Lucian viaja sob a influência confusa dos desenhos e das narrativas de Igniatius, à procura de eventuais vestígios da passagem da Criança-Lua, de Pinóquio o Outro, de Dom Cenoura e de muitos outros.
Félix também viaja... mas à sua maneira... com os seus próprios recursos, a sua própria leitura e a sua própria visão dos desenhos que lhe chegam.
No entanto, ele também tem de enfrentar a sua imaginação.
Não consegue evitar construir através de uma lógica que o cerca sem descanso.
É assim que também não consegue impedir-se de formular hipóteses acerca destas viagens que, por assim dizer, não têm princípio nem fim... tal como as cartas que recebe de Lucian, que se multiplicam incessantemente em continuações infinitas... sem que ninguém seja capaz de definir a sua origem.
Félix também viaja... mas à sua maneira... com os seus próprios recursos, a sua própria leitura e a sua própria visão dos desenhos que lhe chegam.
No entanto, ele também tem de enfrentar a sua imaginação.
Não consegue evitar construir através de uma lógica que o cerca sem descanso.
É assim que também não consegue impedir-se de formular hipóteses acerca destas viagens que, por assim dizer, não têm princípio nem fim... tal como as cartas que recebe de Lucian, que se multiplicam incessantemente em continuações infinitas... sem que ninguém seja capaz de definir a sua origem.
Carta de Lucian
Meu caro Félix e estimado colega,
Mal tinha escrito e fechado a minha última carta quando, veja bem, Félix, alguma coisa literalmente me saltou ao rosto. Eu sei... a expressão não é muito elegante... talvez fosse o cansaço... ou certas marés...
Talvez fosse aquela sensação de permanecer à beira de uma confissão cuja verdadeira natureza eu próprio ainda ignoro...
Seja como for... devo agora falar-lhe de Igniatius.
Sei quanto o seu nome, apesar da sua expressão impassível, parece perturbá-lo um pouco... e sei que a minha oscilação entre talvez e certamente por vezes o irrita.
Acha que pronuncio esse nome como quem aproxima uma lâmpada de um tecido inflamável... com demasiadas precauções.
Com essa maneira de rodear as coisas que o leva a pensar que procuro menos descrevê-las do que protegê-las.
Talvez não esteja inteiramente errado.
Voltei a ver Igniatius há três dias.
Ou melhor — veja como a própria linguagem já hesita — ele voltou...
tal como o assunto desta carta voltou até mim...
Há nessa nuance, nessa hesitação, uma dificuldade que não consigo resolver.
Algumas presenças parecem entrar numa sala vindas de um exterior perfeitamente identificável.
Outras dão a impressão de emergir lentamente de uma região interior, como se a sua chegada pudesse ser pressentida muito antes da sua aparição visível.
Igniatius pertence a esta segunda espécie.
Ouvi-o subir a escada muito antes de distinguir a sua silhueta.
Vai sorrir outra vez...
a escada estava vazia quando, antecipando os seus movimentos, abri a porta.
Mas o som tinha acontecido.
Ouvi-o, e tomo nota disso porque estes detalhes absurdos acabam por se tornar, por vezes, os únicos pontos fixos de uma recordação.
Depois, de repente, estava ali diante de mim...Trazia debaixo do braço várias folhas enroladas com grande firmeza, quase esmagadas contra o corpo, como quem protege alguma coisa do vento ou dos olhares.
Talvez fosse aquela sensação de permanecer à beira de uma confissão cuja verdadeira natureza eu próprio ainda ignoro...
Seja como for... devo agora falar-lhe de Igniatius.
Sei quanto o seu nome, apesar da sua expressão impassível, parece perturbá-lo um pouco... e sei que a minha oscilação entre talvez e certamente por vezes o irrita.
Acha que pronuncio esse nome como quem aproxima uma lâmpada de um tecido inflamável... com demasiadas precauções.
Com essa maneira de rodear as coisas que o leva a pensar que procuro menos descrevê-las do que protegê-las.
Talvez não esteja inteiramente errado.
Voltei a ver Igniatius há três dias.
Ou melhor — veja como a própria linguagem já hesita — ele voltou...
tal como o assunto desta carta voltou até mim...
Há nessa nuance, nessa hesitação, uma dificuldade que não consigo resolver.
Algumas presenças parecem entrar numa sala vindas de um exterior perfeitamente identificável.
Outras dão a impressão de emergir lentamente de uma região interior, como se a sua chegada pudesse ser pressentida muito antes da sua aparição visível.
Igniatius pertence a esta segunda espécie.
Ouvi-o subir a escada muito antes de distinguir a sua silhueta.
