lundi 2 novembre 2026

(265) The abracadabrante story of Child Moon

 “It is then some secret document, some unpublished correspondence, some memoirs that may cast an unexpected light upon certain characters.”

Marcel Proust, On Reading, 1905
Republished under the title “Days of Reading” in Pastiches and Miscellanies.



Where Félix travels. Mentally, so he claims. Mixing together letters, notebooks and drawings, he carefully reads Lucian’s account. A difficult reading, assembled from fragments that can hardly be trusted without further evidence. A thoroughly uncertain journey. A journey in which, as in the Archipelago, obscure reasons appear and disappear. Félix, no more and no less than anyone else, struggles to make sense of them. Around the ocean liner aboard which Lucian continues his quest, nothing would correspond to the figures marked on the plans… No one, and nothing, knew, when this ocean liner was designed, how many compartments could be flooded before the word “number” changed its name and became “catastrophe”… And that catastrophe, however inevitable it might seem, remains difficult to discern. At first, Félix pays it no attention. Then, as he follows a narrative which, like the ocean liner itself, offers no appearance of certainty, he begins to sway and to doubt… Yet this doubt contributes to the very attentiveness which, increasingly, threatens to become, without his knowing it, an involvement. One that sets his own imagination in motion… An illegitimate temptation, given his position…

Lucian’s Journal

Nothing distinguishes the days and hours of this crossing… Questions come flooding in along with the waves. Who says that the lifeboats must remain beneath their covers until someone decides that the moment has come to lower them into the water? And nothing in the external world knows anything of the categories through which another system attempts to understand it. The wave does not know that it is recognised as a wave. Darkness does not know that its name is night. Does movement know that an organ buried within the skull is calculating it as an acceleration? Things have no need of the names or boundaries through which they become inhabitable for those who perceive them.

These divisions are necessary to thought, but they bind only the one who makes them. Was this the point at which the two architectures came together for the last time: both possessed an extraordinary power because they knew how to transform the formless into pathways, to distribute what came their way, to construct passages through a complexity that would otherwise have overwhelmed whoever had to traverse it… Both can repair, compensate, anticipate, carry on despite damage, and both ran, precisely for that reason, the risk of mistaking the remarkable effectiveness of their arrangements for a property of the world itself.

The world, however, had made no such commitment… No more than the sea had agreed to the compartments… and time, no more than I, knew anything of the timetable.

I wonder what Félix will think when he reads this journal… If, indeed, this journal ever reaches him… Sometimes I also wonder what I might think if, by some chance, I were in his place. I imagine Félix standing on the unstable deck of this ship. I truly wonder what he is doing there. I imagine him writing what I am writing… here, at this very moment… Would he have the same thoughts… the same words? Certainly not… What would they be, then?


Very freely inspired by…

Morgan Robertson, The Wreck of the Titan
Futility, or the Wreck of the Titan, 1898.


(265) A Abracadabrante História da Criança Lua

 «É então algum documento secreto, alguma correspondência inédita, umas memórias que podem lançar uma luz inesperada sobre certas personalidades.»

Marcel Proust, Sobre a Leitura (Sur la lecture), 1905
Retomado sob o título «Jornadas de Leitura» (Journées de lecture), em Pastiches e Miscelâneas (Pastiches et mélanges).



Onde Félix viaja. Mentalmente, segundo afirma. Misturando cartas, cadernos e desenhos, lê atentamente o relato de Lucian. Uma leitura difícil, a partir de fragmentos nos quais é difícil confiar sem mais. Uma viagem perfeitamente incerta. Uma viagem em que, à semelhança do Arquipélago, aparecem e desaparecem obscuras razões. Félix, nem mais nem menos do que qualquer outra pessoa, tem dificuldade em compreender-lhes o sentido. Em redor do transatlântico a bordo do qual Lucian prossegue a sua busca, nada corresponderia aos números inscritos nos planos… Nada nem ninguém sabia, no que respeitava à conceção deste transatlântico, quantos compartimentos poderiam ser invadidos pela água antes que a palavra «número» mudasse de nome e se tornasse «catástrofe»… E esta, por mais inevitável que possa parecer, dificilmente se deixa distinguir. Ao princípio, Félix não lhe presta atenção. Depois, ao longo de uma narrativa que, tal como o transatlântico, nada deixa transparecer de certo, começa a oscilar e a duvidar… Mas esta dúvida contribui para aquela aplicação que, cada vez mais, corre o risco de se tornar, sem que ele se aperceba, numa implicação. A qual põe em movimento a sua própria imaginação… Tentação ilegítima, em virtude da sua posição…

