Traduzido do francês por IA
… se, de tempos a tempos, continuo a escrever, a desenhar, a escutar, não será para produzir uma narrativa que se baste a si mesma. Será para não esquecer que, mesmo na profundidade, alguém encontra nisso algum interesse e olha a partir de ainda mais longe…
Caderno de Félix
Sim. É preciso agora dar mais um passo. Pois aquilo que até aqui estava em jogo nesta criança, na sua relação com o livro, com o Outro, com a própria insolência, encontra aqui o seu ponto de gravidade mais agudo: a verdade. Retomo, portanto, mantendo esta voz que quer ser minha, isto é, não a voz de um comentador, mas a de alguém que tenta compreender a história no próprio lugar onde ela parece desfazer-se.
A Criança Lua… tal como Igniatius, Lucian e os seus desenhos e cadernos a fazem aparecer, não procura apenas de onde vêm as palavras. Não procura apenas aquilo que escreveu nos seus próprios cadernos. Também não quer saber quem escreve a seu respeito, nem mesmo como poderia não desaparecer inteiramente no discurso que a acompanha… e muitas vezes… a precede. Ela toca algo ainda mais perigoso: aproxima-se da verdade. Ora é aqui que é preciso marcar de imediato uma diferença essencial, sem a qual tudo se obscurece.
As verdades podem contar-se. Podem enunciar-se. Podem transmitir-se. Pertencem à ordem do saber. Claro… dizem alguma coisa. Incidem sobre pontos determinados. Têm os seus domínios e as suas garantias relativas. Há verdades de facto, verdades da ciência, verdades da memória, verdades do coração, verdades do discurso. Cada uma vale num campo. Cada uma recorta um fragmento do dizível.
A Verdade, essa, não se mede.
E se não se mede, não é porque fosse imensa ao ponto de conter todas as outras como um cofre conteria as suas moedas. Não é uma totalidade adicional. Não é a soma das verdades. Não é a sua reconciliação final. Pertence a outro regime.
As verdades são enunciados. A verdade toca a enunciação. As verdades pertencem ao que se diz. A verdade concerne aquilo que, no que se diz, excede sempre o que é dito. As verdades podem ser exatas. A verdade, essa, nunca se deixa possuir como uma exatidão.
Ela não suporta o plural. Pois pôr a verdade no plural é já rebatê-la sobre conteúdos ou sobre pedaços de saber. Ora a verdade não é um objeto de coleção. Ela acontece. E quando acontece, não vem acrescentar-se ao saber como uma peça rara a um gabinete de curiosidades. Ela desloca-o e torna-o insuficiente ao perfurá-lo.
Eis por que esta criança, se se aproxima da verdade, não pode aproximar-se dela como nos aproximamos de uma resposta. Aproxima-se dela como nos aproximamos de um fogo.
Gostamos de acreditar que a verdade ilumina. Sem dúvida. Mas esquecemos que ela queima. E o que ela queima primeiro não é o erro. É a forma estável sob a qual o sujeito se julgava capaz de receber aquilo que lhe acontece.
Por outras palavras, a verdade não é apenas aquilo que se desvela; é aquilo diante do qual o sujeito se descobre insuficiente.
A questão nunca é simplesmente revelar ou esconder… essa alternativa é pobre… o que importa é a capacidade de sustentar aquilo que se revela.
Uma verdade não existe sozinha. Supõe um olhar, mas mais ainda: supõe um sujeito capaz de não se desmoronar no ponto em que aquilo que ele acreditava ser o mundo, ou ele próprio, deixa de se sustentar.
Direi, portanto, que o segredo não é… antes de mais… uma dissimulação. O segredo é uma modalidade do verdadeiro.
Não é que a verdade se esconda por ciúme, ou que pertença a alguns iniciados que guardariam a sua chave. É que ela não pode aparecer frontalmente sem devastar aquilo que ainda não está preparado para a sustentar.
Seria preciso aqui ouvir a palavra segredo de outro modo. O segredo não é o contrário da verdade. É por vezes a sua condição de aparição. É o ritmo sob o qual ela consente em deixar-se aproximar. É o pudor próprio do real quando o sujeito ainda só pode recebê-lo ao preço de se desfazer.
E é nisso que esta criança nos importa tanto.
