jeudi 2 avril 2026

Limite (Tradução portuguesa)



“Quando considero a pequena duração da minha vida, absorvida na eternidade precedente e seguinte, o pequeno espaço que ocupo, e mesmo que vejo, abismado na infinita imensidão dos espaços que ignoro e que me ignoram, sinto medo e espanto ao ver-me aqui em vez de ali; pois não há razão para aqui em vez de ali, para agora em vez de então. Quem me colocou aqui? Pela ordem e condução de quem este lugar e este tempo me foram destinados? Memoria hospitis unius diei praetereuntis. Que é o homem no infinito?”

Blaise Pascal, Pensamentos



“As minhas limites estão agora bem delimitadas…”

Excerto do primeiro caderno da Criança Lua

— A frase é bela, mas contém já uma pequena torção sobre a qual vale a pena deter-se…
— A que se refere?
— Obrigado por me permitir ir, mesmo que ligeiramente, além… Aquilo em que tropeço é neste verbo delimitar, que parece opor-se ao verbo limitar…
— Está a tocar numa ilusão gramatical que, na realidade, abre um abismo conceptual…
O prefixo “des-” em português (como “dé-” em francês) carrega muitas vezes um valor de retirada, de negação, até de inversão. Poder-se-ia então pensar que “delimitar” seria o oposto de “limitar”, como se delimitar fosse retirar um limite.
— E então?
— No entanto, acontece aqui algo muito mais subtil. “Limitar” significa restringir, conter, impedir a expansão. É uma operação sobre um movimento já em curso. Há uma ideia de travão.
“Delimitar”, pelo contrário, traça sem retirar. Desenha e faz surgir uma forma ao marcar os seus contornos. Delimitar é fazer existir algo como distinto.
— Então o prefixo não é uma negação!
— Exatamente. É uma operação de revelação. Não desfaz o limite; estabelece-o.
Poder-se-ia dizer: limitar atua sobre uma força, delimitar sobre uma forma. Mas isso não resolve a tensão. Aprofunda-a.
Pois toda delimitação implica já uma limitação.
Ao traçar um contorno, fixo um dentro e um fora. O que é delimitado é também limitado.
— Isso poderia fechar o movimento…
— Como diz… e no entanto, ao dizer “ir ligeiramente além”, mostra o contrário.
Uma limite bem delimitada permite pensar um além. Sem limite clara, não há além, apenas continuidade indistinta.
— E o que aparece então?
— A possibilidade da sua travessia. A limite torna-se superfície sensível. Já não apenas aquilo que detém, mas aquilo que responde. Um convite silencioso.
Ir “ligeiramente além” não destrói a limite.
— O que é então?
— É experimentá-la.
— “Experimentá-la” como?
— Ao tocá-la… e sendo tocado por ela.
Nesse contacto, algo se transforma. A limite desloca-se, reconfigura-se.
— Nunca é ultrapassada de uma vez por todas…
— É um lugar de experiência.
— Delimitar não é fechar…
— É tornar visível onde algo pode começar a transformar-se.
— E esse “ligeiramente”…
— É aí que a limite se torna um limiar vivo.
— Que não desaparece ao ser atravessado…
— …Mas acompanha cada passo além.

*
 A expressão latina Memoria hospitis unius diei praetereuntis pode entender-se como “a memória de um hóspede de passagem”.

Mas hospes designa tanto quem recebe como quem é recebido. O hóspede nunca ocupa um lugar fixo.

Assim, a memória não é um recipiente estável. É atravessada. O que guarda transforma-a.

E “um só dia” pode significar que o próprio dia é o hóspede. Ele vem, ilumina e parte.

Nós tornamo-nos então o lugar por onde os dias passam.

A memória é o que resta dessas passagens: não presenças intactas, mas traços que já se apagam.

Assim, o que passa não desaparece totalmente, mas o que permanece nunca é estável. É uma memória habitada pela passagem. Uma hospitalidade frágil concedida ao que apenas vem… e vai.


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