dimanche 31 mai 2026

(91) Summary of the Story (continuation 2)


“…he had to admit that his lucidity, his stubborn attachment to ‘rational judgment,’ no longer led anywhere, for although until now this town and, by extension, the world had lost none of their cruel reality, from now on that cruel, down-to-earth reality seemed to have evaporated, apparently beyond recall.
There was no point in trying otherwise, he had to admit it: he would no longer be able to get by with the subtle cleverness of his ‘Eszter-like’ formulas, the rhetoric he had begun to elaborate, and, more generally, the superiority of reason had here lost all meaning. Likewise, the meaning of words (like the light of a flashlight whose batteries had run down) had faded away, while the object to which that meaning had been attached had collapsed under the burden of the past fifty years, yielding instead to the implausible scenery of a Grand Guignol in which every sensible word and every rational thought had, in a bewildering fashion, lost their validity.”

László Krasznahorkai, The Melancholy of Resistance



Each character acts like a mast supporting a canvas larger than himself… then the whole structure is dismantled… and travels on… and then…
…everything reappears elsewhere… under another form… with the same figures… with other names. As though the story remained identical while constantly changing its location.
Perhaps that is also why Pinocchio the Other so often returns to my mind suspended from a detached trapeze. The trapeze belongs to the world of the circus… yet it has itself become detached from the big top.
It floats between two supports. Between two worlds.
Like a character who has left the story that sustained him while continuing to live according to its laws and contingencies.
I also notice that the circus maintains a singular relationship with falling. It shows it… but proves nothing. It challenges it and transforms it. The acrobat seems to conquer gravity… the tightrope walker appears to suspend it, while the trapeze artist gives the impression of flying. Yet each one works with the fall… never against it.
The whole art consists in giving it a form.
Here I rediscover the same intuition as in running. The man who runs never ceases to fall… He merely learns how to fall differently.
And suddenly I understand why the clown belongs to this family as well. We imagine that he merely brings about laughter… or provokes it. Yet laughter is often born from a collapse or a fall resulting from the awkwardness of a world that has lost its balance. The clown staggers and stumbles where others wish to walk straight. He reveals the fragility of supports and the fleeting stability of movement. He reminds us that all dignity remains close to disaster. The expression says it plainly: one can die of laughter. A strange formula. As though laughter already carried within it the trace of what it exorcises.
The circus then seems far less distant from death than people believe. It advances alongside it, as caravans advance alongside their shadows. Death accompanies every act… every leap… every aerial movement… every burst of laughter.
It remains invisible and yet present. The spectator feels it… the acrobat feels it too. It is precisely this proximity that makes the miracle visible.
The circus transforms risk into an apparition… when it is not the reverse. And precisely because I have this inversion in mind, I wonder whether stories proceed in a similar way. They erect their tents upon temporary lands and stretch a few ropes between the visible and the invisible. They set figures in motion who fall, rise again, reveal themselves… a little… reappear… then, mysteriously, take to the road once more.
I then return to a question that has accompanied me from the beginning.
Where does this story wish to go?
Today the question seems poorly framed. I should rather ask:
Where does this story wish… where can it… find support?
For it seems less oriented toward a destination than toward a place of incarnation. A place where it might take place.
And yet, as soon as I write these words, a reservation appears. For a story that had entirely found its place would perhaps become motionless.
Would it become a monument?
This idea too crosses my mind. Yet everything I receive from Lucian resists monumentality. Everything remains in motion… remains within passage… like an archipelago… a circus tent… a trapeze suspended between two grips… a foot… a step seeking its ground.
As though the being who falls were suddenly discovering its form within a fleeting body.
I close this notebook here with a strange impression. I still do not understand the deep meaning of this story… at least not sufficiently. I am only beginning to grasp a few fragments of it… and perhaps, above all, to understand what happens to me when I read it.
I gradually stop looking at the road.
I learn to look at where I place my feet.

(91) Resumo da História (continuação 2)

 «[…]
teve de admitir que a sua lucidez, o seu apego obstinado ao “juízo racional”, já não o levavam a lado nenhum, pois, embora até então aquela cidade e, por extensão, o mundo não tivessem perdido nada da sua cruel realidade, a partir daquele momento essa realidade cruel, tão terrena, parecia ter-se evaporado e, ao que tudo indicava, de forma irreversível.
Era inútil tentar resistir, tinha de admiti-lo: já não conseguiria sair-se com a subtileza das suas fórmulas “à maneira de Eszter”, nem com a retórica que começara a construir; de um modo geral, a superioridade da razão perdera ali todo o sentido. Do mesmo modo, o significado das palavras (como a luz de uma lanterna cuja pilha se gastou) tinha empalidecido, e o objeto ao qual esse significado se ligava desabara sob o peso dos cinquenta anos passados, cedendo lugar ao cenário inverosímil de um Grand Guignol onde toda a palavra sensata e todo o pensamento racional tinham, de forma desconcertante, perdido a sua validade.»

László Krasznahorkai, A Melancolia da Resistência
 


Cada personagem age como um mastro sustentando uma lona mais vasta do que ele próprio… depois o conjunto desmonta-se… viaja… e depois…
…tudo reaparece noutro lugar… sob outra forma… com as mesmas figuras… com outros nomes. Como se a história permanecesse idêntica enquanto muda constantemente de lugar.
Talvez seja também por isso que Pinóquio o Outro me regressa tantas vezes ao espírito, suspenso de um trapézio desligado. O trapézio pertence ao mundo do circo… mas desprendeu-se do próprio chapitô.
Flutua entre dois apoios. Entre dois mundos.
Como uma personagem que tivesse abandonado a história que a sustentava, continuando contudo a viver segundo as normas e contingências dessa mesma história.
Reparo também que o circo mantém uma relação singular com a queda. Mostra-a… mas não demonstra nada. Desafia-a e transforma-a. O acrobata parece vencer a gravidade… o funâmbulo parece suspendê-la, enquanto o trapezista dá a impressão de voar. No entanto, cada um trabalha com a queda… nunca contra ela.
Toda a arte consiste em dar-lhe uma forma.
Volto a encontrar aqui a mesma intuição da corrida. O homem que corre nunca deixa de cair… Aprende apenas a cair de outra maneira.
E, de repente, compreendo por que razão o palhaço também pertence a esta família. Julgamos que ele apenas traz… ou provoca o riso. Mas o riso nasce frequentemente de um colapso ou de uma queda, da desajeitada fragilidade de um mundo que perdeu o equilíbrio. O palhaço cambaleia e tropeça onde os outros querem caminhar direitos. Mostra a fragilidade dos apoios e a estabilidade efémera do movimento. Recorda-nos que toda a dignidade permanece vizinha do desastre. A própria expressão o diz: pode-se morrer de rir. Fórmula estranha. Como se o riso já transportasse em si o vestígio daquilo que procura exorcizar.
O circo parece-me então muito menos afastado da morte do que geralmente se acredita. Avança com ela, tal como as caravanas avançam com a sua sombra. Ela acompanha cada número… cada salto… cada voo… cada gargalhada.
Permanece invisível e, contudo, presente. O espectador sente-a… o acrobata também. É precisamente essa proximidade que torna o milagre visível.
O circo transforma o risco em aparição… quando não acontece precisamente o contrário. E, tendo presente essa inversão, pergunto-me se as histórias não procedem de maneira semelhante. Montam os seus chapitôs em terras provisórias e estendem algumas cordas entre o visível e o invisível. Fazem avançar figuras que caem, se levantam, se revelam… um pouco… reaparecem… e depois, misteriosamente, retomam a estrada.
Regresso então a uma questão que me acompanha desde o início.
Para onde quer ir esta história?
Hoje, a pergunta parece-me mal formulada… Eu deveria antes perguntar:
Onde quer esta história… onde pode ela… encontrar apoio?
Pois parece-me menos orientada para um destino do que para um lugar de encarnação. Um lugar onde possa acontecer.
E, contudo, mal escrevo estas palavras, surge uma reserva. Porque uma história que tivesse encontrado completamente o seu lugar tornar-se-ia talvez imóvel.
Seria um monumento?
Também esta ideia me atravessa o espírito. E, no entanto, tudo o que recebo de Lucian resiste ao monumento. Tudo permanece em movimento… permanece na passagem… como um arquipélago… um chapitô… um trapézio entre dois apoios… um pé… um passo à procura da sua terra.
Como se o ser que cai descobrisse subitamente a sua forma num corpo efémero.
Fecho aqui este caderno com uma estranha impressão. Ainda não compreendo o sentido profundo desta história… pelo menos não o suficiente. Apenas começo a apreender alguns dos seus fragmentos… e talvez, sobretudo, a compreender o que me acontece quando a leio.
Deixo gradualmente de olhar para o caminho.
Aprendo a olhar para onde ponho os pés.Non 

