Onde dizer que o mundo é limitado... não é alcançar os limites do mundo...
– Acredita que esta história pode ser compreendida?
– Certamente... sem dúvida alguma.
– E, no entanto, deixa a voz arrastar-se como se alguma coisa permanecesse indistinta... talvez até escondida.
– É exatamente o caso. Veja, aquilo que é dito não vem inteiramente de mim. Recebo-o de outras vozes.
– A voz do nosso mestre?
– Entre outras. Mas aquilo que digo vem também de vozes cuja origem desconheço. Nem sempre sei quem fala através delas.
– Então repete palavras sem saber, por vezes, quem é o seu autor?
– Limito-me a transmiti-las.
– É precisamente isso que me inquieta. Repete sem saber sempre.
– Talvez. Mas repetir não é necessariamente reproduzir.
– Como assim?
– Porque aquilo que passa por nós nunca se repete exatamente. As palavras regressam; a situação não.
– Quer dizer que a história muda mesmo quando as palavras permanecem?
– Quero dizer que ela se reapresenta mais do que se repete.
– Creio compreender a nuance. Ela apresenta-se de novo... sob outra forma.
– Exatamente. E é por isso que um leitor atento pode descobrir mais do que aquilo que lhe é mostrado à primeira vista...
– ...desde que aceite não compreender tudo imediatamente.
– Sim. O que ele não pode fazer é declarar que a narrativa está desprovida de lógica apenas porque a sua lógica lhe escapa.
– No entanto, parece-me natural que a examine a partir da lógica que lhe é própria. Como poderia agir de outra maneira?
– Natural... sim. Suficiente... não.
– Porquê?
–
Porque para além das lógicas familiares existem por vezes outras
coerências, regidas por leis menos habituais, mas não menos rigorosas.
– Então o leitor deveria suspender o seu julgamento?
– Pelo menos deveria evitar excluir demasiado depressa aquilo que não compreende.
– Isso é extremamente difícil.
– Sem dúvida. Cada um de nós é limitado.
– Isso toda a gente sabe...
– Não. Toda a gente sabe apenas alguma coisa das suas limitações. E isso é muito diferente.
– Está novamente a andar em círculos.
–
Talvez. Mas não será assim que o nosso mundo funciona?... E como
poderia eu mostrar-lhe os limites daquilo que sei senão através daquilo
que já sei?
– E eu só posso compreender os seus limites através dos meus.
– Exatamente.
– Assim, quando dizemos que o mundo é limitado...
– ...nunca falamos a partir dos limites do mundo.
– Mas apenas dos nossos.
– O que já é muito.
– E muito pouco.
– Como toda a história digna de ser contada.

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