O Um não possui plural. Aquilo a que a gramática chama «os uns» já não é o Um. Assim como as verdades já não são a Verdade, os uns já não são o Um. Conservam-lhe o nome, mas perderam-lhe a natureza.
É esta distinção que parece tornar-se um dos fios condutores do caderno de Félix, pois ela ultrapassa a gramática para tocar a própria maneira como a linguagem transforma os conceitos logo que os faz entrar no mundo das coisas contáveis. É precisamente isso, segundo ele, que estes desenhos parecem recusar: são numerosos sem nunca deixarem de testemunhar uma única e mesma presença.
Caderno de Félix
Creio que todos estes desenhos, quando verdadeiramente observados, me ensinam pouco a pouco algo que, até agora, eu nunca tinha realmente compreendido.
Durante muito tempo pensei que o estilo servia para reconhecer um autor. É, aliás, isso que dizem os historiadores da arte: uma maneira particular de desenhar uma mão, um rosto, uma árvore ou uma luz permitiria identificar quem os produziu. O estilo funcionaria como uma impressão digital. Contudo, quanto mais reúno estes desenhos — que supus serem de Lucian ou de Igniatius... ou, em todo o caso, trazidos por ele — menos sólida essa evidência hoje me parece.
Reconheço imediatamente que pertencem ao mesmo universo, quase sem nunca precisar de os contemplar durante muito tempo. Bastam algumas linhas... uma certa economia do traço... contornos espessos... superfícies silenciosas de cor... uma paleta reduzida, quase ascética... personagens reduzidas a alguns sinais essenciais... espaços amplamente deixados em branco ou, pelo contrário, encerrados numa arquitetura de cordas, ramos ou pedras.
Tudo isso fala com uma só voz.
E, no entanto, essa voz não me diz quem fala.
Eis o paradoxo.
Se a unidade do estilo é incontestável, a identidade do seu autor permanece, para mim, incerta.
Pergunto-me então se não terei estado enganado desde o princípio ao confundir estilo e identidade.
Se o estilo unifica, a identidade distingue.
Talvez não sejam a mesma operação.
Poderia até ir mais longe.
Por vezes, o estilo parece trabalhar contra a identificação.
À medida que os desenhos se tornam mais coerentes, os seus autores... ou o seu autor... tornam-se menos identificáveis.
Como se a unidade fosse absorvendo lentamente as diferenças.
Esta ideia conduz-me a outra, ainda mais estranha.
A nossa língua aproxima duas palavras que parecem seguir direções opostas: identidade e idêntico.
A identidade designa aquilo que torna um ser único.
O idêntico designa aquilo que pode ser repetido.
No entanto, ambas provêm da mesma raiz: idem, «o mesmo».
Como pode o mesmo produzir, ao mesmo tempo, a unicidade e a repetição?
Creio que esta ambiguidade não é acidental.
Ser-se a si mesmo será permanecer o mesmo ao longo do tempo... ou ser idêntico a outro... e partilhar com ele essa mesma forma?
O mesmo trabalha, portanto, em duas direções.
Funda a pessoa... e, ao mesmo tempo, funda também a série.
De repente, passo a olhar de outra maneira para as personagens que povoam estes desenhos.
Julgava que eram numerosas.
Começo agora a perguntar-me se, no fundo, não serão muito menos numerosas do que eu imaginava.
Mudam mais de papel do que de ser.
Dom Cenoura.
A Criança Lua.
Lucian.
Igniatius.
O viajante.
O leitor.
O desenhador.
Por vezes, parecem trocar de lugar com uma facilidade desconcertante.
O mesmo manto circula.
O mesmo cajado regressa.
Os mesmos pés descalços.
O mesmo chapéu largo.
A mesma silhueta, quase sempre ligeiramente inclinada.
Já não sei muito bem se são as personagens que vestem o traje ou se é o traje que as veste.