(91) Résumé de l’histoire (suite 2)


“ […]
 il dut admettre que sa luci dité, que son attachement obstiné au «jugement rationnel» ne menaient plus à rien, car si jusqu'ici cette ville et, par extension, le monde n'avaient rien perdu de leur cruelle réalité, désormais, cette cruelle réalité, très terre à terre, semblait s'être évaporée, et apparemment, de façon irréversible.
Inutile d'essayer, il devait l'admettre, il ne pourrait plus s'en sortir avec la finesse d'esprit de ses formules «à la Eszter», la rhétorique qu'il avait ébauchée et, d'une façon générale, la supériorité de la raison avaient perdu ici tout leur sens, au même titre que la signification des mots (comme la lumière d'une lampe de poche dont la pile était usée) s'était affadie, quant à l'objet auquel ce sens se rattachait, il avait croulé sous le fardeau des cinquante années passées pour céder la place au décor invraisemblable d'un Grand-Guignol où tout mot sensé, toute pensée rationnelle avaient de façon déroutante perdu leur validité.”

Lászlo Krasznahorkai, La mélancolie de la résistance, folio, p. 192-193







Chaque personnage agit comme un mât soutenant une toile plus vaste que lui… puis l'ensemble se démonte… et voyage… et puis…
… tout réapparaît ailleurs… sous une autre forme… avec les mêmes figures… avec d'autres noms. Comme si l'histoire demeurait identique en changeant constamment d'emplacement.
Peut-être est-ce aussi pour cette raison que Pinocchio l'Autre me revient souvent à l'esprit suspendu à un trapèze détaché. Le trapèze appartient au monde du cirque… mais il s’est lui-même s'est détaché du chapiteau.
Il flotte entre deux appuis. Entre deux mondes.
Comme un personnage qui aurait quitté l'histoire qui le soutenait tout en continuant à vivre selon les normes et les contingences de celle-ci.
Je remarque également que le cirque entretient un rapport singulier avec la chute. Il la montre… mais ne démontre rien. Il la défie et la transforme. L'acrobate semble vaincre la pesanteur… le funambule paraît la suspendre pendant que le trapéziste donne l'impression de voler. Pourtant chacun travaille avec la chute… jamais contre elle.
Tout l’art consiste à lui donner une forme.
Je retrouve ici la même intuition que dans la course. L'homme qui court ne cesse pas de tomber… Il apprend à tomber autrement.
Et soudain je comprends pourquoi le clown appartient lui aussi à cette famille. On croit qu'il apporte seulement… ou déclenche le rire. Mais le rire naît souvent d'un effondrement ou d'une chute faisant suite à la maladresse d'un monde qui perd son équilibre. Le clown titube, trébuche là où les autres veulent marcher droit. Il montre la fragilité des appuis et l’éphémère stabilité du mouvement. Il rappelle que toute dignité demeure voisine du désastre. L'expression le dit: On peut mourir de rireFormule étrange. Comme si le rire portait déjà la trace de ce qu'il exorcise. Le cirque me paraît alors moins éloigné de la mort qu'on ne le croit. Il avance avec elle, comme les caravanes avancent avec leur ombre. Elle accompagne chaque numéro… chaque saut… chaque voltige… chaque éclat de rire.
Elle demeure invisible et pourtant présente. Le spectateur la ressent… l'acrobate aussi. C'est précisément cette proximité qui rend le miracle visible.
Le cirque transforme le risque en apparition… quand ce n’est pas le contraire. Et, précisément, ayant à l’esprit cette inversion, je me demande si les histoires ne procèdent pas de façon comparable. Elles installent leurs chapiteaux dans des terres provisoires et tendent quelques cordes entre le visible et l'invisible. Elles font avancer des figures qui tombent, se relèvent, se révèlent… un peu…réapparaissent… puis… mystérieusement, elles reprennent la route. Je retrouve alors une question qui m'accompagne depuis le début.
Où cette histoire veut-elle aller?
Aujourd'hui, la question me paraît mal posée… je devrais plutôt demander:
Où cette histoire veut-elle… où peut-elle… prendre appui? Car elle me semble moins orientée vers une destination que vers un lieu d'incarnation. Un lieu où elle pourrait avoir lieu.
Et pourtant, dès que j'écris ces mots, une réserve apparaît. Car une histoire qui aurait entièrement trouvé son lieu deviendrait peut-être immobile.
Serait-ce un monument… Cette idée aussi me traverse l’esprit… or tout ce que je reçois de Lucian résiste au monument… Tout demeure en mouvement… demeure dans le passage… comme un archipel… un chapiteau… un trapèze entre deux prises… un pied… un pas cherchant sa terre. Comme si l’être qui chute découvre soudainement sa forme dans un corps éphémère.
Je referme ici ce carnet avec une impression étrange. Je ne comprends toujours pas le sens profond de cette histoire… du moins pas suffisamment. Je commence juste à en saisir quelque parcelle… et, peut-être, ou surtout… à comprendre ce qui m'arrive lorsque je la lis. Je cesse progressivement de regarder le chemin. J'apprends à regarder où je mets les pieds.

samedi 30 mai 2026

(90) Summary of the Story (continuation 1)

 


