mercredi 5 août 2026

(167) The abracadabrante story of Child Moon


"The depth of the sea is far more unknown than its vastness. Hardly have the first soundings, few and uncertain as they are, yet been made. The bold liberties we take upon the surface of that untamable element, our audacity in venturing across that profound unknown, are of little consequence and cannot diminish the sea's rightful pride. In truth, it remains closed, impenetrable."

Jules Michelet, The Sea, 1861



Where, in the relative and probably illusory calm of the depths, the whale has long since departed. Tossed by the currents and carried along invisible, endless pathways, the Moon Child, himself traversed by those currents, seems to be waiting. Perhaps he is waiting for the turbulence to subside, just as mist slowly dissolves, allowing the dark depths to become visible once more, where what he believes to be a monstrous fish appears and disappears within a time that dilates to the slow rhythm of its breathing.


There is an almost inevitable mistake we make whenever we think of the ocean: we imagine it to be still as soon as its surface disappears from view. Yet the deeper one descends, the more difficult movement becomes to perceive—and the more completely it governs everything.
In the depths, the water never ceases to travel. It neither falls nor rises. It glides. It exchanges its place with another body of water which, for centuries perhaps, has followed the same course without ever knowing either its origin or its destination. The currents move with such slowness that they seem to have renounced all haste. Yet this slowness deceives. On the scale of a human life, it is capable of displacing entire seas.
Cold water possesses a peculiar gravity. It is denser. Soundlessly, it seeks the depths as a thought naturally seeks what it does not yet know about itself. Lighter water, warmed elsewhere by a sun that never reaches these abysses, undertakes in return another journey. Thus are born immense circulations that obey no will, only an almost imperceptible difference in temperature or salinity. A few tenths of a degree are sometimes enough to set in motion masses of water whose weight exceeds all imagination. These movements have nothing of the tumult of waves. They resemble instead the slow drift of continents. They are liquid geologies.
It sometimes happens that two bodies of water meet without truly mingling. They brush alongside one another for hundreds of kilometers. Between them remains an almost invisible frontier, where density changes more rapidly than colors could ever reveal. Whoever could remain there might experience the strange sensation of passing through several seasons without advancing a single step. Deeper still, cold ceases to be a circumstance; it becomes a way of being for the water itself. The temperature varies so little that a tenth of a degree possesses the importance a mountain would have upon a plain. Nothing appears to change. Yet everything reorganizes itself around that infinitesimal difference.
Currents do not always follow a straight course. They bend and divide. They coil back upon themselves like the immense swirls of a smoke no one could ever see. Some bodies of water trace spirals stretching for dozens of kilometers before resuming their journey. Others rotate so slowly that their turning seems to belong more to time than to space. We believe them silent because the ear cannot hear them. Yet they possess a texture. Some waters seem thick without truly being so. Others give the impression of yielding more easily to whatever passes through them. This sensation does not arise from their substance, which remains the same, but from the minute differences in velocity that separate one neighboring layer from another. Water glides upon water like two sheets of glass separated by an invisible film.


(167) A abracadabrante história da Criança Lua


« A profundidade do mar é muito mais desconhecida do que a sua extensão. Mal foram realizados os primeiros sondamentos, poucos e ainda muito incertos. As pequenas ousadias que tomamos à superfície desse elemento indomável, a nossa audácia em percorrer esse profundo desconhecido, pouco representam e nada podem retirar ao legítimo orgulho do mar. Na realidade, ele permanece fechado, impenetrável.»

Jules Michelet, O mar, 1861



Onde, na calma relativa e provavelmente ilusória das profundezas, a baleia partiu há muito tempo. Levado pelos movimentos das correntes e percorrendo infinitos caminhos invisíveis, o Menino Lua, atravessado por essas mesmas correntes, parece esperar. Talvez espere que os remoinhos se dissipem, tal como o nevoeiro se desfaz, deixando novamente, muito lentamente, entrever as profundezas obscuras onde aquilo que ele julga ser um peixe monstruoso aparece e desaparece num tempo que se dilata ao ritmo lento da sua respiração.


Há um erro quase inevitável quando pensamos no oceano: imaginamo-lo imóvel assim que deixamos de ver a sua superfície. Contudo, quanto mais se desce, mais difícil se torna perceber o movimento — e mais completamente ele governa tudo.
Nas profundezas, a água nunca deixa de viajar. Não cai. Também não sobe. Desliza. Troca o seu lugar com outra água que, por vezes há séculos, percorre o mesmo caminho sem jamais conhecer a sua origem nem o seu destino. As correntes avançam com tal lentidão que parecem ter renunciado a toda a pressa. Contudo, essa lentidão engana. À escala de uma vida humana, desloca mares inteiros.
A água fria possui uma gravidade singular. É mais densa. Sem ruído, procura as profundezas como um pensamento procura naturalmente aquilo que ainda ignora de si mesmo. A água mais leve, aquecida algures por um sol que nunca alcança estes abismos, empreende, por sua vez, outra viagem. Assim nascem imensas circulações que não obedecem a nenhuma vontade, mas apenas a uma diferença quase impercetível de temperatura ou de salinidade. Bastam, por vezes, alguns décimos de grau para pôr em movimento massas de água cujo peso ultrapassa toda a imaginação. Estes deslocamentos nada têm do tumulto das ondas. Assemelham-se antes à lenta deriva dos continentes. São geologias líquidas.
Acontece, contudo, que duas massas de água se encontrem sem verdadeiramente se misturarem. Roçam-se durante centenas de quilómetros. Entre elas subsiste uma fronteira quase invisível, onde a densidade muda mais depressa do que as cores alguma vez poderiam mostrar. Quem pudesse permanecer ali sentiria talvez a estranha sensação de atravessar várias estações sem ter dado um único passo. Mais abaixo ainda, o frio deixa de ser uma circunstância; torna-se um modo de ser da própria água. A temperatura varia tão pouco que um décimo de grau adquire a importância que uma montanha teria sobre uma planície. Nada parece mudar. E, no entanto, tudo se reorganiza em torno dessa diferença infinitesimal.
As correntes nem sempre seguem uma linha reta. Curvam-se e dividem-se. Enrolam-se sobre si mesmas como os volutas de um imenso fumo que ninguém poderia ver. Algumas massas de água descrevem espirais de dezenas de quilómetros antes de retomarem o seu percurso. Outras giram tão lentamente que a sua rotação parece pertencer mais ao tempo do que ao espaço. Julgamo-las silenciosas porque o ouvido não as consegue escutar. No entanto, possuem uma textura. Certas águas parecem espessas sem verdadeiramente o serem. Outras dão a impressão de se deixarem atravessar com maior facilidade. Essa sensação não provém da sua matéria, sempre idêntica, mas das ínfimas diferenças de velocidade que separam duas camadas vizinhas. A água desliza sobre a água como duas placas de vidro separadas por uma película invisível.


