«[…]
o ser, com efeito, que é também inteligência e bem, está acima de toda a corrupção e de toda a mudança. Dele decorrem as imagens modeladas na matéria corporal e sensível; esta recebe dele determinações, formas e semelhanças, como a cera recebe as impressões de um selo. Mas essas impressões não duram sempre. São apreendidas pelo princípio desordenado e tumultuoso que, relegado cá em baixo, longe das regiões superiores, combate contra Hórus, contra esse deus engendrado por Ísis para ser a imagem sensível do mundo inteligível […]»
Plutarco, Ísis e Osíris
O mecanismo de qualquer marioneta pode ser perturbado… por vezes até desmontado. As diversas peças estão sujeitas—seja por acidente, por desgaste ou por malícia, todas fontes possíveis…—a tais perturbações. Pinóquio o Outro não escapa à regra… e sobretudo não ao desgaste… senão mesmo ao desmembramento… Foi assim que Nounours, num face-a-face surpreendente, fez o conhecimento parcial de Pinóquio o Outro.
Félix é o supervisor de Lucian, que é psiquiatra e cujo paciente é Igniatius. Este veio às sessões com Lucian trazendo imagens que afirma ter encontrado e comprado numa galeria situada no rés-do-chão do edifício de Lucian. Igniatius não conhece o autor dessas imagens. Adquiriu-as porque, diz ele, elas lhe falam… embora, durante as primeiras sessões com Lucian, quase não falasse e tivesse dificuldade em encontrar a mínima palavra. Foi graças a esses desenhos que conseguiu pronunciar as suas primeiras palavras. Por seu lado, Lucian, diante desses desenhos, aprende muito sobre as histórias que Igniatius desenvolve a partir deles. Compreenda-se que aquilo que Igniatius diz não é diretamente a descrição do que pode ser visto… por exemplo por Lucian. A palavra e as imagens correspondem apenas por canais subterrâneos… e por vezes… muitas vezes mesmo, submarinos. Lucian dirá que, diante dessas imagens, que tinha dificuldade em analisar, começou ele próprio a desenhar… copiando-as nos seus cadernos. «Quando as copio, pelo próprio movimento de desenhar, surgem-me ideias que nunca teria tido… ou descoberto de outra forma. Cabia-me então, de uma maneira totalmente pessoal e privada, colocá-las em palavras… como se as colocasse em música…»
Um incidente, que se pode sem risco qualificar de revelador, teve então lugar no gabinete de Lucian. Igniatius tinha chegado com os seus desenhos e instalara-se diante da secretária de Lucian que, após o cumprimentar, lhe disse que tinha uma necessidade urgente que o obrigava a ausentar-se por alguns instantes. Nada de anormal até aí. Mas… ao sair, Lucian não fechara o seu caderno… não um daqueles que cabem no bolso, não, um caderno bastante grande… daqueles que os pintores usam no exterior… E o caderno estava completamente aberto… oferecido ao olhar de Igniatius, que não pôde resistir… quem poderia… à vontade de ver mais de perto. Igniatius ficou estupefacto ao constatar quão grande era a semelhança com os desenhos que tinha comprado na galeria. Para ele, não havia dúvida… o autor dos desenhos era Lucian. Imagine-se a sua surpresa… Lucian podia explicar-lhe o que quisesse do que foi dito acima, Igniatius conservava dúvidas. Dúvidas que Félix, quase contra si próprio, começou a partilhar… embora os dois não se conhecessem… senão por intermédio de Lucian. Dúvidas tanto mais fortes quanto ele, ao contrário de Igniatius, tinha o dever de constatar que a ausência de Lucian, deixando aberto o que deveria ter permanecido privado, o levava a pensar que, por esse gesto, ele tinha pelo menos faltado ao tacto… a menos que essa ação tivesse sido deliberada, com o intuito de pôr em movimento um mecanismo só por ele conhecido. Uma espécie de leve eletrochoque…
Carta de Félix a Lucian
Diz-me que Igniatius já não vem às suas sessões e que se limita a enviar-lhe desenhos e cartas… Isso deixa-me pensativo… tal como a sua própria ausência nas nossas sessões, apesar dos desenhos e cartas que me envia. Fico ainda mais pensativo porque o último desenho que me enviou, pedindo-me que o comentasse depois de, segundo as suas próprias palavras, ter provocado uma estupefação… também provocou em mim uma espécie de maremoto…
Olhei longamente para esse desenho e agora, vários dias depois, compreendo o que nomeei, não sem reserva, um maremoto. Não se trata de um choque violento, mas de uma invasão progressiva, como se a imagem, em vez de se entregar, fosse ganhando terreno em mim à medida que tentava, como hoje, delimitá-la.
