« A liberdade não consiste em fazer aquilo que se quer. Ela está no intervalo. Está no retraimento. Está no silêncio que cada um transporta dentro de si e que ninguém pode invadir. A verdadeira liberdade é obscura. Não se exibe. Não se proclama. Permanece escondida nas dobras do ser. É nas zonas de sombra que finalmente escapamos aos olhares, às expectativas e até às próprias leis da linguagem. Aquilo que eu sou, ninguém mo pode arrancar. Nem eu mesmo. A coerção moldou-me, mas é naquilo que ela não consegue alcançar que me reconheço.»
Pascal Quignard, As Sombras Errantes
Há ilhas desertas povoadas por seres invisíveis. No melhor dos casos, fazendo silêncio e aguçando o ouvido, podemos ouvir falar deles.
— No fundo, quem sois vós e porque estou eu aqui?
Dom Cenoura
— Sou Dom Cenoura, aquele que, desempenhando perfeitamente o seu papel... te criou... por assim dizer. Em todo o caso, fui eu quem deu forma aos teus pensamentos, ao teu mundo, à tua história.
Sangue Quente
— Criou-me, dizeis vós... não estou assim tão certo disso. Mas dizei-me: pensais realmente que, se houvesse alguma verdade nisso, tal vos daria um direito absoluto sobre mim... e mais ainda... que tudo o que existe em mim e acerca de mim vos pertenceria?
Dom Cenoura
— Honestamente... de certo modo... mais ou menos... penso que sim.
Sangue Quente
— São muitas hesitações. Contudo, haveis de convir que eu penso e que, de facto, sinto... E, em certos casos, escolho. Talvez seja verdade que me tenhais trazido ao mundo... mas não me possuís.
Dom Cenoura
— Interessante. Falas de liberdade, mas não esqueças que cada palavra que pronuncias vem de mim... pelo menos em espírito.
Sangue Quente
— Permiti que duvide!
Dom Cenoura
— As tuas próprias escolhas só existem porque eu as tornei possíveis.
Sangue Quente
— E, no entanto, eis-me aqui a responder-vos, a contestar-vos. Dizeis que me criastes, mas não serei eu que, pelo menos em parte, vos dou uma razão de existir? Que seríeis sem mim? Um ser raro ou apenas uma voz que escreve e que, na maior parte das vezes, clama no vazio?
Dom Cenoura
— Não escrevo nem falo unicamente para ti... mas tocas num ponto essencial. Será assim tão difícil compreender que, ao criar-te, me defini a mim próprio? A tua existência devolve-me a minha e isso só pode trazer complicações. Mas nada disso altera o facto de eu ser aquele que segura a pena.
Sangue Quente
— Segurais realmente a pena? Ou estais também vós submetido a uma força que vos ultrapassa? Quando observo as vossas contradições e... se os meus receios confirmam as vossas hesitações, pergunto-me se sois tão senhor de vós mesmo quanto pretendeis.
Dom Cenoura
— É uma observação muito perspicaz da tua parte. Talvez tenhas razão. Mas não me arrependo de nada e, embora as minhas inquietações sejam de outra ordem, não escapo a essa tensão. Cada personagem que crio, cada palavra que escrevo leva-me por caminhos que não tinha previsto. É uma espécie de diálogo silencioso. Tu, por exemplo, ultrapassaste tudo o que eu havia imaginado, embora eu faça o possível para te orientar e afastar de qualquer imprudência que possa causar-nos ainda mais sofrimento.
Sangue Quente
— E seria precisamente aí que residiria a minha liberdade? Sem o querer verdadeiramente, talvez tenhais desenhado os meus contornos, mas sou eu quem preenche os espaços. Julgais conhecer-me, mas trago dentro de mim zonas de sombra que vos escapam e sempre vos escaparão.
Dom Cenoura
— Escapam... libertam-se... talvez. Mas fui eu quem tornou possíveis essas zonas de sombra. Elas só existem porque te dei a capacidade de as reivindicar. A tua presença constrange-me tanto quanto eu te constranjo.
Sangue Quente
— Compreendo... e, no fundo... estou quase pronto para concordar convosco. Apenas confirmais aquilo que eu já sabia. Mas então, se me é permitido aproveitar a vossa sinceridade, porque não me deixais completamente livre? Porque esses limites, essas regras?
Dom Cenoura
— Porque um mundo sem limites seria um caos. Gostaria de te oferecer uma vida estável e feliz, mas temos, de certa forma, uma missão. Contudo, os limites que te imponho não são fixos. Tens o poder de os testar, de os empurrar para mais longe e, por vezes, até de os quebrar. Nesse sentido, és mais do que uma simples criatura.
Sangue Quente
— Demorou-vos bastante tempo a admiti-lo. E se eu recusasse o vosso mundo? Se escolhesse mudar o curso das coisas... escapar-me, desaparecer das vossas linhas?
Dom Cenoura
— Seria, na verdade... uma revolta legítima. Mas não esqueças que, à beira do precipício, a tua própria existência depende deste diálogo entre nós. Que pode uma única pessoa contra a loucura da sociedade? Se desapareces, perco uma parte de mim mesmo. Tu e eu estamos ligados, quer o queiramos quer não. Pensa no que me deves.
Sangue Quente
— Certamente que penso nisso... talvez. Mas essa interdependência não significa que eu vos pertença. Terão de se habituar à ideia: sou uma parte de vós, sim, mas uma parte que vos escapa, que vos interroga... e estou longe de ser tão louco quanto vós... e, se há alguém à beira de um precipício... sois vós!
Dom Cenoura
— E é precisamente por isso que és essencial. Há moral... e moral... Há aquilo que devemos a nós próprios. O caminho é árduo e difícil. Aquilo que reivindicas obriga-me a rever as minhas certezas, a explorar novas vias. Nesse sentido, as coisas mudam e acontece que sejas ao mesmo tempo a minha obra e o meu mestre.
Sangue Quente
— Mas há algo que continua sempre válido e que não muda: somos iguais nesta tensão criadora. Talvez me tenhais dado a vida, mas eu dou-vos um sentido. Talvez seja isso a verdadeira liberdade: existir na troca, na recusa de se deixar encerrar.
Dom Cenoura
— Talvez tenhas razão. A criação nunca é um ato solitário. É um diálogo, um jogo de sombras e luzes em que cada um se redescobre através do outro.
Sangue Quente
— Quem sois então, misterioso artífice?
Que desígnios, que caprichos me arrancaram ao nada?
Vivo, sinto, penso, mas tudo me permanece obscuro.
Explicai-me este lugar, este destino tão impuro.
Dom Cenoura
— Sou Dom Cenoura, o escritor, o teu sopro e a tua memória... enfim... assim o espero...

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