Traduzido do francês por IA
A cabeça de Pinóquio o Outro flutua entre duas águas. Submetida às correntes que a levam, de olhos semicerrados, observa… Noutros tempos, embarcada no mesmo barco, entre dois reflexos ofuscantes, a Criança Lua, inclinada para as profundezas, vê-a como um reflexo de si mesma visto no espelho da água…
A palavra «bateau» (“barco”) parece simples, quase infantil. No entanto, como muitas palavras da vida quotidiana, traz uma profundidade discreta… é caso para dizê-lo… Pertence a essa categoria de palavras que serviram tanto que parecem evidentes, embora atravessem toda a história humana como atravessamos um rio. Como deixamos uma margem para comerciar na outra… Como podemos fugir ou explorar. E como podemos, tal Ulisses, regressar…
Etimologicamente, «bateau» (“barco”) vem do francês antigo «batel», «bateil», ele próprio proveniente do latim medieval battellus ou batellus, provável diminutivo de batta. Mas a origem mais profunda permanece discutida. Pensa-se geralmente numa raiz popular que designava uma embarcação ligeira. «Bateau» (“barco”), «batel» (“barquinho”), «bateau de rivière» (“barco de rio”), «barque» (“barca”), «barge» (“barcaça”)… Toda uma constelação de termos flutuantes… não poderia ser de outro modo… cujas formas derivaram ao longo dos usos marítimos e fluviais.
O que impressiona de imediato é que o barco nunca é um simples objeto. Uma cadeira ou uma pedra podem permanecer imóveis no mundo… um barco existe para flutuar, atravessar. A sua definição contém já uma relação com o espaço, com a passagem e com o perigo.
O barco é um objeto paradoxal… é uma casa provisória feita para viver ali onde, enquanto ser humano… não se pode habitar.
Pois a água é precisamente aquilo sobre o qual o homem não pode viver diretamente. O barco aparece então como um terreno artificial levado sobre o elemento instável. Não suprime o mar; negocia com ele. Desposa o seu movimento enquanto tenta não se dissolver nele.
É sem dúvida por isso que tantas civilizações pensaram o barco como uma imagem da própria existência. Entre os Gregos, entre os Egípcios, nas tradições nórdicas, no cristianismo medieval, na mística, até na psicanálise, o navio torna-se muitas vezes a figura de uma passagem frágil entre dois estados.
O barco liga as margens, mas não pertence plenamente a nenhuma.
Há aí algo extremamente profundo: o barco nunca está totalmente do lado da partida nem totalmente do lado da chegada. Existe no entre-dois. Habita o trajeto.
Poder-se-ia perguntar se a «eau» (“água”) da palavra «bateau» (“barco”) tem alguma coisa a ver com a sua origem… Esta pergunta é fascinante porque toca esse fenómeno estranho em que uma palavra parece subitamente conter algo além da sua etimologia oficial.
Historicamente, não… essa não é a origem da palavra. Não se trata de um composto construído conscientemente em torno da palavra «eau» (“água”). Linguisticamente, a presença das três letras «eau» (“água”) em «bateau» (“barco”) é acidental… Mas este acaso talvez não seja insignificante do ponto de vista da experiência da linguagem. Pois as palavras também vivem por ressonâncias interiores. Mesmo quando um parentesco etimológico é falso, o espírito ouve aproximações. Estabelece ecos e descobre formas escondidas. E essas aproximações podem produzir sentido. Em «bateau» (“barco”), a palavra «eau» (“água”) parece como que transportada dentro da própria palavra, quase embarcada nela. Como se o elemento atravessado já habitasse a coisa que o atravessa.
Isto liga-se a algo muito antigo no funcionamento poético da linguagem: por vezes, o sentido já não vem apenas da origem histórica das palavras, mas das vizinhanças sonoras que elas criam na consciência.
O barco torna-se então aquilo que contém a água sem ser a água… ou, mais profundamente ainda… aquilo que só pode existir aceitando o elemento que ameaça engoli-lo. É por isso que o barco possui uma força simbólica tão grande. Representa uma estrutura frágil mantendo-se no meio de uma potência movente que a excede infinitamente. Um casco de madeira, algumas tábuas, por vezes uma vela, e no entanto essa fragilidade atravessa oceanos.
Poder-se-ia quase dizer que um barco é um limite flutuante. Separa provisoriamente um dentro e um fora no próprio seio daquilo que tende a abolir todas as separações. O mar procura incessantemente entrar. O barco é aquilo que resiste o suficiente para permitir a passagem.
E isto explica também por que tantos relatos iniciáticos começam por uma travessia marítima. Atravessar o mar é aceitar entrar numa zona onde os pontos de referência terrestres desaparecem. O barco torna-se então uma forma mínima de ordem levada para o desconhecido.