(167) L’abracadabrante histoire de l’Enfant Lune


« La profondeur de la mer est bien plus inconnue que son étendue. À peine les premiers sondages, peu nombreux et peu certains, ont-ils été faits encore. Les petites libertés hardies que nous prenons à la surface de l'élément indomptable, notre audace à courir sur ce profond inconnu, sont peu, et ne peuvent rien faire au juste orgueil que garde la mer. Elle reste, en réalité, fermée, impénétrable.» 

Jules Michelet, La Mer, 1861, Livre I « La mer vue du rivage »



Où, dans le calme relatif et probablement illusoire des profondeurs, depuis longtemps la baleine est partie. Ballotté par les courants et parcourant d’infinis chemins invisibles, l’Enfant Lune, traversé  par ces courants, semble attendre. Peut-être attend-il que les remous s’estompent comme la brume se dissipe laissant à nouveau, très lentement, voir à nouveau les obscures profondeurs où ce qu’il croit être un poisson monstrueux apparaît et disparaît dans un temps qui se dilate au rythme lent de ses respirations.

Il est une erreur presque inévitable lorsque l'on pense à l'océan: nous l'imaginons immobile dès lors que l'on cesse d'en voir la surface. Pourtant, plus l'on descend, plus le mouvement devient difficile à apercevoir, et plus il gouverne tout.
Dans les profondeurs, l'eau ne cesse jamais de voyager. Elle ne tombe pas. Elle ne monte pas davantage. Elle glisse. Elle échange sa place avec une autre eau qui, depuis parfois des siècles, accomplit le même trajet sans jamais connaître son origine ni son terme. Les courants y avancent avec une lenteur telle qu'ils semblent avoir renoncé à toute hâte. Pourtant, cette lenteur trompe. À l'échelle d'une vie humaine, elle déplace des mers entières.
L'eau froide possède une gravité particulière. Elle est plus dense. Sans bruit, elle cherche les profondeurs comme une pensée cherche naturellement ce qu'elle ignore encore d'elle-même. L'eau plus légère, réchauffée ailleurs par un soleil qui n'atteint jamais ces abîmes, entreprend en retour un autre voyage. Ainsi naissent d'immenses circulations qui n'obéissent pas à une volonté mais à une différence presque imperceptible de température ou de salinité. Quelques dixièmes de degré suffisent parfois à mettre en marche des masses d'eau dont le poids dépasse toute imagination. Ces déplacements n'ont rien du tumulte des vagues. Ils ressemblent davantage à la dérive lente des continents. Ils sont des géologies liquides.
Il arrive cependant que deux eaux se rencontrent sans véritablement se mélanger. Elles se frôlent durant des centaines de kilomètres. Entre elles subsiste une frontière presque invisible, où la densité change plus vite que les couleurs ne sauraient le montrer. Celui qui pourrait s'y tenir éprouverait peut-être la sensation étrange de traverser plusieurs saisons sans avoir avancé d'un seul pas. Plus bas encore, le froid cesse d'être une circonstance; il devient une manière d'être de l'eau. La température varie si peu qu'un dixième de degré y possède l'importance qu'une montagne aurait sur une plaine. Rien ne paraît changer. Pourtant, tout se réorganise autour de cette infime différence.
 
 
Les courants ne suivent pas toujours une ligne. Ils se courbent et se divisent. Ils s'enroulent sur eux-mêmes comme les volutes d'une fumée immense que personne ne pourrait voir. Certaines eaux décrivent des spirales de plusieurs dizaines de kilomètres avant de reprendre leur route. D'autres tournent si lentement que leur rotation semble appartenir davantage au temps qu'à l'espace. On les croit silencieux parce que l'oreille ne peut les entendre. Pourtant ils possèdent une texture. Certaines eaux paraissent épaisses sans l'être réellement. D'autres donnent l'impression de se laisser traverser plus facilement. Cette sensation ne vient pas de leur matière, toujours identique, mais des minuscules différences de vitesse qui séparent deux couches voisines. L'eau glisse sur l'eau comme deux plaques de verre séparées par une pellicule invisible.




mardi 4 août 2026

(166) The abracadabrante story of Child Moon

 
Where one hears Igniatius's voice, lost among the islands and one of his drawings, growing steadier as the islands themselves become ever less so...


Igniatius's Notebook

I could not say at what moment the fire had left the island to enter into me. I am not speaking of its heat, which could never have crossed such an expanse of sea, but of another way of burning, slower, perhaps older, which seemed to have been waiting for a very long time for something, in that smoke rising tirelessly toward a sky whose very breathing it was beginning to alter, finally to consent to give it a face—as though the flames had never aspired to consume the trees, but only to teach the eye to recognize what it had more or less ceased to see.
The words I had encountered a few days earlier in some misplaced notebook then returned to me with the peculiar persistence of certain travelers who, after disappearing from our memory, nevertheless find without difficulty the way back to their own voice... or to ours.
Convective column... pyroconvection...
I scarcely knew these words and simply let them pass. I made no effort to retain what they had meant when I first read their definitions. Those definitions, like what lay before my eyes, were already fading. The words, however, continued on their way. They rose as the smoke itself was rising, and it suddenly occurred to me that perhaps there exist words—or even languages—that were never invented to explain the world, but to accompany certain of its movements until they find within us a chamber spacious enough to continue their ascent.
It was then that the drawings, with no presence other than my memory, began to breathe.
For a long time I had believed them filed away among those finished things whose very place in a cupboard one eventually forgets, though they continue, in our absence, a life of which we know nothing, like closed books that go on reading themselves without the aid of any reader, waiting only for an event to grant them, if not permission, then at least the opportunity to open their pages once more.
 
 

In one of those drawings in particular, I no longer saw the characters first. I saw the book.
Almost at the center of the image—which I had, or perhaps I myself had, drawn—that book lay open. I do not know why this obvious fact, this open book, which I had drawn so many times without ever pausing over it, moved me more deeply than anything else.
 
 

