samedi 4 juillet 2026

(134) A abracadabrante história da Criança Lua



– Onde se sente que, se Dom Cenoura contempla sobretudo a presença do mundo, Sangue Quente percebe antes as relações, as transições impercetíveis, os deslocamentos silenciosos. Talvez já esteja mais atento àquilo que muda sob a aparência daquilo que permanece.
– E... vejam como emagreceu e como começa a parecer-se cada vez mais com Dom Cenoura...

Excerto do diário de Sangue Quente
Pouco antes do crepúsculo, e antes de termos ainda conseguido reconhecer os lugares da nossa viagem anterior, a floresta erguia-se diante de nós com a mesma majestade antiga que parecia pertencer a um tempo mais antigo do que a própria memória. Eu reencontrava menos uma paisagem do que uma disposição do mundo, como se certos lugares permanecessem presentes muito antes de o nosso espírito os reconhecer.
Avançávamos sem inquietação. Parecia-me mesmo que aquela floresta exigia de nós uma espécie de lentidão que nada tinha de voluntária. Tudo ali convidava menos a descobrir do que a consentir. As árvores imensas, as lianas suspensas, as pedras inteiramente retomadas pelos musgos, nada chamava a atenção para si próprio. Cada coisa parecia discretamente ocupada em sustentar as outras, como se nenhuma tivesse recebido outra tarefa senão contribuir para um equilíbrio cujo segredo pertencia apenas ao conjunto.
À medida que avançávamos, deixava pouco a pouco de olhar para as árvores isoladamente. Os troncos já não eram indivíduos, mas as colunas de uma mesma elevação; as raízes, longe de disputarem a terra, pareciam partilhar um único esforço subterrâneo; até as copas recebiam a luz apenas para melhor a redistribuírem. Aquilo que, noutro lugar, poderia parecer uma acumulação quase excessiva de vida revelava aqui uma economia de um rigor surpreendente. Nada parecia ter sido acrescentado; nada parecia poder ser retirado.
Compreendi então que a verdadeira ordem quase nunca se parece com aquela que os homens imaginam. Ela não consiste em suprimir a profusão, mas em permitir-lhe permanecer inteligível. Talvez seja por isso que certas florestas me pareçam mais sensatas do que muitas cidades.
Também os sons encontravam naturalmente o seu lugar. O grito distante de uma ave, uma gota caindo de um ramo invisível, o roçar de um animal que jamais veríamos... nada interrompia o silêncio. Pelo contrário, cada um desses acontecimentos parecia pertencer-lhe. O silêncio não os precedia nem lhes sucedia... ligava-os.
Durante muito tempo, Dom Cenoura e eu caminhámos sem trocar quase uma palavra. Essa reserva não resultava de fadiga nem de distração. Parecia-me simplesmente que certas conversas, certas trocas... ou, melhor dizendo... prosseguem de forma mais plena quando ninguém fala.
Olhei várias vezes para o meu companheiro. Nada, na sua atitude, parecia diferente. E, contudo, não conseguia libertar-me de uma impressão estranha, tão discreta quanto persistente. Os mesmos gestos que outrora me teriam tranquilizado pareciam agora conter uma ligeira distância, como se uma parte dele já consentisse em permanecer em retiro. Não pensava, de modo algum, num desaparecimento; a própria palavra nunca me teria ocorrido. Teria antes falado de uma nova disponibilidade, dessa maneira que certos seres por vezes têm de habitar plenamente o presente, deixando já lugar para aquilo que ainda não chegou.
Surpreendi-me então a pensar que as transformações mais profundas talvez nunca comecem por uma mudança visível. Assemelham-se antes a essas lentas modificações da luz sob as grandes árvores: nada parece mover-se e, no entanto, quando finalmente levantamos os olhos, o dia já não é o mesmo.
Quando, por fim, a lua rompeu a abóbada da folhagem, a sua claridade parecia não iluminar nem o caminho nem as árvores. Revelava apenas que também a noite fazia parte do equilíbrio daquele lugar. Prosseguimos a nossa caminhada quase em silêncio, sem falar, simplesmente ritmada pelo som dos nossos passos e pelo bater sincopado dos nossos corações. Esse silêncio, muito relativo, não separava dois viajantes... precedia-nos. Eu ainda não sabia que certas viagens começam precisamente no momento em que julgamos reconhecer o caminho.
Tínhamos menos a sensação de avançar por uma floresta do que a de entrar, muito lentamente, num pensamento cujas consequências nenhum de nós era ainda capaz de medir.


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