jeudi 5 novembre 2026

(268) The abracadabrante story of Child Moon

  

“‘I wanted to try to write these things down for myself, but I haven’t the heart. I can tell them to you; they are poorly expressed, but keep them for me all the same—they will serve as my journal, and I hope they will let you live a little of my life.’

The letter makes possible a conversation at a distance that softens the harshness of separation; at the same time, in a clear, precise hand, it unfolds a daily account, written without revision, as close as possible to impressions and events, to the rhythm of things seen.

When Marcel Schwob lacks the time and strength to keep his journal in the form of love letters, he apologizes to Marg; he never forgets to send his regards to his wife’s loved ones and to the pups, her miniature dogs awaiting his return; and, coming back exhausted from a temple where he nearly lost his way in the jungle of Ceylon, he worries about Marguerite’s loneliness and her theatrical successes, which are slow in coming.

Marcel Schwob passionately loves the sea: while the passengers begin to complain about the length of the crossing, he never tires of the sky and, above all, the water, ‘undulating and diverse’. He tries to record its colours and fleeting shades—sometimes words fail him; he seeks to paint the sunsets, ever different, the shimmering violence or bleak solitude of seascapes, the sombre mountains of Africa or Arabia, the phosphorescent lights that reveal the life of the depths, and the lights of ships like apparitions in the night. He is delighted to meet M. Alexandre, who has known Courteline and ‘appreciates the subtle shade of a cloud and the radiant hues of sea and sky’. In a spirit of fairness, he does not neglect the fools on board, for their stupidity ‘satisfies the imagination’.”

Bernard Gauthier, The Island of Doubt,

https://www.larevuedesressources.org/L-ile-du-double.html

Wherein Félix concerns himself with the solitude lying in wait within him… What he discovers offers him another way of questioning himself.

– Is he questioning…
– … or questioning himself?
– That is the question…

Félix’s Notebook

For some time now, a strange presence has accompanied me as I write. I would be quite unable to say whether it is in front of me or behind me. It has no face, is not in the room, and belongs to none of the people appearing in the letters and images accumulating around my notebook. Sometimes I feel it draw closer at the very moment I am writing a sentence. That sentence, I gradually sense, ceases to belong to me. It is strange, I know. It continues its movement beyond what I had intended it to say. Somewhere along its trajectory, it makes room for someone I do not know.

I could call this a reader, of course. Immediately I regret having uttered the word, so clearly does it seem to designate something that remains unclear. What I write should be turned entirely towards Lucian. I know this. A reader would be a kind of stowaway. Someone situated beyond me. At the far end of what I write. They would wait for the sentence to be finished before receiving it. Whereas what I am beginning to experience is more like a presence already acting upon the writing before it is even read. And this through no mysterious anticipation. Writing always presupposes that a sentence can leave the person who conceives it. From its very beginning, it carries this possibility of stepping out of the written text. This openness to another, of whom I know nothing, is already part of the way it comes into being.

 


(268) A Abracadabrante História da Criança Lua

 

«“Queria tentar escrever estas coisas para mim, mas não tenho ânimo. A ti, posso dizê-las; estão mal ditas, mas guarda-mas na mesma — servir-me-ão de diário e espero que te façam viver um pouco da minha vida.”

A carta permite uma conversa à distância que atenua a dureza da separação; ao mesmo tempo, vai desenrolando, numa escrita nítida e precisa, o relato quotidiano, redigido sem revisões, tão próximo quanto possível das impressões e das peripécias, ao ritmo das coisas vistas.

Quando a Marcel Schwob faltam o tempo e as forças para manter o seu diário repartido em cartas de amor, pede desculpa a Marg; não se esquece de mandar cumprimentos aos familiares e amigos da mulher e aos pups, os cães miniatura dela que o esperam; e, ao regressar exausto de um templo onde esteve prestes a perder-se na selva de Ceilão, preocupa-se com a solidão de Marguerite e com os seus êxitos teatrais, que tardam em chegar.

Marcel Schwob ama apaixonadamente o mar: enquanto os passageiros começam a queixar-se da duração da travessia, o céu e sobretudo a água, “ondulante e diversa”, nunca o cansam. Tenta registar-lhes as cores e as tonalidades fugidias — por vezes faltam-lhe as palavras; procura pintar os pores do sol, sempre diferentes, a violência cintilante ou a solidão desolada das paisagens marinhas, os montes fúnebres de África ou da Arábia, as luzes fosforescentes que revelam a vida das profundezas e os fogos dos navios como aparições noturnas. Alegra-se por conhecer o Sr. Alexandre, que conviveu com Courteline e “aprecia a tonalidade subtil de uma nuvem e os tons radiantes do mar e do céu”. Com equidade, também não descura os imbecis a bordo, pois a sua estupidez “satisfaz a imaginação.”»

Bernard Gauthier, A ilha da dúvida,

https://www.larevuedesressources.org/L-ile-du-double.html

Onde Félix se preocupa com a solidão que o espreita no seu íntimo… O que descobre oferece-lhe outra maneira de se interrogar.

– Interroga…
– … ou interroga-se?
– Eis a questão…

Caderno de Félix

Há algum tempo, uma presença estranha acompanha-me quando escrevo. Seria inteiramente incapaz de dizer se está à minha frente ou atrás de mim. Não tem rosto, não se encontra na divisão e não pertence a nenhuma das pessoas que figuram nas cartas e nas imagens que se acumulam à volta do meu caderno. Por vezes, sinto-a aproximar-se no preciso momento em que escrevo uma frase. Essa frase, sinto-o pouco a pouco, deixa de me pertencer. É estranho, eu sei. Prossegue o seu movimento para além daquilo que eu quisera fazê-la dizer. Algures na sua trajetória, reserva um lugar para alguém que não conheço.

Poderia chamar a isso um leitor, é claro. Logo me arrependo de ter pronunciado essa palavra, de tal modo parece designar com clareza aquilo que não é claro. O que escrevo deveria estar inteiramente voltado para Lucian. Sei-o. Um leitor seria uma espécie de passageiro clandestino. Seria alguém situado para além de mim. No extremo daquilo que escrevo. Esperaria que a frase estivesse terminada para a receber. Ao passo que aquilo que começo a sentir se assemelha mais a uma presença que já atuaria sobre a escrita antes mesmo de esta ser lida. E isso sem qualquer misteriosa antecipação. Escrever pressupõe sempre que uma frase possa deixar aquele que a concebe. Traz desde o início essa possibilidade de sair do escrito. Essa abertura a um outro de quem tudo ignoro faz já parte da sua maneira de nascer.

 

(268) L’abracadabrante histoire de l’Enfant Lune


" « Je voulais tâcher d'écrire ces choses pour moi, mais je n'en ai pas le coeur. A toi, je puis les dire; elles sont mal dites, mais garde-les moi tout de même - elles me serviront de journal et j'espère qu'elles te feront vivre un peu de ma vie.»

La lettre permet une conversation à distance qui atténue la dure séparation; en même temps elle déroule d'une écriture nette et précise le récit journalier, rédigé sans reprise au plus près possible des impressions et des péripéties, au rythme des choses vues.

Quand le temps et les forces manquent à Marcel Schwob pour tenir son journal divisé en lettres amoureuses, il s'en excuse auprès de Marg; il n'oublie pas de saluer les proches de sa femme et les pups, ses chiens miniatures qui l'attendent; et revenant fourbu d'un temple où il a failli se perdre dans la jungle de Ceylan, il se préoccupe de la solitude de Marguerite et de ses succès théâtraux qui tardent.

