mercredi 29 avril 2026

(47) A abracadabrante história da Criança Lua

 
 
 
 
 
Onde quer que se encontrem… e viajam muito… os olhos semicerrados de Pinóquio o Outro instauram desde logo uma dupla pertença. Não olham o mundo como um espetáculo, e a marioneta privada do seu corpo não pode absorver-se inteiramente em si mesma. A sua cabeça mantém juntos dois mundos: aquilo que vem de fora e aquilo que se forma por dentro. Nesta posição, “ouvir” torna-se de facto mais do que um simples receber de sons: é deixar entrar e, de imediato, interpretar. E é aí que o drama discreto se desenrola. Pois se o nariz cresce quando ouve mentiras, então torna-se o índice de uma sensibilidade ao que não se sustenta. Já não denuncia quem fala; denuncia quem percebe. Marca a capacidade, quase a condenação, de reconhecer o falso, de o compreender, de o deixar ressoar. Por outras palavras, esse nariz não mede a mentira—falta moral, se assim se quiser—mede a sua própria lucidez.
Mas essa lucidez não é triunfante. Ela embaraça. Expõe a uma forma de vergonha: não a de ter mentido, mas a de estar preso num mundo onde a mentira circula, e de ser afetado por ela… e mais ainda… de ser remetido para uma origem demasiado fiel. Aquela que encerra num modelo já interpretado, carregado de inúmeros preconceitos. Ser “como Pinóquio” é já estar compreendido antes mesmo de ter falado.
 
  
 
– Acreditar é duvidar… Isso anda-me na cabeça… e já não consigo parar de o repetir…
– Diga-me… o que quer dizer com isso?
– Não quero dizer nada… repito… e isso quer dizer… vai e vem…
– «Acreditar é duvidar»… não será isso… uma provocação?
– À primeira vista… certamente, no entanto, se nos detivermos, a fórmula não destrói a crença…
– O que faz então?
– Põe-na à prova, torna-a viva.
Pois acreditar, no sentido forte, nunca é possuir. Quem possui já não precisa de acreditar: sabe, ou pensa saber. A crença, por seu lado, surge precisamente onde o saber falha.
– Como assim?
– Nasce num espaço aberto, incerto, exposto. É uma maneira de habitar essa falta sem a preencher totalmente.
– Nesse sentido, acreditar implica já uma forma de dúvida…
– … não uma dúvida que nega tudo, mas uma dúvida que mantém aberto.
– Explique-se!
– Se digo «acredito», admito ao mesmo tempo que poderia não acreditar. É implícito… A crença traz consigo essa fragilidade. Não é um bloco…
– O que é então?
– Uma tensão que se mantém… mas que pode ceder. E talvez seja essa própria possibilidade de ceder que lhe dá valor.
– Não compreendo…
– Uma crença à qual nenhuma dúvida se pudesse ligar tornar-se-ia uma evidência ou uma imposição… deixaria de ser crença para se tornar automatismo ou dogma.
 
 
 
– Pode-se ir mais longe: a dúvida não é apenas aquilo que ameaça a crença, é aquilo que a torna possível. Sem dúvida, não haveria movimento em direção a. Ora, acreditar é sempre dirigir-se para algo que não se dá plenamente. É consentir numa ausência parcial, numa obscuridade. A dúvida não é, portanto, o inimigo exterior da crença…
– O que é então?
– A sua condição interior…
– Mas…
– Mas é preciso distinguir.
– Distinguamos…
– Há uma dúvida que corrói…
– … a que dissolve tudo…
– E que impede qualquer adesão. Essa dúvida não faz acreditar…
– Paralisa.
– E há outra dúvida, mais discreta, mais profunda…
– …
– … uma dúvida que acompanha, que vela, que impede a crença de se fixar. Essa dúvida não é uma fraqueza…
– Deixe-me adivinhar…
– … é uma lucidez.
– Assim, dizer «acreditar é duvidar» não é afirmar que acreditar equivale a negar aquilo em que se acredita?
– Não… é antes dizer que acreditar verdadeiramente é nunca poder repousar inteiramente no que se acredita. É permanecer em relação com o que escapa.
– Talvez a Criança Lua, na maneira como se sente escrita, como diz… sem saber por quem, toque nisso.
– É isso… Ele não sabe, e no entanto não pode deixar de acreditar que… para ele como para nós… há um autor.
– Sem dúvida alguma…?
– A sua dúvida não destrói essa crença; torna-a mais aguda, mais vibrante. Ele não diz: «isso não existe».
– O que diz então?
– Diz antes: «isso existe, mas não posso apreendê-lo». E é nesse intervalo que a sua palavra nasce.
– No fundo, uma crença sem dúvida seria um fechamento?
– Uma dúvida sem crença seria um vazio. Entre as duas, há esse movimento instável, quase respiratório, onde algo se procura sem nunca se fixar completamente. É talvez aí que acreditar começa.
– Isso… estou disposto a acreditar.
 
 

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