio espaço tivesse deslizado à nossa volta sem que o tivéssemos percebido.
E a clareira alargava-se diante dos nossos olhos.


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