Marcel Schwob aime passionnément la mer: tandis que les passagers commencent à gémir sur la longueur de la traversée, le ciel et l'eau surtout, «ondoyante et diverse», ne peuvent le lasser. Il essaye d'en noter les couleurs et les nuances fugitives - les mots parfois manquent; il cherche à peindre les couchers de soleil, toujours autres, la violence chatoyante ou la solitude morne des paysages marins, les monts funèbres d'Afrique ou d'Arabie, les lumières phosphorescentes qui révèlent la vie des profondeurs, et les feux des navires comme des apparitions nocturnes. Il se réjouit de rencontrer

M. Alexandre, qui a fréquenté Courteline et «apprécie la nuance d'un nuage et les radieuses teintes de la mer et du ciel». Equitablement il ne néglige pas les imbéciles du bord, car leur sottise «satisfait l'imagination»."


Bernard Gauthier, L’île du doute,

https://www.larevuedesressources.org/L-ile-du-double.html

 

 

Où Félix se préoccupe de la solitude qui guette par devers-lui… Ce qu’il découvre  lui offre une autre manière de se questionner.

  


– Questionne-t’il…
– … ou se questionne-t’il?
– Telle est la question…


Carnet de Félix

Depuis quelque temps, une présence étrange m’accompagne lorsque j’écris. Je serais bien incapable de dire si elle se trouve devant ou derrière moi. Elle n’a pas de visage, ne se trouve pas dans la pièce et n’appartient à aucune des personnes figurant dans les lettres et les images qui s’accumulent autour de mon carnet. Je la sens parfois s’approcher au moment même où j'écris une phrase. Celle-ci, je le sens peu à peu, cesse de m’appartenir. C'est étrange, je le sais.  Elle poursuit son mouvement au-delà de ce que j’avais voulu lui faire dire. Elle ménage, quelque part dans sa trajectoire, une place pour quelqu’un que je ne connais pas.

Je pourrais appeler cela un lecteur, bien sûr. Aussitôt je regrette d’avoir prononcé ce mot tant il paraît désigner clairement ce qui ne l’est pas. Ce que j’écris devrait être entièrement tourné vers Lucian. Je le sais. Un lecteur serait une sorte de passager clandestin. Il serait quelqu’un placé au-delà de moi. Au bout de ce que j’écris. Il attendrait que la phrase soit terminée pour la recevoir. Tandis que ce que je commence à éprouver ressemble plutôt à une présence qui agirait déjà sur l’écriture avant même qu’elle soit lue. Et cela non par quelque mystérieuse anticipation. Écrire suppose toujours qu’une phrase puisse quitter celui qui la conçoit. Elle porte dès son commencement cette possibilité de sortir de l’écrit. Cette ouverture à un autre dont j’ignore tout fait déjà partie de sa manière de naître.

mercredi 4 novembre 2026

(267) The abracadabrante story of Child Moon


“Remember that your readers dislike making an effort and prefer to learn as though they were playing a game. It is also painful to discover one’s ignorance of a subject one believed oneself to know. If ever fate obliges you to instruct the public on matters familiar to them, take care to prepare them gently, and confess in your preamble that, before being enlightened by some scholar (whom you will name), you were just as ignorant as they were. Do not be afraid, on such occasions, to make fun of yourself and to appear thoroughly stupid in everyone’s eyes.

Although your role is to be one degree above the public, you must not, if you wish to please them, allow them to feel it. You will never enjoy greater success than when the least of your readers believes himself more learned or more witty than you. Every man likes to persuade himself that he possesses more intelligence and wit than others. Your business is to help him do so.

You must supply him with witty remarks without appearing to do so, just as court fools once supplied them to their kings.”

Loison-Bridet (pseudonym of Marcel Schwob),
Mœurs des Diurnales: Traité de journalisme,
Paris, Société du Mercure de France, 1903.



Where the relationship of descent between Pinocchio the Other and Child Moon is called into question. Félix tries, as best he can, to transcribe the flood of words assailing him. He wishes with all his heart to succeed before, exhausted and already grateful, yielding to the hypothesis of shipwreck.

Félix’s Journal

Quite often, outside my professional duties, I find myself thinking about Pinocchio the Other and Child Moon. They are creatures of Igniatius. That is what Lucian says. I wonder what connects this entire little world. At first, when I received Lucian’s earliest letters and drawings, I considered that the second might naturally be the symbolic evolution of the first. That was how they appeared to me. I regarded them as two characters invented in succession. This now seems increasingly inadequate. Such a formulation assumes that a mind first conceived the former and then, observing his evolution, decided upon the latter. What I perceive between them resembles rather a transformation in which the first form would have evolved to the point where it could no longer prevent what was happening to it. Something within Pinocchio the Other seems to have come undone of its own accord. He disappeared. Child Moon would therefore not be exactly his successor. Still less his replacement. He would be what becomes of a question when that question can no longer continue to be asked within what first gave it form.

According to what I read in the letters and writings of Lucian and Igniatius, there was a shipwreck there too. But let us not be too hasty. I am wary of such easy explanations. A metaphor that begins to explain too many things generally ends up illuminating none of them. Yet something persists. I cannot silence it. In the ship, as in the drawings, an organisation that had hitherto seemed sufficiently stable ceases to be capable, on its own, of maintaining the coherence of the world it contained. What follows is not nothingness, but another way of holding together. That is what troubles me. The discovery that the collapse of a form does not necessarily entail the collapse of everything it once organised. What remains may reassemble itself according to relationships that were not previously visible.

The brain, it seems to me, is constantly doing something rather similar. I would hesitate to draw a theory from this too hastily. Aboard the ocean liner, my eyes and my sense of balance began to provide information that no longer agreed. Something within me had to negotiate their disagreement so that I could still move about.

Even here, when I look at an expanse of water reflecting the sky between two masses of rock, I know that what I simply call “seeing” involves a multitude of adjustments of which I perceive almost nothing. The light changes, the surface moves, the angle of my gaze shifts, while the world nevertheless remains stable enough for me to continue recognising water, rocks, a sky, and that strange continuity which allows me to believe that I am still standing before the same scene. Perhaps the self comes into play precisely there, not as a little person enclosed behind the eyes, an image that has never convinced me, but as that continuity constantly being reconstructed between what happens and the one to whom it happens.


(267) A Abracadabrante História da Criança Lua

 

«Lembrai-vos de que os vossos leitores não gostam de fazer esforços e preferem instruir-se como se estivessem a brincar. É também penoso constatar a própria ignorância acerca de um assunto que se julgava conhecer. Se alguma vez a fortuna vos impuser a tarefa de instruir o público sobre coisas que lhe são familiares, tende o cuidado de o preparar suavemente e de confessar, no vosso preâmbulo, que, antes de terdes sido esclarecidos por um sábio (que nomeareis), éreis tão ignorantes como ele. Não receeis troçar de vós próprios nessa ocasião, nem parecer completamente estúpidos aos olhos de todos.

Embora o vosso papel seja o de estar imediatamente acima do público, não deveis, se quiserdes agradar-lhe, deixar que ele o sinta. Nunca tereis maior êxito do que quando o mais humilde dos vossos leitores se julgar mais sábio ou mais espirituoso do que vós. Cada homem gosta de se convencer de que possui mais inteligência e espírito do que os outros. A vossa função é ajudá-lo a acreditar nisso.

Deveis fornecer-lhe ditos espirituosos sem dar a entender que o fazeis, tal como os bobos da corte os forneciam aos seus reis.»