Félix’s Notebook

The story is not seeking a fertile plain. It is seeking a rare patch of earth, like a fissure in basalt or a pocket of soil capable of receiving a root. Sometimes a single one is enough.
The characters seem to live according to this law. The Moon Child finds temporary refuge in a drawing. Don Carotte in a staff. Pinocchio the Other in a word he has not yet spoken. Igniatius in an image. Lucian in a copy. I myself, perhaps, in these notes. None of us seems settled.
We resemble travelers moving from island to island. And yet, for some time now, another image has imposed itself upon me…
The circus.
I am surprised that it took me so long to see it.
For almost from the very beginning, everything was already there.
The circus arrives from nowhere.
It appears on the horizon like a new island.
It chooses a patch of ground. It raises its poles. It stretches its ropes. Then, within a few days, it builds something that resembles a dwelling.
Yet no one is deceived… this dwelling is temporary. Its poles enter the ground without ever taking root there. They draw the image of rootedness. They borrow its form. They refuse its duration. Thus the big top possesses something profoundly paradoxical.
It gives the impression of a center.
Yet… this center travels.
It gives the impression of a home… and that home lives by departure.
It gives the impression of a place whose only truth lies in passage.
I am beginning to suspect that the story I am reading functions in much the same way. Every drawing resembles a tent raised in the midst of the wind.
Every letter temporarily creates a habitable space. Every character acts like a pole supporting a canvas larger than himself… and then the whole structure is dismantled… and moves on…

(90) Resumo da História (continuação 1)

 


Caderno de Félix

A história não procura uma planície fértil. Procura uma terra rara, como uma fissura no basalto ou uma bolsa de solo capaz de acolher uma raiz. Por vezes, uma única basta.
As personagens parecem viver segundo esta lei. A Criança-Lua encontra refúgio temporário num desenho. Don Carotte num cajado. Pinóquio o Outro numa palavra que ainda não pronunciou. Igniatius numa imagem. Lucian numa cópia. Eu próprio, talvez, nestas notas. Nenhum de nós parece instalado.
Assemelhamo-nos mais a viajantes que passam de ilha em ilha. E, no entanto, há já algum tempo que outra imagem se impõe a mim…
O circo.
Surpreende-me ter demorado tanto a vê-lo.
Pois, quase desde o início, tudo já estava lá.
O circo chega vindo de parte nenhuma.
Surge no horizonte como uma nova ilha.
Escolhe um terreno. Ergue os seus mastros. Estende as suas cordas. Depois constrói, em poucos dias, algo que se parece com uma morada.
Contudo, ninguém se deixa enganar… essa morada é provisória. Os seus postes entram na terra sem jamais criar raízes. Desenham a imagem do enraizamento. Tomam-lhe emprestada a forma. Recusam-lhe a duração. O chapitô possui, assim, algo de profundamente paradoxal.
Dá a impressão de um centro.
Mas… esse centro viaja.
Dá a impressão de uma casa… e essa casa vive da partida.
Dá a impressão de um lugar cuja única verdade reside na passagem.
Começo a suspeitar que a história que leio funciona da mesma maneira. Cada desenho assemelha-se a um chapitô erguido no meio do vento.
Cada carta cria temporariamente um espaço habitável. Cada personagem age como um mastro sustentando uma lona maior do que ela própria… e depois todo o conjunto se desmonta… e segue viagem…


(90) Résumé de l’histoire (suite 1)



 Carnet de Félix

L'histoire ne cherche pas une plaine fertile. Elle cherche une terre rare tout comme une fissure dans le basalte ou une poche de sol capable d'accueillir une racine. Une seule suffit parfois.

Les personnages semblent vivre selon cette loi. L'Enfant Lune trouve momentanément refuge dans un dessin. Don Carotte dans un bâton.
Pinocchio l'Autre dans une parole qu'il n'a pas encore prononcée. Igniatius dans une image.
Lucian dans une copie. Moi-même, peut-être, dans ces notes. Aucun de nous ne paraît installé.
Nous ressemblons davantage à des voyageurs qui passent d'île en île. Et pourtant, depuis quelque temps, une autre image s'impose à moi…
Le cirque.
Je m'étonne d'avoir mis si longtemps à le voir.
Car, presque dès le début, tout était déjà là.
Le cirque arrive de nulle part.
Il apparaît à l'horizon comme une île nouvelle.
Il choisit un terrain. Il plante ses mâts. Il tend ses cordes. Puis il construit, en quelques jours, quelque chose qui ressemble à une demeure.
Pourtant personne ne s'y trompe… cette demeure est provisoire. Ses poteaux entrent dans le sol sans jamais s'y enraciner. Ils dessinent l'image de l'enracinement. Ils en empruntent la forme. Ils en refusent la durée. Le chapiteau possède ainsi quelque chose de profondément paradoxal.
Il donne l'impression d'un centre.
Mais… ce centre voyage. Il donne l'impression d'une maison… et cette maison vit du départ. Il donne l'impression d'un lieu dont la seule 
vérité réside dans le passage.
Je commence à soupçonner que l'histoire que je lis fonctionne de la même manière. Chaque dessin ressemble à un chapiteau dressé au milieu du vent.
Chaque lettre crée momentanément un espace habitable. Chaque personnage agit comme un mât soutenant une toile plus vaste que lui… puis l'ensemble se démonte… et voyage…

(89) Félix tries to summarize the story.


“Midway upon the journey of our life,
I found myself within a dark forest,
for the straight way had been lost.
Ah! how hard a thing it is to tell
what this wild, rough, and stubborn forest was,
which in thought renews my fear!
So bitter is it that death is scarcely more so;
but to speak of the good that I found there,
I will tell of the other things I saw therein.
I cannot rightly say how I entered it,
so full of sleep was I
at the moment when I abandoned the true way.
But when I had reached the foot of a hill,
where that valley ended
which had pierced my heart with terror…”