Diário de Lucian

Nada distingue os dias e as horas desta travessia… Ao mesmo tempo que as ondas afluem, afluem as perguntas. Quem diz que os salva-vidas devem esperar debaixo das suas coberturas pelo momento em que alguém decidirá lançá-los à água? E nada, no mundo exterior, conhece sequer as categorias graças às quais um outro conjunto tenta compreendê-lo. A onda ignora que é reconhecida enquanto tal. A escuridão não sabe que o seu nome é noite. Saberá o movimento que um órgão escondido no crânio calcula uma aceleração? As coisas não têm qualquer necessidade dos nomes nem das fronteiras graças aos quais se tornam habitáveis para aquele que as perceciona.

Estas divisões são necessárias ao pensamento, mas apenas vinculam aquele que as estabelece. Seria este o ponto em que as duas arquiteturas se encontravam uma última vez: ambas possuíam um poder extraordinário porque sabiam transformar o informe em caminhos, distribuir aquilo que chegava, construir passagens através de uma complexidade que, de outro modo, teria submergido aquele que precisava de a atravessar… Ambas são capazes de reparar, compensar, prever, continuar apesar dos danos, e ambas corriam, precisamente por essa razão, o risco de tomar a notável eficácia dos seus arranjos por uma propriedade do próprio mundo.

O mundo, porém, não se tinha comprometido com nada disso… Tal como o mar não tinha aceitado os compartimentos… e o tempo, tal como eu, nada sabia do horário.

Pergunto-me o que Félix pensará ao ler este diário… Se é que este diário alguma vez lhe chegará… Acontece-me também perguntar-me o que poderia pensar se, porventura, estivesse no seu lugar. Imagino Félix, de pé, no convés instável deste navio. Pergunto-me verdadeiramente o que estará ele ali a fazer. Imagino-o a escrever aquilo que estou a escrever… aqui, neste preciso momento… Teria ele os mesmos pensamentos… as mesmas palavras? Certamente que não… Quais seriam, então?


Inspirado muito livremente… a partir de
Morgan Robertson, O Naufrágio do Titan
Futility, or the Wreck of the Titan, 1898.

(265) L’abracadabrante histoire de l’Enfant Lune

  

« C’est alors quelque document secret, quelque correspondance inédite, des mémoires qui peuvent jeter sur certains caractères un jour inattendu.»

Marcel Proust, Sur la lecture, 1905,
Repris sous le titre «Journées de lecture» dans Pastiches et mélanges

 



Où Félix voyage. Mentalement, selon ses dires. Mélangeant les lettres, carnets et dessins, il lit avec application le compte rendu de Lucian. Difficile lecture à partir de fragments auxquels il est difficile de se fier sans autre. Un voyage parfaitement incertain. Un voyage où, 
à l’instar de l’Archipel, apparaissent et disparaissent d’obscures raisons. Félix, ni plus ni moins que quiconque, peine à en comprendre le sens. Autour du paquebot, sur lequel Lucian poursuit sa quête, rien ne correspondrait aux nombres inscrits sur les plans… Rien ni personne ne savait, concernant la conception de ce paquebot, combien de compartiments pouvaient être envahis avant que le mot nombre changeât de nom et devînt catastrophe… Et celle-ci, aussi inéluctable qu’elle puisse paraître, peine à se distinguer. Au début, Félix n’y prend point garde. Puis au fil d’un récit qui, comme le paquebot, ne laisse rien paraître de certain, il se met à tanguer et à douter… Mais ce doute contribue à cette application qui, de plus en plus, risque de devenir, à son insu, une implication. Laquelle met en route sa propre imagination… Illégitime tentation en vertu de sa situation…

Journal de Lucian 

Rien ne distingue les jours et les heures de cette traversée… En même temps que les vagues affluent les questions. Qui dit que les canots doivent attendre sous leurs bâches le moment où quelqu’un déciderait de les mettre à l’eau? Et rien, dans le monde extérieur, ne connait davantage les catégories grâce auxquelles un autre ensemble tente de le comprendre. La vague ignore qu’elle est reconnue en tant que telle. L’obscurité ne sait pas que son nom est nuit. Le mouvement qu’un organe enfoui dans le crâne sait-il qu’il calcule une accélération? Les choses n’ont nul besoin des noms ni des frontières grâce auxquels elles deviennent habitables pour celui qui les perçoit.

