« As árvores começavam já a espaçar-se, formando alguns grupos isolados, e os raios de luz penetravam mais facilmente através das altas ramagens. O terreno apresentava também um certo declive, que não tardou a transformar-se numa encosta bastante íngreme.
Embora estivesse consideravelmente cansado, Godfrey teve força de vontade suficiente para não abrandar o passo. Teria corrido, sem dúvida, se a inclinação das primeiras encostas não lho tivesse impedido.
Em breve, subira o bastante para dominar a massa geral daquela cúpula verdejante que se estendia atrás dele e da qual emergiam, aqui e ali, algumas copas de árvores.
Mas Godfrey não pensava em olhar para trás. Os seus olhos não abandonavam aquela linha de cumeada despida que se recortava quatrocentos ou quinhentos pés adiante e acima dele. Era a barreira que continuava a esconder-lhe o horizonte oriental.
Um pequeno cone, truncado obliquamente, elevava-se acima daquela linha acidentada e ligava-se, por suaves encostas, à crista sinuosa desenhada pelo conjunto das colinas.
«Ali!… Ali!…», disse Godfrey para consigo. «É aquele o ponto que tenho de alcançar!… É o cume daquele cone!… E, de lá, o que verei?… Uma cidade?… uma aldeia?… o deserto?»
Extremamente excitado, Godfrey continuava a subir, apertando os cotovelos contra o peito como se quisesse conter as batidas do coração. A respiração, um pouco ofegante, fatigava-o, mas não teria tido paciência para parar e recuperar o fôlego. Ainda que tivesse de cair, meio desfalecido, no cimo do cone, que já não se erguia senão uns cem pés acima da sua cabeça, não queria perder um único minuto a demorar-se.
Finalmente, mais alguns instantes e alcançaria o seu objetivo. A encosta parecia-lhe bastante íngreme daquele lado, formando um ângulo de trinta a trinta e cinco graus. Ajudava-se com os pés e as mãos; agarrava-se aos tufos de erva rala do talude, aos poucos e magros arbustos de lentisco ou de murta que se escalonavam até à crista.
Fez um último esforço! Por fim, a sua cabeça ultrapassou a plataforma do cone, enquanto, deitado de bruços, os seus olhos percorriam avidamente todo o horizonte a leste…
Era o mar que o formava e que, umas vinte milhas mais além, se confundia com a linha do céu!»
Jules Verne, L’École des Robinsons

Onde Sang Chaud guia Don Carotte, um pouco perdido, talvez um pouco delirante e tendo perdido parte da memória… mas também, contra todas as expectativas, tendo descoberto a grande árvore… Talvez também ele tivesse uma dúvida… estaria aquela árvore realmente ali… ou seria produto da imaginação de ambos…
Excerto do diário de Sang Chaud
— Já não tinha a certeza de possuir um corpo… nem de ter caminhado durante tanto tempo… nem sequer de alguma vez ter abandonado a clareira. E, no enorme tronco da árvore à qual, não sei como, tínhamos subido, julguei ver, ou adivinhar, a forma de um rosto. Seria o dele… ou simplesmente o meu próprio reflexo, projetado por alguma coisa que me conhecia havia mais tempo do que aquele que eu próprio levava a viver?
O que estava ali, na árvore… e que Don Carotte observava… só ele o sabia… Fitava a árvore havia já muito tempo, num silêncio tão intenso que parecia absorver o mais pequeno movimento como uma batida do coração. Já não se mexia. Todo o seu ser se concentrara na visão, tenso em direção àquela forma gigantesca, àquele tronco vasto como uma torre antiga, constelado de marcas, saliências, fendas onde a sombra se afundava.
Era uma concentração absoluta, quase dolorosa. Observava a casca como um marinheiro observa o longínquo horizonte de um oceano… não para ali ver alguma coisa, mas para detetar aquilo que poderia acontecer.
E então houve um estremecimento.
Ligeiro. Quase impercetível. Mas foi suficiente para fazer vibrar qualquer coisa no seu olhar. Um franzir da testa. Uma tensão nos maxilares. Pequenos arrepios ao longo dos braços…
Alguma coisa se tinha mexido… mas não fora a árvore inteira. Não. Fora sobre ela… no limite do visível, numa das reentrâncias do tronco, onde os motivos se confundiam com formas orgânicas, entre as linhas e as cavidades, dera-se um deslizamento. Como uma ligeira variação na textura… ou como se um fragmento de casca tivesse inspirado e se tivesse movido por si próprio.
— Sang Chaud… — disse-me ele num murmúrio, sem desviar os olhos.
— Eu sei — respondera eu simplesmente, em vez de eu vi.
Pois, naquele momento, era eu quem sabia. Eu que, desde o início, abrira o caminho e permanecia lúcido quando o aspirante a cavaleiro sem montada se perdia nas suas visões. Mas ali, até eu… parecia-me estar reduzido ao essencial: um sopro misturando-se com o ar pesado…
Ainda não tínhamos visto uma silhueta silenciosa a poucos passos de nós.
Levantei um braço. Lentamente. Com uma lentidão estudada, feita para não perturbar o frágil equilíbrio daquele momento. Estendi o indicador, não em direção à árvore inteira, mas para um ponto preciso da sua imensa superfície.
E, sem uma palavra, indiquei um lugar bem preciso.
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