Isto liga-se profundamente à Criança Lua. Ela também parece habitar uma estrutura frágil flutuando sobre algo imenso e obscuro. O livro em que vive assemelha-se por vezes a um barco: uma construção de linguagem derivando acima de uma profundidade anterior às próprias palavras.
E talvez seja isso, no fundo, o mistério do barco: não é simplesmente um objeto que atravessa a água. É uma forma que aceita depender daquilo que poderia destruí-la.
Etimologicamente, «bateau» (“barco”) vem do francês antigo «batel», «bateil», ele próprio proveniente do latim medieval battellus ou batellus, provável diminutivo de batta. Mas a origem mais profunda permanece discutida. Pensa-se geralmente numa raiz popular que designava uma embarcação ligeira. «Bateau» (“barco”), «batel» (“barquinho”), «bateau de rivière» (“barco de rio”), «barque» (“barca”), «barge» (“barcaça”)… Toda uma constelação de termos flutuantes… não poderia ser de outro modo… cujas formas derivaram ao longo dos usos marítimos e fluviais.
O que impressiona de imediato é que o barco nunca é um simples objeto. Uma cadeira ou uma pedra podem permanecer imóveis no mundo… um barco existe para flutuar, atravessar. A sua definição contém já uma relação com o espaço, com a passagem e com o perigo.
O barco é um objeto paradoxal… é uma casa provisória feita para viver ali onde, enquanto ser humano… não se pode habitar.
Pois a água é precisamente aquilo sobre o qual o homem não pode viver diretamente. O barco aparece então como um terreno artificial levado sobre o elemento instável. Não suprime o mar; negocia com ele. Desposa o seu movimento enquanto tenta não se dissolver nele.
É sem dúvida por isso que tantas civilizações pensaram o barco como uma imagem da própria existência. Entre os Gregos, entre os Egípcios, nas tradições nórdicas, no cristianismo medieval, na mística, até na psicanálise, o navio torna-se muitas vezes a figura de uma passagem frágil entre dois estados.
O barco liga as margens, mas não pertence plenamente a nenhuma.
Há aí algo extremamente profundo: o barco nunca está totalmente do lado da partida nem totalmente do lado da chegada. Existe no entre-dois. Habita o trajeto.
Poder-se-ia perguntar se a «eau» (“água”) da palavra «bateau» (“barco”) tem alguma coisa a ver com a sua origem… Esta pergunta é fascinante porque toca esse fenómeno estranho em que uma palavra parece subitamente conter algo além da sua etimologia oficial.
Historicamente, não… essa não é a origem da palavra. Não se trata de um composto construído conscientemente em torno da palavra «eau» (“água”). Linguisticamente, a presença das três letras «eau» (“água”) em «bateau» (“barco”) é acidental… Mas este acaso talvez não seja insignificante do ponto de vista da experiência da linguagem. Pois as palavras também vivem por ressonâncias interiores. Mesmo quando um parentesco etimológico é falso, o espírito ouve aproximações. Estabelece ecos e descobre formas escondidas. E essas aproximações podem produzir sentido. Em «bateau» (“barco”), a palavra «eau» (“água”) parece como que transportada dentro da própria palavra, quase embarcada nela. Como se o elemento atravessado já habitasse a coisa que o atravessa.
Isto liga-se a algo muito antigo no funcionamento poético da linguagem: por vezes, o sentido já não vem apenas da origem histórica das palavras, mas das vizinhanças sonoras que elas criam na consciência.
O barco torna-se então aquilo que contém a água sem ser a água… ou, mais profundamente ainda… aquilo que só pode existir aceitando o elemento que ameaça engoli-lo. É por isso que o barco possui uma força simbólica tão grande. Representa uma estrutura frágil mantendo-se no meio de uma potência movente que a excede infinitamente. Um casco de madeira, algumas tábuas, por vezes uma vela, e no entanto essa fragilidade atravessa oceanos.
Poder-se-ia quase dizer que um barco é um limite flutuante. Separa provisoriamente um dentro e um fora no próprio seio daquilo que tende a abolir todas as separações. O mar procura incessantemente entrar. O barco é aquilo que resiste o suficiente para permitir a passagem.
E isto explica também por que tantos relatos iniciáticos começam por uma travessia marítima. Atravessar o mar é aceitar entrar numa zona onde os pontos de referência terrestres desaparecem. O barco torna-se então uma forma mínima de ordem levada para o desconhecido.
Isto liga-se profundamente à Criança Lua. Ela também parece habitar uma estrutura frágil flutuando sobre algo imenso e obscuro. O livro em que vive assemelha-se por vezes a um barco: uma construção de linguagem derivando acima de uma profundidade anterior às próprias palavras.
