mercredi 6 mai 2026

(54) A abracadabrante história da Criança Lua

 


O relevo é brutal. Agulhas rochosas erguem-se sem transição, como dentes de gigantes, testemunhas da pressão tectónica ainda ativa. Adivinha-se aqui o impulso das placas, ali uma antiga fratura preenchida por basalto mais recente. De longe, essas formas pareciam-me estáveis, mas ao aproximar-me descobria um solo vivo, fissurando-se lentamente, estalando por vezes sob o calor interno, exalando surdos rumores que se percebem mais com os pés do que com os ouvidos. Era também… um pouco… assim que eu me percebia… se, após mais uma queda ou por exaustão, o que me acontecia frequentemente, me encontrava estendido no chão, quando não era na água… onde me era impossível permanecer. De imediato, o mesmo movimento que me fizera cair fazia-me levantar e cambalear novamente. Tornara-me o novo Sísifo, condenado a rolar incessantemente o meu corpo até ao cimo da minha cabeça, de onde ele voltava a cair pelo seu próprio peso, arrastando essa cabeça na queda. Quem poderia ter pensado, e por que razão, que não há punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança…


Manter-me de pé foi uma longa aprendizagem. Na profunda noite que era a minha, a menor parcela de luz, a mais pequena centelha, agia como um detonador e, nos obscuros meandros, acendia um rastilho invisível. Bastava que, quase por acaso, à força de girar sem fim, o meu olhar pousasse sobre ela para que crescesse. O meu olhar, como uma lupa demasiado tempo imóvel, incendiava-se e eu arriscava a cegueira. Os meus olhos fechavam-se. Então a imagem, pouco a pouco, reencontrava uma espécie de nitidez. Era como se nascesse do interior. E depois tudo recomeçava… Não sei nem quanto tempo isso durou nem como se apaziguou.
Se tantas vezes, quebrado por um sopro impreciso,
Eu caía no chão, disperso e indeciso,
Jamais ali ficava: um impulso invisível
Erguia-me sem fim num gesto irresistível.
Rolava, condenado, sem repouso nem vigor,
Levando um peso sem nome, carregado de estranha dor.
Tal Sísifo, ligado para sempre a uma pena infinita,
Subia sem cessar a minha queda ao ritmo da agonia aflita.
A minha forma inacabada, como brinquedo demasiado gasto,
Testemunhava um combate que me haviam imposto.
A minha pele, no esforço, estalava sob tormentos,
De onde por vezes surgiam estranhos gemidos e lamentos.
Manter-me de pé por um instante, essa arte laboriosa,
Era como uma esperança suspensa nos céus silenciosa.
Na minha noite sem estrelas, um reflexo vacilante
Rasgava a obscuridade, furtivo, quase cintilante.
Um fio… Uma luz… Uma estranha promessa?
Sentia, nesse impulso, uma força que me apressa,
E essa mão ausente, ou esse sopro distante,
Animava-me contra mim mesmo, arrancava-me ao instante.
Os meus gestos, incertos, seguiam obscuras leis,
Como se respondessem a regras mudas de outra vez.
E quando sobre esse clarão os meus olhos pousavam demais,
Um súbito incêndio consumia o meu nariz rubro e voraz.
Temia o abrasamento, esse fogo interior
Que parecia devorar as fibras do meu coração.
Então, no silêncio, uma imagem nascia,
Vibrava dentro de mim, depois apagava-se, varrida.
Esse ciclo eterno, nessa ronda insensata,
Retomava cada noite a sua luta ritmada.
E não sei, perdido nesse bailado amargo,
Quem guiava os meus impulsos, que fios me conduziam ao largo.

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