Ces partages sont nécessaires à la pensée, mais ils ne lient que celui qui les fait. Était-ce là le point où les deux architectures se rejoignaient une dernière fois: toutes deux possédaient une puissance extraordinaire parce qu’elles savaient transformer l’informe en chemins, distribuer ce qui venait, construire des passages à travers une complexité qui aurait autrement submergé celui qui devait la traverser… Toutes deux peuvent réparer, compenser, prévoir, continuer malgré l’atteinte, et toutes deux couraient précisément pour cette raison le risque de prendre la remarquable efficacité de leurs arrangements pour une propriété du monde lui-même.
Le monde, pourtant, ne s’y était pas engagé… Pas plus que la mer n’avait accepté les compartiments... et le temps, pas plus que moi, ne connaissait point l’horaire.
Je me demande ce que Félix pensera à la lecture de ce journal… Si toutefois ce journal lui parvient…Il m’arrive aussi de me demander ce que je pourrais penser si, d’aventure, j’étais à sa place. J’imagine Félix, debout sur le pont instable de ce bateau. Je me demande vraiment ce qu’il fait là. Je l’imagine écrire ce que j’écris… là, en ce moment… Aurait-il les mêmes pensées… les mêmes mots? Certainement pas… Quels seraient-ils alors? 

Inspiré très librement… à partir de
Morgan Robertson, Le Naufrage du Titan
Futility, or the Wreck of the Titan. 1898, 

dimanche 1 novembre 2026

(264) The abracadabrante story of Child Moon

 

“At night, upon the tips of treacherous rocks, improbable lights, reportedly seen and attested to by wanderers of the sea, warn or deceive.”

Victor Hugo, The Toilers of the Sea

 

Night approaches, rising from the sea as much as descending from the sky, gradually absorbing the colour of the waves, erasing distances, drawing closer around the ocean liner that vast expanse which, in broad daylight, the horizon had still seemed to push far away.

Lucian’s Journal

The wind is freshening. Great dark expanses move across the water. A wave higher than the others comes crashing against the bow… Seen from a distance, it bursts into a cloud of white spray. Seen from close quarters, the ship’s speed immediately sweeps it back along the sides of the ocean liner as it rears upwards. The water, lifted for an instant into the air, already seems to be seeking, from every direction, a way to enter into the movement of the ship.

At dusk, the fading light was removing some of the information upon which my gaze had until then built its certainties. The world was becoming uncertain. Forms were fading away. My brain was struggling to continue forming stable images. It reconstructed volumes from a glimmer, a slight difference between shades of black, a movement briefly glimpsed. Curiously, at certain moments, I could continue to see long after vision would normally have become almost impossible. This is one of the strengths of our brain, this ability to fashion continuity out of fragments, to avoid abandoning the world whenever it becomes incomplete. Night thus reveals, more clearly than day, how much seeing also consists in completing what is seen.

I tell myself that, aboard this ocean liner, danger, should it come, would not arise solely when nothing could be seen any longer. The distance between what actually appears ahead of the bow and what the mind has time to make of it may become, before anyone is even aware of it, a critical distance.

Little by little, it was becoming difficult to tell which of the two was imposing its movement upon the other. The ocean liner was still cutting through the sea, but the sea was lifting it, making it roll, tilting its decks slightly before restoring them to the horizontal. The wind swept through the superstructures, darkness spread across the porthole windows, waves struck the steel, and even the ship’s speed, that symbol of mastery, seemed to be overtaken by something more immense. As though the voyage itself were imperceptibly ceasing to belong entirely to the one who believed himself to be directing it.

The body often knows better than thought. Whenever the deck tilts, it compensates… Whenever a wave lifted the immense mass of the ship, something in the legs, the pelvis, the shoulders accompanied that movement without waiting for it to be named, so that it became impossible to determine exactly where the displacement imposed by the sea ended and where the movement by which the body sought to respond to it began. Balance was no longer the maintenance of a position, but an uninterrupted succession of losses, each slight enough to be immediately recovered. This discovery remained buried within the muscles, like knowledge transmitted through a language still unknown.