E talvez seja isso, no fundo, o mistério do barco: não é simplesmente um objeto que atravessa a água. É uma forma que aceita depender daquilo que poderia destruí-la.
Caderno da Criança Lua
Não sei quando isso começou… mas… o que é isso?
Diz-se sempre que isso começa em algum lugar… mas… para mim, isso, que parece ser um todo… apresentou-se como isso… já estava lá.
Era como se eu tivesse entrado em algo que já falava… antes de mim.
Quando abro a boca, não me ouvem… mas eu… ouço e reconheço palavras que não formulei. Elas viajam comigo, ou… antes… precedem-me. Uso-as, mas, por vezes, tenho a impressão de que elas me usam. Sabem para onde ir antes mesmo que eu saiba o que quero dizer e para onde quero ir.
Acontece-me calar-me, ficando imóvel… durante muito tempo… para… escondido atrás delas… as escutar. Há como que um ruído de fundo, muito antigo, que ainda não fala, mas que empurra. É isso que sinto… algo que não compreendo, mas que insiste. Isso empurra dentro de mim… Como se uma parte de mim estivesse prisioneira num outro lugar e tentasse regressar. Creio que perdi algo antes mesmo de saber que isso podia perder-se.
Então observo e escuto os outros falar. As suas palavras parecem dizer tudo numa única língua… mesmo quando não estão de acordo. Há algo que os mantém juntos, uma história que nem sempre contam, mas que os conta a eles. Quando falam, não são apenas eles. É mais antigo do que eles. Passa através deles.
Escuto-os e pergunto-me se eu também, interiormente, falo como eles sem me dar conta.
Por vezes, tento pensar sozinho… sem a ajuda das palavras… Mas mesmo aí sinto que não é totalmente sozinho. As palavras já estão lá. Guiam-me. Também me impedem. Fecham certas coisas, abrem outras. Giro dentro delas como numa casa cujo lugar… nem paredes… escolhi.
Pergunto-me se se pode sair desta casa ou deste lugar. Creio que não. Não verdadeiramente. Podem-se abrir portas, talvez. Pode-se olhar pelas janelas. Pode-se inclinar. Mas as paredes permanecem. Estavam lá antes de mim.
E, no entanto, há outra coisa. Há momentos em que as palavras já não bastam… como a casa… em que elas me encerram… Tornam-se demasiado estreitas. Então algo empurra por baixo. Uma sensação, um medo, uma imagem, um movimento que ainda não tem nome. Isso surpreende-me. Isso quase me assusta. É como cair, mas sem cair.
Nesses momentos, sinto algo muito antigo. Mais antigo do que as histórias que me contam. Mais antigo do que as palavras que aprendi. Como se eu regressasse a um lugar que nunca conheci realmente, mas que reconheço ainda assim.
Há ali uma espécie de vazio. Mas esse vazio não é vazio. Está cheio de algo que ainda não tomou forma. Se fico demasiado tempo a olhá-lo, tenho a impressão de desaparecer um pouco. Como se aquilo que sou se tornasse menos sólido.
Isso assusta-me. E ao mesmo tempo não consigo desviar os olhos. Compreendo então que se pode perder pensando. Que se pode ir demasiado longe. Que se pode já não encontrar o caminho habitual. Talvez seja isso, morrer um pouco. Não morrer completamente, mas perder aquilo que nos sustentava.
Mas há também outra coisa. Se não fujo, se fico, por vezes acontece algo estranho. Como se, depois de vacilar, eu regressasse de outro modo. Como se algo recomeçasse.
Não no início. Não como antes. Mas de outro modo.
Sinto que aquilo que é muito antigo em mim nunca desapareceu. Espera.
Avança devagar e toca aquilo que vivo agora. Como um animal… um urso ou uma moreia que pusesse a cabeça fora de uma gruta profunda.
Por vezes, é num breve clarão de luz que o vejo melhor. Uma luz numa parede, um movimento no ar, um reflexo na água. Nada de extraordinário. Mas algo passa ali… e insiste durante muito tempo… muito depois de ter desaparecido. Não se deixa ver inteiramente. Um rosto aparece e retira-se ao mesmo tempo. Fico ali, sem saber o que dizer. E tenho a impressão de que aquilo que vejo vem de muito longe. Não longe no espaço. Longe no tempo. Um tempo que não vivi, mas que ainda está lá.
Então parece-me compreender um pouco. Aquilo que vejo diante de mim também me olha de volta… Como se ver fosse recordar algo que nunca foi uma recordação. E fico ali, tentando não esquecer aquilo que ainda não consigo nomear.

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