« Era uma floresta de homens ausentes, onde os ramos tombavam como braços mortos e os caminhos não passavam de lembranças. Avançava-se lutando contra o espaço, contra a espessura das árvores, contra essa matéria viva que recusava a passagem.»
Jean Giono, Que a Minha Alegria Permaneça
É verdadeiramente poderoso aquilo que pode ser, mas também não ser...
A potência não é o oposto da impotência... ela contém em si mesma a sua própria possibilidade de retraimento. Talvez seja por isso que permanece sempre mais vasta do que o ato que a realiza.
Onde vemos, durante a sua segunda viagem em direção à floresta, Dom Cenoura e Sangue Quente maravilharem-se, com uma alegria quase infantil, perante o mundo que os acolhe.
Excerto do diário de Dom Cenoura
Pouco antes do crepúsculo, e antes mesmo de termos conseguido reconhecer qualquer vestígio da nossa viagem anterior, a floresta erguia-se diante de nós como uma arquitetura antiga, indecifrável e soberana. Embora não estivéssemos minimamente inquietos, tínhamos a estranha impressão de estar suspensos no tempo. Parecia-nos que nada havia sido deixado ao acaso naquele emaranhado que, noutras circunstâncias, nos teria mergulhado numa inquietante meditação. Não era, porém, esse o caso aqui, neste mundo onde, sem que o soubéssemos, a nossa própria sombra desaparecera. Cada estrato de vegetação, cada liana caída como um fio suspenso, cada musgo cobrindo as pedras possuía a sua lógica, o seu lugar, a sua função na espessa harmonia do vivo.
Uma observação atenta revelava, pouco a pouco, a sua estrutura, e nem Sangue Quente nem eu nos privávamos desse exercício. As árvores seculares, direitas como colunas, elevavam os seus troncos até alturas vertiginosas, unindo as copas para formar uma abóbada quase hermética. A luz, rara e preciosa, mal conseguia atravessá-la, filtrada por miríades de folhas sobrepostas, transformando-se num pó dourado-esverdeado suspenso no ar húmido. Aos nossos pés, as raízes desenhavam labirintos: umas tão grossas como braços humanos, outras tão finas como filamentos nervosos, revelando a floresta como um único e imenso organismo subterrâneo.
Também os sons obedeciam a uma ordem própria: o grito distante de uma ave, uma gota de água caindo numa cavidade da rocha, o roçar de algo invisível entre a vegetação cerrada. Mas, no centro desse mundo, havia o silêncio. Um silêncio vivo, que parecia escutar, vigiar, prender a respiração.
E, no que dizia respeito à relação entre Sangue Quente e eu próprio, esse silêncio exerceu sobre nós um efeito dos mais benéficos. Durante mais de metade do percurso, que foi muito longo, trocámos apenas algumas palavras... enquanto uma lua delicada e resplandecente, rompendo por entre as copas das árvores, tomava serenamente posse da noite.

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