– Onde as personagens não se sucedem umas às outras... tornam-se progressivamente capazes de habitar um mesmo lugar...
– Onde Lucian já não é apenas um viajante...
– O que é ele, então?
– É como um leitor que viaja por dentro de uma leitura. Se Dom Cenoura descobria a floresta e Sangue Quente descobria que uma transformação já estava em curso, Lucian descobre um lugar que já é habitado por textos. A floresta já não é apenas uma floresta...
– Em que se tornou?
– Tornou-se uma memória.
– O que é ele, então?
– É como um leitor que viaja por dentro de uma leitura. Se Dom Cenoura descobria a floresta e Sangue Quente descobria que uma transformação já estava em curso, Lucian descobre um lugar que já é habitado por textos. A floresta já não é apenas uma floresta...
– Em que se tornou?
– Tornou-se uma memória.
Excerto do caderno de Lucian
Pouco antes do crepúsculo, quando ainda não reconhecera nenhum dos lugares descritos nos cadernos, a floresta ergueu-se diante de mim com uma familiaridade cuja origem eu era incapaz de determinar. No entanto, nada me era verdadeiramente conhecido. Nunca ali estivera. Mas acontece, por vezes, que as leituras precedem as paisagens a ponto de lhes oferecerem, desde o primeiro encontro, o rosto de uma recordação.
Detive-me por alguns instantes antes de entrar sob as árvores.
Desde a minha partida, pensava frequentemente em Igniatius. Continuava a insistir que os desenhos não eram seus. Mais estranho ainda, parecia por vezes esperar de mim uma confissão que eu era incapaz de lhe fazer. Por mais que lhe repetisse que nunca traçara aquelas imagens, sentia que nenhuma negação podia verdadeiramente responder ao que ele esperava. Era como se a questão já não dissesse respeito àquele que desenhara, mas àquele que um dia consentiria em reconhecer aquilo que, através desses desenhos, há muito procurava o seu autor.
Esse pensamento acompanhou-me quando entrei na floresta.
Quase de imediato reencontrei aquilo a que Dom Cenoura chamara a sua arquitetura antiga e, depois, aquilo que Sangue Quente reconhecera como uma lenta inteligência das relações. As duas descrições regressavam-me sem esforço, não como frases aprendidas de cor, mas como duas maneiras diferentes de habitar um mesmo lugar. Compreendi então que uma paisagem nunca permanece idêntica; são os olhares sucessivos que, pouco a pouco, lhe conferem profundidade.
Caminhava, contudo, com uma certa desconfiança em relação às minhas próprias impressões. Temia menos não reconhecer nada do que reconhecer apenas aquilo que lera. Esforçava-me, por isso, por esquecer os cadernos. Queria ver as árvores antes das palavras que já lhes tinham dado um nome.
Esse propósito revelou-se mais difícil do que eu imaginara.
Os grandes troncos elevavam-se numa luz cada vez mais rara. As raízes desapareciam sob espessas camadas de musgo. Cada ramo parecia responder a outro, cada silêncio encontrava o seu lugar entre os chamamentos das aves e os rumores invisíveis da floresta. Estaria eu realmente a observar a floresta ou seriam as páginas que continuavam a trabalhar dentro de mim? Já não sabia muito bem onde terminava a memória dos textos e onde começava a memória das coisas. Essa hesitação, contudo, não tardou a dissipar-se.
À medida que avançava, deixei de comparar. Os cadernos não desapareciam; apenas mudavam de função. Já não me ensinavam aquilo que eu deveria ver. Ensinavam-me a olhar. Pensei então numa ideia que muitas vezes me atravessara o espírito sem nunca conseguir formular-se claramente: talvez existam obras que não procuram de modo algum ser compreendidas. Desejam apenas produzir outros olhares. O seu verdadeiro autor talvez não seja aquele que as escreve ou desenha, mas aquele que, um dia, consente em ver de outra maneira por seu intermédio.
Quando a lua surgiu acima da abóbada das árvores, prossegui o meu caminho num silêncio que já não se parecia com o do momento da partida. Tinha deixado os cadernos sem os abandonar. Já não caminhavam diante de mim; caminhavam agora comigo. E compreendi subitamente por que se tornava tão difícil saber qual de nós — Igniatius ou eu próprio — seguia realmente as pegadas do outro.
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