Vê-se… à primeira vista… uma barca, pousada sobre uma água que não é totalmente calma, mas também não é hostil. Nessa barca, uma massa imponente… fácil de reconhecer: Nounours. Inclina-se. Age. E aquilo que segura entre as patas não é um objeto comum, mas uma cabeça… reconheço-a também: a de Pinóquio o Outro.
Digo «cabeça» e não «criança», pois, como no desenho anterior, algo foi separado. Mas aqui, a separação já não é silenciosa. É dada a ver, quase encenada. A cabeça está separada do corpo, e esse corpo é-nos invisível. Está ausente, ou… talvez tenha sido disperso, ou, tratando-se de uma marioneta… ainda por vir. Essa ausência, longe de simplificar a leitura… abre-a. Pois imediatamente se impõe outra cena, mais antiga, mais enterrada… Osíris.
No mito, o corpo de Osíris é desmembrado, disperso pelo mundo, e é por um paciente trabalho de recolha, de recomposição, que algo como uma presença pode ser restaurado. Mas essa restauração nunca é completa. Falta sempre uma parte, irredutível, que obriga a pensar a unidade como inacabada.
Aqui, Nounours ainda não reúne. Talvez comece… Ele mantém. Olha essa cabeça com uma intensidade que não é nem pura ternura nem simples curiosidade. Há nesse face-a-face uma gravidade estranha, como se aquilo que segura não fosse apenas uma parte de um todo, mas já, para ele como para nós, um enigma.
Não posso deixar de ver nesta cena uma inversão do gesto de Ísis. Onde ela percorre o mundo para reencontrar os fragmentos, Nounours encontra-se de imediato na presença de um fragmento… mas esse fragmento olha-o. E isso muda tudo. Pois a cabeça de Pinóquio o Outro não é inerte. Tem os olhos abertos, sustenta o olhar, e esse olhar introduz uma reciprocidade perturbadora… Está viva…
Quem reconhece quem?
Nounours, inclinado sobre essa cabeça, poderia parecer aquele que salva, ou recolhe. Mas essa posição é instável. Poderia igualmente ser aquele que descobre, pela primeira vez, aquilo que o constitui. Pois Nounours—e isso impressiona-me aqui—pertence a esse mesmo regime de objetos animados, seres na fronteira, que só têm vida por um olhar que os investe. Um olhar vindo de outro mundo…
Assim, o face-a-face torna-se um espelho deslocado.
E a água, sempre, envolve a cena.
Mas já não é apenas meio de deriva. Torna-se aqui o lugar da dispersão. Aquilo que flutua pode ser o que resta após um desmembramento. Aquilo que aflora à superfície seriam apenas fragmentos, alguns indícios. E a própria barca, detenho-me nela, evoca imediatamente essas embarcações funerárias que, no imaginário egípcio, transportam os corpos, ou o que deles resta, para outro regime de existência.
Não estamos numa cena de salvamento. Estamos numa travessia.
O nariz de Pinóquio o Outro, sempre alongado, sensível à mentira e à ilusão, persiste nesta situação. Mas aqui já não está orientado para a profundidade. Está preso numa relação. Aponta para Nounours, ou melhor, para o espaço que os separa. Como se, mesmo no desmembramento, algo nele continuasse a procurar uma direção, um sentido que pudesse guiá-lo.
Regresso a Pinóquio o Outro… à marioneta… e ao seu mecanismo. O que está em jogo aqui não é apenas um mau funcionamento ou um desgaste. É uma desarticulação mais radical, que toca a própria possibilidade de manter-se unido. E, no entanto, essa desarticulação não produz o caos. Abre as cortinas de um estranho teatro.
Uma cena onde um fragmento de marioneta de madeira encontra um boneco de peluche… onde um corpo ausente chama por uma recomposição que ainda não começou.
É talvez nisso que a referência a Osíris atua. Não como uma ilustração mitológica, mas como uma estrutura subterrânea… ali onde algo foi disperso… ali onde algo deve ser reencontrado… Mas o que será reencontrado nunca coincidirá totalmente com o que foi perdido.
E nesse intervalo, entre perda e recomposição, mantém-se o desenho.
Copia essas imagens para as compreender, e, ao copiá-las, elas fazem surgir ideias que até então lhe escapavam. Creio compreender porquê. Pois essas imagens não pedem para ser interpretadas de fora. Pedem para ser refeitas, reencenadas…
Não entregam o seu sentido… dispersam-no.
E talvez seja isso que também o atingiu. Não aquilo que o desenho mostra, mas aquilo que começa a desfazer.
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