mardi 9 juin 2026

(105) Continuação das fadigas da viagem


Continuação da carta de Lucian, na qual Félix compreende que uma das duas cartas anteriores provavelmente nunca lhe deveria ter chegado às mãos. Lê e relê esta nova versão... e a continuação da mesma, cujo entusiasmo ou cuja verve, tão invulgares, estão longe de abrandar. Lucian não apenas «varia» ao repetir-se... como revela cada vez mais a sua face oculta... e a ligeira febre não para de aumentar. Se ontem Félix atribuía tudo isso às fadigas da viagem... hoje as suas dúvidas começam a dissipar-se. Está profundamente preocupado... mas continua a esperar que este estado seja apenas passageiro.


Continuação da carta de Lucian

Então sentou-se e, enquanto desenrolava alguns desenhos, começou a falar do Menino Lua.
Ah, Félix… como eu gostaria de poder transmitir-lhe a perturbação exata que senti naquele instante em que, para mim, Igniatius já não era um homem a descrever uma personagem; era uma voz a falar de outra voz que parecia tê-la ouvido antes mesmo de a compreender.
Dizia ele:
— Quando fecha os olhos, não é a noite que começa. É o mundo visível que se interrompe.
Ou ainda:
— O seu manto é demasiado vasto porque transporta mais do que um único corpo.
E, enquanto falava, algo em mim começou a tremer como uma agulha magnetizada à procura de um norte oculto. De súbito, uma terrível convicção impôs-se ao meu espírito com a violência silenciosa das certezas que nascem antes dos raciocínios. Igniatius era o autor do Menino Lua. Não no sentido banal em que um escritor inventa uma figura para preencher páginas… não. Quero dizer que ele parecia pertencer organicamente a essa criatura, como a concha pertence ao molusco ou o relâmpago à tempestade. Cada frase que pronunciava parecia já ter atravessado a carne secreta da personagem.
Até os seus silêncios possuíam a mesma respiração.
Até as suas hesitações pareciam revestidas pelo grande manto noturno da Criança.
E, no entanto — eis aqui o lugar da vertigem — no exato momento em que essa convicção crescia dentro de mim, outra sensação, ainda mais obscura, começou lentamente a erguer-se das profundezas da minha memória.
Certas frases…
Meu Deus, como é difícil escrever isto sem sentir imediatamente vergonha das próprias palavras…
Certas frases davam-me a impressão de terem regressado até mim.
Não como recordações comuns, mas como aves negras que reencontrassem o seu antigo poleiro após anos de ausência.
Por vezes, tinha a impressão aterradora de que Igniatius exprimia em voz alta imagens que outrora tinham atravessado o meu pensamento sem jamais alcançarem a escrita.
Compreende o abismo?
Já não era simplesmente ele a falar do Menino.
Era como se uma região inteira do meu próprio imaginário me fosse subitamente restituída por uma voz estrangeira.
Durante alguns segundos, apenas alguns segundos — mas há segundos que bastam para fender uma vida inteira — perguntei-me se certas palavras atribuídas a Igniatius não provinham dos meus próprios cadernos esquecidos.
Imediatamente essa ideia me pareceu monstruosa. Levantei-me quase bruscamente.
O mar golpeava as falésias com aquela majestade lúgubre dos oceanos noturnos que se assemelham a imensos rebanhos invisíveis galopando através das trevas. A passarela vermelha surgia por instantes no nevoeiro, como uma ferida suspensa sobre as águas.
Quando me voltei, Igniatius contemplava um dos meus desenhos fixado na parede. E o olhar com que o observava… Félix, nunca vi um homem olhar uma imagem daquela maneira. Parecia menos um espectador do que um sobrevivente reconhecendo subitamente uma paisagem da sua infância, há muito submersa.
Depois murmurou:
— O senhor também… procura reencontrá-lo.
Reencontrá-lo… ouve essa palavra? Reencontrar.
Como se ele já tivesse existido.
Como se o Menino Lua precedesse as suas próprias aparições.
Como se nós dois — ele falando, eu desenhando — fôssemos apenas instrumentos desajeitados de uma figura que procura lentamente a sua passagem pelo mundo.
Desde então, uma ideia persegue-me com a obstinação de uma maré montante. E se inventar não significasse criar?
O velho latim sabia-o melhor do que nós: invenire… encontrar… descobrir… deparar-se com aquilo que já aguardava na sombra.
Então quem escreve realmente?
Aquele que fabrica… ou aquele que encontra?
Começo por vezes a acreditar que as verdadeiras figuras escolhem elas mesmas os seus passadores.
Atravessam vários seres, várias vozes, vários cadernos. Circulam. Migram.
E cada um acredita ser a origem, quando talvez não tenha sido mais do que uma etapa.
É por isso que a origem do Menino Lua recua cada vez que avanço em sua direção. Igniatius conduz-me aos desenhos. Os desenhos reconduzem-me a certas regiões esquecidas da minha própria memória. Os meus cadernos parecem por vezes preceder as palavras de Igniatius.
E as suas palavras iluminam de súbito páginas que eu já nem sequer me lembrava de ter escrito.
Quem precede quem? Quem chama? Quem responde?
Tudo isto… ignoro.
Talvez a figura… já não sei como nomear esta voz… ou esta presença… se alimente precisamente dessa impossibilidade.
Talvez viva na própria passagem.
Volto a ouvir alguém na escada… ou o vento… ou a minha memória.
A esta hora, meu caro Félix, receio que essas três coisas possuam exatamente o mesmo rosto. »


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