— Certamente… não faz mais do que repetir… mas poderia dizer-me quando começará o relato da Criança-Lua?
— Sabe-o tão bem como eu…
— O relato começa sem aviso… enfim, não exatamente: põe-se em marcha como algo que já teria começado noutro lugar, antes mesmo de ser percebido.
— Sabe-o tão bem como eu…
— O relato começa sem aviso… enfim, não exatamente: põe-se em marcha como algo que já teria começado noutro lugar, antes mesmo de ser percebido.
Lucian anota primeiro uma frase que lhe parece banal, quase técnica: «Igniatius diz que as imagens falam dele.» Mal repara na palavra «falam». Pensa que é apenas uma maneira de dizer… Diz a si mesmo que voltará a isso.
Igniatius, sentado à sua frente, não olha para Lucian. Olha para as imagens que colocou sobre a mesa. Trouxe-as «de outro lugar», diz ele. A expressão fica suspensa. Lucian copia-a tal como está. Ainda não compreende por que motivo ela lhe “fica a rodar na cabeça”.
— Não fui eu que as desenhei, diz Igniatius, falando das imagens.
Depois, após um silêncio:
— Encontrei-as. Em baixo.
Lucian não pergunta «em baixo onde». Sabe que certas localizações não devem ser fixadas de imediato. Limita-se a anotar: «em baixo».
Os desenhos parecem simples… mas estão longe de ser pobres. Nada que, à primeira vista, imponha uma interpretação. No entanto, algo retém o olhar e o pensamento de Lucian. Este olhar, ele conhece-o. É aquele que costuma dirigir aos relatos. Mas aqui, ainda não há relato. Ou melhor, o relato… este relato… mal esboçado não se sustenta.
Espera que algo faça ligação.
Mas os desenhos não falam… e não “passam”.
Não se inscrevem nas categorias familiares. Permanecem ali, como em espera…
— Estas imagens falam de mim, repete Igniatius.
Lucian levanta a cabeça.
— Como é que falam?
— Não dizem nada… diz Igniatius.
— Mas?
— Mas quando as olho… é como se… ouvisse uma voz.
Lucian anota esta frase sem a compreender. Pouco a pouco compreende que ainda não deve tentar compreendê-la. O relato, por mais ténue que seja, poderia parar aqui. Poderia ser tentado a explicar… ou a inventar. Os caminhos existem. Estão prontos.
Mas algo resiste.
Lucian sente-o no seu próprio olhar. Os desenhos deslocam ligeiramente as categorias. Introduzem um mistério perfeitamente perceptível.
Então continua a olhar.
À força de regressar às imagens, repara em repetições. Não em motivos evidentes, mas em insistências…
Essas repetições ainda não formam um sistema. Desenham uma espécie de caminho frágil.
Anota: algo dá-se a ver… mas imediatamente se desfaz.
Um dos desenhos chama a sua atenção. Parece vir de outro lugar. Não prolonga, interrompe.
Igniatius mostra-o.
— Esse… não o reconheço.
Lucian hesita e pergunta:
— E no entanto?
— E no entanto… está dentro, responde Igniatius.
Lucian detém-se nesta frase. Deixa-a aberta.
E a palavra «dentro» ressoa na sua cabeça.
Não como um lugar já constituído, mas como algo que se forma no próprio momento em que é dito. «Dentro» não remete aqui para um contentor prévio. Advém com aquilo que nele entra.
Mas o que perturba Lucian não é, em primeiro lugar, o dentro.
É o «ele». «Ele» está dentro. Quem é «ele»?
Lucian não coloca a questão em voz alta. Observa o que este pronome faz aqui. Não designa nada de estável. E, no entanto, Igniatius pronunciou-o claramente… como se algo se tivesse anunciado, sem poder ser distinguido.
— Não sou eu… «ele» não sou eu… diz Igniatius.
Faz-se silêncio… e, de repente, acrescenta:
— Mas também não é outra coisa.
Lucian não corrige interiormente. Não substitui «coisa» por «alguém». Suspende.
Pois nas folhas, vê-o melhor agora, há de facto uma figura. Está ali, nítida. A semelhança é evidente. Não exige qualquer esforço particular. É quase dada. E, no entanto, Lucian não a reconhece. Não ao primeiro olhar.
Vê personagens e situações desconhecidas, muitas repetições. O seu olhar circula apenas no que já conhece. Segue os seus próprios caminhos.