Dante, Inferno, Canto I



Félix’s Notebook

I am beginning, with some difficulty, to understand why this story sometimes exhausts me as much as it holds me. I thought I was following a narrative. I gradually discover that I am crossing a territory for which no one, perhaps, possesses a complete map. Lucian writes to me. Igniatius speaks to Lucian. The drawings speak to Igniatius… as much as they speak of him… or of others. The Moon Child seems to pass through the drawings… Don Carotte passes through the Moon Child… and Pinocchio the Other appears in regions where, if one trusts common sense, he should not yet be found. And I, from my desk, try to understand where I am placing my feet.
I could say that this story moves forward. That would be true. I could also say that it goes in circles. That would be true as well. At times I come to think that it resembles an archipelago more than a road… An island appears… I settle upon it… and build a hypothesis there… then another island emerges from the mist and the entire landscape reorganizes itself. The phenomenon repeats with an almost troubling regularity.
For a long time, I believed this story was searching for its form. Today, I doubt it. I suspect that, even though its form still escapes me… it already exists.
The problem lies elsewhere. What is missing may not be the form. It may be the place. I do not mean a geographical location. I mean a place capable of receiving the weight of what occurs.
The distinction seems important to me. A foot does not seek the idea of the ground. It seeks the ground itself. It seeks the precise place where it may come to rest.
This story often gives me the impression of being that foot suspended above the void. The previous step still exists. The next remains invisible. Yet the movement continues.
I often think about walking. Every step is an accepted imbalance. The body leaves one support before it has entirely found the next.
There exists an instant in which one belongs simultaneously to what one is leaving and to what one is approaching. That moment is the moment of passage. Perhaps that is what I have been reading for months without managing to name it… an immense region of passage.
A story that lives in the in-between.
Running carries this logic even further. Both feet sometimes leave the ground. For an instant the body seems to fly… Yet it is falling. It has never ceased to fall. The next foothold does not abolish the fall. It gives it form.
This image often returns when I think of Lucian. It returns even more strongly when I think of Igniatius. Both sometimes seem to float above their own hypotheses. Then gravity returns. A word. A drawing. A letter. An almost insignificant detail. Something calls them back toward the earth.
I then wonder whether truth functions in this way. We often imagine that it elevates us. It may instead attract us. Not downward, but toward a place. Toward a ground sufficiently real to bear our weight.
As I write this, I immediately think of the Archipelago. That impossible country which returns again and again in the drawings. Those volcanic islands where almost nothing grows. Those austere lands and their cliffs. Those ancient lava flows. Those swirling winds and that constant impression that everything might disappear tomorrow.
Today I understand better why this setting feels so right to me. The story is not seeking a fertile plain.
It is seeking a rare patch of earth, like a fissure in basalt or a pocket of soil capable of receiving a root. Sometimes a single one is enough.

(89) Félix tenta resumir a história.


«A meio do caminho da nossa vida,
encontrei-me numa floresta escura,
porque a via direita estava perdida.
Ah! quão difícil é dizer
o que era essa floresta selvagem, áspera e forte,
que reacende o medo no pensamento!
Tão amarga é ela que pouco falta para ser a morte;
mas, para falar do bem que ali encontrei,
direi as outras coisas que nela vi.
Não saberia dizer como nela entrei,
tão cheio de sono estava
no instante em que abandonei o verdadeiro caminho.
Mas, quando cheguei ao pé de uma colina,
onde terminava aquele vale
que me trespassara o coração de espanto…»

Dante, Inferno, Canto I


Caderno de Félix

Começo, com dificuldade, a compreender por que razão esta história por vezes me cansa tanto quanto me prende. Julgava estar a seguir uma narrativa. Descubro gradualmente que estou a atravessar um território do qual ninguém, talvez, possui o mapa completo. Lucian escreve-me. Igniatius fala com Lucian. Os desenhos falam com Igniatius… tanto quanto falam dele… ou dos outros. A Criança-Lua parece atravessar os desenhos… Don Carotte atravessa a Criança-Lua… e Pinóquio o Outro surge em regiões onde, se acreditarmos no bom senso, ainda não deveria encontrar-se. E eu, do meu gabinete, tento compreender onde ponho os pés.
Poderia dizer que esta história avança. Seria verdade. Poderia também dizer que gira em círculos. Isso também seria verdade. Por vezes chego a pensar que ela se parece mais com um arquipélago do que com uma estrada… Surge uma ilha… instalo-me nela… e construo uma hipótese… depois outra ilha emerge da névoa e toda a paisagem se reorganiza. Este fenómeno repete-se com uma regularidade quase inquietante.
Durante muito tempo, pensei que esta história procurava a sua forma. Hoje duvido disso. Suspeito que, embora a sua forma ainda me escape… ela já existe.
O problema está noutro lugar. O que falta talvez não seja a forma. Talvez seja o lugar. Não falo de um lugar geográfico. Falo de um lugar capaz de receber o peso daquilo que acontece.
A distinção parece-me importante. Um pé não procura a ideia do solo. Procura o solo. Procura o lugar exato onde poderá pousar.
Esta história dá-me frequentemente a impressão de ser esse pé suspenso sobre o vazio. O passo anterior ainda existe. O seguinte permanece invisível. E, no entanto, o movimento continua.
Penso muitas vezes na caminhada. Cada passo é um desequilíbrio aceite. O corpo abandona um apoio antes de ter encontrado completamente o seguinte.
Existe um instante em que pertencemos simultaneamente àquilo que deixamos e àquilo que alcançamos. Esse momento é o instante da passagem. Talvez seja isso que leio há meses sem conseguir nomeá-lo… uma imensa região de passagem.
Uma história que vive no entre-dois.
A corrida leva esta lógica ainda mais longe. Por vezes, ambos os pés deixam o chão. Durante um instante, o corpo parece voar… Contudo, está a cair. Nunca deixou de cair. O apoio seguinte não elimina a queda. Dá-lhe uma forma.
Esta imagem regressa frequentemente quando penso em Lucian. Regressa ainda mais quando penso em Igniatius. Ambos dão por vezes a impressão de flutuar acima das suas próprias hipóteses. Depois a gravidade regressa. Uma palavra. Um desenho. Uma carta. Um detalhe quase insignificante. Algo os chama de volta à terra.
Pergunto-me então se a verdade funciona assim. Imaginamos frequentemente que ela nos eleva. Talvez ela nos atraia. Não para baixo, mas para um lugar. Para um solo suficientemente real para suportar o nosso peso.
Ao escrever isto, penso imediatamente no Arquipélago. Esse país impossível que regressa incessantemente nos desenhos. Essas ilhas vulcânicas onde quase nada cresce. Essas terras austeras e as suas falésias. Essas antigas escoadas de lava. Esses ventos rodopiantes e essa impressão constante de que tudo poderá desaparecer amanhã.
Compreendo hoje melhor por que razão este cenário me parece tão justo. A história não procura uma planície fértil.
Procura uma terra rara, como uma fissura no basalto ou uma bolsa de solo capaz de acolher uma raiz. Por vezes, uma única basta.

(89) Félix essaie de résumer l’histoire


«Au milieu du chemin de notre vie,
je me retrouvai dans une forêt obscure,
car la voie droite était perdue.
Ah! qu'il est dur de dire ce qu'était
cette forêt sauvage, âpre et forte,
qui ranime la peur dans la pensée!
Elle est si amère que peu s'en faut que ce soit la mort;
mais pour parler du bien que j'y trouvai,
je dirai les autres choses que j'y ai vues.
Je ne saurais redire comment j'y entrai,
tant j'étais plein de sommeil
au moment où j'abandonnai la vraie voie.
Mais lorsque je fus au pied d'une colline,
là où finissait cette vallée
qui m'avait percé le cœur d'épouvante…»
 
Dante l’Enfer, chant I


 
 