 An open book, whether true or not, promises more than a reading.
It already accepts—perhaps against its will—that a part of itself escapes it... or has already escaped. It renounces—or must renounce—the attempt to hold on to its own pages.
It offers itself to the wind with the unreasonable trust of things that know their loss still belongs to their faithfulness.
Only then did I notice that it—or rather its pages—sheltered a hearth whose growing flame was exploring the entire image.
How could I have overlooked it for so long?
The flames were not falling upon the book.
They were being born from it.
Just as, upon the ocean at that same moment, the waves and the flames rose toward one another in a dance so ancient and so gentle that it became impossible to tell whether the fire was imitating the sea or whether the sea was silently continuing a conflagration that had begun long before water itself was born.
I wanted to choose between the two elements.
Unable to distinguish the dancers, my gaze refused.
The intertwined waves continued their slow turning.
The flames answered them without ever seeking to overcome them.
They seemed to belong to that same breath from which the Archipelago had perhaps received—or laid down, on some very ancient day—its first stone.
Entwined myself with my own dancing memory, I remained for a long while before that hesitation.
Or perhaps it was the hesitation that remained before me.
I was no longer looking only at the island.
My gaze had already moved away from myself.
Something was passing from the smoke into the drawings with a naturalness that troubled me more deeply than all their resemblances.
I had never drawn that fire.
Of that I was certain.
And yet it became increasingly difficult to believe that the flames rising today above the sea were foreign to those which, for so many years, had continued to rise between the pages of that book I had stubbornly believed belonged to me.
Upon the book—as here—the characters in turn finally appeared, not as memories appear when they return from the past, but like those islands which, on certain mornings, seem to emerge from the mist although they have never ceased to be there.
I saw the child advancing.
I scarcely looked at the two beings waiting for him.
My attention remained held by that simple movement carrying his whole body toward the little world suspended before him, with the silent confidence of those who do not yet know that one may lose one's direction without ever leaving the path one follows.
I thought the other two were about to stop him...
But they did nothing except dance.
They had no need to do otherwise.
As I continued to watch them, unable to tear my eyes away from their smiles, radiant with I knew not what enchantment—still unable to tell whether they announced a joy to be shared or merely preserved the memory of some ancient wound—it seemed to me that certain detours never truly divert the one who walks...
They merely shift, almost imperceptibly, the world toward which he believed he was walking.
The thought passed through me as a breath passes between two flames.
Then it vanished.
Meanwhile the fire—the real fire—continued to rise.
The waves continued to rise as well.
And I remained there for a long time, suspended between water and fire, unable to decide whether I was watching an island burn, or whether the drawings, to which I had once believed I had given birth, had at last discovered the landscape they had always been waiting for in order to begin recognizing me.

(166) A abracadabrante história da Criança Lua


Onde se ouve a voz de Igniatius, perdida entre as ilhas e um dos seus desenhos, tornar-se mais firme à medida que as próprias ilhas o são cada vez menos...


Caderno de Igniatius

Não saberia dizer em que momento o fogo deixou a ilha para entrar em mim. Não falo do seu calor, que jamais poderia atravessar uma tal extensão de mar, mas de uma outra maneira de arder, mais lenta, talvez mais antiga, que parecia esperar havia muito tempo que alguma coisa, naquele fumo que subia sem cessar para um céu cuja própria respiração acabava por transformar, consentisse enfim em devolver-lhe um rosto, como se as chamas nunca tivessem ambicionado consumir as árvores, mas apenas ensinar os olhares a reconhecer aquilo que tinham, mais ou menos, deixado de ver.
As palavras que encontrara alguns dias antes num qualquer caderno perdido regressaram-me então com a singular obstinação daqueles viajantes que, depois de terem desaparecido da nossa memória, reencontram, contudo, sem dificuldade, o caminho da sua voz... ou da nossa.
Coluna convectiva... piroconvecção...
Mal conhecia estas palavras e deixei-as passar. Não procurei reter aquilo que tinham querido dizer quando lera as suas definições. Estas, tal como aquilo que eu tinha diante dos olhos, já se perdiam. As palavras, porém, continuavam a avançar. Subiam como subia o fumo, e ocorreu-me de repente que talvez existam palavras... ou línguas... que nunca foram inventadas para explicar o mundo, mas para acompanhar alguns dos seus movimentos até encontrarem, dentro de nós, uma câmara suficientemente vasta para prosseguirem a sua ascensão.
Foi então que os desenhos, sem outra presença além da minha memória, começaram a respirar.
Durante muito tempo julgara-os arrumados entre essas coisas acabadas cuja própria posição num armário acabamos por esquecer, embora continuem, durante a nossa ausência, uma vida de que nada sabemos, semelhantes àqueles livros fechados que prosseguem a sua leitura sem o auxílio de qualquer leitor, esperando apenas que um acontecimento lhes conceda, se não a permissão, pelo menos a oportunidade de voltar a abrir as suas páginas.
 

Num desses desenhos, em particular, já não revi primeiro as personagens. Vi primeiro o livro. Quase ao centro da imagem que eu tinha — ou talvez eu próprio tivesse — desenhado, esse livro estava aberto. Não sei por que razão essa evidência, esse livro aberto, que eu desenhara tantas vezes sem jamais me deter nele, me comoveu mais profundamente do que todo o resto. 
 
 


Um livro aberto, seja verdadeiro ou não, não promete apenas uma leitura.
Já aceita... talvez à força... que uma parte de si mesmo lhe escape... ou já lhe tenha escapado.
Renuncia... ou tem de renunciar... a reter as suas próprias páginas.
Oferece-se ao vento com essa confiança desmedida das coisas que sabem que a sua perda continua a fazer parte da sua fidelidade.
Só então reparei que ele — ou melhor, as suas páginas — abrigava um foco cuja chama crescente explorava a imagem inteira.
Como pude ignorá-lo durante tanto tempo?
As chamas não caíam sobre o livro.
Nasciam dele.
Tal como, sobre o oceano, naquele mesmo instante, dançavam as ondas e as chamas, erguendo-se uma ao encontro da outra com uma doçura tão antiga que se tornava impossível dizer se o fogo imitava o mar ou se o mar prosseguia silenciosamente um incêndio iniciado muito antes do nascimento da água.
Quis escolher entre os dois elementos.
Incapaz de distinguir os dançarinos, o meu olhar recusava-se.
As ondas entrelaçadas continuavam a sua lenta rotação.
As chamas respondiam-lhes sem jamais procurar vencê-las.
Pareciam pertencer à mesma respiração da qual o Arquipélago talvez tivesse recebido... ou colocado, num dia muito antigo, a sua primeira pedra.
Também eu entrelaçado com a minha memória dançante, permaneci longamente diante dessa hesitação.
Ou talvez fosse ela que permanecesse diante de mim.
Já não contemplava apenas a ilha.
O meu olhar... afastara-se de mim.
Alguma coisa passava do fumo para os desenhos com uma facilidade que me perturbava mais profundamente do que todas as semelhanças.
Nunca desenhara aquele fogo.
Disso tinha a certeza.
E, no entanto, tornava-se cada vez mais difícil acreditar que as chamas que hoje se elevavam acima do mar fossem estranhas àquelas que, havia tantos anos, continuavam a erguer-se entre as páginas daquele livro que eu me obstinara em acreditar que me pertencia.
Sobre o livro... tal como aqui... as personagens acabaram por aparecer também, não como aparecem as lembranças quando regressam do passado, mas como aquelas ilhas que, em certas manhãs, parecem emergir da névoa, embora nunca tenham deixado de estar ali.
Vi a criança avançar.
Quase não olhei para os dois seres que a esperavam.
A minha atenção permanecia presa àquele movimento tão simples que conduzia todo o seu corpo em direção ao pequeno mundo suspenso diante dele, com essa confiança silenciosa dos seres que ainda ignoram que é possível perder uma direção sem abandonar o caminho que seguem.
Pensei então que os outros dois o iriam deter...
Mas nada fizeram além de dançar.
Não precisavam de fazer outra coisa.
Enquanto continuava a observá-los, incapaz de desviar os olhos dos seus sorrisos irradiando um encantamento que eu não sabia se anunciava uma alegria a partilhar ou se apenas conservava a memória de uma antiga ferida, pareceu-me que certos desvios nunca afastam verdadeiramente aquele que caminha...
Limitam-se a deslocar, quase impercetivelmente, o mundo para o qual ele julgava caminhar.
Esse pensamento atravessou-me como um sopro que passa entre duas chamas.
Depois desapareceu.
Entretanto, o fogo — esse bem real — continuava a subir.
As ondas continuavam também a erguer-se.
E eu permaneci ali, durante muito tempo ainda, suspenso entre a água e o fogo, incapaz de decidir se contemplava uma ilha a arder ou se os desenhos, aos quais julgara ter dado origem outrora, acabavam enfim de descobrir a paisagem que desde sempre esperavam para começar a reconhecer-me.