Thus the ocean was already crossing the hull without allowing a single drop of water inside. It entered in the form of movement. It passed from wave to steel, from steel to deck, from deck to legs, from legs into those innumerable networks where a tilt became sensation, correction, memory, and perhaps the most carefully maintained separation of all… that which made the sea an outside and the one who watched it an inside… was already beginning to lose its clarity long before anything had actually broken.

Very freely inspired by…
Morgan Robertson, The Wreck of the Titan
Futility, or the Wreck of the Titan, 1898.


(264) A Abracadabrante História da Criança Lua

«À noite, nas pontas dos rochedos traiçoeiros, luzes inverosímeis, avistadas, ao que dizem, e confirmadas por errantes do mar, avisam ou enganam.»

Victor Hugo, Os Trabalhadores do Mar

 

A noite aproxima-se, sobe do mar tanto quanto desce do céu, absorvendo pouco a pouco a cor das ondas, apagando as distâncias, trazendo para mais perto, em redor do transatlântico, aquela imensidão que, em pleno dia, o horizonte ainda parecia empurrar para longe.

Diário de Lucian

O vento torna-se mais fresco e intenso. Grandes manchas sombrias deslocam-se sobre a água. Uma onda mais alta do que as outras veio quebrar-se contra a proa… Vista de longe, desfaz-se numa poeira branca. Vista de perto, a velocidade do navio fá-la recuar imediatamente ao longo dos costados do transatlântico, que se empina. A água, por um instante erguida até ao ar, parece já procurar, por todos os lados, uma maneira de entrar no movimento do navio.

Ao crepúsculo, a luz, ao desaparecer, fazia perder uma parte das informações sobre as quais o meu olhar tinha, até então, construído as suas certezas. O mundo tornava-se incerto. As formas esbatiam-se. O meu cérebro tinha dificuldade em continuar a formar imagens estáveis. Reconstruía os volumes a partir de um brilho, de uma ligeira diferença entre tons de negro, de um movimento brevemente entrevisto. Curiosamente, em certos momentos, conseguia continuar a ver muito depois de a visão, em condições normais, se ter tornado quase impossível. É essa uma das forças do nosso cérebro, essa capacidade de fabricar continuidade a partir de fragmentos, de não abandonar o mundo sempre que este se torna incompleto. A noite revela assim, melhor do que o dia, até que ponto ver consiste também em completar.

Digo para comigo que, a bordo deste transatlântico, o perigo, se vier, não surgirá apenas quando já nada se conseguir ver. A distância entre aquilo que realmente se apresenta diante da proa e aquilo que o espírito tem tempo de fazer disso pode tornar-se, sem que ninguém ainda se aperceba, uma distância crítica.

Pouco a pouco, tornava-se difícil dizer qual dos dois impunha o seu movimento ao outro. O transatlântico continuava a rasgar o oceano, mas o oceano erguia-o, fazia-o balançar, inclinava ligeiramente os seus conveses antes de os devolver à horizontalidade. O vento atravessava as superestruturas, a noite apoderava-se dos vidros das vigias, as ondas golpeavam o aço, e até aquela velocidade, símbolo do domínio, parecia ser ultrapassada por alguma coisa de mais vasto. Como se a própria marcha deixasse insensivelmente de pertencer por inteiro àquele que julgava conduzi-la.

O corpo sabe muitas vezes melhor do que o pensamento. Sempre que o convés se inclina, compensa… Sempre que uma onda erguia a massa do navio, alguma coisa nas pernas, na bacia, nos ombros acompanhava esse movimento sem esperar que ele fosse nomeado, de tal modo que se tornava impossível determinar exatamente onde terminava o deslocamento imposto pelo mar e onde começava aquele através do qual o corpo pretendia responder-lhe. O equilíbrio já não era a manutenção de uma posição, mas uma sucessão ininterrupta de perdas suficientemente pequenas para serem imediatamente recuperadas. Esta descoberta permanecia ainda enterrada nos músculos, como um saber transmitido por uma linguagem ainda desconhecida.

Assim, o oceano já atravessava o casco sem fazer entrar nele uma única gota de água. Entrava sob a forma de movimento. Passava da onda ao aço, do aço ao convés, do convés às pernas, das pernas a essas redes inumeráveis onde uma inclinação se tornava sensação, correção, memória, e talvez a separação mais cuidadosamente mantida de todas… aquela que fazia do mar um exterior e daquele que o observava um interior… começasse assim a perder a sua nitidez muito antes de alguma coisa se ter realmente rompido.