Vai sorrir outra vez...
a escada estava vazia quando, antecipando os seus movimentos, abri a porta.
Mas o som tinha acontecido.
Ouvi-o, e tomo nota disso porque estes detalhes absurdos acabam por se tornar, por vezes, os únicos pontos fixos de uma recordação.
Depois, de repente, estava ali diante de mim...Trazia debaixo do braço várias folhas enroladas com grande firmeza, quase esmagadas contra o corpo, como quem protege alguma coisa do vento ou dos olhares.
Parecia ainda mais magro do que na minha lembrança.
Ou talvez simplesmente mais distante.
Pousou os desenhos sobre a mesa sem me olhar imediatamente.
Depois começou a falar da Criança-Lua.
Estranhamente, nunca disse: «a minha personagem.»
Falava dele como de um ser já encontrado.
Como se evocasse uma criança avistada várias vezes à beira de um porto deserto.
Dizia:
"Ele julga dormir quando fecha os olhos. Mas é precisamente nesse momento que começa a ver."
Ou ainda:
"O seu chapéu é demasiado grande porque contém mais noite do que a sua cabeça."
Transmito-lhe estas frases apenas de forma aproximada. A sua exatidão importa menos do que o movimento que produziam em mim enquanto ele falava.
Pois algo de extremamente estranho se impôs então ao meu espírito com uma força quase desagradável.
Tive a súbita certeza de que Igniatius era o autor da Criança-Lua... e não apenas o autor dos desenhos que o representam.
Não falo de uma convicção intelectual.
Falo de uma sensação muito mais profunda e muito mais imediata.
Como quando reconhecemos subitamente uma voz por detrás de uma divisória antes mesmo de sabermos a quem pertence.
Tudo parecia concordar.
A maneira como descrevia os silêncios da Criança.
A forma como falava dos mantos demasiado grandes como se fossem uma segunda pele.
Essa insistência nos olhos fechados que veem melhor do que os olhos abertos...
Até as pausas entre as suas frases pareciam já pertencer à personagem.
Experimentava essa impressão perturbadora de que a Criança-Lua era menos representada por Igniatius do que prolongada por ele.
Como se a figura atravessasse o seu corpo no próprio instante em que ele falava.
E, no entanto... É precisamente aqui que tudo começa de novo a vacilar.
Enquanto descrevia a Criança, algumas das suas frases davam-me também a impressão de já terem existido em mim antes dele.
Compreenda bem aquilo que tento exprimir.
Não era a sensação banal do déjà-vu. Era muito pior. Por vezes tinha a impressão de ouvir regressar até mim formulações que pareciam provir de uma região antiga do meu próprio pensamento, mas das quais não encontrava qualquer vestígio escrito.
Como se Igniatius falasse a partir de um lugar onde as minhas próprias imagens tivessem continuado a existir sem mim.
Sei perfeitamente quão ridículo isto pode parecer.
É precisamente por isso que lho escrevo.
Houve mesmo um instante muito breve, apenas alguns segundos, em que me perguntei se certas frases atribuídas a Igniatius não provinham, na realidade, dos meus próprios cadernos.
Imediatamente essa ideia me pareceu absurda.
Levantei-me. Caminhei até à janela. Lá fora, o mar estava quase negro. Mal se distinguia a passarela vermelha através do nevoeiro. Quando me voltei, Igniatius observava um dos meus desenhos preso à parede. Observava-o com uma atenção tão fixa que senti nascer em mim um mal-estar quase físico.
Depois disse, suavemente:
"Você também está a tentar reencontrá-lo."
Não lhe perguntei de quem falava. Creio que tinha medo da resposta. Ou pior ainda: medo de que não houvesse resposta alguma. Desde esse dia, uma ideia persegue-me.
E se inventar significasse outra coisa que não fabricar?
A própria palavra talvez contenha uma verdade esquecida. Invenire. Encontrar. Descobrir.
Dar com aquilo que já estava lá sem ainda ter recebido uma forma visível. Nesse caso, o que inventa realmente aquele que escreve?
Produz uma figura?
Ou reconhece gradualmente uma presença que já procurava aparecer através dele? Já não sei.
Nem sequer sei com certeza se lhe escrevo esta carta para o informar... ou para verificar que alguém, para além de mim, continua a receber estes acontecimentos no mesmo mundo.
A coisa mais inquietante, Félix, talvez seja esta:
quanto mais tento estabelecer claramente a origem da Criança-Lua, mais a própria origem parece deslocar-se. Como se a figura recuasse à medida que avançamos na sua direção. Como se utilizasse precisamente as nossas tentativas de explicação para continuar a sua passagem de um ser para outro. Deixo-o agora. Volto a ouvir alguém na escada. Ou talvez seja apenas a madeira a trabalhar sob o vento marítimo.