(166) L’abracadabrante histoire de l’Enfant Lune


Où l’on entend la voix d’Igniatius, perdue entre les îles et l’un de ses dessins, devenir plus ferme à mesure que les îles le sont de moins en moins…



Carnet d'Igniatius

Je ne saurais dire à quel moment le feu avait quitté l'île pour entrer en moi. Je ne parle pas de sa chaleur, qui ne pouvait traverser une telle étendue de mer, mais d'une autre manière de brûler, plus lente, plus ancienne peut-être, qui semblait attendre depuis longtemps que quelque chose, dans cette fumée montant sans se lasser vers un ciel dont elle finissait par modifier la respiration, consentît enfin à lui rendre un visage, comme si les flammes n'avaient jamais eu l'ambition de consumer les arbres mais seulement celle d'apprendre aux regards à reconnaître ce qu'ils avaient plus ou moins cessé de voir.
Les mots, rencontrés quelques jours auparavant dans quelque carnet égaré, me revinrent alors avec l’obstination singulière que montrent certains voyageurs qui, après avoir disparu de notre mémoire, retrouvent pourtant sans difficulté la route de leur  voix… ou de la nôtre. Colonne convective… pyroconvection… Ces mots je ne les connaissais guère et les laissai passer…, Je ne cherchai pas plus que cela à retenir ce qu'ils avaient voulu dire lorsque j’avais lus leurs définitions. Celles-ci, comme ce que j’avais sous les yeux, se perdaient déjà. Les mots, eux, continuaient d'avancer. Ils montaient comme montait la fumée, et il me sembla soudain qu'il existe peut-être des mots… ou des  langues qui n'ont jamais été inventées pour expliquer le monde, mais pour accompagner certains de ses mouvements jusqu'à ce qu'ils trouvent en nous une chambre assez vaste où poursuivre leur ascension.
C'est alors que les dessins, sans autre présence que ma mémoire, commencèrent à respirer.
Je les croyais depuis longtemps rangés parmi ces choses achevées dont on finit par oublier jusqu'à la place qu'elles occupaient dans une armoire, alors qu'elles continuent, pendant notre absence, une vie dont nous ne savons rien, semblables à ces livres fermés qui poursuivent leur lecture sans le secours d'aucun lecteur, attendant seulement qu'un événement leur donne soudain, si ce n’est la permission, du moins l’opportunité de rouvrir leurs pages.

 

Sur l’un de ces dessins , en particulier, je ne revis pas les personnages… je revis d'abord le livre. Presque au centre de l’image que j’avais pourtant… ou peut-être moi-même dessiné, ce livre était ouvert…
 
 
Je ne sais pourquoi cette évidence, ce livre ouvert, que j'avais pourtant dessinée tant de fois sans jamais m'y arrêter, me bouleversa davantage que le reste. Il me semblait y percevoir d'imperceptibles changements. Un livre ouvert, vrai ou non… ne promet pas seulement une lecture, il accepte déjà… peut-être forcé… qu'une partie de lui-même lui échappe… ou lui a déjà échappé. Il renonce… ou doit renoncer… à retenir ses propres pages. Il s'offre au vent avec cette confiance déraisonnable des choses qui savent que leur perte fait encore partie de leur fidélité.
Alors seulement je m'aperçus qu'il… ou ses pages abritaient un foyer dont la flamme grandissante explorait l’image toute entière. Comment avais-je pu l'ignorer si longtemps? Les flammes ne tombaient pas sur le livre… Elles naissaient de lui.
Comme sur l’océan, au même instant, dansait les vagues et les flammes montant à la rencontre l’une de l’autre avec une douceur si ancienne qu'il devenait impossible de dire si le feu imitait la mer ou si la mer poursuivait silencieusement un incendie commencé bien avant la naissance de l'eau. J'aurais voulu choisir entre les deux éléments. Incapable d’en discerner les danseurs… mon regard s'y refusait. Les vagues enlacées continuaient leur lente rotation. Les flammes leur répondaient sans jamais chercher à les vaincre. Elles semblaient appartenir à cette même respiration dont l'Archipel avait peut-être reçu… ou posé, en un jour très ancien, sa première pierre.
Enlacé moi-même avec mon souvenir dansant… Je demeurai longtemps devant cette hésitation. Ou peut-être était-ce elle qui demeurait devant moi. Je ne regardais déjà plus seulement l'île. Mon regard… de moi s’était éloigné… Quelque chose passait de la fumée aux dessins avec une facilité qui me troublait davantage que toutes les ressemblances. Je n'avais jamais dessiné ce feu. J'en étais certain. Et pourtant il me devenait de plus en plus difficile de croire que les flammes qui montaient aujourd'hui au-dessus de la mer fussent étrangères à celles qui, depuis tant d'années, continuaient de se lever entre les pages de ce livre dont je m'étais obstiné à croire qu'il m'appartenait.
Sur le livre… comme ici… les personnages finirent par apparaître à leur tour, non comme apparaissent les souvenirs lorsqu'ils reviennent du passé, mais comme ces îles qui, certains matins, semblent sortir de la brume alors qu'elles n'ont jamais cessé d'être là. Je vis l'enfant qui avançait. Je ne regardai presque pas les deux êtres qui l'attendaient. Mon attention demeurait retenue par ce mouvement si simple qui portait tout son corps vers le petit monde suspendu devant lui, avec cette confiance silencieuse des êtres qui ignorent encore qu'il est possible de perdre une direction sans quitter le chemin qu'ils suivent. Je crus alors que les deux autres allaient l'arrêter… mais ils ne firent rien d’autre que de danser…  Ils n'en avaient pas besoin. Il me sembla, tandis que je continuais de les regarder sans parvenir à détacher mes yeux de leurs sourires irradiant je ne sais quel sortilège, dont je ne savais toujours pas s'ils annonçaient quelque  joie à partager ou s'ils conservaient seulement la mémoire d'une ancienne blessure, que certains détours ne dévient jamais celui qui marche… ils déplacent seulement, presque imperceptiblement, le monde vers lequel il croyait marcher.
Cette pensée me traversa comme passe un souffle entre deux flammes, puis elle disparut pendant que le feu, bien réel celui-là, continuait de monter.
Les vagues continuaient de monter aussi.
Et je demeurai là, longtemps encore, partagé entre l’eau et le feu, incapable de décider si je regardais une île en train de brûler ou si les dessins, auxquels j'avais cru donner naissance autrefois, venaient enfin de découvrir le paysage qu'ils attendaient depuis toujours pour commencer à me reconnaître.