Inspirado muito livremente… a partir de
Morgan Robertson, O Naufrágio do Titan
Futility, or the Wreck of the Titan, 1898.


(264) L'abracadabrante histoire de l'Enfant Lune

 « La nuit, sur la pointe des rochers suspects, des clartés invraisemblables, aperçues, dit-on, et affirmées par des rôdeurs de mer, avertissent ou trompent.»

Victor Hugo, Les Travailleurs de la mer


La nuit approche, elle monte de la mer autant qu’elle descend du ciel, absorbant peu à peu la couleur des vagues, effaçant les distances, rapprochant autour du paquebot cette étendue qu’en plein jour l’horizon semblait encore repousser au loin.

Journal de Lucian

Le vent fraîchit. De grandes nappes sombres se déplacent sur l’eau. Une vague plus haute que les autres vint se briser contre l’étrave… Vue de loin, elle éclate en une poussière blanche. Vue de près, la vitesse la rabat aussitôt le long des flancs du paquebot qui se cabre. L’eau, un instant soulevée jusque dans l’air, semble déjà chercher par tous les côtés une manière d’entrer dans le mouvement du navire.

Au crépuscule, la lumière disparaissait une partie des informations sur lesquelles mon regard avait jusqu’alors forgé ses certitudes. Le monde devenait incertain . Les formes s’effaçaient. Mon cerveau peinait à poursuivre la formation d’images stables. Il reconstruisait les volumes à partir d’un éclat, d’une légère différence de noir, d’un mouvement aperçu brièvement. Curieusement, à certains moments, je pouvais continuer à voir bien après que la vue, normalement, fut devenue presque impossible. C’est là l’une des forces de notre cerveau, cette capacité à fabriquer de la continuité avec des fragments, à ne pas abandonner le monde chaque fois que celui-ci devient incomplet. La nuit révèle ainsi, mieux que le jour, combien le fait de voir  consiste aussi à compléter.
Je me dis que, sur ce paquebot, le danger, s’il devait venir, n’arriverait pas uniquement lorsqu’on ne voit plus rien. La distance entre ce qui se présente réellement devant l’étrave et ce que l’esprit a le temps d’en faire peut devenir, sans que personne encore ne s’en aperçoive, une distance critique.

Peu à peu, il devenait difficile de dire lequel des deux imposait sa marche à l’autre. Le paquebot fendait toujours l’océan, mais l’océan le soulevait, le faisait rouler, inclinait légèrement ses ponts avant de les rendre à l’horizontale. Le vent passait dans les superstructures, la nuit gagnait les vitres des hublots, les vagues frappaient l’acier, et même cette vitesse, symbole de la maîtrise, semblait être dépassée par quelque chose de plus vaste. Comme si la course elle-même cessait insensiblement d’appartenir tout entière à celui qui croyait la conduire.

Le corps sait souvent mieux que la pensée. Chaque fois que le pont s’incline, il compense… Chaque fois qu’une vague soulevait la masse du navire, quelque chose dans les jambes, le bassin, les épaules accompagnait ce mouvement sans attendre qu’il fût nommé, de sorte qu’il devenait impossible de déterminer exactement où finissait le déplacement imposé par la mer et où commençait celui par lequel le corps prétendait y répondre. L’équilibre n’était plus le maintien d’une position, mais une suite ininterrompue de pertes assez minimes pour être immédiatement reprises. Cette découverte demeurait encore enfouie dans les muscles, comme un savoir transmis par un langage encore inconnu.
Ainsi l’océan franchissait-il déjà la coque sans y faire entrer une seule goutte. Il entrait sous la forme du mouvement. Il passait de la vague à l’acier, de l’acier au pont, du pont aux jambes, des jambes à ces réseaux innombrables où une inclinaison devenait sensation, correction, mémoire, et peut-être la séparation la plus soigneusement entretenue de toutes… celle qui faisait de la mer un dehors et de celui qui la regardait un dedans… commençait-elle ainsi à perdre sa netteté bien avant que quoi que ce fût eût réellement rompu.

Inspiré très librement… à partir de
Morgan Robertson, Le Naufrage du Titan
Futility, or the Wreck of the Titan. 1898,