« Aquilo que me acontece não acontece a ninguém, é anónimo pelo próprio facto de me dizer respeito.»
Maurice Blanchot, O Espaço Literário, « A solidão essencial », Gallimard, 1955, p. 31.
Onde Félix, tendo o cuidado de não expor uma teoria da escrita, descobre, ao olhar e sentir aquilo que Lucian e Igniatius fizeram, que essa descoberta começa a dizer-lhe respeito a ele próprio.
Caderno de Félix
Creio que começo a compreender por que razão me enganava sempre que procurava saber qual dos dois, Lucian ou Igniatius, tinha inventado as personagens que figuram nos cadernos e nos desenhos, como se a invenção tivesse necessariamente de pertencer a alguém e bastasse, para resolver o problema, recuar o suficiente para encontrar o proprietário da primeira ideia. Olhava para Lucian, depois para Igniatius, comparava os seus desenhos, as suas maneiras de fazer, as suas frases, até mesmo as suas hesitações, com aquela obstinação profissional que durante tanto tempo me fez acreditar que um fenómeno se torna mais inteligível assim que conseguimos atribuir-lhe uma origem, e descubro agora que aquilo a que chamava a origem talvez fosse precisamente o que me impedia de ver o que se tinha passado.
Ocorreu-me que eles provavelmente não começaram por inventar a Criança Lua... teriam chegado até ela.
E antes dela já havia Pinóquio, o Outro, se é que ainda posso empregar este « havia » sem deixar entender que se tratava de uma personagem inteiramente constituída, à espera, algures, de ser descoberta. Pinóquio, o Outro, tinha sido feito, desfeito, desmembrado, retomado... alguma coisa nele deixara de poder manter-se dentro da forma que primeiro lhe fora dada, e essa própria impossibilidade começara a trabalhar. Aquilo que eu tomava pela substituição de uma personagem por outra parece-me agora muito mais uma passagem durante a qual a forma antiga não desaparece inteiramente, mas se torna incapaz de conter aquilo que lhe está a acontecer. A Criança Lua não teria, portanto, sido imaginada no lugar de Pinóquio, o Outro... teria aparecido no ponto em que Pinóquio, o Outro, já não podia continuar a ser apenas aquilo que tinha sido.
E apercebo-me de que esta diferença muda quase tudo aquilo que eu pensava até então. Agora ainda consigo ver Lucian inclinado sobre os desenhos de Igniatius, reproduzindo os seus gestos, tentando menos copiar o resultado do que entrar no movimento que tornara esse resultado possível... mas eu tinha inicialmente considerado isso como um método, talvez até como um estratagema bastante hábil: imitar para compreender. Não tinha visto aquilo que a imitação podia fazer àquele que imita, pois, quando um gesto é reproduzido com atenção suficiente, deixa de ser apenas o gesto de outro. O braço aprende alguma coisa que o espírito não tinha previsto, a mão encontra uma resistência, o traço desvia-se, uma forma chama outra, e aquele que julgava seguir começa a produzir aquilo que não teria sabido conceber antes de começar a traçá-lo.
Talvez... e isto continua a ser uma hipótese... tenha sido assim que a Criança Lua começou a existir entre eles. Digo entre eles, e sinto imediatamente quanto prefiro esta expressão a « por eles ». « Por » manteria ainda um autor por detrás da sua obra, uma vontade que comanda, uma causa suficientemente forte para explicar o seu efeito. « Entre », pela sua dupla significação, nada retira a Lucian nem a Igniatius, mas obriga a considerar aquilo que passa de um para o outro, aquilo que se modifica durante a passagem e que, precisamente porque se modifica, já não pode pertencer inteiramente àquele de quem provém.
Pergunto-me então se não foi isso que fizeram com Pinóquio, o Outro, antes mesmo de saberem que o estavam a fazer. Levaram-no suficientemente longe para que a personagem deixasse de confirmar aquilo que eles já sabiam sobre ela. Alguma coisa se desfez diante dos seus olhos e, em vez de repararem a figura, de a reconduzirem à sua primeira coerência, deixaram que essa falha produzisse as suas consequências. A madeira abriu-se, a marioneta perdeu a evidência de ser marioneta, o corpo dispersou-se, e dessa dispersão surgiu uma figura que já não podia trazer o mesmo nome porque já não habitava exactamente o mesmo mundo.
Então volto a pensar naquela frase que me tinha regressado à memória: por que razão escrevemos, afinal, senão para escapar à prisão do eu e às suas banalidades?*
* Gabriel Josipovici, Moo Pak, Les Nomades–Quidam éditeur, p. 20.
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