Loison-Bridet (pseudónimo de Marcel Schwob),
Mœurs des Diurnales: Traité de journalisme,
Paris, Société du Mercure de France, 1903.


Onde a filiação entre Pinóquio, o Outro, e a Criança Lua é posta em causa. Félix tenta, tanto quanto pode, transcrever a torrente de palavras que o assaltam. Desejaria, do fundo do coração, consegui-lo antes de, exausto e antecipadamente reconhecido, ceder à hipótese do naufrágio.

Diário de Félix

Acontece-me muitas vezes, fora das minhas ocupações profissionais, pensar em Pinóquio, o Outro, e na Criança Lua. São criaturas de Igniatius. É o que diz Lucian. Pergunto-me o que liga todo este pequeno mundo. A princípio, quando recebia as primeiras cartas e desenhos de Lucian, considerei que a segunda poderia ser, naturalmente, a evolução simbólica do primeiro. Era assim que me apareciam. Via-os como duas personagens inventadas sucessivamente. Esta interpretação parece-me cada vez mais insuficiente. Pressupõe que um espírito concebeu primeiro uma personagem e, depois, perante a sua evolução, decidiu criar a segunda. Aquilo que percebo entre ambas assemelha-se mais a uma transformação na qual a primeira forma teria evoluído até ao ponto em que já não podia impedir aquilo que lhe estava a acontecer. Algo em Pinóquio, o Outro, parece ter-se desfeito por si mesmo. Desapareceu. A Criança Lua não seria, portanto, exatamente a sua sucessora. Muito menos a sua substituta. Seria aquilo em que se transforma uma questão quando já não pode continuar a colocar-se naquilo que inicialmente a sustentava.

Segundo o que leio nas cartas e nos escritos de Lucian e de Igniatius, também aí houve um naufrágio. Mas não nos precipitemos. Desconfio dessa facilidade. Uma metáfora que começa a explicar demasiadas coisas acaba geralmente por deixar de esclarecer seja o que for. E, no entanto, alguma coisa insiste. Não consigo fazê-la calar. Tanto no navio como nos desenhos, uma organização que até então parecia suficientemente estável deixa de conseguir manter, por si só, a coerência do mundo que continha. O que se segue não é o nada, mas outra maneira de se manter unido. É isso que me perturba. A descoberta de que o desmoronamento de uma forma não implica necessariamente o desmoronamento de tudo aquilo que ela organizava. O que permanece pode recompor-se segundo relações que anteriormente não eram visíveis.

O cérebro, parece-me, não cessa de fazer algo bastante semelhante. Guardar-me-ia de daí retirar precipitadamente uma teoria. A bordo do transatlântico, os meus olhos e o meu sentido de equilíbrio começaram a fornecer informações que já não concordavam entre si. Foi necessário que alguma coisa dentro de mim negociasse essa discordância para que eu pudesse continuar a deslocar-me.

Aqui mesmo, quando observo uma extensão de água que reflete o céu entre duas massas rochosas, sei que aquilo a que chamo simplesmente «ver» pressupõe uma quantidade de ajustamentos dos quais quase nada percebo. A luz muda, a superfície move-se, o ângulo do meu olhar desloca-se, enquanto o mundo permanece, apesar de tudo, suficientemente estável para que eu continue a reconhecer água, rochedos, um céu e essa estranha continuidade que me permite acreditar que ainda estou diante da mesma cena. Talvez o eu intervenha precisamente aí, não como uma pequena pessoa encerrada atrás dos olhos, imagem que nunca me convenceu, mas como essa continuidade constantemente reconstruída entre aquilo que acontece e aquele a quem acontece.


(267) L’abracadabrante histoire de l’Enfant Lune


« Souvenez-vous que vos lecteurs n'aiment pas à faire effort et préfèrent s'instruire comme en se jouant. Il est pénible aussi de constater son ignorance en un sujet que l'on croyait connaître. Si jamais votre fortune vous impose d'instruire le public sur des choses qui lui sont familières, ayez soin de l'y préparer doucement et d'avouer dans votre préambule qu'avant d'avoir été avertis par un savant (que vous nommerez) vous étiez en même ignorance que lui. Ne craignez pas de vous railler vous-même à cette occasion, et de vous rendre bien stupide aux yeux de tous.

Quoique votre rôle soit d'être immédiatement supérieur au public, il ne faut pas, si vous voulez lui plaire, le lui faire sentir. Vous n'aurez jamais plus de succès que lorsque le dernier de vos lecteurs croira être plus savant ou plus spirituel que vous. Chaque homme aime à se persuader qu'il a plus d'intelligence et d'esprit que les autres. Votre office est de l'y aider.

Vous devez le fournir de bons mots, sans en avoir l'air, comme les sots de cour en fournissaient leurs rois.»


Loison -Bridet (pseudonyme de Marcel Schwob),

Mœurs des Diurnales : Traité de journalisme,

Paris, Société du Mercure de France, 1903




Où la filiation entre Pinocchio l’Autre et l’Enfant Lune est mise en question. Félix essaie, du mieux qu’il peut, de transcrire le flot de mots qui l’assaillent. Il voudrait de tout son cœur y parvenir avant, fourbu et reconnaissant par avance, de céder à l’hypothèse du naufrage.


Journal de Félix

Il m’arrive bien souvent, en dehors de mes occupations professionnelles, de penser à Pinocchio l’Autre et à l’Enfant Lune. Ce sont des créatures d’Igniatio. C’est ce que dit Lucian. Je me demande ce qui relie tout ce petit monde. J’ai d’abord considéré, alors que je recevais les premières lettres et dessins de Lucian, que le second pouvait naturellement être l’évolution symbolique du premier. C’est ainsi qu’ils m’apparaissaient. Je les considérais comme deux personnages successivement inventés. Cela me paraît de plus en plus insuffisant. Cette formulation suppose qu’un esprit a d’abord conçu le premier, puis, au vu de son évolution, il a décidé du second. Ce que je perçois entre eux ressemble davantage à une transformation dans laquelle la première forme aurait évolué jusqu’au point où elle ne pouvait plus empêcher ce qui lui arrivait. Quelque chose en Pinocchio l’Autre semble s’être défait de lui-même. Il a disparu. L’Enfant Lune ne serait donc pas exactement son successeur. Encore moins son remplacement. Il serait ce que devient une question lorsqu’elle ne peut plus continuer à se poser dans ce qui l’avait d’abord portée.

Selon ce que je lis dans les lettres et les écrits de Lucian et d’Igniatius, il y a eu là aussi un naufrage. Mais n’allons pas trop vite en besogne. Je me méfie de cette facilité. Une métaphore qui commence à expliquer trop de choses finit généralement par ne plus en éclairer aucune. Pourtant quelque chose insiste. Je ne parviens pas à la faire taire. Dans le navire comme dans les dessins, une organisation, qui semblait jusque-là suffisamment stable, cesse de pouvoir maintenir seule la cohérence du monde qu’elle contenait. Ce qui suit n’est pas le néant mais une autre manière de tenir ensemble. C’est cela qui me trouble. La découverte que l’effondrement d’une forme n’entraîne pas nécessairement celui de tout ce qu’elle organisait. Ce qui demeure peut se recomposer selon des rapports qui n’étaient pas visibles auparavant.

Le cerveau, me semble-t-il, ne cesse de faire quelque chose d’assez voisin. Je me garderais d’en tirer trop vite une théorie. Sur le paquebot, mes yeux et mon équilibre commencèrent à fournir des renseignements qui ne s’accordaient plus. Il a fallu que quelque chose en moi négocie leur désaccord pour que je puisse encore me déplacer.