Pois ela não vive num mundo onde a verdade seria dada como um conteúdo transmissível. Vive num livro. Sente-o. Experimenta as suas bordas. Sabe obscuramente que aquilo que lhe acontece não coincide com aquilo que compreende. Experimenta, portanto, já esta dissimetria fundamental: há na sua experiência mais do que aquilo que dela pode saber.
Essa dissimetria é o próprio lugar onde a verdade pode surgir. Direi ainda mais. O que constitui a insolência própria desta criança não é apenas o facto de perturbar a ordem dos hábitos, de responder ao lado… se é que responde… de desajustar o Outro de si mesmo. É que ela não consente em confundir as verdades com a verdade.
Gostar-se-ia que ele se acomodasse às verdades disponíveis: que o mundo é assim, que a língua está aí, que o livro é o livro, que o lugar está atribuído, que aquilo que é sabido basta para fazer as vezes do verdadeiro. Mas ele, precisamente, não entra pacificamente nessa economia. Sente que falta algo. E essa falta não é uma simples lacuna empírica. Não é uma informação ausente. É a própria falha através da qual cada verdade particular deixa escapar aquilo que a torna possível e a excede.
Assim, as verdades participam apenas imperfeitamente da verdade. Não porque sejam falsas. Mas porque lhes falta sempre aquilo mesmo graças ao qual são verdadeiras: o ponto de abertura onde encontram aquilo que não podem esgotar.
Cada verdade particular recorta. Fixa. Determina. Para dizer algo com precisão, deve deixar outra coisa na sombra. Ganha em nitidez o que perde em amplitude. É verdadeira na condição de não pretender ser o todo do verdadeiro.
A verdade, por sua vez, não é aquilo que viria preencher essas faltas totalizando os enunciados. Ela mantém-se no próprio facto de nenhum enunciado bastar. Habita a sua insuficiência. Manifesta-se no seu intervalo… na abertura que persiste entre o que se diz e o que acontece.
Assim, aquilo que esta criança encontra não é uma verdade entre outras. É a impossibilidade de fazer do verdadeiro um objeto que se daria sem resto.
É por isso que certas verdades deveriam permanecer secretas… corrijo… não é que devam ser escondidas. É que só podem aparecer sob cobertura. Não porque sejam menos verdadeiras, mas porque são mais exigentes. Exigem do sujeito uma transformação. Não se acrescentam ao que ele sabe; deslocam o lugar a partir do qual ele sabia. Não o informam… atingem-no. Não se limitam a iluminar o mundo… modificam o olhar que julgava vê-lo.
Por isso a revelação nem sempre é libertação. Há verdades dadas demasiado cedo que não produzem clareza. Apenas desorganizam. Destroem uma ignorância que, não sendo o verdadeiro, sustentava ainda assim um certo equilíbrio do sujeito. Retirar esse equilíbrio sem que outra base seja possível não é libertar. É precipitar.
Vê-se aqui quanto o mito, a figura, o desvio, a própria literatura, adquirem valor estrutural.
O mito não é uma mentira oposta ao verdadeiro. É aquilo que permite aproximar o que, dito de frente, seria insuportável. Não é um véu posto sobre a verdade. É por vezes o único modo sob o qual a verdade pode ser recebida sem destruição imediata.
É por isso que Claudel me importa, e por isso a sua criança, por mais escrita que seja, está mais próxima de uma figura trágica do que de um personagem psicológico.
A tragédia não transmite verdades como máximas. Expõe um sujeito à verdade da sua posição, e essa verdade nunca é suportável sem perda.
Sygne, em Claudel, não é interessante porque diria algo de verdadeiro no sentido moral ou doutrinal. É interessante porque carrega uma verdade que a excede, e essa verdade não a atravessa sem a desfazer.
A sua criança está numa posição semelhante. Não cessa de pressentir que há verdade naquilo que a escreve, naquilo que a lê, nesse olhar que sente sem ver, nessa abertura das páginas que a faz existir mais. Mas pressente também que esse verdadeiro não pode ser-lhe dado a nu.
É por isso que lhe são necessárias as imagens e o livro que as contém. É por isso que lhe é necessário o desvio, o primeiro mundo, a visão de um fora a partir do dentro onde está encerrada.