Carnet de Félix

Je commence, avec peine à comprendre pourquoi cette histoire me fatigue parfois autant qu'elle me retient. Je croyais suivre un récit. Je découvre progressivement que je suis en train de traverser un territoire dont personne, peut-être, ne possède la carte complète. Lucian m'écrit. Igniatius parle à Lucian. Les dessins parlent à Igniatius… autant qu’ils parlent de lui… ou des autres... L'Enfant Lune semble traverser les dessins… Don Carotte traverse l'Enfant Lune… et Pinocchio l'Autre apparaît dans des régions où, si l’on croit au bon sens, il ne devrait pas encore se trouver. Et moi, depuis mon bureau, je tente de comprendre où je pose les pieds.
Je pourrais dire que cette histoire avance. Ce serait vrai. Je pourrais aussi dire qu'elle tourne en rond. Ce serait vrai aussi. J'en viens parfois à penser qu'elle ressemble davantage à un archipel qu'à une route… Une île apparaît… Je m'y installe… et j'y construis une hypothèse.. puis une autre île surgit dans la brume et l'ensemble du paysage se réorganise. Ce phénomène se répète avec une régularité presque inquiétante.
Pendant longtemps, j'ai cru que cette histoire cherchait sa forme. Aujourd'hui, j'en doute. Je soupçonne que, même si sa forme m’échappe encore… elle existe déjà.
Le problème est ailleurs. Ce qui manque n'est peut-être pas la forme. C'est le lieu. Je ne parle pas d'un lieu géographique. Je parle d'un lieu capable de recevoir le poids de ce qui advient.
La distinction me paraît importante. Un pied ne cherche pas l'idée du sol. Il cherche le sol. Il cherche l'endroit précis où il pourra se poser.
Cette histoire me donne souvent l'impression d'être ce pied suspendu au-dessus du vide. Le pas précédent existe encore. Le suivant demeure invisible. Le mouvement, lui, continue.
Je songe souvent à la marche. Chaque pas est un déséquilibre accepté. Le corps quitte un appui avant d'avoir complètement trouvé le suivant.
Il existe un instant où l'on appartient simultanément à ce que l'on quitte et à ce que l'on rejoint. Ce moment est l'instant du passage. Peut-être est-ce cela que je lis depuis des mois sans parvenir à le nommer… Une immense région de passage.
Une histoire qui vit dans l'entre-deux.
La course pousse encore plus loin cette logique. Les deux pieds quittent parfois le sol. Pendant un instant, le corps semble voler… Pourtant il tombe. Il n'a jamais cessé de tomber. Le prochain appui ne supprime pas la chute. Il lui donne une forme.
Cette image revient souvent lorsque je pense à Lucian. Elle revient davantage encore lorsque je pense à Igniatius. Tous deux donnent parfois l'impression de flotter au-dessus de leurs propres hypothèses. Puis la gravité revient. Une parole. Un dessin. Une lettre. Un détail presque insignifiant. Quelque chose les rappelle vers la terre.
Je me demande alors si la vérité fonctionne de cette manière. Nous imaginons souvent qu'elle nous élève. Il se pourrait qu'elle nous attire. Non vers le bas, mais vers un lieu. Vers un sol suffisamment réel pour recevoir notre poids.
En écrivant cela je pense immédiatement à l'Archipel. Ce pays impossible qui revient sans cesse dans les dessins. Ces îles volcaniques où presque rien ne pousse. Ces terres austères et ses falaises. Ces coulées anciennes. Ces vents tourbillonnants et cette impression constante que tout pourrait disparaître demain. Je comprends mieux aujourd'hui pourquoi ce décor me paraît si juste. L'histoire ne cherche pas une plaine fertile.
Elle cherche une terre rare tout comme une fissure dans le basalte ou une poche de sol capable d'accueillir une racine. Une seule suffit parfois.



vendredi 29 mai 2026

(88) The abracadabrante story of Child Moon



Where Félix discovers a letter slipped between the pages of one of his notebooks, crumpled by time, almost illegible in certain places because of the Archipelago’s sea-damp air. It will seem strange to him that he did not understand sooner what it already contained.

Letter from Lucian

My dear Félix,
I am writing to you in the middle of the night, that equivocal hour when objects seem to hesitate between their presence and their memory. The lamp illuminates my table with that magnificent poverty of tired lights which never entirely drive away the shadows, but instead compose with them a kind of silent treaty. The drawings lie here before me. I have turned some of them face-down against the wall, as one sometimes turns the portraits of the dead when their gaze becomes too persistent. And yet… it is as though they continue to watch me.
I am beginning to believe that there are figures which continue their work even after one ceases to look at them.
You will smile at that phrase, and you will be right to do so. It possesses that almost theatrical excess you sometimes reproach me for. But I assure you that I speak here with the utmost seriousness.
For some time now I have been reflecting upon that old idea of Newton’s, later taken up by Herschel: the vera causa.
The expression haunts me.
I believe it is misunderstood when science is reduced to a cold mechanism. The great scientists were often men pursued by an almost poetic intuition of the hidden unity of the world. Newton himself resembled less an accountant of the stars than a prophet enclosed within an observatory.
What he sought was not a convenient explanation. Convenient explanations swarm like insects around lamps. They are born each day. They die each evening. No. He sought a cause sufficiently real to leave its mark upon several regions of the world at once. That is what distinguishes a true cause from a mere intellectual invention: its overflow. A fragile hypothesis remains imprisoned within the problem that produced it. It resembles those prisoners who pace their cells until the stone is worn away beneath their own footsteps. But the true cause travels. One encounters it elsewhere. It appears where no one expected it.
Suddenly it explains the tides after explaining apples… then the planets… then comets… then phenomena still unknown at the very moment it was conceived. It acts like those great underground rivers whose course the whole earth slowly learns.
I sometimes wonder whether certain human figures possess a similar power. Not ordinary persons. I am speaking of figures in the ancient sense of the word. Inner forms. Presences capable of secretly organizing a multitude of scattered facts.
Thus certain beings enter a life as minor events. Then their influence gradually extends into unforeseen regions. They modify the dreams of others. Their language contaminates sentences that no longer belong to them. They shift the invisible centers of gravity of the lives around them.


(88) A abracadabrante história da Criança Lua



Onde Félix encontra uma carta escondida entre as páginas de um dos seus cadernos, amarrotada pelo tempo, quase ilegível em certos lugares devido à humidade marinha do Arquipélago. Parecer-lhe-á estranho não ter compreendido mais cedo aquilo que ela já continha.