Ici même, lorsque je regarde une étendue d’eau refléter le ciel entre deux masses rocheuses, je sais que ce que j’appelle simplement «voir» suppose une quantité d’ajustements dont je ne perçois presque rien. La lumière change, la surface bouge, l’angle de mon regard se déplace, tandis que le monde demeure pourtant assez stable pour que je continue à reconnaître de l’eau, des rochers, un ciel et cette étrange continuité qui me permet de croire que je suis encore devant la même scène. Peut-être le moi intervient-il précisément là, non pas comme une petite personne enfermée derrière les yeux, image qui ne m’a pas convaincu, mais comme cette continuité constamment reconstruite entre ce qui arrive et celui à qui cela arrive.



mardi 3 novembre 2026

(266) The abracadabrante story of Child Moon

« One night — the weather was dreadful — the waves were striking us broadside. We were on deck with the captain and the helmsman. Drops of storm-rain ran down the panes of the lantern, and the wind was howling in the rigging. All at once, a huge wave, all white with foam in the night, swept across the deck: I was carried away. Fortunately, I managed to seize hold of a rope ladder, and as I was climbing back up, spitting and panting like an old seal, I saw the helmsman making the sign of the cross: he was a Breton. The captain, leaning against the rail, was shaking his head and shrugging his shoulders as he looked out at the sea. I searched for my friend; he was no longer there. I rushed toward the helmsman; I saw that he was mumbling a prayer. Then he pulled out his large silver watch, attached to a leather cord, held it up to the lantern, and laboriously read the figure: ‘It is eleven o’clock,’ he said slowly, ‘he will swim until four.’»

Marcel Schwob

 


 
 
Where Félix believes he is examining documents from the outside, yet his effort to understand them risks drawing him into the adventure himself. The ocean liner and the possible catastrophe lend this slippage an almost physical dimension. In the course of a thoroughly labyrinthine narrative, the illegitimate temptation of imagination, in his own words, gradually guides Félix beyond his own limits. Thus he crosses the boundary that allows him to understand how Lucian — and before him Igniatius — had found themselves embarked upon a voyage in which words constitute a language that remains unknown to him. He can no longer properly maintain the distance that would allow him to see from afar what he claims to know from close at hand… He examines the temptation to believe that truth lies somewhere outside ourselves, deposited in documents whose trace need only be recovered. He even imagines, in the passages that follow, a journey by water in search of that truth, with no guarantee that it may finally be attained. He sees it in a remoteness that attracts him. He immediately wonders whether he ought not rather to say: I see it in a remoteness that it attracts…”

What happens to Félix might at first be described as a difficulty in reading. He receives Lucian’s letters, discovers Igniatius through them, and then, through Igniatius, the characters who inhabit that strange territory where Child Moon, Pinocchio the Other, Don Carotte, Sang Chaud, the parrots, and a few others make their appearance. All of this reaches him, often at second hand, sometimes at third or even fourth, and he might believe, at least in the beginning, that his task consists precisely in tracing these transmissions back to their source in order to determine their origin. In distinguishing the one who tells the story from the one who invents it. In separating the one who observes from the one who is observed. In distinguishing testimony from fiction, and truth from falsehood.

But this method still presupposes that Félix remains stable in the face of what he reads… Yet this is precisely what becomes impossible. As he progresses, reading ceases to offer him an object he could place before himself, examine from a certain distance, classify, and explain. This whole, this accumulation of points of view, begins to act upon the very way he reads. Lucian’s hesitations become his own. He is well aware of this and tries in vain to explain it to himself. Not because he adopts Lucian’s opinions, but because he unknowingly reproduces the movement of his thought. Lucian had attempted to understand Igniatius by repeating certain gestures of his. He draws after him, travelling in the traces left behind in the drawings. At first, Félix observes this behaviour with the caution of a supervisor. But eventually he finds himself doing something similar. He takes up the letters again, returns to certain details, sketches a few forms of his own in his notebook, and soon discovers that he can no longer quite tell whether these drawings illustrate what he has just understood or whether they are in the process of bringing forth an understanding he does not yet possess.

It is then that reading changes its nature.

It is no longer merely the reception of a narrative. It becomes an event within the narrative itself.



 

(266) A Abracadabrante História da Criança Lua

 

«Uma noite — fazia um tempo terrível — as ondas batiam de través. Estávamos no convés com o capitão e o timoneiro. As gotas da chuva de tempestade escorriam pelos vidros da lanterna de bordo e o vento uivava no cordame. De repente, uma onda enorme, toda branca de espuma na escuridão, atravessou o convés: fui arrastado. Felizmente, consegui agarrar-me a uma escada de corda e, enquanto subia, a cuspir água e a arfar como uma velha foca, eis que vi o timoneiro fazer o sinal da cruz: era bretão. O capitão, apoiado na amurada, abanava a cabeça e encolhia os ombros, olhando para o mar. Procurei o meu amigo com os olhos; já não estava lá. Precipitei-me para o timoneiro; vi que murmurava uma oração. Depois tirou o seu grande relógio de prata, preso a um cordão de couro, aproximou-o da lanterna e leu com dificuldade as horas: “São onze horas”, disse lentamente, “ele nadará até às quatro.”»

Marcel Schwob

 


 
 
Onde Félix julga examinar documentos a partir do exterior, mas o seu esforço para os compreender corre o risco de o fazer entrar, ele próprio, na aventura. O transatlântico e a possível catástrofe acrescentam a este deslizamento uma dimensão quase física. Ao longo de uma narrativa perfeitamente labiríntica, a tentação ilegítima da imaginação, segundo as suas próprias palavras, conduz pouco a pouco Félix para além dos seus próprios limites. É assim que atravessa a fronteira que lhe permite compreender como Lucian, e antes dele Igniatius, se tinham encontrado embarcados numa viagem em que as palavras constituem uma linguagem que lhe permanece desconhecida. Já não consegue manter muito bem a distância que permite ver de longe aquilo que pretende conhecer de perto… Examina a tentação de acreditar que a verdade se encontra algures, fora de nós, depositada em documentos dos quais bastaria reencontrar o rasto. Chega mesmo a imaginar, na continuação das passagens, uma viagem por via marítima em busca dessa verdade, sem qualquer garantia de que ela possa finalmente ser alcançada. Vê-a numa distância longínqua que o atrai. Pergunta-se imediatamente se não deveria antes dizer: Vejo-a numa distância longínqua que ele atrai…
 

Aquilo que acontece a Félix poderia, à primeira vista, ser descrito como uma dificuldade de leitura. Recebe as cartas de Lucian, descobre através delas Igniatius e, depois, através de Igniatius, as personagens que povoam esse estranho território onde aparecem a Criança Lua, Pinóquio, o Outro, Don Carotte, Sang Chaud, os papagaios e alguns outros ainda. Tudo isto lhe chega muitas vezes em segunda mão, por vezes em terceira ou quarta, e poderia acreditar, pelo menos no início, que a sua tarefa consiste precisamente em remontar o curso dessas transmissões para lhes determinar a origem. Distinguir aquele que conta daquele que inventa. Separar aquele que observa daquele que é observado. Distinguir o testemunho da ficção e o verdadeiro do falso.

