lundi 29 juin 2026

(129) A abracadabrante história da Criança Lua


« Existem instantes, lugares a meio caminho entre o mundo visível e o mundo invisível, onde o tempo se suspende, onde a coexistência de um e de outro nos dá acesso a uma verdade mais bela e mais verdadeira. Só esses encontros inestimáveis com o outro nos ajudam a compreender o próprio ato de ver ou de pensar. »

Cynthia Fleury, Metafísica da Imaginação



— Será possível que existamos num outro espaço que não o das palavras que nos designam?

— Talvez... mas, nesse caso, não seríamos aqui senão reflexos... e, nesses reflexos, haveria imagens de nós... mas incompletas...

— As palavras e as imagens que nos designam seriam incompletas?

— Perfeitamente incompletas, se assim me posso exprimir. Aquilo que é dito e mostrado assemelha-se a nós... mas não somos nós.

— Como poderá então o leitor saber melhor quem somos?

— Seria preciso que o leitor atravessasse a superfície das palavras da linguagem e das imagens... coisa que acontece quase automaticamente, embora permanecendo numa profundidade relativamente limitada... mas não seria melhor que começássemos nós próprios a nossa viagem?

— A pé?

— Com humildade, até encontrarmos uma montada à vossa medida... Mas... Dom Cenoura, se mo permitis, e sem vos querer faltar ao respeito, encontro-me demasiado pequeno... Se, pela graça do vosso poder, pudésseis aumentar um pouco a minha modesta estatura, ficar-vos-ia eternamente reconhecido...

— Meu amigo, o poder de que falais não é outro senão o da imaginação. Usai-o também vós, e então vereis o mundo de uma maneira completamente diferente... Mas guardai-vos dos excessos da ambição. Eu sou o herói desta história, e não me agradaria nada que alguém me fizesse sombra.

— Falai-me ainda desse poder secreto, desse poder que ainda não conheço.

— É daqueles que não podem ser revelados. Revela-se apenas aos que dele são dignos.

— E quais seriam os sinais dessa dignidade?

— Antes de tudo, a humildade, meu caro... tudo começa pela humildade... E não esqueçamos que não estamos aqui para divertir.

— Humilde Dom Cenoura... isso soa muito bem. Teríeis a bondade de me elevar um pouco?

— Há na vossa polidez um certo excesso que não consigo distinguir por inteiro, mas que sinto como se dela nascesse uma leve ponta de ironia...

— Humilde sou... mas, se estamos aqui para contrariar o mundo, não é necessário, nem muito apropriado, contrariar-me também a mim. Tenho respeito por mim próprio e, por isso mesmo, exijo-o dos outros. Enfim, não nos demoremos nisso, pois chegou o momento de me encontrar uma montada à altura da minha desmedida...

— Há, Dom Cenoura, neste Arquipélago, uma espécie discreta... muito discreta... que... se conseguirdes convencê-la, saberá conduzir-vos até onde pareceis querer chegar!

— É espantoso ver como antecipais o meu próprio pensamento. Tende cuidado para não ir demasiado à frente. Nesse ponto sou bastante intransigente... Mas dizei-me: que criaturas são essas? E estarão elas em condições de cumprir a missão para a qual nos reunimos? Serão, porventura, Houyhnhnms?

— Segui-me, Mestre Cenoura!

— Se tiver de vos deter a cada instante, nunca chegaremos a parte alguma! Sou Dom Cenoura da Plancha e não sou nem Deus nem mestre... Podeis chamar-me simplesmente Dom Cenoura. Bastará.

Dito isto, seguindo dignamente os passos de Sangue Quente, dirigiram-se para os confins da ilha. O caminho, se é que existia algum, longe de ser fácil, haveria de lhes reservar muitas surpresas.


Aucun commentaire: