Continuação da carta de Lucian, na qual Félix compreende que uma das duas cartas anteriores provavelmente nunca lhe deveria ter chegado às mãos. Lê e relê esta nova versão... e a continuação da mesma, cujo entusiasmo ou cuja verve, tão invulgares, estão longe de abrandar. Lucian não apenas «varia» ao repetir-se... como revela cada vez mais a sua face oculta... e a ligeira febre não para de aumentar. Se ontem Félix atribuía tudo isso às fadigas da viagem... hoje as suas dúvidas começam a dissipar-se. Está profundamente preocupado... mas continua a esperar que este estado seja apenas passageiro.
Continuação da carta de Lucian
Então sentou-se e, enquanto desenrolava alguns desenhos, começou a falar do Menino Lua.
Ah, Félix… como eu gostaria de poder transmitir-lhe a perturbação exata que senti naquele instante em que, para mim, Igniatius já não era um homem a descrever uma personagem; era uma voz a falar de outra voz que parecia tê-la ouvido antes mesmo de a compreender.
Dizia ele:
— Quando fecha os olhos, não é a noite que começa. É o mundo visível que se interrompe.
Ou ainda:
— O seu manto é demasiado vasto porque transporta mais do que um único corpo.
E, enquanto falava, algo em mim começou a tremer como uma agulha magnetizada à procura de um norte oculto. De súbito, uma terrível convicção impôs-se ao meu espírito com a violência silenciosa das certezas que nascem antes dos raciocínios. Igniatius era o autor do Menino Lua. Não no sentido banal em que um escritor inventa uma figura para preencher páginas… não. Quero dizer que ele parecia pertencer organicamente a essa criatura, como a concha pertence ao molusco ou o relâmpago à tempestade. Cada frase que pronunciava parecia já ter atravessado a carne secreta da personagem.
Até os seus silêncios possuíam a mesma respiração.
Até as suas hesitações pareciam revestidas pelo grande manto noturno da Criança.
E, no entanto — eis aqui o lugar da vertigem — no exato momento em que essa convicção crescia dentro de mim, outra sensação, ainda mais obscura, começou lentamente a erguer-se das profundezas da minha memória.
Certas frases…
Meu Deus, como é difícil escrever isto sem sentir imediatamente vergonha das próprias palavras…
Certas frases davam-me a impressão de terem regressado até mim.
Não como recordações comuns, mas como aves negras que reencontrassem o seu antigo poleiro após anos de ausência.
Por vezes, tinha a impressão aterradora de que Igniatius exprimia em voz alta imagens que outrora tinham atravessado o meu pensamento sem jamais alcançarem a escrita.
Compreende o abismo?
Já não era simplesmente ele a falar do Menino.
Era como se uma região inteira do meu próprio imaginário me fosse subitamente restituída por uma voz estrangeira.
Durante alguns segundos, apenas alguns segundos — mas há segundos que bastam para fender uma vida inteira — perguntei-me se certas palavras atribuídas a Igniatius não provinham dos meus próprios cadernos esquecidos.
Imediatamente essa ideia me pareceu monstruosa. Levantei-me quase bruscamente.
O mar golpeava as falésias com aquela majestade lúgubre dos oceanos noturnos que se assemelham a imensos rebanhos invisíveis galopando através das trevas. A passarela vermelha surgia por instantes no nevoeiro, como uma ferida suspensa sobre as águas.
Quando me voltei, Igniatius contemplava um dos meus desenhos fixado na parede. E o olhar com que o observava… Félix, nunca vi um homem olhar uma imagem daquela maneira. Parecia menos um espectador do que um sobrevivente reconhecendo subitamente uma paisagem da sua infância, há muito submersa.
Depois murmurou:
— O senhor também… procura reencontrá-lo.
Reencontrá-lo… ouve essa palavra? Reencontrar.
Como se ele já tivesse existido.
Como se o Menino Lua precedesse as suas próprias aparições.
Como se nós dois — ele falando, eu desenhando — fôssemos apenas instrumentos desajeitados de uma figura que procura lentamente a sua passagem pelo mundo.
Desde então, uma ideia persegue-me com a obstinação de uma maré montante. E se inventar não significasse criar?
O velho latim sabia-o melhor do que nós: invenire… encontrar… descobrir… deparar-se com aquilo que já aguardava na sombra.
Então quem escreve realmente?
Aquele que fabrica… ou aquele que encontra?
Começo por vezes a acreditar que as verdadeiras figuras escolhem elas mesmas os seus passadores.
Atravessam vários seres, várias vozes, vários cadernos. Circulam. Migram.
E cada um acredita ser a origem, quando talvez não tenha sido mais do que uma etapa.
É por isso que a origem do Menino Lua recua cada vez que avanço em sua direção. Igniatius conduz-me aos desenhos. Os desenhos reconduzem-me a certas regiões esquecidas da minha própria memória. Os meus cadernos parecem por vezes preceder as palavras de Igniatius.
E as suas palavras iluminam de súbito páginas que eu já nem sequer me lembrava de ter escrito.
Quem precede quem? Quem chama? Quem responde?
Tudo isto… ignoro.
Talvez a figura… já não sei como nomear esta voz… ou esta presença… se alimente precisamente dessa impossibilidade.
Talvez viva na própria passagem.
Volto a ouvir alguém na escada… ou o vento… ou a minha memória.
A esta hora, meu caro Félix, receio que essas três coisas possuam exatamente o mesmo rosto. »


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