lundi 11 mai 2026

(59) A abracadabrante história da Criança Lua

 
«Se os signos vos enfurecem, oh quanto mais vos enfurecerão as coisas significadas!»
 
François Rabelais, O Quarto Livro
 
 
 
 
Quando as falésias mergulham a pique na água, estriadas horizontalmente por camadas magmáticas sobrepostas — negro brilhante, castanho-avermelhado ou cinzento-ardósia, como um mil-folhas de lava solidificada — arcos naturais foram escavados pelo mar nas falésias mais brandas e, sob o assalto incessante das ondas, alguns desabam, revelando novas cavidades, novos abismos, por vezes fontes termais ocultas, sob o olhar e a escuta benevolente de um burro vindo de outra era, pode-se perguntar… se ler possui algo de uma passagem… ou de uma entrada sob abóbada. Deixa-se a luz extensa do exterior, aquela que mostra as coisas já distribuídas no espaço comum, para entrar numa obscuridade particular onde outra forma de visibilidade se torna possível. Não uma visibilidade que dissiparia as sombras, mas uma visibilidade que nasce delas.
O livro e a história que ele contém realizam então um gesto muito próximo do da gruta. Contêm no duplo sentido do verbo conter: encerram e transportam em si.
 
 
 
Bem abrigados dos olhares… quando a Criança Lua se tornou Don Carotte… nem um nem outro o sabem… tal como Pinóquio o Outro não sabe quando se tornou a Criança Lua… enquanto Nounours continua a sonhar com tal transformação e consola-se quando pode consolar a criança… enquanto esta, pouco a pouco, se recordava ao crescer e fazia crescer Pinóquio o Outro… com a ajuda dos fios habituais… Depois, os movimentos da marioneta começaram cada vez mais frequentemente a acontecer sem que a menor ajuda viesse do exterior…
Don Carotte, um pouco perdido, não cessa de se revoltar contra: “Todos esses meandros do espírito e do tempo forjados, vindos das profundezas, pelo fogo destruidor das palavras e das histórias que incessantemente formam… deformam… e reformam a mentira e a ilusão.”
… e de súbito as filiações tornam-se menos genealógicas do que combustíveis. Já não são apenas sucessões de seres, mas transmissões de fogo.
O bastão acompanha a Criança Lua muito antes de ela saber caminhar em direção a si mesma. No começo, parece quase um ramo morto, um resto do mundo vegetal, algo que a criança arrasta mais do que transporta. Depois torna-se bengala, vara, relais, instrumento para sentir as irregularidades do solo como o cego que lê os relevos invisíveis do mundo. Mais tarde ainda, poderá tornar-se uma arma, não para conquistar mas para sobreviver à invasão das formas, dos relatos e dos olhares.
Ora tudo isso já prepara Prometeu.
Pois Prometeu não traz apenas o fogo aos homens; introduz uma mutação da relação com o mundo. O fogo transforma. Cozinha, forja, ilumina, destrói, deforma a matéria antiga para fazer surgir outra. E esse fogo passa precisamente pela madeira. O bastão de Don Carotte já contém essa possibilidade latente. Transporta em si uma brasa virtual.
A partir daí, Pinóquio o Outro deixa de ser uma simples marioneta de madeira. A madeira torna-se memória do fogo futuro. Toda marioneta contém secretamente o seu incêndio possível. É por isso que a sua transformação nunca se encontra inteiramente concluída. Não existe um instante preciso em que Pinóquio se torna criança, tal como não existe um instante preciso em que a Criança Lua se torna Don Carotte. A verdadeira metamorfose escapa aos relógios. Age como uma combustão lenta.
Sob o olhar muito antigo do burro — vindo de outra era, quase de outro regime do tempo — algo vela silenciosamente por essas passagens indistintas. Talvez o burro saiba aquilo que os outros ignoram: as transformações profundas nunca se realizam de um só golpe. Avançam com a lentidão das brasas sob a cinza.
Nounours, por sua vez, permanece ainda no desejo de se tornar. É por isso que consola. Consolar, aqui, não é uma função secundária. É manter viva uma possibilidade de transformação quando ela parece impossível. Enquanto a Criança Lua cresce, Nounours continua a acreditar na passagem. Acompanha esse crescimento como os antigos peluches acompanham as crianças no limiar do sono: guardiões irrisórios e, no entanto, essenciais da metamorfose interior.
E os fios… sim… os fios habituais. No início, Pinóquio o Outro move-se graças a eles. Isso parece confirmar que ainda depende inteiramente de uma vontade exterior: o manipulador, o relato, o autor, o leitor, Lucian, Igniatius, Félix, pouco importa. Mas progressivamente os movimentos continuam mesmo quando os fios deixam de agir. É um momento vertiginoso. A marioneta começa a transportar em si o seu próprio princípio de movimento.
 
 
 
— Se a imagem já vos perturba, que será então daquilo que ela abre?
Nesse instante, algo de extremamente inquietante aparece: se os fios já não comandam inteiramente os gestos, então quem os move realmente?
É por isso que Don Carotte se revolta contra “os meandros do espírito e do tempo”. Sente obscuramente que as histórias não são simples narrativas inofensivas. Produzem os seres que narram. As palavras tornam-se fogo prometeico: moldam tanto quanto destroem. Incessantemente formam, deformam e reformam. Cada narração age como uma forja invisível.
Mas a revolta de Don Carotte possui uma profunda ambiguidade. Denuncia a mentira e a ilusão enquanto ele próprio nasceu delas. Não de uma mentira vulgar, mas dessa antiga potência das narrativas capazes de fazer surgir formas vivas. Gostaria de escapar ao labirinto narrativo, ao mesmo tempo que esse labirinto constitui a sua carne interior.
Talvez seja aqui que Prometeu verdadeiramente se junta à nossa constelação de figuras. O Titã não traz apenas a técnica; dá também aos humanos a perigosa possibilidade de continuar a criação. A partir daí, os homens já não vivem apenas num mundo dado: tornam-se produtores de mundos, imagens, relatos, interpretações.
E isso consome.
O fogo das histórias ilumina tanto quanto queima.
Don Carotte compreende-o de forma cada vez mais dolorosa. Ele, que outrora foi atravessado pelas visões da Criança Lua e pelo mecanismo de Pinóquio o Outro, começa agora a sentir o peso terrível da interpretação. Pois interpretar equivale sempre, um pouco, a atiçar o fogo.
 
 

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