dimanche 10 mai 2026

(58) A abracadabrante história da Criança Lua

 
«Mas os daqui, os que vivem aqui, são totalmente diferentes. Possuem uma força física; a sua respiração roça qualquer humano que passe por ali; o seu olhar deteta o intruso como se tivesse encontrado a sua presa. Como se detivessem poderes obscuros, pré-históricos, mágicos. Tal como as criaturas abissais reinam nas profundezas oceânicas, na floresta são as árvores que dominam. Se quisesse, a floresta poderia rejeitar-me, ou engolir-me por inteiro. Uma dose saudável de medo e respeito seria uma boa ideia.»
 
Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar
 
 
Excerto do caderno de Félix
 
Nas minhas lembranças da leitura do conto A Bela Adormecida, a floresta “encantada” que proibia ou isolava a entrada do castelo tornando-o impenetrável tinha tomado proporções enormes. A releitura, muitos anos mais tarde, fez-me tomar consciência da extrema maleabilidade da memória, que incessantemente reconstrói e transforma. Apercebi-me então de que havia, salvo erro, apenas duas passagens relativas a essa floresta no conto: «Cresceu em apenas um quarto de hora, em volta do parque, uma tão grande quantidade de árvores grandes e pequenas, de silvas e espinhos entrelaçados uns nos outros, que nem besta nem homem poderiam atravessá-los; de tal modo que já não se viam senão os altos das Torres do Castelo, e mesmo assim apenas de muito longe.» «Mal avançou em direção ao bosque, todas aquelas grandes árvores, aquelas silvas e aqueles espinhos afastaram-se por si mesmos para o deixar passar: caminhou em direção ao Castelo que via ao fundo de uma grande alameda onde entrou, e o que um pouco o surpreendeu foi ver que nenhum dos seus homens o pudera seguir, porque as árvores se haviam fechado novamente assim que ele passara.»
A gigantesca floresta propagara-se no meu espírito… e eu ouvia nela como um eco da história de Don Carotte que poderia… que talvez devesse permanecer apenas uma hipótese… mas é muito mais do que isso…
 
 
 O ser começou a mover-se de forma um pouco mais distinta. O tronco, vasto e envelhecido, parecia animar-se à sua volta, como se a presença do minúsculo animal ativasse as suas fibras profundas. Don Carotte semicerrrou os olhos. Sempre tivera, apesar da magreza, uma certa nobreza no olhar, essa faculdade de esperar o impossível sem jamais duvidar de que o mundo acabaria por se dobrar às suas expectativas.
Mas desta vez, aquilo que via… ultrapassava tudo o que poderia ter imaginado, e contudo não compreendia.
O pequeno animal — pois agora reconhecia-se claramente que se tratava de um animal — deslocava-se ao longo da casca com uma agilidade surpreendente. Os seus pequenos cascos, finos como sementes, não faziam qualquer ruído. Tinha longas orelhas flexíveis, uma pequena cauda em penacho e um focinho suave de movimentos lentos, quase sonhadores.
— Sang Chaud… será uma espécie de roedor? Um espírito da floresta? Uma miragem vegetal?
Sang Chaud Pansa tossicou ligeiramente. Bateu na barriga, como fazia sempre antes de revelar uma verdade mais estranha do que o esperado.
— Não, meu senhor… é um burro.
— Um burro?!
— Um burro, sim, mas de uma espécie particular… Para dizer a verdade, poderia tornar-se o vosso futuro companheiro de sela. São burros arborícolas. Uma espécie única no mundo. Ninguém os conhece ainda. Vós seríeis, se aceitardes — e se eles aceitarem essa missão de nobre ciência — o seu inventor… enfim, quero dizer: o seu descobridor.
Don Carotte virou lentamente a cabeça na sua direção. O seu olhar, primeiro incrédulo, tornou-se pouco a pouco glacial.
— Sang Chaud, bebeste? Fumaste alguma erva particular? Conversaste com as pedras? Conduzes-me através desta floresta absurda até ao único animal que não se pode selar nem seguir com o olhar sem a ajuda de uma lupa? É este o teu orgulhoso corcel?
Imperturbável, Sang Chaud continuou, como se recitasse um saber antigo que outrora lhe fora sussurrado num sonho.
— Vivem toda a sua vida nesta árvore. Desde o berço até à última folha. Nascem nos ocos dos ramos e nunca tocam o chão. É o seu mundo. O seu céu. O seu reino.
— Mas é apenas um burro minúsculo! exclamou o cavaleiro, abrindo os braços.
— E isso não é tudo — disse Sang Chaud. Quanto mais envelhecem, mais encolhem. Essa é a sua característica mais notável: a velhice afina-os, contrai-os, destila-os. Chega a acontecer encontrarem-se alguns tão pequenos que vivem dentro de uma única flor.
— Eu não conseguiria pousar sequer o menor dos meus dedos do pé sobre semelhante criatura!
Havia… e ainda há… um pouco de tempestade na voz de Don Carotte. Uma espécie de raiva contida, como uma criança descobrindo que o presente tão esperado não passava de uma figura oca. Perscrutava a árvore, talvez esperando ver ali outro animal maior, mais digno, mais “montável”.
— É para aqui… que me conduzes?
Girou sobre si mesmo, apontando o tronco, os ramos elevados, a clareira, a erva verde, tudo ao mesmo tempo, como se denunciasse uma vasta mascarada.
— É este o orgulhoso corcel que me está destinado? — retomou, quase com uma nota de tragédia na voz.
— Um burro… minúsculo… arborícola… e senescente!
Sang Chaud, como sempre, manteve a sua seriedade. Não era homem para se perturbar perante a incongruência de qualquer situação. Sabia, no fundo, que o maior cavaleiro da Terra poderia também um dia montar um burro do tamanho da menor das amêndoas.
 

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