samedi 14 février 2026


« O Diário está repleto de observações que parecem ligadas a um saber teórico, fácil de reconhecer. Mas esses pensamentos permanecem estrangeiros à generalidade cuja forma tomam emprestada: estão ali como em exílio, recaem num modo equívoco que não permite ouvi-los nem como expressão de um acontecimento único nem como explicação de uma verdade universal.
O pensamento de Kafka não se refere a uma regra uniformemente válida, mas também não é o simples registro de um fato particular de sua vida. Ele é um nado esquivo entre essas duas águas. Assim que se torna a transposição de uma sequência de acontecimentos que realmente ocorreram (como acontece num diário), ele passa insensivelmente à busca do sentido desses acontecimentos, tentando perseguir sua aproximação. É então que o relato começa a fundir-se com sua explicação, mas a explicação não é propriamente uma: ela não consegue esgotar aquilo que deve explicar e, sobretudo, não consegue sobrevoá-lo. É como se fosse atraída, por sua própria gravidade, para a particularidade da qual deveria romper o caráter fechado: o sentido que ela põe em movimento vagueia em torno dos fatos; só é explicação se deles se desprende, mas só é explicação se deles permanece inseparável. Os meandros infinitos da reflexão, seus recomeços a partir de uma imagem que a quebra, o rigor minucioso do raciocínio aplicado a um objeto nulo constituem os modos de um pensamento que joga com a generalidade, mas que só é pensamento enquanto está preso à espessura de um mundo reduzido ao singular.»

Maurice Blanchot, De Kafka a Kafka, folio, p. 64


A imagem seguinte não contradiz a anterior; ela opera uma espécie de decantação. Como se tivesse deixado cair tudo aquilo que ainda podia falar com voz humana, para conservar apenas forças ou posturas.
O barco-tábua ainda está lá, mas agora está abandonado pelo homem. Sua ausência é decisiva. Aquilo que, na primeira imagem, dizia respeito à saudação pelo gesto ou pela palavra — ou mesmo ao “desvelamento” — desapareceu. Resta apenas a linha estreita, ainda em equilíbrio sobre a onda enrolada. Essa espiral, agora ainda mais visível, ganha importância acrescida: já não é um detalhe subjacente, mas o verdadeiro motor silencioso da cena. O movimento do mundo continua sem testemunha humana explícita.
À esquerda, o cão azul aparece sozinho, menor, quase à borda do barco. Ele já não é carregado: sustenta-se por si mesmo, mas de maneira precária. Seu corpo estende-se para a direita, em direção ao burro. O cão conserva algo da palavra ausente: mesmo sem o homem, permanece uma figura de relação, de impulso, de desejo de endereçamento. Mas esse impulso agora ocorre sem linguagem articulada, sem braços que o envolvam. O azul torna-se aqui mais melancólico: é a fidelidade entregue a si mesma, o pensamento afetivo privado de seu interlocutor humano.
À direita, o burro domina a composição. Sua posição é alta, estável, quase soberana, sem tornar-se autoritária. Ele olha para baixo, em direção ao cão, mas sem qualquer movimento de descida. Não se aproxima. Não se afasta. Ele sustenta. O burro encarna agora plenamente aquilo que a primeira imagem apenas sugeria: uma sabedoria da gravidade aceita, uma inteligência do tempo lento, uma maneira de estar no mundo que não depende da mediação humana. Seu corpo se ajusta à tábua como se soubesse exatamente onde pousar os cascos. Onde o homem precisava sentar-se, descobrir-se, falar, o burro nada tem a fazer além de estar ali.
O fato de a cena ocorrer sem o homem transforma radicalmente o sentido do conjunto. Na primeira imagem, o barco se mantinha porque vários regimes coexistiam: palavra, olhar, fidelidade, resistência. Aqui, o equilíbrio subsiste apesar — ou por causa — do apagamento da figura humana. Isso não significa que o humano seja desqualificado, mas que ele já não é o centro necessário da relação. O mundo pode sustentar-se de outro modo.
A relação entre o cão e o burro torna-se então essencial. Ela não é simétrica. O cão está do lado do movimento, do apelo, do risco. O burro está do lado da estabilidade, da espera, da inscrição na duração. Nenhum “corrige” o outro. Eles encarnam duas maneiras de habitar o mesmo equilíbrio instável. Retoma-se aqui a frase-chave: cada maneira de ver, por mais diferente que seja, pode ter seus méritos. A imagem não decide em favor de uma ou de outra. Ela os mantém na mesma tábua, sobre o mesmo enrolamento.
A onda, por fim, parece quase indiferente às figuras. Ela continua seu gesto cíclico, como uma memória do mundo que precede e sobreviverá às cenas humanas. Sustenta o barco sem intenção, sem promessa. Não é uma ameaça, mas uma condição impessoal. O barco não vai a lugar algum; ele se mantém. O sentido não avança; ele persiste.
Se a primeira imagem podia ser lida como uma cena de navegação consciente, habitada pela palavra e pelo desvelamento, esta se assemelha mais a uma cena de depois. Depois da retirada do homem — ou de sua queda. Depois do gesto. Depois da palavra. O que resta, então, são formas de vida que continuam a se olhar, a se medir, a coexistir sobre uma linha estreita demais e que, ainda assim, continuam a sustentar-se.
A imagem parece assim colocar uma questão mais radical, quase silenciosa: o que acontece com o sentido quando aquele que o nomeia se ausenta? E a resposta não é nem trágica nem consoladora. Ela simplesmente está ali, encarnada por um cão azul estendido em direção a um burro imóvel, sobre um barco que ainda flutua.

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