jeudi 12 février 2026

Leitura inicial

 

« Meu corpo é, portanto, no conjunto do mundo material, uma imagem que age como as outras imagens, recebendo e devolvendo movimento. Mas essa imagem tem algo de particular: ela parece escolher, em certa medida, a maneira de devolver aquilo que recebe. Ela não acrescenta nada ao que recebe, mas subtrai. Não cria movimento; retarda-o ou desvia seus efeitos.
Entre a excitação recebida e a reação executada, há uma zona de indeterminação. Essa indeterminação não é um vazio: ela é preenchida por uma atividade latente, por uma tensão que pode resolver-se de várias maneiras diferentes. O sistema funciona, mas hesita.
Essa própria hesitação é a condição da novidade. Não se trata de uma ruptura na continuidade dos movimentos, mas de uma variação na sua distribuição. Onde tudo se transmitia mecanicamente, algo se reflete, se atrasa, se modifica. E essa modificação basta para fazer surgir um modo de ação inédito.»

Henri Bergson, Matéria e Memória

Dependendo do modo como se olha para as coisas, cada maneira de ver, por mais diferente que seja das outras, pode ter seus méritos. A atividade já está lá—difusa, distribuída, mantida por trocas constantes. Populações neuronais descarregam segundo ritmos que se estabilizaram ao longo do tempo. A energia circula, os potenciais se compensam, os circuitos se fecham sem esforço aparente. Nada ainda pede para ser formulado. O sistema funciona.
Então algo se desloca, muito levemente, na forma como essa atividade se distribui. Uma sincronização deixa de ser perfeitamente regular. Uma oscilação ganha amplitude numa zona precisa. Não é um excesso. Não é um defeito. É uma variação local dentro de um conjunto que, até então, era coerente.


Leitura inicial…
À primeira vista, essa imagem poderia encenar uma tensão imediatamente legível, quase arquetípica, entre o desequilíbrio humano e a estabilidade animal, entre um mundo anguloso e um mundo orgânico onde o vazio teria seu lugar. À esquerda, um homem de terno, com o chapéu erguido, escorrega ou cai ao longo de rochas abruptas, vermelhas e violáceas, que evocam uma arquitetura instável, uma parede ou um cenário teatral rígido demais para acolher um corpo vivo. O gesto de levantar o chapéu, ao mesmo tempo cortês e ridículo, sugere uma tentativa de manter a dignidade social no exato momento em que ela se desfaz. Não se trata de uma queda violenta, mas de uma perda de aderência: o homem já não é sustentado pelo mundo que habita. No entanto… uma ambiguidade se instala desde o início.
No centro, uma tábua estreita—mas será realmente isso?—faz as vezes de passagem. Ela não liga verdadeiramente duas margens; ela suspende… suspensa ela própria. É uma linha frágil, quase absurda, que lembra tanto o fio do equilibrista quanto a frase sobre a qual um texto avança. Sente-se a precariedade do vínculo, a possibilidade constante do desequilíbrio. Sob essa tábua, um motivo espiralado sugere um movimento mais antigo, mais profundo, como uma corrente subterrânea ou uma memória enrolada—in suma, uma onda indiferente às figuras da superfície.
À direita, o animal. Um burro está sentado, voltado para o homem sem agressividade. Onde o humano escorrega, o animal permanece estável. Sua postura não expressa ameaça nem socorro explícito, mas uma presença atenta. Ele encarna uma forma de estabilidade que não é nem moral nem social, mas corporal—instintiva e, ao mesmo tempo, quase geológica. O solo sob ele parece contínuo, não problemático, como se o mundo se deixasse habitar por aqueles que não tentam dominá-lo simbolicamente.
A composição opõe, assim, dois regimes de existência. De um lado, o homem preso a formas rígidas demais, conceituais demais, que acabam por rejeitá-lo. Do outro, o animal em sintonia com um espaço fluido, noturno, quase cósmico. O céu escuro e as montanhas violetas reforçam essa leitura: o cenário não é realista, mas mental, como uma topografia interior.
Simbolicamente, a imagem pode ser lida como uma passagem fracassada. O homem tenta atravessar em direção à animalidade, é apenas uma hipótese, ou a outra maneira de estar no mundo, mas chega carregado de signos sociais inúteis: o terno, o chapéu, que o tornam mais pesado. O animal, por sua vez, não tem nada a provar. Ele já está onde está. O que finalmente chama a atenção é a ausência de intenção. O animal não salva o homem, o homem não alcança o animal. A imagem suspende o momento em que o equilíbrio se perde, sem queda final. Ela deixa o observador nesse entre-lugar, exatamente sobre a tábua: um espaço onde se joga menos um drama do que uma questão silenciosa sobre aquilo que, em nós, ainda sabe permanecer de pé.