lundi 3 août 2026

(165) The abracadabrante story of Child Moon

 

Where Don Carotte, having learned that scientists give certain phenomena names whose terrifying precision takes nothing away from their beauty—speaking of a convective column, of pyrocovnection, of ascending currents capable of drawing air into the highest layers of the atmosphere before sending it back toward the earth as descending winds that, in turn, overturn the course of the fire—feels ancient flames, which he had believed forever buried, rising within himself..
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Don Carotte's Notebook

They describe the birth of a pyrocumulus, sometimes even of a pyrocumulonimbus, that thunderstorm engendered by the fire itself, in which flames, vapor, ice, lightning, and wind ultimately come to belong to a single movement.
These words teach me nothing that my body had not already begun to understand on that day; they merely give a more precise—and more terrifying—form to an undeniable truth: there are times when a fire ceases to be carried by the world and begins instead to create a world of its own.
What I felt was not merely fear.
Fear always has an object.
It knows what it is approaching.
What was gradually taking hold of me belonged to another order altogether.
The fire remained upon the neighboring island...
And yet the sky beneath which I stood was already no longer the same.
The wind had changed.
The light as well.
I could have sworn that the sea itself, no less than I, had begun to breathe differently.
Then an image, coming from I know not where, passed through my mind.
I saw again those empty fields where, only a few hours earlier, nothing had announced the slightest human presence; then, all at once, masts, ropes, canvas tents, caravans, animals, kitchens, and voices would arise, until an entire circus had taken possession of a place that seemed to have been waiting for it forever.
It was never merely a matter of setting up camp.
It was a world appearing within another world—not to replace it, but to impose upon it, for a while, another way of existing.
I resisted comparing the fire to the circus.
I merely recognized, without yet understanding it, the same power of appearance.
Since morning, vegetation had sprung from the stone.
Now the fire was springing from the vegetation.
And the longer I watched that island, the more a thought, still formless, began to make its way within me.
Perhaps these two events were not as foreign to one another as they appeared.
I did not mean that one caused the other.
Such an explanation would have been far too simple.
Rather, I had the feeling that they both answered to the same breath, hidden beneath the ancient lava flows, as though volcanoes, long after their craters had fallen silent, continued to speak a language that we hear only on the rarest of occasions.
I possessed, of course, no proof.
Only that persistent impression that an eruption perhaps never truly ends...
That it remains present beneath the stone with a patience that not even centuries can exhaust...
And that, on certain days—days whose memory no account seems capable of preserving exactly—it rises once more to the surface, now in the form of an impossible forest, now as a fire so immense that it compels even the sky itself to begin anew.
It was then that a strange thought came to me...
Might it be that my own life resembled, in its improbable way, that fire—far too vast for me to contain?


(165) A abracadabrante história da Criança Lua



Onde Don Carotte, depois de ter aprendido que os cientistas dão a certos fenómenos nomes cuja precisão aterradora nada retira à sua beleza — falando de uma coluna convectiva, da piroconvecção, de correntes ascendentes capazes de aspirar o ar até às camadas mais altas da atmosfera e depois devolvê-lo à terra sob a forma de ventos descendentes que, por sua vez, alteram o curso do incêndio — sente erguerem-se dentro de si antigas chamas que julgava para sempre sepultadas...



Caderno de Don Carotte

Descrevem o nascimento de um pirocúmulo, por vezes até de um pirocumulonimbo, essa tempestade gerada pelo próprio fogo, na qual as chamas, o vapor, o gelo, os relâmpagos e o vento acabam por pertencer a um mesmo movimento.
Estas palavras nada me ensinam que o meu corpo já não tivesse começado a compreender naquele dia; apenas dão uma forma mais exata — e mais aterradora — a esta evidência: acontece, por vezes, que um fogo deixa de ser transportado pelo mundo e começa a produzir o seu próprio mundo.
Aquilo que eu sentia não era apenas medo.
O medo tem sempre um objeto.
Sabe daquilo de que se aproxima.
Aquilo que lentamente se apoderava de mim pertencia a uma outra ordem.
O incêndio permanecia na ilha vizinha...
E, no entanto, o céu sob o qual eu me encontrava já não era o mesmo.
O vento mudara.
A luz também.
Eu teria jurado que o próprio mar, tal como eu, respirava de maneira diferente.
Foi então que uma imagem, vinda não sei de onde, atravessou o meu espírito.
Voltei a ver aqueles terrenos vazios onde, poucas horas antes, nada anunciava a menor presença humana; depois, de súbito, erguiam-se mastros, cordas, lonas, carroças, animais, cozinhas, vozes, até que um circo inteiro tomava posse de um espaço que parecia tê-lo esperado desde sempre.
Nunca era uma simples instalação.
Era um mundo que surgia dentro de outro mundo, não para o substituir, mas para lhe impor, durante algum tempo, uma outra maneira de existir.
Resistia a comparar o fogo ao circo.
Limitava-me a reconhecer, sem ainda o compreender, uma mesma potência de aparição.
Desde a manhã, a vegetação brotara da pedra.
Agora, o fogo brotava da vegetação.
E quanto mais contemplava aquela ilha, mais um pensamento, ainda informe, começava a abrir caminho dentro de mim.
Talvez estes dois acontecimentos não fossem tão estranhos um ao outro como pareciam.
Não queria dizer que um causasse o outro.
Uma explicação dessas seria demasiado simplista.
Tinha antes a impressão de que ambos respondiam a uma mesma respiração, escondida sob as antigas escoadas de lava, como se os vulcões, muito depois de as suas crateras se terem calado, continuassem a falar uma língua que só em ocasiões muito raras conseguimos ouvir.
É evidente que eu não possuía prova alguma.
Apenas aquela impressão obstinada de que uma erupção talvez nunca termine verdadeiramente...
De que permanece presente sob a pedra, com uma paciência que nem os próprios séculos conseguem desencorajar...
E de que, em certos dias — dias cuja memória nenhum relato parece capaz de conservar com exatidão —, volta à superfície, ora sob a forma de uma floresta impossível, ora sob a forma de um fogo tão vasto que obriga até o próprio céu a recomeçar de outro modo...
Foi então que me ocorreu uma ideia estranha...
E se a minha vida fosse, afinal, a imagem improvável daquele fogo — demasiado grande para mim?


(165) L'abracadabrante histoire de l'Enfant Lune

 

 
 Où Don Carotte, après avoir appris que les savants donnent à certains phénomène des noms dont la précision terrifiante ne retire rien à leur beauté, parlant d’une colonne convective, de pyroconvection, de courants ascendants capables d'aspirer l'air jusque dans les hautes couches de l'atmosphère, puis de le renvoyer vers la terre sous la forme de vents descendants qui bouleversent à leur tour la marche de l'incendie, sent monter de lui-même d'anciennes flammes qu'il croyait à jamais enfouies...

