«Lembro-me de que acordei subitamente, sentado na cama. Estava como antes, no mesmo quarto, e no entanto tudo tinha mudado. Recordava-me de tudo, de tudo até ao mais ínfimo detalhe, e ao mesmo tempo sentia que não era um sonho comum. Sabia, sabia com uma certeza absoluta que tinha estado lá, que tinha vivido lá, que tinha visto e conhecido aquilo que nunca poderia ter inventado aqui. E essa convicção não me abandonava; era mais forte do que tudo.
Não era um sonho — ou então, se o fosse, então toda a nossa vida talvez não passe de um sonho ainda mais absurdo.»
Não era um sonho — ou então, se o fosse, então toda a nossa vida talvez não passe de um sonho ainda mais absurdo.»
Fyodor Dostoevsky, O Sonho de um Homem Ridículo
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Lucian sente-se profundamente só perante as imagens que tenta compreender e que descobre nos diferentes cadernos e carnets que vêm juntar-se àqueles que lhe serviram para redigir o seu relatório.
— Que dizer desta visão… Nesta ilha de basalto, onde o silêncio é quebrado apenas pelo grito de gaivotas invisíveis e pelo embate incessante do mar, no meio desta esterilidade mineral que, diante dos meus olhos, parece desafiar toda a forma de vida… e eis que são testemunhas desta estranha procissão.
Uma criança, um ser frágil, com um improvável chapéu azul, agarrado a uma simples vara, o seu rosto… tão sereno no meio desta estranha viagem. Para onde vai? De onde vem?
E esta paisagem… estes picos aguçados, rasgados por tons violetas e cinzentos, erguidos como vestígios de um cataclismo esquecido. E estas nuvens… estes farrapos de céu, flutuando tristemente, presos a uma memória intangível… Emblemas de uma glória passada? Restos de uma civilização engolida pela lava e pelo tempo?
A minha mente, formada para decifrar os meandros da alma humana, acelera. Será isto uma alucinação, fruto da solidão e da dureza deste ambiente? Ou serei testemunha de uma manifestação… de quê, ao certo? Um símbolo? Uma alegoria projetada pelo meu próprio inconsciente sobre a tela bruta desta ilha desolada?
Esta criança… representará a inocência, a esperança que persiste mesmo nos lugares mais áridos? O seu chapéu, incongruente e claramente demasiado grande, tal como as suas roupas, não será uma tentativa desesperada de manter uma forma de normalidade, de civilização, no seio desta estranha travessia? E esta montada… esta criatura híbrida, entre o terrestre e o aéreo…
Estas nuvens rasgadas… falam de derrotas, de sonhos partidos, de batalhas perdidas contra as forças implacáveis da natureza ou contra os nossos próprios demónios? Serão os vestígios dos nossos ideais desvanecidos, flutuando como fantasmas no céu da nossa psique? Este tom cinzento-esverdeado, estas nuvens atormentadas… refletirão o meu próprio estado interior?
Esta angústia surda que me aperta perante este isolamento, perante o enigma desta visão?
Coloco-me tantas perguntas. Esta viagem… será uma fuga? Uma busca? Uma errância sem rumo num mundo interior desolado? Será a criança eu próprio, perdido nos meandros da minha solidão? A criatura, uma metáfora das minhas próprias forças e fraquezas, transportando-me para um destino incerto?
Esta ilha… não será o espelho da minha própria paisagem interior? Um lugar estéril na aparência, mas talvez fértil em símbolos, em emoções reprimidas que procuram exprimir-se através desta estranha cena.
Tenho de compreender. Tenho de decifrar esta linguagem visual. Cada elemento parece carregado de sentido, cada detalhe ressoa com uma intensidade perturbadora. Esta visão… confronta-me com algo de profundo, de essencial. Talvez seja a chave para desbloquear uma parte de mim que até agora desconhecia.
Estou só aqui, perante este enigma. A minha mente é ao mesmo tempo racional e submersa pela emoção. A lógica tenta dissecar, analisar, encontrar uma explicação plausível. Mas o meu coração… o meu coração sente uma estranha melancolia, uma fascinação misturada com inquietação perante esta imagem.