Mas este método pressupõe ainda que Félix permaneça estável perante aquilo que lê… Ora, é precisamente isso que se torna impossível. À medida que avança, a leitura deixa de lhe oferecer um objeto que pudesse colocar diante de si, comparar com algum distanciamento, classificar, explicar. Este todo, esta acumulação de pontos de vista, começa a agir sobre a própria maneira como lê. As hesitações de Lucian tornam-se as suas próprias hesitações. Ele sente-o bem e tenta, em vão, explicá-lo a si mesmo. Não porque adote as opiniões de Lucian, mas porque reproduz, sem se aperceber, o movimento do seu pensamento. Lucian tinha tentado compreender Igniatius refazendo alguns dos seus gestos. Desenha depois dele, viajando no encalço dos vestígios deixados nos desenhos. Félix, num primeiro momento, observa esta conduta com a prudência do supervisor. Depois, acaba por fazer algo semelhante. Retoma as cartas, regressa a certos pormenores, traça, por sua vez, algumas formas no seu caderno e depressa descobre que já não sabe muito bem se esses desenhos ilustram aquilo que acaba de compreender ou se estão a produzir uma compreensão de que ainda não dispõe.

É então que a leitura muda de natureza.

Deixa de ser apenas a receção de uma narrativa. Torna-se um acontecimento no interior da própria narrativa.


 

(266) L’abracadabrante histoire de l’Enfant Lune


« Une nuit — il faisait un temps effroyable — les vagues abordaient par le travers. Nous étions sur le pont avec le capitaine et le timonier. Les gouttes de pluie d’orage coulaient le long des vitres du fanal et le vent ululait dans les cordages. Tout à coup une vague énorme, toute blanche d’écume dans la nuit, traversa le tillac: je fus entraîné. Je me raccrochai heureusement à une échelle de corde, et comme je remontais, crachant et soufflant comme un vieux phoque, voilà que je vis le timonier qui faisait un signe de croix: il était breton. Le capitaine, appuyé sur le bastingage, secouait la tête et haussait les épaules, en regardant la mer. Je cherchai des yeux mon ami; il n’était plus là. Je m’élançai vers le timonier; je vis qu’il marmottait une prière. Puis il tira sa grosse montre d’argent, attachée à un cordon de cuir, l’approcha du fanal, et lut péniblement le chiffre: “Il est onze heures, dit-il lentement, il nagera jusqu’à quatre heures.”»

Marcel Schwob





Où Félix croit examiner des documents de l’extérieur, mais son effort pour les comprendre risque de le faire entrer lui-même dans l’aventure. Le paquebot et la catastrophe possible ajoutent à ce glissement une dimension presque physique. Au fil d’un récit parfaitement labyrinthique, l’illégitime tentation de l’imagination, selon ses propres dires, guide peu à peu Félix au-delà de ses propres limites. C’est ainsi qu’il franchit la frontière lui permettant de comprendre comment Lucian, mais avant lui Igniatius, s’étaient retrouvés embarqués dans un voyage où les mots constituent un langage qui lui reste inconnu. Il ne sait plus tenir très bien la distance permettant de voir de loin ce qu’il prétend connaître de près… Il examine la tentation de croire que la vérité se trouve quelque part, hors de nous, déposée dans des documents dont il suffirait de retrouver la trace. Il imagine même, dans la suite des passages, un voyage par voie d'eau à la recherche de cette vérité, sans garantie qu'elle puisse finalement être obtenue. Il la voit dans un lointain qui l’attire. Il se demande aussitôt s’il ne devrait pas dire: Je la vois dans un lointain qu’il attire…


Ce qui arrive à Félix pourrait d’abord être décrit comme une difficulté de lecture. Il reçoit les lettres de Lucian, découvre à travers elles Igniatius, puis, à travers Igniatius, les personnages qui peuplent cet étrange territoire où apparaissent l’Enfant Lune, Pinocchio l’Autre, Don Carotte, Sang Chaud, les perroquets et quelques autres encore. Tout cela lui parvient souvent de seconde main, parfois de troisième ou de quatrième, et il pourrait croire, du moins su commencement, que sa tâche consiste précisément à remonter le cours de ces transmissions afin d’en déterminer l’origine. À distinguer celui qui raconte de celui qui invente. À faire la part de celui qui observe de celui qui est observé. À séparer le témoignage de la fiction et le vrai du faux.

Mais cette méthode suppose encore que Félix demeure stable face à ce qu’il lit… Or c’est précisément ce qui devient impossible. À mesure qu’il avance, la lecture cesse de lui offrir un objet qu’il pourrait disposer devant lui, comparer avec un certain recul, classer, expliquer. Ce tout, cette accumulation de points de vue, commence à agir dans la manière même dont il lit. Les hésitations de Lucian deviennent ses propres hésitations. Il le sent bien et essaie vainement de se l’expliquer. Non parce qu’il adopte les opinions de Lucian, mais parce qu’il en reproduit à son insu le mouvement. Lucian avait tenté de comprendre Igniatius en refaisant certains de ses gestes. Il dessine après lui, en voyageant sur ses traces laissées dans les dessins. Félix, dans un premier temps, observe d’abord cette conduite avec la prudence du superviseur. Puis il finit par accomplir quelque chose d’analogue. Il reprend les lettres, revient sur certains détails, trace à son tour quelques formes dans son carnet, et découvre bientôt qu’il ne sait plus très bien si ces dessins illustrent ce qu’il vient de comprendre ou s’ils sont en train de produire une compréhension dont il ne dispose pas encore. C’est alors que la lecture change de nature. Elle n’est plus seulement réception d’un récit. Elle devient un événement dans le récit lui-même.

 

 


lundi 2 novembre 2026

(265) The abracadabrante story of Child Moon

 “It is then some secret document, some unpublished correspondence, some memoirs that may cast an unexpected light upon certain characters.”

Marcel Proust, On Reading, 1905
Republished under the title “Days of Reading” in Pastiches and Miscellanies.



Where Félix travels. Mentally, so he claims. Mixing together letters, notebooks and drawings, he carefully reads Lucian’s account. A difficult reading, assembled from fragments that can hardly be trusted without further evidence. A thoroughly uncertain journey. A journey in which, as in the Archipelago, obscure reasons appear and disappear. Félix, no more and no less than anyone else, struggles to make sense of them. Around the ocean liner aboard which Lucian continues his quest, nothing would correspond to the figures marked on the plans… No one, and nothing, knew, when this ocean liner was designed, how many compartments could be flooded before the word “number” changed its name and became “catastrophe”… And that catastrophe, however inevitable it might seem, remains difficult to discern. At first, Félix pays it no attention. Then, as he follows a narrative which, like the ocean liner itself, offers no appearance of certainty, he begins to sway and to doubt… Yet this doubt contributes to the very attentiveness which, increasingly, threatens to become, without his knowing it, an involvement. One that sets his own imagination in motion… An illegitimate temptation, given his position…

Lucian’s Journal

Nothing distinguishes the days and hours of this crossing… Questions come flooding in along with the waves. Who says that the lifeboats must remain beneath their covers until someone decides that the moment has come to lower them into the water? And nothing in the external world knows anything of the categories through which another system attempts to understand it. The wave does not know that it is recognised as a wave. Darkness does not know that its name is night. Does movement know that an organ buried within the skull is calculating it as an acceleration? Things have no need of the names or boundaries through which they become inhabitable for those who perceive them.

These divisions are necessary to thought, but they bind only the one who makes them. Was this the point at which the two architectures came together for the last time: both possessed an extraordinary power because they knew how to transform the formless into pathways, to distribute what came their way, to construct passages through a complexity that would otherwise have overwhelmed whoever had to traverse it… Both can repair, compensate, anticipate, carry on despite damage, and both ran, precisely for that reason, the risk of mistaking the remarkable effectiveness of their arrangements for a property of the world itself.