 

Carnet de Don Carotte
 
Ils décrivent la naissance d'un pyrocumulus, parfois même d'un pyrocumulonimbus, cet orage engendré par le feu lui-même où les flammes, la vapeur, la glace, les éclairs et le vent finissent par appartenir à un même mouvement. Ces mots ne m'apprennent rien que mon corps n'eût déjà commencé à comprendre ce jour-là; ils donnent seulement une forme plus exacte et terrifiante à cette évidence: il arrive qu'un feu cesse d'être porté par le monde et commence à produire le sien.
Je ne ressentais pas seulement de la peur. Celle-ci conserne toujours un objet. Elle sait de quoi elle s'approche... Ce qui me gagnait peu à peu appartenait à un autre ordre...
L'incendie demeurait sur l'île voisine... pourtant le ciel sous lequel je me tenais n'était déjà plus le même. Le vent avait changé. La lumière aussi. J'aurais juré que la mer elle-même, tout comme moi, respirait autrement. Alors une image, venue je ne sais d'où, traversa mon esprit. Je revis ces terrains vides où, quelques heures auparavant, rien n'annonçait la moindre présence humaine, puis où s'élevaient soudain des mâts, des cordages, des toiles, des roulottes, des animaux, des cuisines, des voix, jusqu'à ce qu'un cirque entier eût pris possession d'un espace qui semblait l'attendre depuis toujours. Ce n'était jamais une simple installation. C'était un monde qui apparaissait dans un autre monde, non pour le remplacer mais pour lui imposer, pendant quelque temps, une autre manière d'exister. Je résistais à comparer le feu au cirque. Je reconnaissais seulement, sans parvenir encore à le comprendre, une même puissance d'apparition. Depuis le matin, la végétation avait surgi de la pierre. À présent, le feu surgissait de la végétation. Et plus je regardais cette île, plus une pensée, encore informe, commençait à se frayer un chemin en moi. Ces deux événements n'étaient peut-être pas aussi étrangers l'un à l'autre qu'ils semblaient l'être. Je ne voulais pas dire que l'un causait l'autre... une telle explication eût été simpliste. J'avais plutôt le sentiment qu'ils répondaient tous deux à une même respiration demeurée cachée sous les anciennes coulées de lave, comme si les volcans, longtemps après que leurs cratères se soient tus, continuaient de parler une langue que nous n'entendons qu'à de très rares occasions.
Je ne possédais évidemment aucune preuve. Seulement cette impression obstinée qu'une éruption ne s'achève peut-être jamais vraiment... qu'elle demeure présente sous la pierre avec une patience que les siècles eux-mêmes ne découragent pas... et qu'il lui arrive, certains jours, dont nul récit ne paraît capable de conserver exactement la mémoire, de refaire surface, tantôt sous la forme d'une forêt impossible, tantôt sous celle d'un feu si vaste qu'il oblige jusqu'au ciel à recommencer autrement... C'est alors que j'eus cette idée bizarre... Ainsi se pourrait-il que ma vie fut à l'image improbable de ce feu bien trop grand pour moi...
 
 
 

dimanche 2 août 2026

(164) The abracadabrante story of Child Moon


Where Don Carotte, in the very rhythm of events, discovers—filled at once with wonder and terror—that what he believed himself to be observing has itself begun to observe him.


Don Carotte's Notebook

I had left the shore before sunrise, intending to reach one of the heights on one of those islands where one loses oneself. Not because I hoped to discover anything in particular. I had long since realized that the things which matter most almost never consent to reveal themselves to the one who seeks them. They prefer to surprise the one who, having given up pursuing them, finally allows them the possibility of coming toward him.
The sky possessed an almost unsettling clarity. The sea, ordinarily so quick to multiply its shades, seemed to have chosen to preserve only one, as though it had decided to hold all the others within itself. Nothing appeared likely to disturb that stillness.
And yet, before my gaze had even left the nearest cliffs, I felt that something had changed.
The island rising before me no longer resembled the one I had glimpsed the previous day. The basalt slopes, whose nakedness had until then seemed to defy time itself, were now covered with such abundant vegetation that it became difficult to believe a single night could have sufficed for its appearance. Grasses climbed as far as the screes. Ferns clung to the fissures of the rock. Vines were already cascading down the ledges. Here and there, young trees—whose age I could not have guessed, whether they had been born only hours before or several years earlier—gave the island a depth it had never before seemed to possess.
For a long while I remained motionless, without the slightest thought...
As though the flowering of the neighbouring island had brought about the desertion of my own mind...
I had ceased to think.
I merely tried to let my eyes accept what they were seeing.
I then remembered certain accounts I had come upon during my travels: incomplete manuscripts, abandoned journals, loose pages with no beginning, several of which mentioned, almost absent-mindedly, these sudden eruptions of vegetation. None of them lingered over the phenomenon. One spoke of ferns appearing before dawn; another described trees whose growth no one had witnessed; a third seemed to know nothing of any such thing and portrayed the same islands as though they had never borne anything but stone, wind, and seabirds.
At first I believed I was dealing with imperfect testimonies.
With time, another idea had begun to visit me.
Could it be that their inconsistency did not belong to the witnesses themselves?
Perhaps it belonged to the Archipelago.
That thought had never entirely left me when I noticed the smoke.
It did not rise from any single point.
It seemed to emerge from the entire thickness of that sudden vegetation, as though the flames had not spread from one tree to another but had been born simultaneously in a multitude of invisible places. I could still scarcely distinguish the fire itself, yet the smoke was already rising with such force that it seemed to support the sky itself.
I waited, my eyes already stinging and nearly burning, for the wind to carry it out to sea.
But the wind no longer did what it had always done.
I cannot say at what moment I realized that it was no longer the wind that governed the fire.
It was the fire that now seemed to govern the wind.
The gusts of air reaching me no longer possessed that steady breathing which the sea ordinarily imposes upon the islands. They changed direction abruptly, ceased altogether, returned, then fell away again, as though another atmosphere were slowly taking shape within the first.
I had no need to understand the reasons for such an upheaval in order to feel that something, upon that island separated from mine by several miles of sea, was already transforming even the air I breathed.
I raised my eyes.
The column of smoke continued to grow.
It was not merely rising.
It was drawing the entire sky toward itself.


(164) A abracadabrante história da Criança Lua

 Onde Don Carotte descobre, no próprio ritmo dos acontecimentos, maravilhado e aterrorizado ao mesmo tempo, que aquilo que julgava observar começou também a observá-lo.


