“Assim, nada do que aparece perece por completo, pois a natureza refaz uma coisa a partir de outra e não dissolve nada sem o auxílio de uma transformação. Pois aqui algo se desfaz, em outro lugar algo se condensa; a figura muda, mas nada se dissipa no vazio. Do mesmo modo, o calor e a umidade, a terra e o sopro permanecem, variam e retornam nos corpos do mundo. O que se oculta sob a noite não permanece inativo: a natureza age sob um peso invisível e conserva, ao longo do tempo, as marcas do que ocorreu.”
D’après Lucrèce, De la nature des choses (De rerum natura).
Essa tensão modifica a maneira como a pele repousa sobre o osso. Ela inflete a postura dos traços. Nada ainda é expresso, mal visível, mas tudo ali se prepara. Em certos momentos, esse trabalho interior atinge um limiar. Uma variação se propaga e sobe até a superfície. O rosto responde. Um sorriso nasce — não como um gesto decidido, mas como a emergência de uma pressão que se tornou visível. Os lábios se deslocam sob o efeito de um leve calor mental. O olhar muda de orientação. A expressão não traduz um conteúdo já formado. Ela é o próprio lugar onde aquilo que agia na sombra ganha forma.
A matéria se acumula. No coração, a temperatura permanece elevada. A superfície se estratifica lentamente. Cada camada registra uma fase do trabalho do mundo. A noite circula. Ela atravessa as massas. Insinua-se nos vazios. Habita as profundezas. Não apaga a luz. Ela a retém. Pois a luz está ali, presa na matéria. Circula sob a forma de energia. Transforma-se e se acumula.

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