A esta hora, as duas coisas tornam-se quase impossíveis de distinguir.
Ou talvez simplesmente mais distante.
Pousou os desenhos sobre a mesa sem me olhar imediatamente.
Depois começou a falar da Criança-Lua.
Estranhamente, nunca disse: «a minha personagem.»
Falava dele como de um ser já encontrado.
Como se evocasse uma criança avistada várias vezes à beira de um porto deserto.
Dizia:
"Ele julga dormir quando fecha os olhos. Mas é precisamente nesse momento que começa a ver."
Ou ainda:
"O seu chapéu é demasiado grande porque contém mais noite do que a sua cabeça."
Transmito-lhe estas frases apenas de forma aproximada. A sua exatidão importa menos do que o movimento que produziam em mim enquanto ele falava.
Pois algo de extremamente estranho se impôs então ao meu espírito com uma força quase desagradável.
Tive a súbita certeza de que Igniatius era o autor da Criança-Lua... e não apenas o autor dos desenhos que o representam.
Não falo de uma convicção intelectual.
Falo de uma sensação muito mais profunda e muito mais imediata.
Como quando reconhecemos subitamente uma voz por detrás de uma divisória antes mesmo de sabermos a quem pertence.
Tudo parecia concordar.
A maneira como descrevia os silêncios da Criança.
A forma como falava dos mantos demasiado grandes como se fossem uma segunda pele.
Essa insistência nos olhos fechados que veem melhor do que os olhos abertos...
Até as pausas entre as suas frases pareciam já pertencer à personagem.
Experimentava essa impressão perturbadora de que a Criança-Lua era menos representada por Igniatius do que prolongada por ele.
Como se a figura atravessasse o seu corpo no próprio instante em que ele falava.
E, no entanto... É precisamente aqui que tudo começa de novo a vacilar.
Enquanto descrevia a Criança, algumas das suas frases davam-me também a impressão de já terem existido em mim antes dele.
Compreenda bem aquilo que tento exprimir.
Não era a sensação banal do déjà-vu. Era muito pior. Por vezes tinha a impressão de ouvir regressar até mim formulações que pareciam provir de uma região antiga do meu próprio pensamento, mas das quais não encontrava qualquer vestígio escrito.
Como se Igniatius falasse a partir de um lugar onde as minhas próprias imagens tivessem continuado a existir sem mim.
Sei perfeitamente quão ridículo isto pode parecer.
É precisamente por isso que lho escrevo.
Houve mesmo um instante muito breve, apenas alguns segundos, em que me perguntei se certas frases atribuídas a Igniatius não provinham, na realidade, dos meus próprios cadernos.
Imediatamente essa ideia me pareceu absurda.
Levantei-me. Caminhei até à janela. Lá fora, o mar estava quase negro. Mal se distinguia a passarela vermelha através do nevoeiro. Quando me voltei, Igniatius observava um dos meus desenhos preso à parede. Observava-o com uma atenção tão fixa que senti nascer em mim um mal-estar quase físico.
Depois disse, suavemente:
"Você também está a tentar reencontrá-lo."
Não lhe perguntei de quem falava. Creio que tinha medo da resposta. Ou pior ainda: medo de que não houvesse resposta alguma. Desde esse dia, uma ideia persegue-me.
E se inventar significasse outra coisa que não fabricar?
A própria palavra talvez contenha uma verdade esquecida. Invenire. Encontrar. Descobrir.
Dar com aquilo que já estava lá sem ainda ter recebido uma forma visível. Nesse caso, o que inventa realmente aquele que escreve?
Produz uma figura?
Ou reconhece gradualmente uma presença que já procurava aparecer através dele? Já não sei.
Nem sequer sei com certeza se lhe escrevo esta carta para o informar... ou para verificar que alguém, para além de mim, continua a receber estes acontecimentos no mesmo mundo.
A coisa mais inquietante, Félix, talvez seja esta:
quanto mais tento estabelecer claramente a origem da Criança-Lua, mais a própria origem parece deslocar-se. Como se a figura recuasse à medida que avançamos na sua direção. Como se utilizasse precisamente as nossas tentativas de explicação para continuar a sua passagem de um ser para outro. Deixo-o agora. Volto a ouvir alguém na escada. Ou talvez seja apenas a madeira a trabalhar sob o vento marítimo.
A esta hora, as duas coisas tornam-se quase impossíveis de distinguir.

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