Tudo isso não é decoração simbólica. Tudo isso constitui o véu necessário para uma aproximação ao verdadeiro. Pois aquilo que a criança não poderia sustentar como proposição, pode por vezes atravessar como símbolo.
Talvez não pudesse ouvir: não és a origem da tua palavra; és o efeito de um discurso que te precede. Mas pode sentir que vive num livro.
Talvez não pudesse sustentar: aquilo a que chamas mundo está preso no campo do Outro. Mas pode experimentar que alguém abre o livro e vira as páginas.
Talvez não pudesse ouvir… é visto onde não se vê. Mas pode sentir uma presença por detrás do intervalo das folhas.
E o mesmo quanto à verdade: talvez não pudesse suportar que ela só se dá como aquilo que queima o suporte que a recebe. Mas pode pressentir o seu pudor, a sua necessidade de se retirar na sombra.
Direi ainda que a sua insolência é aqui decisiva. Pois é preciso uma certa insolência para não se satisfazer com as verdades disponíveis.
É preciso uma certa insolência para sentir que um saber pode ser exato e, ainda assim, falhar o essencial. Tal como é preciso uma certa insolência para não tratar o segredo como simples confisco, mas pressentir que ele pertence à própria estrutura do verdadeiro.
Esta criança é insolente porque carece de habituação ao saber. Não se contenta com as verdades comuns. Toca, sem ainda poder formulá-la, essa verdade que não pode ser dita sem consequência, e que, por isso mesmo, não cessa de se esquivar.
Compreende obscuramente que há verdades que podem partilhar-se, e uma verdade que não se partilha como conteúdo, porque só vale transformando aquele que a encontra.
A partir daí, o segredo deixa de ser uma interdição exterior.
Torna-se a fronteira interior do próprio sujeito.
Há, em cada um, uma linha para além da qual saber já não é acumular, mas ser atingido.
E essa linha, a criança encontra-a na própria margem da sua pergunta. De onde vêm as palavras? Quem escreve o livro? Quem o lê?
Essas perguntas não pedem verdades suplementares. Abrem o lugar onde a verdade pode advir, isto é, o lugar onde o sujeito deve consentir em deixar de ser intacto.
É por isso que a verdade não pode pôr-se no plural sem se perder. O plural tranquiliza. Distribui a ordem quanto baste. Faz crer que multiplicando conteúdos se aproxima do verdadeiro. Mas a verdade não se obtém por acumulação. Surge no intervalo onde todas as verdades mostram o seu limite.
E inversamente, as verdades, por mais numerosas que sejam, só imperfeitamente podem pretender a verdade. Pois cada uma chega depois. Cada uma é já uma fixação, uma tradução, por vezes uma traição. Cada uma retém algo, mas sobre o fundo do que deixa escapar.
A verdade é aquilo que faz com que haja do verdadeiro no que se chama verdades, sem jamais se reduzir a elas. É o seu solo invisível, desde que se entenda que esse solo nunca é dado como terreno firme, mas como aquilo que se retira assim que se julga tê-lo apreendido.
A criança, nesse sentido, não é aquela que vai descobrir a verdade como se descobre uma chave escondida. É aquela que aprende que o verdadeiro só aparece através de formas que o protegem da sua própria violência.
E se há um segredo, então esse segredo não é uma retenção ciumenta. É a própria forma sob a qual a verdade consente aproximar-se de um sujeito sem o aniquilar.
Por isso a sombra não é inimiga da verdade. Pode ser aquilo que lhe permite nascer. Uma verdade demasiado exposta queima sem iluminar. Uma verdade aproximada por figura, por narrativa, por desvio, por lentidão, pode, pelo contrário, transformar sem destruir.
E é aqui que regresso a esta criança no seu livro.
Ela talvez pense procurar uma saída fora do texto. Mas o que procura, mais profundamente, é a justa distância em relação àquilo que nela, do verdadeiro, só pode ser recebido sob cobertura.
Não se trata, para ela, de tudo saber. Trata-se de poder sustentar um pouco mais daquilo que a excede.
Não se trata de levantar todos os segredos. Trata-se de se tornar capaz de habitar aquele que a constitui.