Carta de Lucian

Meu caro Félix,
Escrevo-lhe no meio da noite, essa hora equívoca em que os objetos parecem hesitar entre a sua presença e a sua memória. A lâmpada ilumina a minha mesa com essa magnífica pobreza das luzes fatigadas que nunca expulsam completamente a sombra, mas compõem com ela uma espécie de tratado silencioso. Os desenhos estão aqui diante de mim. Virei alguns deles contra a parede, como por vezes se viram os retratos dos mortos quando o seu olhar se torna demasiado insistente. E contudo… é como se continuassem a olhar para mim.
Começo a acreditar que existem figuras que continuam o seu trabalho mesmo quando deixamos de as olhar.
Vai sorrir perante esta fórmula, e terá razão em fazê-lo. Ela possui esse excesso quase teatral que por vezes me censura. Mas asseguro-lhe que falo aqui com a maior seriedade.
Há já algum tempo que reflito sobre essa velha ideia de Newton, retomada mais tarde por Herschel: a vera causa.
A expressão persegue-me.
Creio que ela é mal compreendida quando se reduz a ciência a uma mecânica fria. Os grandes sábios foram frequentemente homens perseguidos por uma intuição quase poética da unidade oculta do mundo. O próprio Newton parecia menos um contabilista das estrelas do que um profeta encerrado num observatório.
Aquilo que procurava não era uma explicação cómoda. As explicações cómodas proliferam como insetos em torno das lâmpadas. Nascem todos os dias. Morrem todas as noites. Não. Procurava uma causa suficientemente real para deixar a sua marca em várias regiões do mundo ao mesmo tempo. É isso que distingue a verdadeira causa de uma simples invenção intelectual: o seu transbordamento. Uma hipótese frágil permanece encerrada no problema que a produziu. Assemelha-se àqueles prisioneiros que caminham em círculos na sua cela até gastarem a pedra sob os seus próprios passos. Mas a causa verdadeira viaja. Encontramo-la noutros lugares. Ela aparece onde ninguém a esperava.
Subitamente explica as marés depois de explicar as maçãs… depois os planetas… depois os cometas… depois fenómenos ainda desconhecidos no momento em que foi concebida. Age como esses grandes rios subterrâneos cujo traçado a terra inteira parece aprender lentamente.
Pergunto-me por vezes se certas figuras humanas não possuem um poder semelhante. Não falo das pessoas comuns. Refiro-me às figuras no sentido antigo da palavra. Formas interiores. Presenças capazes de organizar secretamente uma multidão de factos dispersos.
Assim, certos seres entram numa vida como acontecimentos menores. Depois a sua influência estende-se progressivamente a regiões imprevistas. Modificam os sonhos dos outros. A sua linguagem contamina frases que já não lhes pertencem. Deslocam os centros invisíveis de gravidade das existências que os rodeiam.

(88) L'abracadabrante histoire de l'Enfant Lune


Où Félix retrouve une lettre glissée entre les pages de l’un de ses carnets, froissée par le temps, presque illisible à certains endroits à cause de l’humidité marine de l’Archipel. Il va lui sembler étrange de ne pas avoir compris plus tôt ce qu’elle contenait déjà.


Lettre de Lucian

Mon cher Félix,

Je vous écris au milieu de la nuit, cette heure équivoque où les objets paraissent hésiter entre leur présence et leur souvenir. La lampe éclaire ma table avec cette pauvreté magnifique des lumières fatiguées qui ne chassent jamais entièrement l’ombre, mais composent avec elle une sorte de traité silencieux. Les dessins sont là devant moi. J’en ai retournés certains contre le mur comme on retourne parfois les portraits des morts lorsque leur regard devient trop persistant. Et pourtant… c’est comme s’ils continuaient de me regarder.
Je commence à croire qu’il existe des figures qui poursuivent leur travail même lorsqu’on cesse de les regarder.
Vous allez sourire de cette formule et vous aurez raison. Elle possède cet excès presque théâtral que vous me reprochez parfois. Mais je vous assure que je parle ici avec le plus grand sérieux.
Depuis quelque temps je réfléchis à cette vieille idée de Newton reprise plus tard par Herschel: la vera causa.
L’expression me hante.
Je crois qu’on la comprend mal lorsqu’on réduit la science à une mécanique froide. Les grands savants furent souvent des hommes poursuivis par une intuition presque poétique de l’unité cachée du monde. Newton lui-même ressemblait moins à un comptable des étoiles qu’à un prophète enfermé dans un observatoire.
Ce qu’il cherchait n’était pas une explication commode. Les explications commodes pullulent comme des insectes autour des lampes. Elles naissent chaque jour. Elles meurent chaque soir. Non. Il cherchait une cause assez réelle pour laisser sa marque sur plusieurs régions du monde à la fois. Voilà ce qui distingue la véritable cause de la simple invention intellectuelle: son débordement. Une hypothèse fragile demeure enfermée dans le problème qui l’a produite. Elle ressemble à ces prisonniers qui tournent dans leur cellule jusqu’à user la pierre de leurs propres pas. 
Mais la cause vraie voyage. On la rencontre ailleurs. Elle apparaît là où personne ne l’attendait.
Soudain elle explique les marées après avoir expliqué les pommes… puis les planètes… puis les comètes… puis des phénomènes encore inconnus au moment même où elle fut conçue. Elle agit comme ces grands fleuves souterrains dont la terre entière semble lentement apprendre le tracé. Je me demande parfois si certaines figures humaines ne possèdent pas une puissance semblable. Non pas les personnes ordinaires. Je parle des figures au sens ancien du terme. Les formes intérieures. Les présences capables d’organiser secrètement une multitude de faits dispersés.
Ainsi certains êtres entrent dans une vie comme des événements mineurs. Puis leur influence gagne progressivement des zones imprévues. Ils modifient les rêves des autres. Leur langage contamine des phrases qui ne leur appartiennent déjà plus. Ils déplacent les centres de gravité invisibles des existences autour d’eux.




jeudi 28 mai 2026

(87) The abracadabrante story of Mooon Child


“But wishing to share his astonishment with him was pointless, he realized it at the very instant he opened his mouth, for despite a brief moment of confusion (whether in his companion or in himself, he did not know) it was very easy for him to guess, judging by Valuska’s radiant expression (as he was reaching the end of his monologue about his early morning reveries), that his mind was entirely elsewhere, and in reality, thought Eszter, since this new décor was already familiar to him, for what reason would he today see anything unusual in this nightmarish vision, the radiant expression of his friend indeed attesting that he was living their funereal walk as though this — keeping one’s balance upon this monstrous terrain — were some great solemn event, and that only an optical illusion, linked to his weakness and astonishment, could explain that he, Eszter, later recognizing his error, had found a ghost town in place of the old one. Since leaving the house, he had devoted all his energy to studying minutely and assessing the situation without paying the slightest attention to Valuska’s words, and no doubt he would even have forgotten his friend’s presence had he not been holding him by the arm, but suddenly, and he would understand much later why, all his attention turned toward a single object: toward Valuska himself, toward that gigantic postman’s coat, that cap, that mess tin swinging joyfully.”

László Krasznahorkai, The Melancholy of Resistance


Where Félix, little by little, tirelessly tries to understand what Igniatius and his drawings mean… which Lucian keeps sending him.

