dimanche 28 juin 2026

(128) A abracadabrante história da Criança Lua


« Estas ilhas, ora rochedos, ora pradarias, ora vales, ora torres, ora ruínas, ora casas, ora túmulos, são como navios encalhados; mas navios de pedra, cheios de sombra, cheios de silêncio, cheios de solidão, que o mar rodeia e com os quais o vento fala. Por vezes, julga-se ouvir vozes nas rajadas; serão as almas dos náufragos ou os gritos das gaivotas, ninguém o sabe.»

Victor Hugo, O Arquipélago da Mancha


A ilha rochosa, fustigada pelos ventos, ergue-se negra e áspera como um punho cerrado levantado contra o esquecimento, no meio de um oceano desencantado. À sua volta, o mar ruge sem cessar, respiração do mundo ou bramido de uma besta ancestral. O céu nunca é exatamente o mesmo. Ora lívido, ora de um azul cruel, ora avermelhado, ora carregado de um ouro sobrenatural. Aqui não existem estações; apenas a sucessão das tempestades, das bonanças e dos suspiros. A luz roça os rochedos como um olhar cansado.
Sobre esta ilha de flancos vergastados ergue-se um estranho teatro. Não construído, mas recolhido, recolhido como se recolhe um sonho lançado à costa. Tábuas partidas, velas desfeitas, mastros inclinados, ferrugem de âncoras mortas, cordagens desatadas: tudo ali é fragmento, ruína, vestígio. E, no entanto, tudo parece pronto. Pronto para uma representação que ninguém virá assistir. Um circo, sim, um circo sem risos nem aclamações, erguido para os ventos e para os espíritos.
Habitam-no figuras muito estranhas.
Um burro, esguio e ágil, cujos olhos profundos encerram a sabedoria dos animais que sabem escutar. O olhar permanece voltado para o horizonte, como se aguardasse um regresso que já não virá.
Uma criança, quase invisível, vestida com um manto desmedido. Mantém-se direita, impassível, como um general moldado em barro. De onde lhe veio semelhante veste? Atrás dela, para além do possível e partilhando o mesmo manto, encontra-se Dom Cenoura... quando não é Pinóquio o Outro, com um pequeno cão inteiramente azul a seus pés. Que mão amorosa — ou irónica — os terá assim vestido e continua a sustentá-los pelos frágeis e emaranhados fios da vida? Ninguém o sabe.
Quase não se movem, mas algo circula entre eles. Um murmúrio. Um sopro. Uma expectativa. São como os guardiões de um enigma. A sua simples presença confere a esta ilha de mil ecos o aspeto de um santuário, de um lugar onde a imaginação deu à costa e começou a respirar.
O vento passa entre eles como um mensageiro. Tange as cordas, assobia nas juntas, fala nas pedras. E, por vezes, sim, por vezes, traz consigo vozes. Vozes que não vêm da ilha, nem do céu, nem sequer das profundezas do mar.
Vozes vindas de um aqui ou de um algures sem margem: a voz do autor, da personagem, do leitor, entidades moventes, conscientes, inquietas, chamando umas pelas outras através das dimensões da página e do silêncio.
Falam... por vezes interrogam... e, sobretudo, perdoai-lhes, duvidam.
E essas vozes, muitas vezes, chegam à ilha.
Transportadas não pelo acaso, mas por algum desígnio misterioso. Como se esta ilha, estes viajantes improváveis, este teatro em ruínas, fossem o receptáculo das suas divagações, o eco tangível da sua consciência errante.
A boneca inclina a cabeça. A sua boca não se move, mas as suas palavras ressoam por dentro, límpidas como o som de uma concha aproximada do ouvido:

— Ouvistes, companheiros, este estranho tumulto?
Estas vozes vindas de longe, que o vento entre nós permuta?
Um autor, leitores... silhuetas dissolvidas nas frases...
Mas por que tamanho alvoroço? Por que tais êxtases?
Estarão eles também perdidos como nós no seu próprio arquipélago,
Errando pelos discursos como aves na sua capela
?

O pequeno cão ganhe suavemente. O burro baixa as pálpebras. Quanto ao vento, toma novo impulso, não para responder, mas para prolongar o enigma. Então percebe-se que esta ilha não está só. Outras surgem aqui e ali, invisíveis talvez, mas formando outros lugares da mesma espécie: arquipélagos do pensamento, arquipélagos da memória. Entre eles circulam os ventos, portadores de fragmentos, de páginas, de palavras mudas ou ilegíveis.
Talvez todos sejamos como eles, cada qual à sua maneira, encalhados algures. Talvez as nossas leituras, as nossas escritas, os nossos pensamentos ou os nossos sonhos sejam precisamente esses ventos que nos unem, que nos falam.
E esta ilha, vergastada pelas tempestades, não passa de um espelho erguido diante do oceano das nossas incertezas.
Um teatro de fortuna, sim, mas vivo e povoado de fragmentos e de fábulas, onde o próprio vento se torna uma palavra errante atravessando as páginas que dão voz aos mundos.


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