A semelhança está lá, mas não entra no seu percurso. Por isso permanece invisível.
Igniatius, também, não a vê como semelhança.
— Parece-se comigo… diz ele.
Depois, quase de imediato:
— Mas não sou eu.
Lucian anota a frase, sem ainda compreender bem o que nela se joga.
Só mais tarde — não sabe exatamente quando — sente que… algo se desloca. Volta a olhar. São as mesmas imagens. Nada mudou. E, no entanto, vê de outro modo.
A semelhança surge de repente. Não como construção, mas como evidência que já lá estava… desde o início…
Não a produz. Reconhece-a… com atraso.
Lucian anota: «ao segundo olhar».
Compreende então que aquilo que não tinha visto não estava escondido. Não estava oculto. Estava fora do alcance do primeiro olhar.
O primeiro olhar não carece de atenção. É muitas vezes muito atento. Mas está preso nas suas próprias ligações.
O segundo olhar não se acrescenta. Desloca.
Não olha mais… nem melhor. Olha de outro modo.
Igniatius, por seu lado, permanece nesse primeiro olhar que prolonga. Olha durante muito tempo, mas sem surpresa. A semelhança está lá, evidente, e no entanto não se torna visível para ele.
Lucian não diz nada.
Poderia mostrar. Poderia dizer: «veja, é você». Seria verdade, de certa maneira.
Mas isso falharia o que está em jogo.
Pois ver no lugar de Igniatius não produziria nele um segundo olhar. Substituiria um saber por uma experiência.
Lucian escreve:
«Há evidências que só se tornam visíveis ao segundo olhar. Não porque estivessem escondidas, mas porque o primeiro olhar não as pode acolher.»
Detém-se.
Depois acrescenta:
«O segundo olhar não corrige o primeiro.
Transforma-o.»
Volta então a esta outra frase de Igniatius:
«Também não é outra coisa.»
Porquê «coisa»?
Dizer «alguém» suporia já uma identidade possível. Ora, tudo aqui resiste a essa identidade.
Dizer «coisa» não é reduzir… é suspender… a tentação de reconhecer demasiado depressa. Suspender a entrada nas categorias já prontas para acolher… eu… o outro… pessoa.
Igniatius retoma, lentamente:
— Se eu disser «alguém»… torna-se alguém… e não é isso.
Lucian ouve o rigor desta frase.
Nomear «alguém» seria já fixar.
— Mas se eu disser «coisa»…
Igniatius procura.
— Fica aberto.
Igniatius, sentado à sua frente, não olha para Lucian. Olha para as imagens que colocou sobre a mesa. Trouxe-as «de outro lugar», diz ele. A expressão fica suspensa. Lucian copia-a tal como está. Ainda não compreende por que motivo ela lhe “fica a rodar na cabeça”.
— Não fui eu que as desenhei, diz Igniatius, falando das imagens.
Depois, após um silêncio:
— Encontrei-as. Em baixo.
Lucian não pergunta «em baixo onde». Sabe que certas localizações não devem ser fixadas de imediato. Limita-se a anotar: «em baixo».
Os desenhos parecem simples… mas estão longe de ser pobres. Nada que, à primeira vista, imponha uma interpretação. No entanto, algo retém o olhar e o pensamento de Lucian. Este olhar, ele conhece-o. É aquele que costuma dirigir aos relatos. Mas aqui, ainda não há relato. Ou melhor, o relato… este relato… mal esboçado não se sustenta.
Espera que algo faça ligação.
Mas os desenhos não falam… e não “passam”.
Não se inscrevem nas categorias familiares. Permanecem ali, como em espera…
— Estas imagens falam de mim, repete Igniatius.
Lucian levanta a cabeça.
— Como é que falam?
— Não dizem nada… diz Igniatius.
— Mas?
— Mas quando as olho… é como se… ouvisse uma voz.
Lucian anota esta frase sem a compreender. Pouco a pouco compreende que ainda não deve tentar compreendê-la. O relato, por mais ténue que seja, poderia parar aqui. Poderia ser tentado a explicar… ou a inventar. Os caminhos existem. Estão prontos.
Mas algo resiste.
Lucian sente-o no seu próprio olhar. Os desenhos deslocam ligeiramente as categorias. Introduzem um mistério perfeitamente perceptível.