Félix’s Notebook

Each day, when I return to the drawings, they appear slightly different to me. Today it is the parrots, a fundamental dissymmetry, that draw my attention. They belong to the image while occupying a position that exceeds the image. They are inside it as visible figures, yet also outside it as instances of reading. They demand their place and inhabit precisely that strange frontier where a narrative begins to become conscious of itself.
The Moon Child ignores their presence. This is essential, because if he knew of their presence, the scene would become theatrical in the classical sense: a character speaking before identified spectators. But here it is not that.
The Moon Child projects his interiority without precisely knowing who receives it.
And yet that projection already seems structured by a possible reception.
It is here that the principle of the observer becomes very powerful within the universe of this image. The parrots do not merely observe an already constituted scene. Their observation participates in its very formation. But reciprocally, the image itself seems already to “await” their gaze. As though it obscurely knew that it would be perceived. This creates a very subtle loop… the Moon Child projects… the parrots receive… their reception produces an interpretation… that interpretation modifies the scene… and this modified scene becomes the one the Moon Child continues unconsciously to project.
Thus the parrots resemble almost functions of the collapse of vision. Before their gaze, the luminous projection remains proliferating, indeterminate, multiple, almost quantum in your poetic sense of the term… face, tree, sun, network, fire, memory, thought… All these possibilities coexist.
The parrots’ gaze begins to stabilize certain forms. Their speech creates lines of meaning. They reduce certain ambiguities while opening others. In other words, they transform perceptual proliferation into a narratable world. But what fascinates me is that they do not dominate this transformation. They themselves are caught within it. For the parrots speak of the scene without truly understanding that they themselves are part of it. Exactly like the reader. Exactly like Lucian or myself when we interpret drawings that already secretly include us.
In these images, in my opinion, there never exists any absolutely stable exterior position. I myself, as supervisor, am included within the structure I am supposed to supervise.
The reader is included within the book he reads. The spectator is included within the image he observes. Commentary acts upon what it comments upon. The parrots thus become almost figures of reflexive consciousness itself. They speak from an apparent “outside.” But, at the risk of repeating myself… that outside already belongs to the inside. This also explains why they are perched upon ruins. The columns perhaps represent the ancient dream of a stable separation:
subject/object,
spectator/scene,
reality/representation,
inside/outside.
Yet those structures are already in ruins within this universe. The parrots continue to lean upon them, certainly, but the great luminous proliferation already reveals something else… a world where everything communicates with everything else, where perceptions circulate, and project themselves… while mutually transforming one another.
The Moon Child therefore ignores the parrots on the conscious level… yet his projection already seems to tend toward them as though every perception secretly sought a witness.
And inversely, the parrots resemble observers produced by the projection itself. As though the image had engendered its own readers in order to return toward itself in the form of speech.
At that moment, the image almost ceases to be an illustration.
It becomes a device for the circulation of the gaze.
A gaze that passes… from the Moon Child toward the projection… from the projection toward the parrots… from the parrots toward the words… from the words toward the reader… from the reader back again toward the image.
And within this circulation, silently, each transforms the others.

(87) A abracadabrante história da Criança Lua

 “Mas querer partilhar o seu espanto com ele era inútil, percebeu-o no exato instante em que abriu a boca, pois apesar de um breve momento de confusão (no seu companheiro ou em si mesmo, não sabia) foi-lhe muito fácil adivinhar, a julgar pela expressão radiante de Valuska (que chegava ao fim do seu monólogo sobre os seus devaneios da madrugada), que o seu espírito estava inteiramente voltado para outro lugar, e na verdade, pensou Eszter, uma vez que aquele novo cenário já lhe era familiar, por que razão veria ele hoje algo de insólito naquela visão de pesadelo, a expressão radiante do amigo testemunhando precisamente que ele vivia a sua marcha fúnebre como se aquilo — manter o equilíbrio sobre aquele terreno monstruoso — fosse um grande acontecimento solene, e que apenas uma ilusão de ótica, ligada à sua fraqueza e ao seu espanto, podia explicar que ele, Eszter, reconhecendo muito mais tarde o seu erro, tivesse encontrado uma cidade fantasma no lugar da antiga. Desde que tinham saído de casa, tinha consagrado toda a sua energia a estudar minuciosamente e a avaliar a situação sem prestar a menor atenção às palavras de Valuska, e sem dúvida teria até esquecido a presença do amigo se não o segurasse pelo braço, mas subitamente, e compreenderia muito mais tarde porquê, toda a sua atenção se voltou para um único objeto: para o próprio Valuska, para aquele gigantesco casaco de carteiro, para aquele boné, para aquela marmita que balançava alegremente.”

László Krasznahorkai, A Melancolia da Resistência


Onde Félix, pouco a pouco, tenta incansavelmente compreender o que querem dizer Igniatius e os seus desenhos… que Lucian lhe faz chegar.

Caderno de Félix

Cada dia, quando retomo os desenhos, eles aparecem-me ligeiramente diferentes. Hoje são os papagaios, dissymetria fundamental, que atraem a minha atenção. Pertencem à imagem ao mesmo tempo que ocupam uma posição que excede a imagem. Estão dentro dela como figuras visíveis, mas também fora dela como instâncias de leitura. Exigem o seu lugar e habitam exatamente essa estranha fronteira onde uma narrativa começa a tomar consciência de si mesma.
O Menino Lua ignora a presença deles. Isso é essencial, porque se conhecesse a sua presença, a cena tornar-se-ia teatral no sentido clássico: uma personagem falaria diante de espectadores identificados. Ora, aqui não é disso que se trata.
O Menino Lua projeta a sua interioridade sem saber precisamente quem a recebe.
E contudo essa projeção parece já estruturada por uma receção possível.
É aí que o princípio do observador se torna muito poderoso no universo desta imagem. Os papagaios não se limitam a olhar uma cena já constituída. A sua observação participa na própria formação da cena. Mas reciprocamente, a imagem parece já “esperar” o olhar deles. Como se soubesse obscuramente que iria ser percebida. Isso cria um ciclo muito subtil… o Menino Lua projeta… os papagaios recebem… a sua receção produz uma interpretação… essa interpretação modifica a cena… e essa cena modificada torna-se aquela que o Menino Lua continua inconscientemente a projetar.
Assim, os papagaios parecem quase funções do colapso da visão. Antes do olhar deles, a projeção luminosa permanece proliferante, indecisa, múltipla, quase quântica no vosso sentido poético do termo… rosto, árvore, sol, rede, fogo, memória, pensamento… Todas essas possibilidades coexistem.
O olhar dos papagaios começa a estabilizar certas formas. As suas palavras criam linhas de sentido. Reduzem certas ambiguidades enquanto abrem outras. Por outras palavras, transformam uma proliferação percetiva num mundo narrável. Mas o que me fascina é que eles não dominam essa transformação. Eles próprios estão presos nela. Pois os papagaios falam da cena sem compreender verdadeiramente que fazem parte dela. Exatamente como o leitor. Exatamente como Lucian ou eu quando interpretamos desenhos que já secretamente nos incluem.
Nestas imagens, na minha opinião, nunca existe uma posição exterior absolutamente estável. Eu próprio, enquanto supervisor, estou incluído na estrutura que supostamente devo supervisionar.
O leitor está incluído no livro que lê. O espectador está incluído na imagem que observa. O comentário age sobre aquilo que comenta. Os papagaios tornam-se então quase figuras da própria consciência reflexiva. Falam a partir de um “fora” aparente. Mas, correndo o risco de me repetir… esse fora já pertence ao dentro. Isso explica também porque estão pousados sobre ruínas. As colunas representam talvez o antigo sonho de uma separação estável:
sujeito/objeto,
espectador/cena,
realidade/representação,
dentro/fora.
Ora, essas estruturas já estão em ruínas neste universo. Os papagaios continuam certamente a apoiar-se nelas, mas a grande proliferação luminosa já mostra outra coisa… um mundo onde tudo comunica com tudo, onde as perceções circulam e se projetam… transformando-se mutuamente.
O Menino Lua ignora portanto os papagaios ao nível consciente… mas a sua projeção parece já tender para eles como se toda a perceção procurasse secretamente uma testemunha.
E inversamente, os papagaios parecem observadores produzidos pela própria projeção. Como se a imagem tivesse gerado os seus próprios leitores para poder regressar a si mesma sob a forma da palavra.
Nesse momento, a imagem quase deixa de ser uma ilustração.
Torna-se um dispositivo de circulação do olhar.
Um olhar que passa… do Menino Lua para a projeção… da projeção para os papagaios… dos papagaios para as palavras… das palavras para o leitor… do leitor novamente para a imagem.
E nessa circulação, silenciosamente, cada um transforma os outros.