Concluirei então assim, em meu nome. Esta criança não é apenas aquela que procura a origem da linguagem, nem aquela que experimenta a insolência de um sujeito mal habituado à forma esperada do mundo. É aquela que descobre, através do livro, através do Outro, através do próprio segredo, que a verdade nunca lhe será dada como posse.
Ela lhe advirá, se advier, como passagem. Não como conteúdo, mas como transformação e prova. Não como luz pura, mas como luz misturada de sombra, suficientemente velada para não a reduzir a cinzas, suficientemente viva, contudo, para que nela algo do seu desejo comece enfim a ler aquilo que, desde sempre, se escrevia nela.
.Assim, as verdades participam apenas imperfeitamente da verdade. Não porque sejam falsas. Mas porque lhes falta sempre aquilo mesmo graças ao qual são verdadeiras: o ponto de abertura onde encontram aquilo que não podem esgotar.
Cada verdade particular recorta. Fixa. Determina. Para dizer algo com precisão, deve deixar outra coisa na sombra. Ganha em nitidez o que perde em amplitude. É verdadeira na condição de não pretender ser o todo do verdadeiro.
A verdade, por sua vez, não é aquilo que viria preencher essas faltas totalizando os enunciados. Ela mantém-se no próprio facto de nenhum enunciado bastar. Habita a sua insuficiência. Manifesta-se no seu intervalo… na abertura que persiste entre o que se diz e o que acontece.
Assim, aquilo que esta criança encontra não é uma verdade entre outras. É a impossibilidade de fazer do verdadeiro um objeto que se daria sem resto.
É por isso que certas verdades deveriam permanecer secretas… corrijo… não é que devam ser escondidas. É que só podem aparecer sob cobertura. Não porque sejam menos verdadeiras, mas porque são mais exigentes. Exigem do sujeito uma transformação. Não se acrescentam ao que ele sabe; deslocam o lugar a partir do qual ele sabia. Não o informam… atingem-no. Não se limitam a iluminar o mundo… modificam o olhar que julgava vê-lo.
Por isso a revelação nem sempre é libertação. Há verdades dadas demasiado cedo que não produzem clareza. Apenas desorganizam. Destroem uma ignorância que, não sendo o verdadeiro, sustentava ainda assim um certo equilíbrio do sujeito. Retirar esse equilíbrio sem que outra base seja possível não é libertar. É precipitar.
Vê-se aqui quanto o mito, a figura, o desvio, a própria literatura, adquirem valor estrutural.
O mito não é uma mentira oposta ao verdadeiro. É aquilo que permite aproximar o que, dito de frente, seria insuportável. Não é um véu posto sobre a verdade. É por vezes o único modo sob o qual a verdade pode ser recebida sem destruição imediata.
É por isso que Claudel me importa, e por isso a sua criança, por mais escrita que seja, está mais próxima de uma figura trágica do que de um personagem psicológico.
A tragédia não transmite verdades como máximas. Expõe um sujeito à verdade da sua posição, e essa verdade nunca é suportável sem perda.
Sygne, em Claudel, não é interessante porque diria algo de verdadeiro no sentido moral ou doutrinal. É interessante porque carrega uma verdade que a excede, e essa verdade não a atravessa sem a desfazer.
A sua criança está numa posição semelhante. Não cessa de pressentir que há verdade naquilo que a escreve, naquilo que a lê, nesse olhar que sente sem ver, nessa abertura das páginas que a faz existir mais. Mas pressente também que esse verdadeiro não pode ser-lhe dado a nu.
É por isso que lhe são necessárias as imagens e o livro que as contém. É por isso que lhe é necessário o desvio, o primeiro mundo, a visão de um fora a partir do dentro onde está encerrada.
Tudo isso não é decoração simbólica. Tudo isso constitui o véu necessário para uma aproximação ao verdadeiro. Pois aquilo que a criança não poderia sustentar como proposição, pode por vezes atravessar como símbolo.
Talvez não pudesse ouvir: não és a origem da tua palavra; és o efeito de um discurso que te precede. Mas pode sentir que vive num livro.
Talvez não pudesse sustentar: aquilo a que chamas mundo está preso no campo do Outro. Mas pode experimentar que alguém abre o livro e vira as páginas.