Caderno de Don Carotte

Deixei a costa antes do nascer do sol com a intenção de alcançar um dos pontos mais altos de uma daquelas ilhas onde nos perdemos. Não porque esperasse descobrir alguma coisa em particular. Há muito me apercebi de que as coisas mais importantes quase nunca consentem em mostrar-se àquele que as procura. Preferem surpreender aquele que, tendo renunciado a persegui-las, lhes deixa enfim a possibilidade de virem até ele.
O céu possuía uma limpidez quase inquietante. O mar, habitualmente tão pródigo em multiplicar as suas tonalidades, parecia ter escolhido conservar apenas uma, como se tivesse decidido reter dentro de si todas as outras. Nada parecia poder perturbar aquela imobilidade.
E, no entanto, antes mesmo de o meu olhar abandonar as arribas mais próximas, senti que alguma coisa tinha mudado.
A ilha que se erguia diante de mim já não se parecia com aquela que eu avistara na véspera. As encostas de basalto, cuja nudez parecia até então desafiar o próprio tempo, cobriam-se agora de uma vegetação tão abundante que se tornava difícil acreditar que uma única noite tivesse bastado para o seu aparecimento. As ervas subiam até às escombreiras. Fetos agarravam-se às fendas da rocha. Lianas desciam já das cornijas. Aqui e ali, jovens árvores, das quais eu seria incapaz de dizer se tinham nascido poucas horas antes ou vários anos atrás, davam à ilha uma profundidade que ela parecia nunca ter possuído.
Permaneci muito tempo imóvel, sem o menor pensamento...
Como se a floração da ilha vizinha tivesse provocado o abandono do meu próprio espírito...
Tinha deixado de pensar.
Limitava-me a deixar que os meus olhos aceitassem aquilo que viam.
Recordei então alguns relatos encontrados ao acaso das minhas viagens: manuscritos incompletos, diários abandonados, folhas soltas sem princípio, vários dos quais evocavam, quase distraidamente, estas súbitas aparições de vegetação. Nenhum deles se demorava verdadeiramente sobre o fenómeno. Um falava de fetos surgidos antes da alvorada... outro descrevia árvores cujo crescimento ninguém testemunhara... um terceiro parecia nada saber de tudo isso e descrevia as mesmas ilhas como se nunca tivessem conhecido outra coisa senão pedra, vento e aves marinhas.
Ao princípio, julguei estar perante testemunhos imperfeitos.
Com o tempo, outra ideia começou a visitar-me.
E se a sua infidelidade não viesse deles próprios?
Talvez pertencesse ao próprio Arquipélago.
Esse pensamento nunca me abandonara por completo quando reparei no fumo.
Não se elevava de um ponto preciso.
Parecia sair de toda a espessura daquela vegetação súbita, como se as chamas não se tivessem propagado de árvore em árvore, mas tivessem nascido ao mesmo tempo numa multidão de lugares invisíveis. Ainda mal distinguia o incêndio em si; contudo, o fumo já subia com tal força que dava a impressão de sustentar o próprio céu.
Esperei, com os olhos já ardentes e irritados, que o vento o levasse para o largo.
Mas o vento deixara de fazer aquilo que sempre fizera.
Não saberia dizer em que momento compreendi que já não era ele quem conduzia o fogo.
Era o fogo que parecia agora conduzir o vento.
As lufadas de ar que me alcançavam já não tinham nada daquela respiração regular que o mar habitualmente impõe às ilhas. Mudavam bruscamente de direção, interrompiam-se, regressavam, voltavam a cair, como se uma outra atmosfera estivesse lentamente a instalar-se no interior da primeira.
Eu não precisava de conhecer as razões de uma tal perturbação para sentir que alguma coisa, naquela ilha separada da minha por várias milhas de mar, já estava a modificar até o ar que eu respirava.
Levantei os olhos.
A coluna de fumo não parava de crescer.
Não se limitava a subir.
Atraía para si o céu inteiro.

(164) L'abracadabrante histoire de l'Enfant Lune

 
Où Don Carotte, dans le rythme même des événements, découvre, émerveillé et terrifié, que ce qu'il croyait observer est en train de l'observer lui aussi. 
 
 

Carnet de Don Carotte 
 
J'avais quitté le rivage avant le lever du soleil avec l'intention de gagner l'une des hauteurs de l'une de ces îles où l'on se perd. Non que j'espérasse y découvrir quelque chose de précis. Je me suis depuis longtemps aperçu que les choses les plus importantes ne consentent presque jamais à se montrer à celui qui les cherche. Elles préfèrent surprendre celui qui, ayant renoncé à les poursuivre, leur laisse enfin la possibilité de venir jusqu'à elles. Le ciel était d'une limpidité presque inquiétante. La mer, d'ordinaire si prompte à multiplier les nuances, semblait avoir choisi de n'en conserver qu'une seule, comme si elle eût décidé de retenir en elle-même toutes les autres. Rien ne paraissait devoir troubler cette immobilité. Pourtant, avant même que mon regard n'ait quitté les falaises les plus proches, je sentis que quelque chose avait changé. L'île qui se dressait en face de moi ne ressemblait plus à celle que j'avais aperçue la veille. Les pentes de basalte, dont la nudité semblait jusque-là défier le temps lui-même, s'étaient couvertes d'une végétation si abondante qu'il devenait difficile de croire qu'une seule nuit eût pu suffire à son apparition. Les herbes montaient jusqu'aux éboulis. Des fougères s'accrochaient aux fissures de la roche. Des lianes descendaient déjà des corniches. Ici et là, de jeunes arbres, dont je n'aurais su dire s'ils étaient nés quelques heures plus tôt ou plusieurs années auparavant, donnaient à l'île une profondeur qu'elle semblait n'avoir jamais possédée. Je demeurai longtemps sans bouger et sans la moindre pensée... Comme si la floraison de l'île voisine avait eu pour conséquence la désertion de mon esprit... J'avais cessé de penser. J'essayais seulement de laisser mes yeux accepter ce qu'ils voyaient.
Je me souvenais alors de quelques récits retrouvés au hasard de mes voyages, manuscrits incomplets, journaux abandonnés, feuillets sans commencement dont plusieurs évoquaient, presque distraitement, ces brusques apparitions de végétation. Aucun ne s'y arrêtait vraiment. L'un parlait de fougères surgies avant l'aube... un autre décrivait des arbres dont personne n'avait assisté à la croissance... un troisième ne semblait rien connaître de tout cela et décrivait les mêmes îles comme si elles n'avaient jamais porté autre chose que la pierre, le vent et les oiseaux de mer. Je m'étais d'abord cru en présence de témoignages imparfaits. Avec le temps, une autre idée avait commencé à me visiter.
Se pourrait-il que leur infidélité ne venait point d'eux-même. Peut-être appartenait-elle à l'Archipel lui-même.
Cette pensée ne m'avait jamais quitté tout à fait lorsque je remarquai la fumée.
Elle ne s'élevait pas d'un point précis. Elle semblait sortir de toute l'épaisseur de cette végétation soudaine, comme si les flammes ne s'étaient pas propagées d'un arbre à l'autre mais étaient nées simultanément en une multitude d'endroits invisibles. Je distinguais encore mal l'incendie lui-même; pourtant la fumée montait déjà avec une telle puissance qu'elle donnait l'impression de soutenir le ciel. J'attendis, les yeux picotant et presque irrités dejà, que le vent l'emportât vers le large. Mais le vent ne faisait plus ce qu'il avait toujours fait. Je ne saurais dire à quel moment je compris que ce n'était plus lui qui conduisait le feu.
C'était le feu qui semblait désormais conduire le vent. Les bouffées d'air qui me parvenaient n'avaient plus rien de cette respiration régulière que la mer impose d'ordinaire aux îles. Elles changeaient brusquement de direction, s'interrompaient, revenaient, retombaient comme si une autre atmosphère était lentement en train de prendre place à l'intérieur de la première. Je n'avais pas besoin de connaître les raisons d'un tel bouleversement pour sentir que quelque chose, sur cette île pourtant séparée de la mienne par plusieurs milles de mer, était déjà en train de modifier jusqu'à l'air que je respirais. Je levai les yeux. La colonne de fumée ne cessait de grandir. Elle ne montait pas seulement. Elle attirait à elle le ciel tout entier. 


