«Mas os daqui, os que vivem
aqui, são totalmente diferentes. Possuem uma força física; a sua
respiração roça qualquer humano que passe por ali; o seu olhar deteta o
intruso como se tivesse encontrado a sua presa. Como se detivessem
poderes obscuros, pré-históricos, mágicos. Tal como as criaturas
abissais reinam nas profundezas oceânicas, na floresta são as árvores
que dominam. Se quisesse, a floresta poderia rejeitar-me, ou engolir-me
por inteiro. Uma dose saudável de medo e respeito seria uma boa ideia.»
Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar
Excerto do caderno de Félix
Nas minhas lembranças da leitura do conto A Bela Adormecida,
a floresta “encantada” que proibia ou isolava a entrada do castelo
tornando-o impenetrável tinha tomado proporções enormes. A releitura,
muitos anos mais tarde, fez-me tomar consciência da extrema
maleabilidade da memória, que incessantemente reconstrói e transforma.
Apercebi-me então de que havia, salvo erro, apenas duas passagens
relativas a essa floresta no conto: «Cresceu em apenas um quarto de
hora, em volta do parque, uma tão grande quantidade de árvores grandes e
pequenas, de silvas e espinhos entrelaçados uns nos outros, que nem
besta nem homem poderiam atravessá-los; de tal modo que já não se viam
senão os altos das Torres do Castelo, e mesmo assim apenas de muito
longe.» «Mal avançou em direção ao bosque, todas aquelas grandes
árvores, aquelas silvas e aqueles espinhos afastaram-se por si mesmos
para o deixar passar: caminhou em direção ao Castelo que via ao fundo de
uma grande alameda onde entrou, e o que um pouco o surpreendeu foi ver
que nenhum dos seus homens o pudera seguir, porque as árvores se haviam
fechado novamente assim que ele passara.»
A
gigantesca floresta propagara-se no meu espírito… e eu ouvia nela como
um eco da história de Don Carotte que poderia… que talvez devesse
permanecer apenas uma hipótese… mas é muito mais do que isso…
O
ser começou a mover-se de forma um pouco mais distinta. O tronco, vasto
e envelhecido, parecia animar-se à sua volta, como se a presença do
minúsculo animal ativasse as suas fibras profundas. Don Carotte
semicerrrou os olhos. Sempre tivera, apesar da magreza, uma certa
nobreza no olhar, essa faculdade de esperar o impossível sem jamais
duvidar de que o mundo acabaria por se dobrar às suas expectativas.
Mas desta vez, aquilo que via… ultrapassava tudo o que poderia ter imaginado, e contudo não compreendia.
O
pequeno animal — pois agora reconhecia-se claramente que se tratava de
um animal — deslocava-se ao longo da casca com uma agilidade
surpreendente. Os seus pequenos cascos, finos como sementes, não faziam
qualquer ruído. Tinha longas orelhas flexíveis, uma pequena cauda em
penacho e um focinho suave de movimentos lentos, quase sonhadores.
— Sang Chaud… será uma espécie de roedor? Um espírito da floresta? Uma miragem vegetal?
Sang
Chaud Pansa tossicou ligeiramente. Bateu na barriga, como fazia sempre
antes de revelar uma verdade mais estranha do que o esperado.
— Não, meu senhor… é um burro.
— Um burro?!
—
Um burro, sim, mas de uma espécie particular… Para dizer a verdade,
poderia tornar-se o vosso futuro companheiro de sela. São burros
arborícolas. Uma espécie única no mundo. Ninguém os conhece ainda. Vós
seríeis, se aceitardes — e se eles aceitarem essa missão de nobre
ciência — o seu inventor… enfim, quero dizer: o seu descobridor.
Don Carotte virou lentamente a cabeça na sua direção. O seu olhar, primeiro incrédulo, tornou-se pouco a pouco glacial.
—
Sang Chaud, bebeste? Fumaste alguma erva particular? Conversaste com as
pedras? Conduzes-me através desta floresta absurda até ao único animal
que não se pode selar nem seguir com o olhar sem a ajuda de uma lupa? É
este o teu orgulhoso corcel?
Imperturbável, Sang Chaud continuou, como se recitasse um saber antigo que outrora lhe fora sussurrado num sonho.
—
Vivem toda a sua vida nesta árvore. Desde o berço até à última folha.
Nascem nos ocos dos ramos e nunca tocam o chão. É o seu mundo. O seu
céu. O seu reino.
— Mas é apenas um burro minúsculo! exclamou o cavaleiro, abrindo os braços.
—
E isso não é tudo — disse Sang Chaud. Quanto mais envelhecem, mais
encolhem. Essa é a sua característica mais notável: a velhice afina-os,
contrai-os, destila-os. Chega a acontecer encontrarem-se alguns tão
pequenos que vivem dentro de uma única flor.
— Eu não conseguiria pousar sequer o menor dos meus dedos do pé sobre semelhante criatura!
Havia…
e ainda há… um pouco de tempestade na voz de Don Carotte. Uma espécie
de raiva contida, como uma criança descobrindo que o presente tão
esperado não passava de uma figura oca. Perscrutava a árvore, talvez
esperando ver ali outro animal maior, mais digno, mais “montável”.
— É para aqui… que me conduzes?
Girou
sobre si mesmo, apontando o tronco, os ramos elevados, a clareira, a
erva verde, tudo ao mesmo tempo, como se denunciasse uma vasta
mascarada.
— É este o orgulhoso corcel que me está destinado? — retomou, quase com uma nota de tragédia na voz.
— Um burro… minúsculo… arborícola… e senescente!
Sang
Chaud, como sempre, manteve a sua seriedade. Não era homem para se
perturbar perante a incongruência de qualquer situação. Sabia, no fundo,
que o maior cavaleiro da Terra poderia também um dia montar um burro do
tamanho da menor das amêndoas.

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