Talvez não pudesse ouvir… é visto onde não se vê. Mas pode sentir uma presença por detrás do intervalo das folhas.
E o mesmo quanto à verdade: talvez não pudesse suportar que ela só se dá como aquilo que queima o suporte que a recebe. Mas pode pressentir o seu pudor, a sua necessidade de se retirar na sombra.
Direi ainda que a sua insolência é aqui decisiva. Pois é preciso uma certa insolência para não se satisfazer com as verdades disponíveis.
É preciso uma certa insolência para sentir que um saber pode ser exato e, ainda assim, falhar o essencial. Tal como é preciso uma certa insolência para não tratar o segredo como simples confisco, mas pressentir que ele pertence à própria estrutura do verdadeiro.
Esta criança é insolente porque carece de habituação ao saber. Não se contenta com as verdades comuns. Toca, sem ainda poder formulá-la, essa verdade que não pode ser dita sem consequência, e que, por isso mesmo, não cessa de se esquivar.
Compreende obscuramente que há verdades que podem partilhar-se, e uma verdade que não se partilha como conteúdo, porque só vale transformando aquele que a encontra.
A partir daí, o segredo deixa de ser uma interdição exterior.
Torna-se a fronteira interior do próprio sujeito.
Há, em cada um, uma linha para além da qual saber já não é acumular, mas ser atingido.
E essa linha, a criança encontra-a na própria margem da sua pergunta. De onde vêm as palavras? Quem escreve o livro? Quem o lê?
Essas perguntas não pedem verdades suplementares. Abrem o lugar onde a verdade pode advir, isto é, o lugar onde o sujeito deve consentir em deixar de ser intacto.
É por isso que a verdade não pode pôr-se no plural sem se perder. O plural tranquiliza. Distribui a ordem quanto baste. Faz crer que multiplicando conteúdos se aproxima do verdadeiro. Mas a verdade não se obtém por acumulação. Surge no intervalo onde todas as verdades mostram o seu limite.
E inversamente, as verdades, por mais numerosas que sejam, só imperfeitamente podem pretender a verdade. Pois cada uma chega depois. Cada uma é já uma fixação, uma tradução, por vezes uma traição. Cada uma retém algo, mas sobre o fundo do que deixa escapar.
A verdade é aquilo que faz com que haja do verdadeiro no que se chama verdades, sem jamais se reduzir a elas. É o seu solo invisível, desde que se entenda que esse solo nunca é dado como terreno firme, mas como aquilo que se retira assim que se julga tê-lo apreendido.
A criança, nesse sentido, não é aquela que vai descobrir a verdade como se descobre uma chave escondida. É aquela que aprende que o verdadeiro só aparece através de formas que o protegem da sua própria violência.
E se há um segredo, então esse segredo não é uma retenção ciumenta. É a própria forma sob a qual a verdade consente aproximar-se de um sujeito sem o aniquilar.
Por isso a sombra não é inimiga da verdade. Pode ser aquilo que lhe permite nascer. Uma verdade demasiado exposta queima sem iluminar. Uma verdade aproximada por figura, por narrativa, por desvio, por lentidão, pode, pelo contrário, transformar sem destruir.
E é aqui que regresso a esta criança no seu livro.
Ela talvez pense procurar uma saída fora do texto. Mas o que procura, mais profundamente, é a justa distância em relação àquilo que nela, do verdadeiro, só pode ser recebido sob cobertura.
Não se trata, para ela, de tudo saber. Trata-se de poder sustentar um pouco mais daquilo que a excede.
Não se trata de levantar todos os segredos. Trata-se de se tornar capaz de habitar aquele que a constitui.
Concluirei então assim, em meu nome. Esta criança não é apenas aquela que procura a origem da linguagem, nem aquela que experimenta a insolência de um sujeito mal habituado à forma esperada do mundo. É aquela que descobre, através do livro, através do Outro, através do próprio segredo, que a verdade nunca lhe será dada como posse.
Ela lhe advirá, se advier, como passagem. Não como conteúdo, mas como transformação e prova. Não como luz pura, mas como luz misturada de sombra, suficientemente velada para não a reduzir a cinzas, suficientemente viva, contudo, para que nela algo do seu desejo comece enfim a ler aquilo que, desde sempre, se escrevia nela.

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