(87) L'abracadabrante histoire de l'Enfant Lune

 
“Mais vouloir partager sa stupéfaction avec lui était peine perdue, il s'en rendit compte à l'instant même où il ouvrit la bouche, car malgré un bref moment de confusion (en son compagnon ou en lui-même, il ne le savait pas) il lui fut très facile de deviner, a en juger par l'expression radieuse de Valuska (qui arrivait au terme de son monologue sur ses rêveries du petit jour), que son esprit était entièrement tourné ailleurs, et en réalité, se dit Eszter, puisque ce nouveau décor lui était déjà familier, pour quelle raison verrait-il aujourd'hui quelque chose d’insolite dans cette vision cauchemardesque, l'expression radieuse de son ami attestant en effet que celui-ci vivait leur marche funèbre comme si cela — tenir l’équilibre sur ce monstrueux terrain — était un grand événement solennel et que seule une illusion d'optique, liée à sa faiblesse et à sa stupéfaction, pouvait expliquer que lui, Eszter, reconnaissant bien plus tard son erreur, avait trouvé une ville fantôme en lieu et place de l'ancienne. Depuis qu'ils avaient quitté la maison, il avait consacré toute son énergie à étudier minutieusement et apprécier la situation sans prêter la moindre attention aux propos de Valuska, et sans doute aurait-il oublié jusqu'à la présence de son ami s'il ne le tenait pas par le bras, mais subitement, et il comprendrait bien plus tard pourquoi, toute son attention se tourna vers un seul objet: sur Valuska lui-même, sur ce gigantesque manteau de postier, sur cette casquette, sur cette gamelle qui se balançait joyeusement.”

Lázló Krasznahorkai, La mélancolie de la résistance, folio, p.191

 

 
Où Félix, peu à peu, essaie inlassablement de comprendre ce que veulent dire Igniatius et ses dessins... que Lucian lui fait parvenir.
 
 
Carnet de Félix
 
Chaque jour, lorsque je reprends les dessins, ils m'apparaissent légèrement différents. Aujourd'hui, ce sont les perroquets, dissymétrie fondamentale, qui attirent mon attention. Ils appartiennent à l’image tout en occupant une position qui excède l’image. Ils sont dedans comme figures visibles, mais aussi dehors comme instances de lecture. Ils exigent leur place et habitent exactement cette frontière étrange où un récit commence à prendre conscience de lui-même.
L’Enfant Lune ignore leur présence. Cela est essentiel, car s’il connaissait leur présence, la scène deviendrait théâtrale au sens classique: un personnage parlerait devant des spectateurs identifiés. Or ici ce n’est pas cela.
L’Enfant Lune projette son intériorité sans savoir précisément qui la reçoit.
Et pourtant cette projection semble déjà structurée par une réception possible.
C’est là que le principe de l’observateur devient très puissant dans l'univers de cet image. Les perroquets ne se contentent pas de regarder une scène déjà constituée. Leur observation participe à sa formation même. Mais réciproquement, l’image paraît déjà “attendre” leur regard. Comme si elle savait obscurément qu’elle allait être perçue. Cela crée une boucle très subtile... l’Enfant Lune projette... les perroquets reçoivent... leur réception produit une interprétation... cette interprétation modifie la scène... et cette scène modifiée devient celle que l’Enfant Lune continue inconsciemment de projeter.
Ainsi, les perroquets ressemblent presque à des fonctions d’effondrement de la vision. Avant leur regard, la projection lumineuse demeure proliférante, indécise, multiple, presque quantique dans votre sens poétique du terme... visage, arbre, soleil, réseau, feu, mémoire, pensée... Toutes ces possibilités coexistent.
Le regard des perroquets commence à stabiliser certaines formes. Leurs paroles créent des lignes de sens. Ils réduisent certaines ambiguïtés tout en en ouvrant d’autres. Autrement dit, ils transforment une prolifération perceptive en monde racontable. Mais ce qui est fascinant, c’est qu’ils ne dominent pas cette transformation. Ils sont eux-mêmes pris dans elle. Car les perroquets parlent de la scène sans vraiment comprendre qu’ils en font partie. Exactement comme le lecteur. Exactement comme Lucian ou moi lorsque nous interprèteons des dessins qui les incluent déjà secrètement.
Dans ces images, à mon avis, il n’existe jamais de position extérieure absolument stable. Moi-même en tant que superviseur, je suis inclus dans la structure que je suis supposé superviser.
Le lecteur est inclus dans le livre qu’il lit. Le spectateur est inclus dans l’image qu’il regarde. Le commentaire agit sur ce qu’il commente. Les perroquets deviennent alors presque des figures de la conscience réflexive elle-même. Ils parlent depuis un “dehors” apparent. Mais, au risque de me répéter... ce dehors appartient déjà au dedans. Cela explique aussi pourquoi ils sont perchés sur des ruines. Les colonnes représentent peut-être l’ancien rêve d’une séparation stable:
sujet/objet,
spectateur/scène,
réalité/représentation,
dedans/dehors.
Or ces structures sont déjà en ruine dans cet univers. Les perroquets continuent d’y prendre appui, certes, mais la grande prolifération lumineuse montre déjà autre chose... un monde où tout communique avec tout, où les perceptions circulent, et se projettent... tout en se transformant mutuellement.
L’Enfant Lune ignore donc les perroquets au niveau conscient... mais sa projection semble déjà tendre vers eux comme si toute perception cherchait secrètement un témoin.
Et inversement, les perroquets ressemblent à des observateurs produits par la projection elle-même. Comme si l’image avait engendré ses propres lecteurs afin de pouvoir revenir vers elle sous forme de parole.
À ce moment-là, l’image cesse presque d’être une illustration.
Elle devient un dispositif de circulation du regard.
Un regard qui passe... de l’Enfant Lune vers la projection... de la projection vers les perroquets... des perroquets vers les mots... des mots vers le lecteur... du lecteur de nouveau vers l’image.
Et dans cette circulation, silencieusement, chacun modifie les autres.