“Um homem que dorme mantém em círculo à sua volta o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos. Consulta-os instintivamente ao despertar e lê neles, num segundo, o ponto da terra que ocupa, o tempo que decorreu até ao seu despertar; mas as suas fileiras podem misturar-se, romper-se. Se, de manhã, após alguma insónia, o sono o surpreender enquanto lê, numa postura demasiado diferente daquela em que adormeceu, basta que o seu braço se erga para deter e fazer recuar o sol; e no primeiro minuto do seu despertar não saberá a hora, julgará que acabou de se deitar. Se adormecer numa posição ainda mais deslocada e divergente, por exemplo depois do jantar sentado num cadeirão, então o abalo será completo nos mundos desorbitados, o cadeirão mágico fá-lo-á viajar a grande velocidade no tempo e no espaço, e no momento de abrir as pálpebras acreditar-se-á deitado alguns meses antes numa outra região.”
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido
– Diga-me, o que é este oniromante?
– Na Antiguidade, o oniromante é incarnado por autores como Artemidoro de Daldis, cuja obra Oneirocritica constitui um dos tratados mais completos sobre a interpretação dos sonhos.
– O que diz ele?
– Para ele, o sonho não é uma simples fantasia interior: é uma linguagem codificada, muitas vezes orientada para o futuro.
– E para que serve?
– O oniromante atua então como um tradutor entre dois regimes de realidade: o visível diurno e o oblíquo noturno.
– Ele diz de dia… com clareza… o que se passa na noite!
– Sim… mas não decifra uma mensagem transparente. O sonho não é um texto claro escrito noutra língua: é já deformação e condensação. Aquilo que vemos em sonho nunca é simplesmente o que é. O oniromante deve, portanto, trabalhar num espaço onde o sentido está enterrado na própria forma do seu obscurecimento.
– E hoje?
– Se acreditar no nosso mestre, com a modernidade, o oniromante, se ainda existir, já não pode ser apenas um tradutor. Torna-se quase um geógrafo desses deslocamentos, um leitor desses lançamentos de dados, não desvelando um sentido estável, mas produzindo-o no próprio movimento da sua deformação; e, nomeadamente em Sigmund Freud, a figura do oniromante transforma-se. A interpretação já não visa apenas prever ou advertir: torna-se um trabalho de remontagem até desejos recalcados, até uma cena psíquica dissimulada.
– O sonho deixaria de ser enviado pelos deuses…
– Não, seria produzido por um sujeito dividido.
– O que é isso?
– É um pouco como nós… que somos, alternadamente, visíveis e invisíveis… e portadores de um discurso que nem sempre é o nosso…
– No entanto, algo permanece: a ideia de que o sonho fala de outro modo, que diz ao não dizer, que mostra disfarçando…
– Como essas imagens em que aparecemos…
– Neste ponto, como diz, o oniromante encontra profundamente o nosso próprio horizonte: o da imagem como acontecimento. Pois o sonho não é uma imagem estável. É aquilo que acontece à imagem. Dobra-a, deforma-a, fá-la surgir num regime onde as leis ordinárias já não se mantêm. Não interpreta apenas signos: assiste a uma espécie de nascimento, ou de surgimento, do visível numa forma instável.
Poder-se-ia então dizer que o oniromante é menos um leitor do que uma testemunha ativa. Não recebe um sentido já dado: participa na sua aparição. Nesse sentido, assemelha-se ao espectador de que me falou um dia, aquele que “assiste” ao espetáculo e lhe dá existência… pela sua presença. Dá assistência ao sonho, não ao estabilizá-lo, mas ao aceitar entrar no seu regime.
Há ainda algo mais perturbador.
– Diga-me!
– O sonho, por definição, dá-se sem um sujeito claro. Quem fala no sonho? Quem vê? Quem age? O pronominal “o que se passa” está aqui em ação. O sonho não é simplesmente algo que fazemos: é algo que se faz em nós, sem que sejamos os seus autores identificáveis. O oniromante coloca-se precisamente diante disso: um acontecimento sem origem evidente.
– Assim, o oniromante não procura apenas “o que isso quer dizer”.
– Não, mantém-se à beira de uma questão mais radical: de onde vem isso, e como advém como imagem?
– Nesta perspetiva, poder-se-ia quase dizer que o oniromante é uma figura liminar, um habitante do limiar.
– Uma espécie de guarda aduaneiro!
– De certo modo… mas ele situa-se entre vigília e sono, entre forma e informe. Não fecha o enigma… entre linguagem e silêncio… torna-o partilhável.
E talvez seja esse o ponto mais profundo… o oniromante não dissipa o sonho. Prolonga-o, fazendo-o passar para uma outra forma de vigília.


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