The world, however, had made no such commitment… No more than the sea had agreed to the compartments… and time, no more than I, knew anything of the timetable.

I wonder what Félix will think when he reads this journal… If, indeed, this journal ever reaches him… Sometimes I also wonder what I might think if, by some chance, I were in his place. I imagine Félix standing on the unstable deck of this ship. I truly wonder what he is doing there. I imagine him writing what I am writing… here, at this very moment… Would he have the same thoughts… the same words? Certainly not… What would they be, then?


Very freely inspired by…

Morgan Robertson, The Wreck of the Titan
Futility, or the Wreck of the Titan, 1898.


(265) A Abracadabrante História da Criança Lua

 «É então algum documento secreto, alguma correspondência inédita, umas memórias que podem lançar uma luz inesperada sobre certas personalidades.»

Marcel Proust, Sobre a Leitura (Sur la lecture), 1905
Retomado sob o título «Jornadas de Leitura» (Journées de lecture), em Pastiches e Miscelâneas (Pastiches et mélanges).



Onde Félix viaja. Mentalmente, segundo afirma. Misturando cartas, cadernos e desenhos, lê atentamente o relato de Lucian. Uma leitura difícil, a partir de fragmentos nos quais é difícil confiar sem mais. Uma viagem perfeitamente incerta. Uma viagem em que, à semelhança do Arquipélago, aparecem e desaparecem obscuras razões. Félix, nem mais nem menos do que qualquer outra pessoa, tem dificuldade em compreender-lhes o sentido. Em redor do transatlântico a bordo do qual Lucian prossegue a sua busca, nada corresponderia aos números inscritos nos planos… Nada nem ninguém sabia, no que respeitava à conceção deste transatlântico, quantos compartimentos poderiam ser invadidos pela água antes que a palavra «número» mudasse de nome e se tornasse «catástrofe»… E esta, por mais inevitável que possa parecer, dificilmente se deixa distinguir. Ao princípio, Félix não lhe presta atenção. Depois, ao longo de uma narrativa que, tal como o transatlântico, nada deixa transparecer de certo, começa a oscilar e a duvidar… Mas esta dúvida contribui para aquela aplicação que, cada vez mais, corre o risco de se tornar, sem que ele se aperceba, numa implicação. A qual põe em movimento a sua própria imaginação… Tentação ilegítima, em virtude da sua posição…

Diário de Lucian

Nada distingue os dias e as horas desta travessia… Ao mesmo tempo que as ondas afluem, afluem as perguntas. Quem diz que os salva-vidas devem esperar debaixo das suas coberturas pelo momento em que alguém decidirá lançá-los à água? E nada, no mundo exterior, conhece sequer as categorias graças às quais um outro conjunto tenta compreendê-lo. A onda ignora que é reconhecida enquanto tal. A escuridão não sabe que o seu nome é noite. Saberá o movimento que um órgão escondido no crânio calcula uma aceleração? As coisas não têm qualquer necessidade dos nomes nem das fronteiras graças aos quais se tornam habitáveis para aquele que as perceciona.

Estas divisões são necessárias ao pensamento, mas apenas vinculam aquele que as estabelece. Seria este o ponto em que as duas arquiteturas se encontravam uma última vez: ambas possuíam um poder extraordinário porque sabiam transformar o informe em caminhos, distribuir aquilo que chegava, construir passagens através de uma complexidade que, de outro modo, teria submergido aquele que precisava de a atravessar… Ambas são capazes de reparar, compensar, prever, continuar apesar dos danos, e ambas corriam, precisamente por essa razão, o risco de tomar a notável eficácia dos seus arranjos por uma propriedade do próprio mundo.

O mundo, porém, não se tinha comprometido com nada disso… Tal como o mar não tinha aceitado os compartimentos… e o tempo, tal como eu, nada sabia do horário.

Pergunto-me o que Félix pensará ao ler este diário… Se é que este diário alguma vez lhe chegará… Acontece-me também perguntar-me o que poderia pensar se, porventura, estivesse no seu lugar. Imagino Félix, de pé, no convés instável deste navio. Pergunto-me verdadeiramente o que estará ele ali a fazer. Imagino-o a escrever aquilo que estou a escrever… aqui, neste preciso momento… Teria ele os mesmos pensamentos… as mesmas palavras? Certamente que não… Quais seriam, então?


Inspirado muito livremente… a partir de
Morgan Robertson, O Naufrágio do Titan
Futility, or the Wreck of the Titan, 1898.

(265) L’abracadabrante histoire de l’Enfant Lune

  

« C’est alors quelque document secret, quelque correspondance inédite, des mémoires qui peuvent jeter sur certains caractères un jour inattendu.»

Marcel Proust, Sur la lecture, 1905,
Repris sous le titre «Journées de lecture» dans Pastiches et mélanges

 



Où Félix voyage. Mentalement, selon ses dires. Mélangeant les lettres, carnets et dessins, il lit avec application le compte rendu de Lucian. Difficile lecture à partir de fragments auxquels il est difficile de se fier sans autre. Un voyage parfaitement incertain. Un voyage où, 
à l’instar de l’Archipel, apparaissent et disparaissent d’obscures raisons. Félix, ni plus ni moins que quiconque, peine à en comprendre le sens. Autour du paquebot, sur lequel Lucian poursuit sa quête, rien ne correspondrait aux nombres inscrits sur les plans… Rien ni personne ne savait, concernant la conception de ce paquebot, combien de compartiments pouvaient être envahis avant que le mot nombre changeât de nom et devînt catastrophe… Et celle-ci, aussi inéluctable qu’elle puisse paraître, peine à se distinguer. Au début, Félix n’y prend point garde. Puis au fil d’un récit qui, comme le paquebot, ne laisse rien paraître de certain, il se met à tanguer et à douter… Mais ce doute contribue à cette application qui, de plus en plus, risque de devenir, à son insu, une implication. Laquelle met en route sa propre imagination… Illégitime tentation en vertu de sa situation…

Journal de Lucian 

Rien ne distingue les jours et les heures de cette traversée… En même temps que les vagues affluent les questions. Qui dit que les canots doivent attendre sous leurs bâches le moment où quelqu’un déciderait de les mettre à l’eau? Et rien, dans le monde extérieur, ne connait davantage les catégories grâce auxquelles un autre ensemble tente de le comprendre. La vague ignore qu’elle est reconnue en tant que telle. L’obscurité ne sait pas que son nom est nuit. Le mouvement qu’un organe enfoui dans le crâne sait-il qu’il calcule une accélération? Les choses n’ont nul besoin des noms ni des frontières grâce auxquels elles deviennent habitables pour celui qui les perçoit.

Ces partages sont nécessaires à la pensée, mais ils ne lient que celui qui les fait. Était-ce là le point où les deux architectures se rejoignaient une dernière fois: toutes deux possédaient une puissance extraordinaire parce qu’elles savaient transformer l’informe en chemins, distribuer ce qui venait, construire des passages à travers une complexité qui aurait autrement submergé celui qui devait la traverser… Toutes deux peuvent réparer, compenser, prévoir, continuer malgré l’atteinte, et toutes deux couraient précisément pour cette raison le risque de prendre la remarquable efficacité de leurs arrangements pour une propriété du monde lui-même.
Le monde, pourtant, ne s’y était pas engagé… Pas plus que la mer n’avait accepté les compartiments... et le temps, pas plus que moi, ne connaissait point l’horaire.
Je me demande ce que Félix pensera à la lecture de ce journal… Si toutefois ce journal lui parvient…Il m’arrive aussi de me demander ce que je pourrais penser si, d’aventure, j’étais à sa place. J’imagine Félix, debout sur le pont instable de ce bateau. Je me demande vraiment ce qu’il fait là. Je l’imagine écrire ce que j’écris… là, en ce moment… Aurait-il les mêmes pensées… les mêmes mots? Certainement pas… Quels seraient-ils alors? 

