Enquanto todas as tapeçarias estremeciam em silêncio, as colunas lentamente cediam e as luzes se apagavam ou pareciam desaparecer, o observador cansado adormecera ligeiramente. Uma leve ausência, e ligeiros sobressaltos que ele retinha com grande esforço. Depois, sem mais processo, as suas pálpebras fecharam-se de repente e, lentamente, como uma avalanche de neve em pó, ele caía num profundo nevoeiro de brancura ofuscante. Pouco a pouco, imagens ganham vida na sua cabeça:
Vê… ou melhor, revê aquilo que lhe parece familiar… o enigmático percurso de um ser em perdição perpétua. O homem na pista voltara-se subitamente. E eis que tudo balança, como se a brusca mudança do homem tivesse desencadeado algum mecanismo destruidor. Toda a cor desapareceu, e o picadeiro já não é um abrigo, mas um navio.
A lona ruge, dobra-se, como se o vento exterior quisesse penetrar e virar a nave por dentro. Tudo à minha volta vacila, diz ele para si mesmo; eu também sinto o balanço, mas é sobretudo ele que oscila, esse homem no centro, preso num navio sem leme, que me parece reconhecer. Julga caminhar sobre solo firme, e é um convés instável que lhe foge debaixo dos pés.
Então escuto ainda. «As horas da loucura são medidas, as da sabedoria não o são», diz ele. E digo para mim: isto não é loucura, é funambulismo. O que ele põe em jogo é essa desordem que exibe como outros exibem uma proeza. As suas recordações jazem como objetos caídos de uma mala demasiado cheia; algumas brilham, resplandecentes, e no instante seguinte dissolvem-se, baças, inúteis. Oscila entre o esquecimento e a evidência, e nesse oscilar surge por vezes uma frágil certeza. Mas essa certeza, logo depois, torna-se vertigem.
Não posso ver tudo, mas compreendo que aquilo que não vejo faz parte do espetáculo. A sombra e o ecrã, os postes e as cordas, o próprio circo, tudo isso pertence à encenação. Como uma memória que se oferecesse nas suas próprias lacunas. Pois o vazio não é ausência; é uma espécie de intervalo, um espaço onde, no entanto, se joga o essencial… como um Arquipélago…
A própria palavra… «arquipélago» possui uma história estranha, quase invertida. Hoje, chamamos arquipélago a um conjunto de ilhas. No entanto, na origem, a palavra não designava as próprias ilhas, mas o mar que as rodeava. O termo vem do grego antigo: arkhi, «principal», «primeiro», «dominante», e pelagos, «mar», «alto-mar», «extensão marinha». O Arquipélago, no início, é portanto «o mar principal». Os Bizantinos empregavam esta expressão para falar do mar Egeu, esse mar semeado de ilhas inumeráveis entre a Grécia e a Anatólia. Ora, pouco a pouco, algo se deslocou. O olhar humano, impressionado pela multidão de ilhas que pontilhavam esse mar, acabou por transferir o nome do mar para as terras dispersas que ele continha. A palavra deslizou do líquido para o sólido, do meio para os fragmentos que envolvia.
E esse deslizamento é profundamente revelador.
Pois um arquipélago nunca é simplesmente uma soma de ilhas. O que o define é precisamente o espaço que as separa e as liga. As ilhas só existem como arquipélago através do mar que circula entre elas. Sem essa extensão movente, haveria apenas uma série de terras isoladas. O arquipélago supõe uma relação.
É por isso que o conceito de arquipélago é muito mais profundo do que parece. Uma ilha sozinha pode tornar-se um mundo fechado, uma totalidade separada. O arquipélago, por sua vez, introduz um pensamento da distância habitada. Cada ilha permanece distinta, mas nenhuma é inteiramente autossuficiente. Existem numa tensão entre separação e comunicação.
Isso explica por que a palavra adquiriu uma importância filosófica moderna, nomeadamente em Édouard Glissant. Em Glissant, o pensamento arquipelágico opõe-se aos sistemas continentais, maciços, centralizados. O continente tende para a unidade compacta, para a organização vertical e a fronteira nítida. O arquipélago propõe outra coisa: uma pluralidade descontínua onde as diferenças permanecem sem terem de se fundir num centro único.
O continente tranquiliza pela sua continuidade. O arquipélago vive no intervalo.
Esse intervalo é essencial. Entre as ilhas circula algo invisível: correntes, ventos, rotas, relatos, línguas, migrações. O mar separa, mas também transmite. Torna-se um meio vivo mais do que um vazio.
É sem dúvida por isso que os arquipélagos produziram tantas vezes imaginários tão particulares. Dão a sensação de um mundo fragmentado cuja unidade permanece secreta. Cada ilha parece trazer uma versão parcial do mundo inteiro. Encontramos aqui uma lógica muito próxima da pars pro toto: cada fragmento contém obscuramente o todo.
Num arquipélago, a unidade nunca aparece diretamente. Sente-se através das passagens.
Isto toca também algo muito antigo na experiência humana. Antes dos mapas modernos, o mar era menos uma superfície dominada do que uma potência movente e indeterminada. As ilhas apareciam nele como emergências precárias, quase aparições. Um arquipélago dava então a impressão de uma constelação terrestre: pontos dispersos ligados por trajetos invisíveis.
É por isso que o arquipélago se tornou uma imagem tão fecunda para pensar a memória, a linguagem ou mesmo a identidade.
A memória humana raramente se assemelha a um continente. É arquipelágica. Fragmentos emergem, separados por vastas zonas obscuras… no entanto, algo circula entre eles. Uma palavra ouvida na infância responde subitamente a uma imagem vista décadas mais tarde. Os elementos parecem afastados, mas correntes invisíveis ligam-nos.
Poder-se-ia dizer quase o mesmo do universo da Criança Lua. Os desenhos, os cadernos, as vozes, os fragmentos narrativos, as cartas de Félix e de Lucian, as suas imagens e as de Igniatius funcionam menos como um continente narrativo do que como um arquipélago. Cada fragmento parece autónomo, mas o mar que circula entre eles, essa espécie de palavra obscura e comum, acaba por produzir uma unidade movente.
E o mais fascinante talvez seja isto… o arquipélago conserva sempre a memória do mar que o nomeou. Mesmo quando julgamos falar das ilhas, a palavra continua silenciosamente a designar aquilo que as rodeia. O vazio aparente permanece a condição escondida de toda a relação.



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