
Onde Félix, sem abandonar os seus escrúpulos racionais, deixa o pensamento alongar-se, voltar sobre si mesmo e modificar-se pouco a pouco por aquilo que examina.
Caderno de Félix
Ainda precisei de algum tempo para perceber que a dificuldade talvez viesse precisamente da simplicidade do procedimento, de tal maneira eu procurara uma transformação que tivesse sido aplicada posteriormente ao texto, um espelho, uma rotação, alguma operação capaz de deformar uma escrita inicialmente comum, quando bastava imaginar que a própria ordem tivesse sido deslocada desde o instante em que os caracteres haviam sido introduzidos. Aquilo que eu tomara por uma complicação reduzia-se assim a uma regra quase infantil, mas cujas consequências me pareceram suficientemente estranhas para que eu permanecesse algum tempo a considerá-la antes de ousar formulá-la para mim mesmo: a última letra era a primeira.
Não, evidentemente, a primeira a ser lida, mas a primeira a ter sido colocada ali, se a minha hipótese estivesse certa, de modo que a escrita começara no próprio lugar onde a leitura deveria terminar, avançando depois às avessas em direção ao seu próprio começo. Aquele que fabricara essa página não se limitara, portanto, a escrever uma frase para depois invertê-la… Tinha empreendido o texto a partir da sua extremidade, conservando a cada instante uma ordem cuja continuidade o leitor só poderia reencontrar percorrendo o caminho inverso. Segui várias linhas para me certificar e, à medida que o mecanismo se tornava evidente, senti que algo mais embaraçoso do que a resolução de um enigma acabava de se introduzir na minha leitura, pois eu precisava agora admitir que, para chegar ao começo, deveria partir daquilo que fora o fim.
Quase tive vontade de sorrir diante da facilidade com que uma simples disposição de letras podia fazer nascer pensamentos tão vastos, e essa reação pareceu-me suficientemente razoável para que nela me demorasse. Afinal, tratava-se apenas de escrita, de uma ordem de digitação substituída por outra, e falar a esse respeito de uma inversão do tempo teria tido algo de excessivo que, noutra época, eu teria afastado sem maior exame. No entanto, a ideia persistia, não porque eu imaginasse de repente que o tempo pudesse realmente voltar-se ao contrário, mas porque essa página me obrigava a experimentar uma situação na qual o antes e o depois deixavam de coincidir segundo o ponto a partir do qual eram considerados. O que fora primeiro para aquele que escrevia tornava-se último para mim, que lia; aquilo que constituía o acabamento do texto fora o ponto de partida da sua execução, e eu devia, para reencontrar a ordem a que estava habituado, percorrer em sentido contrário a sucessão real dos gestos que o haviam produzido.
Recomecei, portanto, desta vez seguindo a regra, e as primeiras palavras que me chegaram de volta foram:
« Num começo… »
Permaneci nesses três vocábulos mais tempo do que teria desejado, sem dúvida porque fora necessário alcançar a outra extremidade do texto para encontrar esse começo e porque se tornava difícil, mesmo desconfiando da elegância sempre suspeita das coincidências demasiado perfeitas, não ouvir o que esse encontro produzia. O começo já não era apenas aquilo que se encontrava antes do resto… tornava-se aquilo que se podia alcançar depois de descobrir como regressar a ele. Talvez não houvesse nisso intenção alguma, talvez Igniatius tivesse atribuído ao Menino Lua o que outro compusera, talvez Lucian tivesse mais uma vez modificado aquilo que afirmava apenas transmitir, e eu sabia suficientemente bem o que valem as filiações quando começam a passar de mão em mão para não tratar essas reservas com leviandade; contudo, elas já não bastavam, por si sós, para esgotar aquilo que se passava diante dos meus olhos.
Prossegui a leitura, e o olho que, «num começo», se abria sobre aquilo que o via… depois esse mundo contendo outros mundos, as anfractuosidades, os palácios, os deuses, o Mestre, aquele que «no caminho da escrita, caminha e se perde», até chegar à frase «A morte, já, estava ali diante dos meus olhos», pareceram-me de súbito pertencer a uma página muito menos inocente do que eu supusera a princípio. Eu tinha precisamente diante de mim uma escrita na qual o fim estivera presente desde o primeiro gesto, já que a última letra do texto tivera de ser a primeira escrita, e essa morte «já ali»deixava então, pelo menos durante o tempo em que eu a lia, de ser apenas uma fórmula. Materialmente, na própria fabricação daquela página, aquilo que deveria vir no fim precedera todo o resto.
Quase de imediato me censurei por essa aproximação, sabendo como é fácil, quando a forma e o conteúdo começam a responder um ao outro, transformar o seu encontro em intenção e a sua proximidade em prova, mas o texto parecia divertir-se maliciosamente a complicar a minha prudência. «Aquilo que aconteceu naquele dia não é simplesmente aquilo que podia acontecer. Foi. Realizou-se.» Depois vinha essa porta atravessada, entrada num sentido e saída no outro, « ou o inverso », e essa afirmação segundo a qual a História possuiria um sentido que as histórias não teriam; mais adiante ainda surgiam as perguntas sobre o que acontecera no instante anterior, sobre o que iria acontecer no instante seguinte, sobre essas cadeias de causas às quais talvez atribuamos com demasiada facilidade a fidelidade de produzirem sempre os mesmos efeitos, até surgir a hipótese de uma Ordem estabelecida « desde sempre e para todo o sempre ».
Continua…
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