Então continua a olhar.
À força de regressar às imagens, repara em repetições. Não em motivos evidentes, mas em insistências…
Essas repetições ainda não formam um sistema. Desenham uma espécie de caminho frágil.
Anota: algo dá-se a ver… mas imediatamente se desfaz.
Um dos desenhos chama a sua atenção. Parece vir de outro lugar. Não prolonga, interrompe.
Igniatius mostra-o.
— Esse… não o reconheço.
Lucian hesita e pergunta:
— E no entanto?
— E no entanto… está dentro, responde Igniatius.
Lucian detém-se nesta frase. Deixa-a aberta.
E a palavra «dentro» ressoa na sua cabeça.
Não como um lugar já constituído, mas como algo que se forma no próprio momento em que é dito. «Dentro» não remete aqui para um contentor prévio. Advém com aquilo que nele entra.
Mas o que perturba Lucian não é, em primeiro lugar, o dentro.
É o «ele». «Ele» está dentro. Quem é «ele»?
Lucian não coloca a questão em voz alta. Observa o que este pronome faz aqui. Não designa nada de estável. E, no entanto, Igniatius pronunciou-o claramente… como se algo se tivesse anunciado, sem poder ser distinguido.
— Não sou eu… «ele» não sou eu… diz Igniatius.
Faz-se silêncio… e, de repente, acrescenta:
— Mas também não é outra coisa.
Lucian não corrige interiormente. Não substitui «coisa» por «alguém». Suspende.
Pois nas folhas, vê-o melhor agora, há de facto uma figura. Está ali, nítida. A semelhança é evidente. Não exige qualquer esforço particular. É quase dada. E, no entanto, Lucian não a reconhece. Não ao primeiro olhar.
Vê personagens e situações desconhecidas, muitas repetições. O seu olhar circula apenas no que já conhece. Segue os seus próprios caminhos.
A semelhança está lá, mas não entra no seu percurso. Por isso permanece invisível.
Igniatius, também, não a vê como semelhança.
— Parece-se comigo… diz ele.
Depois, quase de imediato:
— Mas não sou eu.
Lucian anota a frase, sem ainda compreender bem o que nela se joga.
Só mais tarde — não sabe exatamente quando — sente que… algo se desloca. Volta a olhar. São as mesmas imagens. Nada mudou. E, no entanto, vê de outro modo.
A semelhança surge de repente. Não como construção, mas como evidência que já lá estava… desde o início…
Não a produz. Reconhece-a… com atraso.
Lucian anota: «ao segundo olhar».
Compreende então que aquilo que não tinha visto não estava escondido. Não estava oculto. Estava fora do alcance do primeiro olhar.
O primeiro olhar não carece de atenção. É muitas vezes muito atento. Mas está preso nas suas próprias ligações.
O segundo olhar não se acrescenta. Desloca.
Não olha mais… nem melhor. Olha de outro modo.
Igniatius, por seu lado, permanece nesse primeiro olhar que prolonga. Olha durante muito tempo, mas sem surpresa. A semelhança está lá, evidente, e no entanto não se torna visível para ele.
Lucian não diz nada.
Poderia mostrar. Poderia dizer: «veja, é você». Seria verdade, de certa maneira.
Mas isso falharia o que está em jogo.
Pois ver no lugar de Igniatius não produziria nele um segundo olhar. Substituiria um saber por uma experiência.
Lucian escreve:
«Há evidências que só se tornam visíveis ao segundo olhar. Não porque estivessem escondidas, mas porque o primeiro olhar não as pode acolher.»
Detém-se.
Depois acrescenta:
«O segundo olhar não corrige o primeiro.
Transforma-o.»
Volta então a esta outra frase de Igniatius:
«Também não é outra coisa.»
Porquê «coisa»?
Dizer «alguém» suporia já uma identidade possível. Ora, tudo aqui resiste a essa identidade.
Dizer «coisa» não é reduzir… é suspender… a tentação de reconhecer demasiado depressa. Suspender a entrada nas categorias já prontas para acolher… eu… o outro… pessoa.
Igniatius retoma, lentamente:
— Se eu disser «alguém»… torna-se alguém… e não é isso.
Lucian ouve o rigor desta frase.
Nomear «alguém» seria já fixar.
— Mas se eu disser «coisa»…
Igniatius procura.
— Fica aberto.


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