Inspiré très librement… à partir de
Morgan Robertson, Le Naufrage du Titan
Futility, or the Wreck of the Titan. 1898, 

dimanche 1 novembre 2026

(264) The abracadabrante story of Child Moon

 

“At night, upon the tips of treacherous rocks, improbable lights, reportedly seen and attested to by wanderers of the sea, warn or deceive.”

Victor Hugo, The Toilers of the Sea

 

Night approaches, rising from the sea as much as descending from the sky, gradually absorbing the colour of the waves, erasing distances, drawing closer around the ocean liner that vast expanse which, in broad daylight, the horizon had still seemed to push far away.

Lucian’s Journal

The wind is freshening. Great dark expanses move across the water. A wave higher than the others comes crashing against the bow… Seen from a distance, it bursts into a cloud of white spray. Seen from close quarters, the ship’s speed immediately sweeps it back along the sides of the ocean liner as it rears upwards. The water, lifted for an instant into the air, already seems to be seeking, from every direction, a way to enter into the movement of the ship.

At dusk, the fading light was removing some of the information upon which my gaze had until then built its certainties. The world was becoming uncertain. Forms were fading away. My brain was struggling to continue forming stable images. It reconstructed volumes from a glimmer, a slight difference between shades of black, a movement briefly glimpsed. Curiously, at certain moments, I could continue to see long after vision would normally have become almost impossible. This is one of the strengths of our brain, this ability to fashion continuity out of fragments, to avoid abandoning the world whenever it becomes incomplete. Night thus reveals, more clearly than day, how much seeing also consists in completing what is seen.

I tell myself that, aboard this ocean liner, danger, should it come, would not arise solely when nothing could be seen any longer. The distance between what actually appears ahead of the bow and what the mind has time to make of it may become, before anyone is even aware of it, a critical distance.

Little by little, it was becoming difficult to tell which of the two was imposing its movement upon the other. The ocean liner was still cutting through the sea, but the sea was lifting it, making it roll, tilting its decks slightly before restoring them to the horizontal. The wind swept through the superstructures, darkness spread across the porthole windows, waves struck the steel, and even the ship’s speed, that symbol of mastery, seemed to be overtaken by something more immense. As though the voyage itself were imperceptibly ceasing to belong entirely to the one who believed himself to be directing it.

The body often knows better than thought. Whenever the deck tilts, it compensates… Whenever a wave lifted the immense mass of the ship, something in the legs, the pelvis, the shoulders accompanied that movement without waiting for it to be named, so that it became impossible to determine exactly where the displacement imposed by the sea ended and where the movement by which the body sought to respond to it began. Balance was no longer the maintenance of a position, but an uninterrupted succession of losses, each slight enough to be immediately recovered. This discovery remained buried within the muscles, like knowledge transmitted through a language still unknown.

Thus the ocean was already crossing the hull without allowing a single drop of water inside. It entered in the form of movement. It passed from wave to steel, from steel to deck, from deck to legs, from legs into those innumerable networks where a tilt became sensation, correction, memory, and perhaps the most carefully maintained separation of all… that which made the sea an outside and the one who watched it an inside… was already beginning to lose its clarity long before anything had actually broken.

Very freely inspired by…
Morgan Robertson, The Wreck of the Titan
Futility, or the Wreck of the Titan, 1898.


(264) A Abracadabrante História da Criança Lua

«À noite, nas pontas dos rochedos traiçoeiros, luzes inverosímeis, avistadas, ao que dizem, e confirmadas por errantes do mar, avisam ou enganam.»

Victor Hugo, Os Trabalhadores do Mar

 

A noite aproxima-se, sobe do mar tanto quanto desce do céu, absorvendo pouco a pouco a cor das ondas, apagando as distâncias, trazendo para mais perto, em redor do transatlântico, aquela imensidão que, em pleno dia, o horizonte ainda parecia empurrar para longe.

Diário de Lucian

O vento torna-se mais fresco e intenso. Grandes manchas sombrias deslocam-se sobre a água. Uma onda mais alta do que as outras veio quebrar-se contra a proa… Vista de longe, desfaz-se numa poeira branca. Vista de perto, a velocidade do navio fá-la recuar imediatamente ao longo dos costados do transatlântico, que se empina. A água, por um instante erguida até ao ar, parece já procurar, por todos os lados, uma maneira de entrar no movimento do navio.

Ao crepúsculo, a luz, ao desaparecer, fazia perder uma parte das informações sobre as quais o meu olhar tinha, até então, construído as suas certezas. O mundo tornava-se incerto. As formas esbatiam-se. O meu cérebro tinha dificuldade em continuar a formar imagens estáveis. Reconstruía os volumes a partir de um brilho, de uma ligeira diferença entre tons de negro, de um movimento brevemente entrevisto. Curiosamente, em certos momentos, conseguia continuar a ver muito depois de a visão, em condições normais, se ter tornado quase impossível. É essa uma das forças do nosso cérebro, essa capacidade de fabricar continuidade a partir de fragmentos, de não abandonar o mundo sempre que este se torna incompleto. A noite revela assim, melhor do que o dia, até que ponto ver consiste também em completar.

Digo para comigo que, a bordo deste transatlântico, o perigo, se vier, não surgirá apenas quando já nada se conseguir ver. A distância entre aquilo que realmente se apresenta diante da proa e aquilo que o espírito tem tempo de fazer disso pode tornar-se, sem que ninguém ainda se aperceba, uma distância crítica.

Pouco a pouco, tornava-se difícil dizer qual dos dois impunha o seu movimento ao outro. O transatlântico continuava a rasgar o oceano, mas o oceano erguia-o, fazia-o balançar, inclinava ligeiramente os seus conveses antes de os devolver à horizontalidade. O vento atravessava as superestruturas, a noite apoderava-se dos vidros das vigias, as ondas golpeavam o aço, e até aquela velocidade, símbolo do domínio, parecia ser ultrapassada por alguma coisa de mais vasto. Como se a própria marcha deixasse insensivelmente de pertencer por inteiro àquele que julgava conduzi-la.

O corpo sabe muitas vezes melhor do que o pensamento. Sempre que o convés se inclina, compensa… Sempre que uma onda erguia a massa do navio, alguma coisa nas pernas, na bacia, nos ombros acompanhava esse movimento sem esperar que ele fosse nomeado, de tal modo que se tornava impossível determinar exatamente onde terminava o deslocamento imposto pelo mar e onde começava aquele através do qual o corpo pretendia responder-lhe. O equilíbrio já não era a manutenção de uma posição, mas uma sucessão ininterrupta de perdas suficientemente pequenas para serem imediatamente recuperadas. Esta descoberta permanecia ainda enterrada nos músculos, como um saber transmitido por uma linguagem ainda desconhecida.

Assim, o oceano já atravessava o casco sem fazer entrar nele uma única gota de água. Entrava sob a forma de movimento. Passava da onda ao aço, do aço ao convés, do convés às pernas, das pernas a essas redes inumeráveis onde uma inclinação se tornava sensação, correção, memória, e talvez a separação mais cuidadosamente mantida de todas… aquela que fazia do mar um exterior e daquele que o observava um interior… começasse assim a perder a sua nitidez muito antes de alguma coisa se ter realmente rompido.

