mercredi 1 avril 2026

Existência



 
“Declaro, portanto, que o oniromante* deve estar bem equipado com o seu próprio fundo e servir-se do seu próprio juízo, e não se limitar aos livros; pois aquele que julga dever tornar-se um oniromante perfeito apenas pela arte, sem habilidade natural, permanecerá imperfeito e não chegará a bom termo, tanto mais quanto maior for o seu hábito da arte: pois, se se errou desde o princípio, quanto mais se avança, mais se erra.”

Artemidorus of Daldis, Onirocriticon


O alhures da Criança Lua e dos seus companheiros—Pinocchio o Outro, Don Carotte, Sang Chaud e alguns outros—não é um lugar geográfico, mas um espaço de sentido que se abre ou se fecha conforme os encontros. A existência é essa travessia incessante de espaços imprevisíveis, onde cada passo envolve o ser inteiro.
Digo frequentemente que a existência é uma permanência fora de. Mas esse “fora de” não é um simples afastamento. É um desprendimento. Mantenho-me fora dos meus hábitos e das minhas seguranças. E, no entanto, mantenho-me firme. Há aqui uma tensão fundamental: não me desmorono, mas também não repouso sobre nada de estável. A existência é essa permanência sem apoio.
É por isso que ela é inseparável do tempo. Não do tempo mensurável, mas do tempo vivido, do tempo que se abre quando algo acontece. No acontecimento, veja, o tempo deixa de ser sucessão. Torna-se profundidade. O instante já não é um ponto; é um campo onde o passado se reconfigura e onde o futuro se desenha sem ser previsível. Existir é habitar essa profundidade temporal.
Descubro também que a existência não se prova. Não se demonstra conceptualmente. Verifica-se na prova. Onde nada acontece, onde tudo funciona segundo regras estabelecidas, a existência retira-se. Reaparece quando o mundo se torna problemático, quando exige de mim uma transformação da minha maneira de estar presente.
Assim, existir não é sobreviver, nem simplesmente durar. Existir é responder ao que vem sem recorrer a um modelo prévio. É consentir à abertura, mesmo quando ela é vertiginosa. E, se falo de existência, nunca é para a definir, mas para testemunhar essa experiência frágil e decisiva em que, subitamente, algo faz mundo—e em que, no mesmo movimento, me torno outro do que era.
*
A palavra oniromante vem do grego antigo oneiros (ὄνειρος), “sonho”, e krinein (κρίνειν), “julgar, discernir, interpretar”. O oniromante é, portanto, originalmente, aquele que distingue no sonho, que opera uma triagem, uma leitura, uma decisão. Não se limita a receber a imagem noturna: julga-a, no sentido antigo do termo—dela extrai um sentido possível, experimenta o seu alcance.