dimanche 18 octobre 2026

(250) A abracadabrante história da Criança Lua

 « Por enquanto, temos, de um lado, a escarpa das ciências físicas, na qual podemos ler tudo o que diz respeito à formação do mundo e ao desenvolvimento biológico do homem, e, do outro, a escarpa das ciências humanas e das disciplinas que se ocupam dos tempos da pré-história e da história, e que nos ensinam como viveram os seres humanos depois de ultrapassado o limiar decisivo da hominização. Mas não dispomos de nenhuma representação familiar do instante em que, pela primeira vez, uma fêmea pré-humana apertou nos braços o bebé humano que acabara de dar à luz, nem da maneira como as capacidades humanas dessa criança começaram por se manifestar, a partir do momento em que a mãe a encaminhou, como necessariamente teria de fazer, para o mundo dos adultos.

Para termos o sentimento da legitimidade do nosso ser, nós, seres humanos, precisamos de um discurso das origens, de uma representação histórica do mundo e, portanto, de uma genealogia (ainda que imaginária ou mítica) que nos insira na continuidade das coisas. É assim que o Livro do Génesis, por exemplo, enumera a descendência de Adão, que começa com Set (que Adão teria gerado aos cento e trinta anos) e prossegue até Abraão.»

Michael Francis Gibson, Ces lois inconnues, Métailié, p. 33.

Onde Igniatius, viajando pelas terras das suas personagens, se interroga, entre muitas outras questões, sobre uma palavra tão simples e familiar como «dentro». Descobre que esta pequeníssima palavra abre um abismo insuspeitado. Como poderia estar simplesmente «dentro do desfiladeiro», se este participa em tudo aquilo que experimenta? Uma vertigem ainda mais singular apodera-se dele quando se apercebe de que o seu cérebro faz aparecer o mundo no qual julga encontrar-se. Já não procura saber se pertence à paisagem ou se a paisagem lhe pertence, mas descobre, nessa circulação à qual não é possível atribuir uma origem, que é feito da mesma matéria de que é feito o desfiladeiro, sem que as suas diferenças tenham de desaparecer.

Caderno de Igniatius

O desfiladeiro, que a princípio eu tinha descrito como um lugar onde entrava, começava então a tornar-se estranhamente impossível de distinguir daquilo que estava a viver. Já não podia reduzi-lo a um conjunto de pedras, árvores e água dispostos à minha volta. Era também a frescura que sentia na pele, a dificuldade dos meus passos, o cheiro a humidade que persistia na minha respiração, as imagens produzidas na minha cabeça, a mudança de ritmo do meu corpo quando parava diante do ribeiro. Era como as recordações que certas formas fazem nascer. Como o próprio pensamento através do qual tentava agora compreender o que me estava a acontecer. Dizer que a paisagem estava dentro de mim teria sido, no entanto, ainda demasiado simples. Teria sido necessário imaginar um «eu» anterior, no qual ela pudesse ter entrado. Ora, aquilo que começava precisamente a sentir era que esse «eu» não saía intacto de tal encontro. Sentia que ele nunca se teria constituído independentemente daquilo que o atingia.

Já não sabia, portanto, exatamente o que significava dizer que estava «dentro» do desfiladeiro.

Estava ali, sem dúvida, através do meu corpo, que ocupava uma posição mensurável entre duas rochas. Mas o desfiladeiro estava igualmente dentro desse corpo, através de todas as sensações possíveis. Através das forças às quais os meus músculos respondiam. Estava ainda, de outra maneira, nessa atividade cerebral que, recebendo todas essas diferenças, construía à minha volta a extensão dentro da qual eu julgava depois situar o meu próprio corpo. Encontrava-me assim num espaço que o meu cérebro contribuía para produzir a partir do mundo ao qual esse mesmo cérebro pertencia. E esse movimento voltava sobre si próprio com uma suavidade tão perfeita que se tornava impossível dizer onde começava. O mundo produzia um organismo capaz de perceber o mundo. Esse organismo fazia aparecer um mundo percebido. Depois, esse mundo percebido modificava, por sua vez, o organismo que o percebia.

Foi nesse instante que a própria expressão «a paisagem olha para mim» começou a incomodar-me. Conservava ainda dois termos colocados um diante do outro. Como se a paisagem estivesse aqui e eu ali, cada um voltado para o seu interlocutor, quando tudo aquilo que experimentava tornava essa disposição cada vez menos sustentável. Também não se tratava de dizer que eu era a paisagem, se com isso pretendesse dissolver as árvores, a água e as rochas numa qualquer extensão desmesurada de mim próprio. O desfiladeiro não precisava de mim para existir. Existira antes de mim e sobreviver-me-ia. Continha, a cada instante, uma imensidão de fenómenos aos quais eu nunca teria acesso. Contudo, aquele a quem chamava «eu» também não era uma substância estranha que tivesse vindo colocar-se diante dele.

Descobria-me feito de tudo aquilo de que o desfiladeiro era feito.

A matéria do meu corpo não tinha outra origem senão a do mundo de que este desfiladeiro era uma forma momentânea. A água que trazia dentro de mim pertencera, antes de mim, a inúmeras circulações. O ar que entrava nos meus pulmões acabava de passar entre as folhas. Os próprios átomos através dos quais os meus olhos recebiam a luz tinham conhecido, antes do meu nascimento, histórias que eu nunca poderia seguir. O meu cérebro, com essa extraordinária capacidade de abrir distâncias onde, a princípio, não recebia mais do que diferenças de luz, não tinha caído no mundo vindo de algum exterior. Era uma das coisas que o mundo acabara por produzir.