Onde a noite, sem promessa, nada desvendava. Aquilo que, na sua sombra, permanecia ainda invisível não assumira compromisso algum para com o olhar que, algures naqueles conveses silenciosos, começava talvez apenas a aprender quanto o ato de ver depende também daquilo que se esquiva.
Muito longe, fora do alcance de qualquer olhar, uma massa de gelo prosseguia lentamente a sua deslocação, não em direção ao paquete, pois não conhecia nem a sua presença nem a sua rota, mas ao sabor dos ventos, das correntes e das temperaturas que há muito a transportavam… e enquanto um avançava transformando o espaço em tempo ganho, o outro derivava sem nada ganhar nem perder, de tal modo que o possível encontro entre ambos ainda não existia em parte alguma como acontecimento, mas apenas naquela estranha região onde dois movimentos que se ignoram podem já pertencer à mesma história.
Talvez o cérebro fosse precisamente o lugar onde uma história assim podia começar antes de ser compreendida. Uma mudança quase impercetível no ar.
Talvez uma escuridão mais compacta… ou uma aberta que, se aparecesse, não seria de início mais do que o ténue esboço de uma aurora.
E essa atenção sem rosto, ainda incapaz de dizer aquilo que esperava, que já retinha certos pormenores com um cuidado cuja razão desconhecia.
A noite podia continuar a espalhar-se. As máquinas, a ronronar. Nada acontecera ainda… mas alguma coisa começara a tornar-se possível.

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