samedi 9 mai 2026

(57) A abracadabrante história da Criança Lua

 «Esta visão de uma natureza viva onde o homem nada é é ao mesmo tempo estranha e triste. Aqui, numa terra fértil, numa verdura eterna, procura-se em vão vestígios do homem; tem-se a sensação de ser transportado para um mundo diferente daquele onde se nasceu.»

Alexander von Humboldt, excerto de Jaguars and Electric Eels



O silêncio não tinha desaparecido, mas mudara de qualidade. Já não era a opressão vegetal do sub-bosque, nem o zumbido enterrado dos insetos invisíveis. Era um silêncio alto, amplo, quase luminoso. O solo sob os meus pés era estranhamente liso, coberto por uma erva espessa e baixa que não crescia em nenhum outro lugar da ilha. E digo bem “a ilha”, pois de repente eu lembrava-me…
Lembrava-me — coisa que, um instante antes, me parecia impossível — de que não estava numa floresta. De que aquela vegetação nunca deveria ter existido. De que aquele lugar não era uma selva, nem sequer um arquipélago tropical. Eu estava numa ilha vulcânica, áspera, negra, batida pelos ventos e pelo sal. Uma ilha que os naturalistas haviam descrito como estéril, mal coberta de musgos acinzentados e líquenes agarrados às rochas.
Revivia os cadernos, os esboços, as descrições lacunares dessas massas rochosas erguidas no oceano como navios naufragados. Encontrava-se ali apenas o mínimo vegetal, vestígios dispersos e frágeis de vida. Então como?
Como pudéramos caminhar durante tanto tempo numa floresta que não existia?
Como não me surpreendera ver tanta verdura, tantos troncos, tanta sombra, ali onde tudo deveria ser apenas lava arrefecida e silêncio mineral? Porque é que isso não me impressionara?
E, no entanto, não era isso que me enchia de terror.
O que me detinha, o que paralisava os meus pensamentos e fazia o meu coração bater num ritmo irregular, era a árvore. Ali, no centro exato da clareira — tão perfeita, tão redonda que parecia desenhada em vez de nascida — erguia-se uma árvore de tamanho desumano. Não se parecia com nenhuma espécie conhecida… os seus ramos elevavam-se não como braços de um ser vivo, mas como colunas. O seu tronco, largo como uma torre, estava coberto de motivos que poderiam parecer esculpidos, se não parecessem… em movimento. E as suas folhas, oh, as suas folhas, de um verde demasiado escuro, demasiado denso, brilhavam como a superfície de um olho.
Não fazia nada. Não se movia. E, contudo, esperava. Eu sentia-o. Não havia vento, mas os seus ramos palpitavam impercetivelmente, como se respondessem a uma presença. A minha, talvez. Ou a outra coisa.
Uma palavra surgiu-me no espírito, sem que eu soubesse de onde… “primordial”.
Não era uma árvore. Era como algo anterior ao mundo vegetal, algo que crescera ali onde nada deveria crescer, apenas por vontade, ou por um fenómeno que nenhuma linguagem humana poderia explicar.
Recuei um passo, e o solo pareceu reter-me… Não fisicamente… mas pela dissolução da própria ideia de retorno… isso agia no meu espírito como um vapor nocivo…

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