samedi 1 août 2026

(163) The abracadabrante story of Child Moon

 
"There was a forest there... an immense forest, an inextricable tangle of trunks, lianas, shadows, and silence... It seemed motionless, yet filled with a hostile gaze. It was impossible to cross it without losing one's reason, so completely did it swallow everything into its green, humid darkness."

After Joseph Conrad, Heart of Darkness (1899)


Where Don Carotte inwardly experiences what is scarcely visible from without, and what, by its immense magnitude, gives him the uncanny feeling of being listened to...



From Don Carotte's Journal

The insects came next. At first they were discreet... exceedingly discreet. We believed we could make out the beating of their wings, their mandibles, their persistence. A continuous humming, which I imagined to be that of those invisible insects, insinuated itself even into my thoughts. The presence of that hum was more than physical: it crept in, it irritated the mind. And always there remained the impression that, behind the green curtain, something was listening.
I no longer knew how long we had been walking. Daylight scarcely changed anymore beneath that canopy so dense that it seemed to filter even time itself. My body grew heavy. I felt as though I were being drawn toward the earth by a force greater than gravity. And the trees—those great silent guardians—began to change. Their long, slender branches clawed at our passage like dry fingers. Some fell soundlessly beside us; others brushed against our faces like coarse feathers.
At times we would stop and suddenly turn around. A sound too near, one crack too many. But there was nothing.
Never anything.
Only trees.
Too many trees.
Too much verticality, too many similar forms within the relative stillness of the shade.
We had the feeling that we could no longer distinguish above from below.
Then, replacing the humming, came the auditory hallucinations. Distorted voices, far away—perhaps my own... perhaps those of the forest. Words that did not exist, and yet which I heard with perfect clarity. At times I believed I recognized footsteps, even behind me. My own breathing came back to me as an echo, but altered, as though it had passed through another mouth.
Every trunk became a threat.
Every rustling crown of leaves concealed an intention.
I dreamed while awake.
My mind wandered within another logic, a mental forest darker still than the one outside.
I was no longer an observer.
I had been taken.
And in one last moment of lucidity, I understood that it was not the forest that was labyrinthine.
It was I who had become formless within it.


Then, without my being able to say how, or at what moment, the ground beneath our feet had changed, we were no longer in the forest.
We were standing at the centre of a clearing.
Suddenly.
Not that we had seen it appear, nor felt it opening around us. There had been neither transition nor abrupt break, neither any gradual thinning of the foliage: we simply found ourselves there, as though space itself had quietly shifted around us without our noticing.
And the clearing was growing before our very eyes.

(163) A abracadabrante história da Criança Lua

 «Havia ali uma floresta... uma floresta imensa, um emaranhado inextricável de troncos, lianas, sombras e silêncio... Parecia imóvel e cheia de um olhar hostil. Era impossível atravessá-la sem perder a razão, tal era a maneira como tudo engolia na sua escuridão verde e húmida.»

Segundo Joseph Conrad, No Coração das Trevas (1899), tradução adaptada.



Onde Don Carotte sente intimamente aquilo que, do exterior, mal é visível e aquilo que, pela sua imensidão, lhe dá a impressão de estar a ser escutado...


Excerto do Diário de Don Carotte

Vieram depois os insetos. Primeiro discretos... muito discretos. Julgávamos perceber as suas asas, as suas mandíbulas, a sua insistência. Um zumbido contínuo, que eu imaginava ser o desses insetos invisíveis, insinuava-se até aos meus pensamentos. A presença desse zumbido era mais do que física: infiltrava-se, fazia comichão ao espírito. E permanecia sempre aquela impressão de que, por detrás da cortina verde, alguma coisa escutava.
Já não sabia há quanto tempo caminhávamos. A luz do dia deixara praticamente de variar sob aquela copa tão densa que parecia filtrar o próprio tempo. O meu corpo pesava-me. Parecia-me ser puxado para o chão por uma força maior do que a gravidade. E as árvores, essas grandes guardiãs silenciosas, começaram a transformar-se. Os seus ramos, longos e finos, arranhavam a nossa passagem como dedos ressequidos. Alguns caíam sem ruído ao nosso lado; outros roçavam-nos o rosto como penas ásperas.
Por vezes parávamos e voltávamo-nos de repente. Um ruído demasiado próximo, um estalido a mais. Mas não havia nada.
Nunca havia nada.
Apenas árvores.
Árvores de mais.
Demasiada verticalidade, demasiadas formas semelhantes na relativa imobilidade da sombra.
Tínhamos a impressão de já não conseguir distinguir o alto do baixo...
Depois, substituindo o zumbido, vieram as alucinações sonoras. Vozes deformadas, distantes, talvez as minhas... talvez as da floresta. Palavras que não existiam e que, no entanto, eu ouvia com absoluta nitidez. Julgava reconhecer passos, por vezes mesmo atrás de mim. A minha respiração regressava-me como um eco, mas alterada, como se tivesse passado por outra boca.
Cada tronco se tornava uma ameaça.
Cada folhagem murmurante escondia uma intenção.
Sonhava acordado.
O meu espírito navegava numa outra lógica, numa floresta mental ainda mais sombria do que aquela que me rodeava.
Já não era um observador.
Estava preso.
E, num último clarão de lucidez, compreendi que não era a floresta que era labiríntica.
Era eu que me tornara informe dentro dela.


E depois, sem que eu pudesse dizer como, nem em que momento, o terreno mudara sob os nossos pés, já não estávamos na floresta.
Estávamos no centro de uma clareira.
Subitamente.
Não que a tivéssemos visto surgir ou sentido abrir-se. Não houvera transição, nem ruptura nítida, nem um progressivo rarear da folhagem: encontrávamo-nos simplesmente ali, como se o próprio espaço tivesse deslizado à nossa volta sem que o tivéssemos percebido.
E a clareira alargava-se diante dos nossos olhos.