«Se os signos vos enfurecem, oh quanto mais vos enfurecerão as coisas significadas!»
François Rabelais, O Quarto Livro
Quando
as falésias mergulham a pique na água, estriadas horizontalmente por
camadas magmáticas sobrepostas — negro brilhante, castanho-avermelhado
ou cinzento-ardósia, como um mil-folhas de lava solidificada — arcos
naturais foram escavados pelo mar nas falésias mais brandas e, sob o
assalto incessante das ondas, alguns desabam, revelando novas cavidades,
novos abismos, por vezes fontes termais ocultas, sob o olhar e a escuta
benevolente de um burro vindo de outra era, pode-se perguntar… se ler
possui algo de uma passagem… ou de uma entrada sob abóbada. Deixa-se a
luz extensa do exterior, aquela que mostra as coisas já distribuídas no
espaço comum, para entrar numa obscuridade particular onde outra forma
de visibilidade se torna possível. Não uma visibilidade que dissiparia
as sombras, mas uma visibilidade que nasce delas.
O
livro e a história que ele contém realizam então um gesto muito próximo
do da gruta. Contêm no duplo sentido do verbo conter: encerram e
transportam em si.
Bem abrigados dos
olhares… quando a Criança Lua se tornou Don Carotte… nem um nem outro o
sabem… tal como Pinóquio o Outro não sabe quando se tornou a Criança
Lua… enquanto Nounours continua a sonhar com tal transformação e
consola-se quando pode consolar a criança… enquanto esta, pouco a pouco,
se recordava ao crescer e fazia crescer Pinóquio o Outro… com a ajuda
dos fios habituais… Depois, os movimentos da marioneta começaram cada
vez mais frequentemente a acontecer sem que a menor ajuda viesse do
exterior…
Don Carotte, um pouco
perdido, não cessa de se revoltar contra: “Todos esses meandros do
espírito e do tempo forjados, vindos das profundezas, pelo fogo
destruidor das palavras e das histórias que incessantemente formam…
deformam… e reformam a mentira e a ilusão.”
…
e de súbito as filiações tornam-se menos genealógicas do que
combustíveis. Já não são apenas sucessões de seres, mas transmissões de
fogo.
O bastão acompanha a Criança
Lua muito antes de ela saber caminhar em direção a si mesma. No começo,
parece quase um ramo morto, um resto do mundo vegetal, algo que a
criança arrasta mais do que transporta. Depois torna-se bengala, vara,
relais, instrumento para sentir as irregularidades do solo como o cego
que lê os relevos invisíveis do mundo. Mais tarde ainda, poderá
tornar-se uma arma, não para conquistar mas para sobreviver à invasão
das formas, dos relatos e dos olhares.
Ora tudo isso já prepara Prometeu.
Pois
Prometeu não traz apenas o fogo aos homens; introduz uma mutação da
relação com o mundo. O fogo transforma. Cozinha, forja, ilumina,
destrói, deforma a matéria antiga para fazer surgir outra. E esse fogo
passa precisamente pela madeira. O bastão de Don Carotte já contém essa
possibilidade latente. Transporta em si uma brasa virtual.
A
partir daí, Pinóquio o Outro deixa de ser uma simples marioneta de
madeira. A madeira torna-se memória do fogo futuro. Toda marioneta
contém secretamente o seu incêndio possível. É por isso que a sua
transformação nunca se encontra inteiramente concluída. Não existe um
instante preciso em que Pinóquio se torna criança, tal como não existe
um instante preciso em que a Criança Lua se torna Don Carotte. A
verdadeira metamorfose escapa aos relógios. Age como uma combustão
lenta.
Sob o olhar muito antigo do
burro — vindo de outra era, quase de outro regime do tempo — algo vela
silenciosamente por essas passagens indistintas. Talvez o burro saiba
aquilo que os outros ignoram: as transformações profundas nunca se
realizam de um só golpe. Avançam com a lentidão das brasas sob a cinza.
Nounours,
por sua vez, permanece ainda no desejo de se tornar. É por isso que
consola. Consolar, aqui, não é uma função secundária. É manter viva uma
possibilidade de transformação quando ela parece impossível. Enquanto a
Criança Lua cresce, Nounours continua a acreditar na passagem. Acompanha
esse crescimento como os antigos peluches acompanham as crianças no
limiar do sono: guardiões irrisórios e, no entanto, essenciais da
metamorfose interior.
E os fios…
sim… os fios habituais. No início, Pinóquio o Outro move-se graças a
eles. Isso parece confirmar que ainda depende inteiramente de uma
vontade exterior: o manipulador, o relato, o autor, o leitor, Lucian,
Igniatius, Félix, pouco importa. Mas progressivamente os movimentos
continuam mesmo quando os fios deixam de agir. É um momento vertiginoso.
A marioneta começa a transportar em si o seu próprio princípio de
movimento.
— Se a imagem já vos perturba, que será então daquilo que ela abre?
Nesse
instante, algo de extremamente inquietante aparece: se os fios já não
comandam inteiramente os gestos, então quem os move realmente?
É
por isso que Don Carotte se revolta contra “os meandros do espírito e
do tempo”. Sente obscuramente que as histórias não são simples
narrativas inofensivas. Produzem os seres que narram. As palavras
tornam-se fogo prometeico: moldam tanto quanto destroem. Incessantemente
formam, deformam e reformam. Cada narração age como uma forja
invisível.
Mas a revolta de Don
Carotte possui uma profunda ambiguidade. Denuncia a mentira e a ilusão
enquanto ele próprio nasceu delas. Não de uma mentira vulgar, mas dessa
antiga potência das narrativas capazes de fazer surgir formas vivas.
Gostaria de escapar ao labirinto narrativo, ao mesmo tempo que esse
labirinto constitui a sua carne interior.
Talvez
seja aqui que Prometeu verdadeiramente se junta à nossa constelação de
figuras. O Titã não traz apenas a técnica; dá também aos humanos a
perigosa possibilidade de continuar a criação. A partir daí, os homens
já não vivem apenas num mundo dado: tornam-se produtores de mundos,
imagens, relatos, interpretações.
E isso consome.
O fogo das histórias ilumina tanto quanto queima.
Don
Carotte compreende-o de forma cada vez mais dolorosa. Ele, que outrora
foi atravessado pelas visões da Criança Lua e pelo mecanismo de Pinóquio
o Outro, começa agora a sentir o peso terrível da interpretação. Pois
interpretar equivale sempre, um pouco, a atiçar o fogo.

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