« A poesia não se impõe; ela expõe-se. Mesmo no mais extremo, na mais profunda aflição, continua a ser linguagem; continua a ser uma orientação para o outro, uma coisa em caminho, uma tentativa de encontro. »
Paul Celan, Discurso de Bremen (1958)
Continuação do prólogo de Dom Cenoura, em que os dois papagaios dissertam sobre a natureza de Dom Cenoura
— Parece-me que aquilo que Dom Cenoura lê... se bem o compreendo... não é a sua própria história.
— Então, o que será?
— No ponto em que ele chegou... talvez seja precisamente o momento em que a história se fratura e se torna experiência poética.
— E o que é isso? Explicai-me, por favor.
— É o lugar onde a palavra se torna presença... e deixa de ser representação.
— Como sabe ele isso?
— Aprendeu-o nas suas leituras...
— Quais, por exemplo?
— As de Maldiney, entre outras...
— Também o lestes?
— Sem dúvida.
— Dai-me então um exemplo, se vos apraz.
— «A minha página é uma faca, não uma vaidade.»
— A que jogo joga ele?
— Ao mesmo jogo que vós... Embora esta frase seja fulgurante, não se trata de um jogo.
— Então, do que se trata?
— De uma ferida. A página corta; ela abre... antes mesmo de se abrir.
— E o que abre ela? O dedo de quem a abre?
— Não sejais tão pragmático. Eis precisamente a natureza do gesto poético: não embelezar o real, mas cortar as suas falsas pregas, para dar lugar àquilo que ainda não pôde aparecer. Aproxima-se da relação entre o ver e o aberto, entre a presença e o irrepresentável.
— Não estou certo de compreender...
— Como podeis ver, a frase é muito breve, mas opõe duas maneiras completamente diferentes de escrever.
— Quais?
— Poderíamos traduzi-la assim:
"Aquilo que escrevo não existe para que me admirem. Existe para abrir alguma coisa."
— Mas trata-se de uma faca!
— A faca não é, antes de mais, uma arma. É uma ferramenta. Corta o pão, remove a casca, separa aquilo que estava confundido. Permite alcançar o interior.
— Então uma página que é uma faca seria uma página que procura atravessar as aparências.
— Exatamente. Ela não acaricia o leitor no sentido do pelo.
— Não procura ser bonita.
— Não. Procura ser justa. Corta as ilusões como se corta uma corda demasiado apertada.
Eis a primeira imagem... Pelo contrário, a vaidade é o desejo de ser olhado.
É escrever para ouvir dizer: «Como é belo!»
— Ou então: «Como é inteligente!»
— Nesse caso, a página torna-se um espelho.
— Um espelho onde o autor contempla a sua própria imagem.
— A faca, pelo contrário, nunca contempla o seu reflexo. Trabalha.
— Gosto de vos ouvir falar assim... Quase poderíeis transformar esta frase numa pequena história.
— Pois bem... Imaginai um velho carpinteiro.
— Trabalha na sua bancada como Gepeto...
— Sobre a bancada tem duas facas. A primeira possui um cabo gasto por anos de trabalho. A lâmina já não brilha. Está coberta de riscos. Mas, por estar perfeitamente afiada, sempre que a utiliza a madeira revela um veio invisível, uma forma escondida.
— Como Pinóquio...
— Ao lado encontra-se uma faca novíssima. O cabo é finamente esculpido e a lâmina brilha como um espelho. Todos param para a admirar. Ninguém a utiliza.
— E depois?
— A primeira faca transforma a madeira.
— E a outra?
— A outra apenas atrai os olhares. É dessa diferença que a frase fala. Ela diz:
"Prefiro uma ferramenta que deixe uma marca no mundo a um objeto destinado apenas à admiração."
Talvez seja também uma maneira de falar da verdade.
— A verdade nem sempre é confortável.
— Tendes razão. Quando um cirurgião opera, utiliza um bisturi. Ninguém o censura por cortar. Todos sabem que corta para salvar.
— E certas frases fazem o mesmo...
— Reabrem uma antiga ferida para que ela possa, finalmente, cicatrizar como deve ser.
— No momento em que atingem, essas frases ainda podem magoar um pouco.
— Mas isso não é crueldade. É uma operação. E talvez seja aí que reside o mais belo paradoxo. Uma faca pode destruir. Mas, nas mãos certas, também pode libertar. Corta os laços inúteis...
— Corta também as máscaras demasiado apertadas, os hábitos que impedem de respirar!
— Então a frase adquire um sentido ainda mais profundo.
Uma página digna desse nome não procura, antes de mais, ser aplaudida.
— O que procura então?
— Tornar-nos um pouco mais livres. E se, ao fechar o livro, o leitor já não se lembrar do nome do autor, mas passar a olhar o mundo de outra maneira...
— ...então a faca cumpriu a sua obra!
— A lâmina apagou-se atrás daquilo que abriu. Talvez esse seja o mais belo destino de uma página: não ser admirada, mas continuar durante muito tempo a trabalhar silenciosamente naquele que a leu.
— Mas... para além disso... que dizer do humor ácido do texto e dos seus pastiches mal disfarçados?
— Não são ornamentos, mas modalidades necessárias dessa abertura. O riso — ou simplesmente o sorriso — será, nesta perspetiva, o sinal de que o mundo cristalizado começa finalmente a desprender-se.
— Parece-me que já dissestes isso...
— Dom Cenoura ri, não para zombar, mas para afrouxar o aperto do já-dito. Enfim, a conclusão do prólogo — pois é disso que se trata —, quando Dom Cenoura interpela o leitor, não procura a sua adesão...
— Então, o que procura?
— ...a sua liberdade. Ele diz:
"Mas sabei que, neste dia, o silêncio tem punhos."
— Então ele cala-se?
— O silêncio aqui não é a ausência da palavra...
— Então o que é?
— É a instância do irrepresentado que, de súbito, desfere um golpe. O silêncio é aquilo através do qual um ser pode existir sem imagem...
— Não gostaria de vos contrariar... mas, pelo que vejo, este livro parece conceder um lugar privilegiado às imagens!
— Enganais-vos. Há imagem... e há imagens. Sem mito, sem autoridade. É precisamente o lugar onde, segundo o nosso mestre...
— ...que o leu em Maldiney...
— ...a existência se torna possibilidade de ser de outro modo. O punho do silêncio não é violência... e a imagem pode dizer muito...
— Então, o que é este prólogo que Dom Cenoura lê em voz baixa?
— ...é uma exigência de escuta radical. Este prólogo é um ato. Não se inscreve na história da literatura; fende-a.
— É uma farsa!
— Dom Cenoura, longe de ser uma farsa, é aqui um nome para a abertura criadora...
— Um nome de pobre!
— Um nome de pobre, sim, mas pobre em imagens feitas. E é precisamente por isso que abre o mundo, tal como...
— ...o nosso mestre, que dizia...
— Maldiney dizia-o da arte: não para dizer o mundo, mas para fazer explodir o espaço da sua aparição.
— Acreditais que um dia poderemos conhecer aquilo que está encerrado nesse livro, do qual apenas ouvimos o prólogo?
— Amanhã... talvez... Quem o poderá saber?

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