A roupa deixa então de ser um atributo.
Torna-se quase uma personagem por direito próprio e circula de um corpo para outro como uma função, mais do que como uma propriedade.
Posso quase imaginar uma personagem abandonar um desenho, atravessar discretamente a margem branca e entrar no seguinte sem sequer mudar de aparência.
O leitor... aquele que observa... como eu... continua, porém, a dar-lhe um nome diferente.
Mas o desenho parece sorrir perante esse cuidado...
E, se lhe atribuíssemos a faculdade de falar, talvez dissesse apenas:
«Olhem melhor.»
Porque, mesmo quando um rosto muda, alguma coisa permanece...
Ou talvez seja precisamente o contrário.
O rosto permanece, enquanto o nome muda.
Reencontro aqui uma antiga intuição que regressa incessantemente sob formas diferentes.
Talvez as personagens não sejam indivíduos.
São posições, maneiras de habitar a narrativa.
Hoje é Lucian quem ocupa esse lugar.
Amanhã será Dom Cenoura...
Depois a Criança Lua...
E, talvez, outro ainda.
O traje não esconde, portanto, a identidade.
Talvez manifeste precisamente que ela é móvel.
Reparo também que os próprios rostos participam dessa estranha economia.
São pouco descritos.
Bastam alguns traços.
Dir-se-ia que o desenho... ou aquele que o faz... recusa individualizar demasiado as suas personagens.
O que importa não é o retrato.
É a sua presença.
Pergunto-me então se o retrato não será, afinal, uma forma de assinatura.
Nomear...
Descrever...
Diferenciar...
Reconhecer...
Tudo isto participa do mesmo desejo:
fixar.
Ora, estes desenhos parecem resistir a essa fixação.
Preferem deixar os seres disponíveis... para outra história... outra leitura.
Talvez seja também por isso que já não consigo pensar estas imagens como uma coleção.
A própria palavra torna-se insuficiente.
Uma coleção reúne objetos distintos.
Aqui, tenho antes a impressão de observar as metamorfoses de uma única imagem.
Cada desenho seria menos uma obra nova do que uma variação de uma imagem mais profunda que nunca se mostra inteiramente.
Essa imagem, como dizer?... invisível... antes, inalcançável... não cessa de procurar a sua forma.
Pode ser um circo.
Depois um mar.
Depois uma árvore...
Depois dois papagaios...
Depois uma criança...
Depois uma cabeça levada pelas ondas.
Mas, de cada vez, reconheço menos o assunto representado do que a maneira como o mundo aparece.
Talvez seja essa, afinal, a verdadeira unidade.
Não a unidade de um autor.
Ainda menos a de uma personagem.
Mas a de um olhar.
E esse pensamento inquieta-me quase tanto quanto me tranquiliza.
Porque, se reconheço por toda a parte o mesmo olhar, torna-se cada vez menos necessário saber que nome lhe dar.
Chego mesmo a perguntar-me se um estilo não será precisamente aquilo que permanece quando a identidade deixa de ser uma questão.
Como se o estilo fosse uma presença mais antiga do que o nome.
Ou, mais exatamente:
uma presença que, tendo atravessado vários nomes, acaba por não pertencer inteiramente a nenhum deles.
Recordo então uma observação que, a princípio, me parecera quase insignificante:
a palavra um possui um plural.
Falamos de «uma imagem»...
mas também de «várias imagens».
Ora, diante destes desenhos, já não sei qual destes dois números é o mais justo.
Trata-se de várias imagens?
Ou de uma única imagem que, incapaz de se conter a si mesma, continua a narrar-se sob formas diferentes?
Se esta segunda hipótese for a correta, então a unidade deixa de ser aquilo que se opõe ao múltiplo.
Ela é precisamente aquilo que o torna possível.
O Um torna-se os uns.
E os uns não cessam de procurar, sem jamais o esgotarem, o Um de que provêm.

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