lundi 31 août 2026

(194) A abracadabrante história da Criança Lua

Continuação de (193)

Onde Félix, ainda sem renunciar aos seus escrúpulos racionais, prossegue um pensamento que já começou a alongar-se, a regressar sobre si mesmo e que, à medida que avança, se deixa ainda mais modificar por aquilo que examina.




Continuação do caderno de Félix

Reli várias vezes essas passagens, e ocorreu-me então que aquilo que até ali me impedira de compreender certos meandros desta história talvez residisse precisamente na minha necessidade de recolocar as causas antes das consequências, os autores antes das personagens, os acontecimentos antes dos seus relatos, como se toda verdadeira compreensão devesse acabar por restabelecer uma única ordem temporal cujas perturbações só pudessem ser erros, omissões ou artifícios. Ora, aquela folha impunha-me algo mais inquietante: o efeito podia tornar-se o caminho que permitia reencontrar a causa, aquilo que vinha depois podia despertar o que acontecera antes, e um gesto presente podia devolver à memória um gesto antigo que, sem ele, teria permanecido inacessível. Não se tratava de fazer realmente o tempo andar para trás; eu ainda não tinha chegado a esse ponto. Mas tornava-se mais difícil sustentar que o nosso acesso ao passado tivesse necessariamente de respeitar a direção segundo a qual esse passado ocorrera.

Pois era precisamente isso que acabara de me acontecer. Eu não recuperara uma recordação que me tivesse permitido reproduzir um gesto; reproduzira alguma coisa do gesto, ou pelo menos alguma coisa que se lhe assemelhava, e a recordação regressara no seu encalço. O depois reabrira o antes, fórmula de que imediatamente desconfiei, talvez justamente porque me agradava demasiado, mas da qual nem por isso conseguia livrar-me.

A memória não recuara docilmente ao longo de uma cronologia para ir buscar o acontecimento ao lugar que lhe fora atribuído; alguma coisa, no presente, encontrara o vestígio de uma ação antiga, e esse encontro fizera surgir o passado a partir do próprio ponto onde eu me encontrava. Pensei então no Menino Lua e naquela maneira que ele parecia ter de chegar à reflexão através daquilo que fazia, sem precisar de estabelecer previamente o que haveria de compreender, como se o gesto e o pensamento pudessem remeter um para o outro antes mesmo de uma fronteira suficientemente estável ter sido traçada entre ambos. Continuava sem saber se ele escrevera realmente aquela página, nem sequer até que ponto essa questão conservava o sentido que durante tanto tempo lhe atribuíra, mas começava a compreender por que razão ela lhe podia ser atribuída sem que essa atribuição se reduzisse necessariamente à procura de um autor.

Quando cheguei finalmente às últimas linhas, que tinham portanto sido, materialmente, das primeiras a ser escritas, e li « O tempo tendo-me sido contado », depois a evocação do gabinete de reflexão onde o espelho, na « obscura claridade da vela », lançava « uma ponte de si para si », alguma coisa se ordenou sem contudo se fechar. A palavra reflexão encontrava-se quase exatamente no lugar aonde a página me conduzira, entre uma coisa e o seu regresso, entre aquele que olha e aquilo que lhe devolve o olhar, entre um movimento que parte e outro que parece regressar, com esta nova dificuldade em decidir definitivamente qual dos dois deve ser considerado primeiro, a partir do momento em que cada um transforma aquele que lhe responde.

Até os « vaivéns impertinentes muitas vezes, impermanentes certamente » que encerravam a passagem me pareceram então descrever menos uma conclusão do que um método, pois aquela página não ia simplesmente do princípio para o fim: fora produzida do fim para o princípio, e tinha depois de ser reconquistada no sentido inverso por aquele que quisesse lê-la, como se precisasse de várias direções para se tornar ela própria e como se o seu sentido não residisse inteiramente nem no percurso daquele que a escrevera nem no daquele que a decifrava, mas algures no cruzamento entre ambos, nesse lugar instável onde cada um começa a depender do outro.

Compreendi talvez então por que razão essa ideia de uma inversão do tempo, que de início me parecera desproporcionada, continuava apesar de tudo a acompanhar-me. Não acreditava mais do que antes que o passado pudesse voltar a tornar-se presente nem que as consequências precedessem realmente as suas causas; o que agora me parecia menos seguro era a convicção de que pensar exige sempre seguir o mesmo sentido das coisas de que procuramos dar conta. Talvez algumas só se tornem visíveis no regresso; talvez seja por vezes necessário chegar até aquilo que parece ser o fim para descobrir o que, desde o começo, já ali estava.

E pareceu-me então bastante curioso que uma página atribuída ao Criança Lua  tivesse podido ensinar-me isso sem, em momento algum, mo ensinar.


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