Esta ilha… já não é apenas um lugar de exílio. Tornou-se o teatro de uma introspeção forçada, um laboratório do meu próprio inconsciente. E esta visão… é o ponto de partida de uma nova viagem, uma viagem interior cujo desfecho ainda me é desconhecido.
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Lucian sente-se profundamente só perante as imagens que tenta compreender e que descobre nos diferentes cadernos e carnets que vêm juntar-se àqueles que lhe serviram para redigir o seu relatório.
— Que dizer desta visão… Nesta ilha de basalto, onde o silêncio é quebrado apenas pelo grito de gaivotas invisíveis e pelo embate incessante do mar, no meio desta esterilidade mineral que, diante dos meus olhos, parece desafiar toda a forma de vida… e eis que são testemunhas desta estranha procissão.
Uma criança, um ser frágil, com um improvável chapéu azul, agarrado a uma simples vara, o seu rosto… tão sereno no meio desta estranha viagem. Para onde vai? De onde vem?
E esta paisagem… estes picos aguçados, rasgados por tons violetas e cinzentos, erguidos como vestígios de um cataclismo esquecido. E estas nuvens… estes farrapos de céu, flutuando tristemente, presos a uma memória intangível… Emblemas de uma glória passada? Restos de uma civilização engolida pela lava e pelo tempo?
A minha mente, formada para decifrar os meandros da alma humana, acelera. Será isto uma alucinação, fruto da solidão e da dureza deste ambiente? Ou serei testemunha de uma manifestação… de quê, ao certo? Um símbolo? Uma alegoria projetada pelo meu próprio inconsciente sobre a tela bruta desta ilha desolada?
Esta criança… representará a inocência, a esperança que persiste mesmo nos lugares mais áridos? O seu chapéu, incongruente e claramente demasiado grande, tal como as suas roupas, não será uma tentativa desesperada de manter uma forma de normalidade, de civilização, no seio desta estranha travessia? E esta montada… esta criatura híbrida, entre o terrestre e o aéreo…
Estas nuvens rasgadas… falam de derrotas, de sonhos partidos, de batalhas perdidas contra as forças implacáveis da natureza ou contra os nossos próprios demónios? Serão os vestígios dos nossos ideais desvanecidos, flutuando como fantasmas no céu da nossa psique? Este tom cinzento-esverdeado, estas nuvens atormentadas… refletirão o meu próprio estado interior?
Esta angústia surda que me aperta perante este isolamento, perante o enigma desta visão?
Coloco-me tantas perguntas. Esta viagem… será uma fuga? Uma busca? Uma errância sem rumo num mundo interior desolado? Será a criança eu próprio, perdido nos meandros da minha solidão? A criatura, uma metáfora das minhas próprias forças e fraquezas, transportando-me para um destino incerto?
Esta ilha… não será o espelho da minha própria paisagem interior? Um lugar estéril na aparência, mas talvez fértil em símbolos, em emoções reprimidas que procuram exprimir-se através desta estranha cena.
Tenho de compreender. Tenho de decifrar esta linguagem visual. Cada elemento parece carregado de sentido, cada detalhe ressoa com uma intensidade perturbadora. Esta visão… confronta-me com algo de profundo, de essencial. Talvez seja a chave para desbloquear uma parte de mim que até agora desconhecia.
Estou só aqui, perante este enigma. A minha mente é ao mesmo tempo racional e submersa pela emoção. A lógica tenta dissecar, analisar, encontrar uma explicação plausível. Mas o meu coração… o meu coração sente uma estranha melancolia, uma fascinação misturada com inquietação perante esta imagem.
Esta ilha… já não é apenas um lugar de exílio. Tornou-se o teatro de uma introspeção forçada, um laboratório do meu próprio inconsciente. E esta visão… é o ponto de partida de uma nova viagem, uma viagem interior cujo desfecho ainda me é desconhecido.
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