Inspirado muito livremente… a partir de
Morgan Robertson, O Naufrágio do Titan
Futility, or the Wreck of the Titan, 1898.


(264) L'abracadabrante histoire de l'Enfant Lune

 « La nuit, sur la pointe des rochers suspects, des clartés invraisemblables, aperçues, dit-on, et affirmées par des rôdeurs de mer, avertissent ou trompent.»

Victor Hugo, Les Travailleurs de la mer


La nuit approche, elle monte de la mer autant qu’elle descend du ciel, absorbant peu à peu la couleur des vagues, effaçant les distances, rapprochant autour du paquebot cette étendue qu’en plein jour l’horizon semblait encore repousser au loin.

Journal de Lucian

Le vent fraîchit. De grandes nappes sombres se déplacent sur l’eau. Une vague plus haute que les autres vint se briser contre l’étrave… Vue de loin, elle éclate en une poussière blanche. Vue de près, la vitesse la rabat aussitôt le long des flancs du paquebot qui se cabre. L’eau, un instant soulevée jusque dans l’air, semble déjà chercher par tous les côtés une manière d’entrer dans le mouvement du navire.

Au crépuscule, la lumière disparaissait une partie des informations sur lesquelles mon regard avait jusqu’alors forgé ses certitudes. Le monde devenait incertain . Les formes s’effaçaient. Mon cerveau peinait à poursuivre la formation d’images stables. Il reconstruisait les volumes à partir d’un éclat, d’une légère différence de noir, d’un mouvement aperçu brièvement. Curieusement, à certains moments, je pouvais continuer à voir bien après que la vue, normalement, fut devenue presque impossible. C’est là l’une des forces de notre cerveau, cette capacité à fabriquer de la continuité avec des fragments, à ne pas abandonner le monde chaque fois que celui-ci devient incomplet. La nuit révèle ainsi, mieux que le jour, combien le fait de voir  consiste aussi à compléter.
Je me dis que, sur ce paquebot, le danger, s’il devait venir, n’arriverait pas uniquement lorsqu’on ne voit plus rien. La distance entre ce qui se présente réellement devant l’étrave et ce que l’esprit a le temps d’en faire peut devenir, sans que personne encore ne s’en aperçoive, une distance critique.

Peu à peu, il devenait difficile de dire lequel des deux imposait sa marche à l’autre. Le paquebot fendait toujours l’océan, mais l’océan le soulevait, le faisait rouler, inclinait légèrement ses ponts avant de les rendre à l’horizontale. Le vent passait dans les superstructures, la nuit gagnait les vitres des hublots, les vagues frappaient l’acier, et même cette vitesse, symbole de la maîtrise, semblait être dépassée par quelque chose de plus vaste. Comme si la course elle-même cessait insensiblement d’appartenir tout entière à celui qui croyait la conduire.

Le corps sait souvent mieux que la pensée. Chaque fois que le pont s’incline, il compense… Chaque fois qu’une vague soulevait la masse du navire, quelque chose dans les jambes, le bassin, les épaules accompagnait ce mouvement sans attendre qu’il fût nommé, de sorte qu’il devenait impossible de déterminer exactement où finissait le déplacement imposé par la mer et où commençait celui par lequel le corps prétendait y répondre. L’équilibre n’était plus le maintien d’une position, mais une suite ininterrompue de pertes assez minimes pour être immédiatement reprises. Cette découverte demeurait encore enfouie dans les muscles, comme un savoir transmis par un langage encore inconnu.
Ainsi l’océan franchissait-il déjà la coque sans y faire entrer une seule goutte. Il entrait sous la forme du mouvement. Il passait de la vague à l’acier, de l’acier au pont, du pont aux jambes, des jambes à ces réseaux innombrables où une inclinaison devenait sensation, correction, mémoire, et peut-être la séparation la plus soigneusement entretenue de toutes… celle qui faisait de la mer un dehors et de celui qui la regardait un dedans… commençait-elle ainsi à perdre sa netteté bien avant que quoi que ce fût eût réellement rompu.

Inspiré très librement… à partir de
Morgan Robertson, Le Naufrage du Titan
Futility, or the Wreck of the Titan. 1898, 
 
 

samedi 31 octobre 2026

(263) The abracadabrante story of Child Moon

 “It is only out of a habit acquired from the insincere language of prefaces and dedications that a writer speaks of ‘my reader’. In reality, every reader, while reading, is the reader of his own self. The writer’s work is merely a kind of optical instrument which he offers to the reader, enabling him to discern within himself what, without that book, he might perhaps never have seen.”

Marcel Proust, In Search of Lost Time, aime regained

 

 

Where Félix, having closed what he already considers to be a book, rises and returns to his own life, his room, a window overlooking the street, people who know nothing of Lucian, Igniatius, Child Moon, or any of the others. Is all this enough to prove to him that he has stepped outside it?

Félix’s Journal

Have I myself emerged from Lucian’s letters? When I fold them away, they are no longer before my eyes… and yet something within me, I can feel it, continues to be influenced by them.

I leave my study and notice that I walk differently. I think differently. I return to my everyday life. But if I wish to see the drawings again, or reread the letters and notebooks, I need only close my eyes. In this way, I can observe certain details in the drawings differently. I no longer even read; I hear. A word, chosen seemingly at random, suddenly stands out in a sentence I had almost forgotten and brings it back to life, so that, paradoxically, the act of reading continues in the mind long after it has physically ceased.

Why should it be any different for Lucian?

Perhaps he has carried something away without even knowing it. At the very moment I say this, the opposite thought occurs to me. Has something carried him away instead…? In the first case, it would not be an idea he could repeat, still less a lesson, but a very slight alteration in his way of looking at what happens to him. He might hesitate for a moment before recognising what surrounds him. He might pay attention to a detail he would once have failed even to notice. That detail will encounter something else. Then… someone else. By then, what we might call the book, made up of all these notebooks, journals, letters and drawings, will already have left him. I do not mean that the work contained in this book, emerging from its own absurdity, will spread through the world exactly as it is, but only that it will continue in some undefined form in which no one will be able to confine it. Something of it will remain: an image or, what do I know… A way of telling a story, in something as infinitesimal as a gaze lingering for a second before deciding what it sees.

By then, there will be no one left to say: this comes from Child Moon. And it will be precisely there that he will have most completely continued his journey. I am thus beginning to understand that, from the very beginning, I was searching for an origin when everything was speaking to me of transmission. I was looking for a destination when everything was speaking to me of passage. I wanted to know where the work began so that I could know what it was. That was foolish. I would have to learn to recognise this origin differently. In the capacity the work possesses to endure without remaining identical to itself. Its capacity to lose itself sufficiently to encounter what, at its origin, it did not yet contain.

An idea then occurs to me. I no longer quite know whether I am writing it for myself or for the person who will read it. I venture the hypothesis that a story does not end when its author writes the final word, nor when its reader closes the book, but when nothing of what has passed through it can pass on any further, can escape elsewhere. If this is true, I do not know where Igniatius’s story ends… Nor do I know where Child Moon’s story is leading me. I am no longer even certain that we should wish for it to end anywhere. I know only that, in trying to discover where he came from, I allowed him to pass through me. Now, somewhere beyond the page across which my hand is still moving, there already exists a place that I can neither see nor name. In that place, someone believes they are reading. And as I write this, an almost amusing thought occurs to me. One I would probably not have accepted a few months earlier. The thought that the person reading me at this very moment believes I am speaking about them. They would be mistaken… Or rather, I have no idea. And that is exactly how it begins.